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Fernando Lugo, mais uma vitória dos setores populares sul-americanos

Luiz Carlos Pinto | 27 de abril de 2008 15:08
Luiz Alberto Gómez de Souza

Faz alguns meses escrevi que o protagonismo popular ia ameaçando cada vez mais as elites latino-americanas retrógradas. Temos uma nova vitória dos setores populares, fechando o cerco no Mercosul e quase cobrindo o mapa da América do Sul. A alegria pela eleição de Fernando Lugo é semelhante à que sentimos com Lula em 2002 e, mais adiante, com Evo Morales na Bolívia. Com figuras bem diferentes, mas em grandes linhas numa mesma direção, temos uma equipe de governantes inédita, no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Venezuela e agora no Paraguai, ainda que possamos fazer reparos aqui ou ali a um ou outro. Peru é um caso mais complexo, onde o partido no governo, o APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana), que nascera em 1924 com uma vocação continental, foi perdendo suas intuições originais. Mas não podemos esquecer que, nas últimas eleições peruanas, um mestiço, Ollanta Humala, ainda que de perfil político pouco nítido, chegou a ameaçar o poder branco tradicional. Fica isolada a Colômbia, com uma violência que vem de longe, prisioneira de uma guerrilha anacrônica, dos para-militares seus inimigos complementares e de um narco-tráfico em alianças com ambos. Mas a região sul-americana, com exceções que não invalidam a regra, adquire um rosto novo, com o povo pobre entrando como sujeito determinante do processo político. Já meses atrás, Lugo declarou: “o povo deve ser protagonista”. Tão diferente da União Européia que, se por um lado reelegeu Zapatero, por outro deu a vitória ao histriônico Sarkozy ou, recentemente, ao magnata Berlusconi.

O Paraguai esteve em mãos de uma oligarquia autoritária, voraz e corrupta desde sempre, ou pelo menos desde os tempos da chamada “guerra grande”, quando a tríplice aliança praticamente o destruiu,. A vitória de Lugo sinaliza um novo e profundo processo histórico de construção, ou refundação do país. E começa logo com a exigência de recuperar uma plena soberania energética diante de seus visinhos Brasil e Argentina. “Yacyretá e Itaipu são tratados leoninos, injustos”, declarou meses atrás. Provavelmente veremos novamente, pela imprensa, ex-chanceleres e outros arautos de uma linha dura, denunciar sinais de debilidade do governo de Lula e de seu ministro Celso Amorim. Todos eles aceitavam docilmente serem suseranos dos Estados Unidos e, num mecanismo de transferência compensatória, só se sentiam cômodos diante da doutrina golberiniana do “satélite privilegiado”, pela qual havia que tratar os menores como fazia conosco o poder imperial.

Nosso torneiro mecânico presidente e o índio cocalero, iniciaram uma diplomacia totalmente diferente, às vezes com momentos ásperos e difíceis, mas sempre respeitadora dos direitos dos mais fracos. Agora se abrirá certamente um período de discussões, para a revisão do tratado de Itaipu Binacional ou, pelo menos, chegar logo a uma remuneração adequada da energia comprada pelo Brasil ao Paraguai, como indicou Celso Amorim. Este tratado foi negociado a partir de 1966 e assinado em 1973, em pleno governo autoritário entre nós e com políticos venais e autoritários no país visinho. Aliás, em 1979, houve um acordo tripartite entre Brasil, Argentina e Paraguai sobre água e energia, os três com ditaduras militares. Para Lugo, não há que esperar 2027, data prevista para a revisão do tratado com o Brasil, mas o fará por via diplomática, num estilo possivelmente diferente do que teve Evo Morales com o gás e o petróleo.

Lugo indica que não seguirá nenhum modelo alheio: “Creio que hoje, na América Latina, não há paradigmas comuns unificados… Temos de fazer nosso próprio caminho para nos integrar e não ser uma ilha entre governos progressistas” (entrevista ao jornal espanhol El País, publicada em 18 de abril). Ao mesmo tempo, tem declarado sua estima plural tanto por Lula, Evo Morales, Rafael Correa, ou Michelle Bachelet, quanto por Hugo Chávez. Temos diante de nós um tempo fecundo e criativo, não isento de tensões normais e indispensáveis, nas novas relações entre o Brasil e o Paraguai.



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