Como fisgar o estranho que passa

Luiz Carlos Pinto | 8 de outubro de 2009 11:08

Deus não teria feito melhor: aqueles que escreveram a Bíblia conseguiram assegurar para as sagradas escrituras cadeira cativa em qualquer lista “dos melhores começos de livros” que se proponha fazer em qualquer época. Isso porque seja você católico, judeu, herege, ateu ou feliz em não querer saber de Deus, tanto o Antigo Testamento quanto o mais Novo estabelecem um acordo com o leitor. Aquilo que Will Eisner descreveria como um contrato - nesse caso, um contrato sincero, em que a divindade parece empenhada em cumprir sua parte.

No caso da Bíblia, não há como não se interessar em assinar o contrato e ver até onde ele vai dar. Ele é um pega-mosca monumental: trata da criação de um mundo numa penosa trabalheira de sete dias em que o principal instrumento é a palavra de um deus de onipotência e oniciência. Embora o início da Bíblia seja direto, não se trata de um contrato ríspido, como Cristóvão Tezza escreve em Trapo (Record, 256 pgs.):

Tentei de novo falar com você esta madrugada, mas o quintal estava povoado de lobos ganindo contra minha sombra. As feras da tua família são estúpidas o tempo todo, numa insistência que me impressiona. Vou matar todos aqueles bichos, aquelas cadelas negras, apesar da admiração que nutro pelas bestas puras.

Mas o que é, em última análise, um começo?, pergunta-se Amós Oz, no delicioso livro que escreveu para analisar dez obras, dez começos (E a história começa, Ediouro, 134 pgs)? Vale a pena acrescentar: a quem serve um “bom começo de livro”? Certamente que não serve apenas ao escritor, pois os contratos iniciais são às vezes esconde-esconde e às vezes uma espécie de jogo tipo Genius e às vezes mais parecidos com um jogo de xadrez ou pôquer. Ou palavras cruzadas. Ou uma travessura. Ou um convite para um labirinto. Ou um convite para dançar. Ou um galanteio zombeteiro que promete, mas não entrega, ou entrega os itens errados, ou entrega o que jamais prometeu ou entrega apenas uma promessa.

Quando perambulava adolescente pela Biblioteca de Los Angeles, Charles Bukowski procurava grandes começos de livros como quem procura uma senha - era sua forma de encontrar o que não sabia que procurava. Foi assim sem saber, que encontrou John Fante, a quem se renderia e para quem escreveria em 1979 o prefácio de uma reedição de Pergunte ao Pó (José Olympio, 208 pgs). Bukowski: Eu continuava dando voltas na grande sala, tirando livros das estantes, lendo algumas linhas, algumas páginas, e depois os colocando de volta. Então um dia puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa..

O que Bukowski descobriu de Fante foi:

Uma noite, eu estava sentado na cama do meu quarto de hotel, em Bunker Hill, bem no meio de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida, porque eu precisava tomar uma decisão quanto ao hotel. Ou eu pagava ou eu saía: era o que dizia o bilhete, o bilhete que a senhoria havia colocado debaixo da minha porta. Um grande problema, que merecia atenção aguda. Eu o resolvi apagando a luz e indo para a cama.

O próprio Bukowski deu lá sua contribuição:

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhões: um fogaréu vivo ambulante. (Crônica de um amor louco, L&PM, 248 pgs.)

Assim, o “começo de livro-isca” pode servir ao escritor, mas também o leitor quer ser cantado - como queria Bukowski. Até parece que Marguerite Duras quis atualizar essa metáfora quando resolveu começar assim O amante (Record/Altaya, 127 pgs):

Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: Eu a conheço há muito, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado.

Mas será que não faz mais sentido pensar na elaboração do primeiro parágrafo associado ao processo genético do nascimento do livro? Isso nos coloca no rastro da impossibilidade orgânica do tal parágrafo genial ser outro. A literatura, entretanto, permite que certas organicidades sejam detalhadamente planejadas. Bem o comprova Graciliano Ramos:

Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.

Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa. (São Bernardo, Record, 224 pgs.).

Mas a tese do parágrafo-isca que explicaria a paralisia momentânea do jovem Bukowski e a genética bem pensada das crias gracilianas não são auto-excludentes. Quem escreve não está nem completamente fingindo uma armadilha, nem de olhos fechados, recebendo uma emanação iluminada da musa`- e aquele que lê não tem lá tantas preocupações, a não ser, claro que seja crítico crítico. É isso que explica um dos mais despretensiosos começos de livros - tanto que é preciso ler todas as descrições de Marco Polo ao imperador tártaro para se convencer de que este é sim um parágrafo inicial inesquecível:(As cidades invisíveis, Companhia das Letras, 152 pgs.):

Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores.

A idéia de um parágrafo que cole o leitor e que ao mesmo tempo seja portador de uma genética inescapável pode vir na forma de um convite:

Da porta do La Crônica, Santiago olha a avenida Tacna, sem amor: automóveis, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos flutuando na neblina, o meio-dia cinzento. Em que momento o Peru se fodera? (Conversa na Catedral, Arx, 792 pgs.).

Pois é assim que Llosa chama o leitor a percorrer seu livro para descobrir quando se deu a derrocada de seu país. Aliás, todo bom começo de livro tem seu quê de convite, de pergunta a ser decifrada, o que por si seduz os passantes. É assim com os de Garcia Marquez, que já afirmou passar mais tempo elaborando a primeira fase do que o livro inteiro.

O convite à decifração de um caso, de um mistério ou de uma situação constituem ainda outra linhagem de grandes começos: por que o narrador estaria preso?

Daqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada da Cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja. O sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas. Da terra agreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo Sol esbraseado, parece desprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante anos e anos entre essas pedras selvagens, como pode ser a respiração dessa Fera estramha, a Terra - essa onça-Parda em cujo dorso habita a Raça piolhosa dos homens. (Ariano Suassuna, Romance da Pedra do Reino, 756 pgs).

Ou, por que o narrador estaria morto?

Morta? Morta, eu? Mas que idéia! Não enquanto ainda me restar uma única palavra a ser dita. Estou na Pousada do Caribe. Completo quase um mês e meio sem ver ninguém. Mentira: uma vez por semana Amkiel vem me trazer mantimentos. Às terças, se não me engano, embora minha noção de tempo não seja lá muito confiável. Aqui todos os dias se parecem. (Henrique de Hériz, Mentira, Relume Dumará, 404 pgs.)

Há ainda os convites que se desdobram em dois: para um interlocutor a quem o escritor se dirige; para ao leitor que ao livro se volta:

Depois de longa e infrutífera espera decidi escrever-lhe, tanto para seu próprio bem quanto para o meu, pois não me agradaria pensar que suportei dois longos anos de cárcere sem receber uma só linha sua, ou mesmo qualquer recado ou notícia, salvo algumas que só me trouxeram sofrimento. (Oscar Wilde, De profundis, L&PM Pocket, 193 pgs.).

E mais o próprio Cristovão Tezza, citado acima, que finaliza seu primeiro parágrafo com descrito abaixo:

E como, para completar, havia lua cheia - das derramadas - sentei no meio-fio e puxei dois charutos de maconha, com os cães latindo atrás de mim num furor melancólico. (Cristovão Tezza, Trapo, Record, 256 pgs.)

Para o escritor Fernando Monteiro, o caráter midiático da sociedade ocidental contemporânea exige ainda mais que o primeiro parágrafo possa prender o leitor. “As pessoas estão acostumadas às imagens e procuram as imagens, a atenção do leitor é muito guiada por imagens. O motor interno da estrutura narrativa precisa ter alguma analogia com o que tem nos filmes. Ninguém pode escrever para o passado, embora haja quem o faça hoje sem nem perceber”, diz.

Ainda assim, Monteiro considera que, apesar da forte presença que o cinema teve (e tem) ao longo do século XX, sua presença na literatura não é tão forte quanto poderia ser. “O leitor vai reagir, a questão é o escritor: é ele que está na berlinda, cabe a ele criar uma empatia através de sua escrita”, diz.

Monteiro tem um início preferido: foi escrito por Mickey Spillane, autor de livros de bolso de histórias policiais: Encostou o fósforo mais ao fio daqueles pensamentos. “A força dessa frase foi tamanha que não me deixou esquece-la, embora não lembre a qual dos livros que Spillane escreveu ele pertence”, diz Monteiro.

Para este que vos escreve, entretanto, o “era uma vez”, o mais batido e clássico começo de livro tem sempre grandes chances de se destacar. Porque o “era uma vez” posiciona as coisas como se elas efetivamente tivessem acontecido e, portanto, transporta o leitor para uma realidade fantástica como se ela fosse real. Se começar uma nova história, um novo romance é como começar um relacionamento com alguém completamente estranho; o “era uma vez” é essa declaração infalível, tranqüila e infatigável a um estranho que passa.

* artigo publicado no Pernambuco Suplemento Cultural/Setembro 2009

2 Responses to “Como fisgar o estranho que passa”

Patricia wrote a comment on 25 de outubro de 2009

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregório Samsa deu por si transformado num gigantesco inseto.

Luiz wrote a comment on 26 de outubro de 2009

Olhaí um bom começo que eu não considerei. Obrigado Patricia!

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