Há pessoas que morrem deixando um tipo de saudade muito específica: das coisas divididas, daquilo que se viveu junto, se construiu junto. É o compartilhamento desse tipo de experiência que forma a memória e a saudade, que é um tipo doído de memória. Ontem fiquei sabendo que Zoltan, colega do curso de jornalismo, pulou do último andar do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE, esparramando-se no chão. Zoltan cometeu suicídio de madrugada, seguindo os passos de muitas outras pessoas que usam o velho prédio do CFCH como trampolim.
Zoltan não era um amigo meu. Estudamos juntos durante o período em que para ele foi possível. Isso porque ele foi massacrado pela minha turma. Era estrangeiro, não lembro se iuguslavo, polonês ou tcheco. Por essa condição de estrangeiro, que lhe conferia um sotaque meio abobalhado (embora falasse um português mais correto que muitos dos meus colegas daquela turma hoje em dia); por ser gado, estrábico e quase cego; por não conseguir se enturmar; por ter um comportamento que sugeria uma deficiência mental,
Enfim, esse quadro todo fez com que ele se isolasse até se afastar e desistir do curso de jornalismo. Tentou em seguida ser ator, passou no vestibular para o curso de artes cênicas. Não sa adaptou. Passou em seguida nos vestibulares de história e de música. Não se adaptou em nehum. Tinha uma relação difícil com o pai, que o queria engenheiro como ele. Na última vez em que o vi fiquei preocupado, porque ele me parecia pior. Na loucura, que parecia a ponto de tomar conta dele completamente; no maltrato, no abandono, na sujeira que tinha tomado conta dele inteiro; na magreza que o fizera perder o corpo meio atlético meio adolescente do período no curso de jornalismo, para uma magreza ressentida.
E uma enorme tristeza no olhar.
Hoje eu procuro uma pessoa da turma para comentar isso, mas não encontro. E por que encontraria? Eu mesmo não fiz amigos com aquele pessoal. Quem se importaria com a notícia? Não deixo de pensar que se o comportamento de nossa turma tivesse sido diferente as coisas poderiam ser diferentes também para ele, afinal. Mas quem se importa com isso? Pulou, morreu, limpam o calçamento, fica novo, pra esperar por outro que pule. Eu mesmo poderia ter dado mais atenção nas últimas vezes que nos encontramos. Poderia ter honrado a promessa de ligar ou de passar um email. As coisas teriam sido diferentes? Talvez… a vida é por um triz.
Eu não dividi nem vivi nada de muito especial com Zoltan, mas ele deixa uma memória doída, que pode ser até chamada de saudade. Mas que em todo caso me faz perceber que com pouco esforço, às vezes basta ouvir o outro, se evitam tragédias como essas.
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2 Responses to “A vida é por um triz”
Sinto algo como vc. Zoltan me deixou com saudades. Eu o via a alguns anos praticamente toda semana, eu o admirava muito, mas todo esse tempo não troquei uma palavra com ele. Conhecia os costumes, as manias, a inteligencia que fazia com que se formassem rodas escutando o que ele dizia. A primeira vez que o vi, ha 10 anos, achei cômico, quando assisti a primeira aula com ele na mesma turma fiquei admirada. Já o vi representar peça no hall do cac, dar aulas de politica e etica a elite juridica e tirar catota enquanto lia balançando o tronco. Me sentia intima por isso. Não sei como nem porque, ele fazia parte de minha vida. Ficou um burado, talvez o burado da solidão que ele carregava e que eu reconhecia.
Alexandre escreveu:
> prezados…
>
> Cada um de nós tem um potencial enorme a ser explorado. Nós não nascemos para sermos derrotados. Somos predestinados a evolução, acredite! Não aceite nunca qua a dúvida tome seu coração. O conformismo e o desânimo são moléstias que nos causam incertezas, dúvidas e prejuízos em nossa psique. Na falta que o coração do Zoltan sentia, era para ele utilizar como motivação de sua subida… E não deixar que a tristeza e decepções contaminasse seu espírito, ao ponto de atentar contra sua propria vida, julgando-se e dando a sentença final.
>
> Prefiro agir de forma que a aqueles que não compartilham a seia comigo, coloco no arbismo do esquecimento e que as dificuldades, faço da motivação de caminhada da sobrevivência… A frase mente ao dizer que o inferno são outros! Fisicamente é improvavel a existência de tanta energia… Desta forma o inferno não existe! Agora filosoficamente, o inferno somos nós mesmos.
>
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BTEBH escreveu :
> Camarada Alexandre e demais aventureiros da empreitada vital
Por vários e vários anos conheci, embora que apenas de vista, o referido estudante… Cheguei a falar com o mesmo em umas duas ocasiões, ainda assim brevemente… Fui apresentado ao mesmo pelo instável colega de turma: Burro Falante, que inclusive me deu boas referencias sobre a citada criatura.
Antes disso ele era apenas mais uma figura bizarra e folclórica das minhas andanças pela federal e por essas terras tépidas… Enquadrava-o com um super-herói em minha taxonomia mormente bem-humorada…. Chamava-o de David Banner…(O hulk)… denominava-o também de bisneto bastardo do Imortal Seu Caduco… O homem mais sábio que o a mitologia FEDERALIANA já conseguiu produzir………
Bem, Zoltan era conhecido de vista também de alguns faixas afins…. Eu, pessoalmente, observava que o húngaro era um rapazinho atípico…. estrábico e introspecto, isolado em um mundo que eu jamais achei que desembocasse em tais atitudes….
Em circunstâncias normais e em relação a pessoas comuns minha análise seria unívoca e direta: Trata-se apenas de mais um fraco…. Mas não é esse o caso, meu camarada… Zoltan não parecia ser nada fraco… Era forte o suficiente para não se contaminar com as pessoas vulgares e hipócritas que tanto almejamos (e iremos) submeter…. Parecia ser uma pessoa boa…. Sem “belligerency”…. Que buscava apenas o conhecimento…. Tanto que fechou as portas para todas as outras coisas…. Daí…. Creio ter sido enfeitiçado pela tristeza e solidão sob o ponto de vista interno…. Do ponto de vista externo, os vís da sociedade o submeteram ao abandono e ao ostracismo…. As humilhações e as chacotas…Enfim, apenas o que esperamos de tais almas nefastas e egoístas. Faltou a ele quem sabe um pouco mais de vivência no lado obscuro da alma humana…. Talvez tenha faltado a ele muito daquilo que completa os demônios……… Mas, no caso dele em especial, sei que quem perdeu mesmo foram todos que podiam e deviam ter sido amigos do mesmo antes das longas horas negras…..
Lembre-se sempre de que os ratos amam mais os pergaminhos que os sábios……E certamente voltaram a usar a biblioteca do CAC e da Central da mesma forma que nosso amigo virtual Zoltan fazia….. Mas talvez nunca com a mesma competência e desenvoltura….. Nunca com o mesmo fervor !
Segue uma música que serve para lembrar do nosso colega David Banner…. Ao lado da música do filme Hulk…. é claro….(— Formato MIDI) (Vide E-mail original)
> Amarra o Teu Arado a uma Estrela
>
> Composição: Gilberto Gil
>
> Se os frutos produzidos pela terra
> Ainda não são
> Tão doces e polpudos quanto as peras
> Da tua ilusão
> Amarra o teu arado a uma estrela
> E os tempos darão
> Safras e safras de sonhos
> Quilos e quilos de amor
> Noutros planetas risonhos
> Outras espécies de dor
>
> Se os campos cultivados neste mundo
> São duros demais
> E os solos assolados pela guerra
> Não produzem a paz
> Amarra o teu arado a uma estrela
> E aí tu serás
> O lavrador louco dos astros
> O camponês solto nos céus
> E quanto mais longe da terra
> Tanto mais longe de Deus
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