A situação de descontrole nos aeroportos, que praticamente todos os jornais chamam de caos não é bem caos. Porque o caos é um troço que não é previsível ou esperado. E a sublevação realizada pelos sargentos que fazem o controle do tráfego aéreo brasileiro é algo que vem sendo criado pelo governo, assim como que toma cerveja cria sua barriguinha. Esse “caos” vem sendo, a cada vez mais, nos últimos seis meses previsível. Em parte pela falta de investimento do governo e pela embromação que o Ministério da Defesa vem realizando com os caras.
Outra coisa me chama a atenção. Os jornais aderiram ao vocabulário militar. O que os controladores fizeram e estão a fazer e podem fazer de novo se o governo não criar vergonha, não é a reivindicação de uma categoria que não se vê mais como militar. É um “motim”, e, simples assim, os jornais mostram sua formação discursiva vinculada ao poder em geral e ao ordenamento militar em particular.
Mas o que mais me impressiona é outra coisa. Os sargentos do controle mostraram um senso de organização e de auto-gestão que faz brilhar o mais cético dos líderes sindicais. Eles não passaram somente a re-organizar o horário de trabalho, folgas e plantões; eles também escolheram com quem negociar e conseguiram impor suas prioridades.
Não tô elogiando o que eles fizeram. É claro que, em termos sindicais, a estratégia dos controladores poderia ser qualificada de pelega, por prejudicar ampla parcela da população. O que não pode ser desconsiderado é que o sistema hierárquico militar não atendia e não atende mais as demandas dessa categoria. Aliás, para a Aeronáutica, os controladores nem são categoria, são uma instância da hierarquia militar a qual não cabe o direito de fazer greve. O que nós estamos vendo é não somentre uma quebra de hierarquia. É a contretização da inadequação de um regime de mando a um grupo de profissionais que se vêm como categoria.
Noves fora o prejuizo de todo tipo gerado pela greve, deveríamos nos perguntar quais outras instâncias das forças armadas já não se sentem mais confortáveis submetidas a essa hierarquia verde-oliva, ou no caso, cor de céu de brigadeiro… Como vai ser daqui para frente a correlação de forças entre esse governo civil e as Forças Armadas? Aliás, quais outros tipos de insurgência poderão surgir entre as forças que deveriam garantir a segurança nacional. Nem precisa ser só nas Forças Armadas. A imprensa brasileira está percebendo isso?
Categories: Diálogos impertinentes, Política
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