Archive for the 'América do Sul' category

Existe alguma coisa de improvável na escrita de uma tese. Esse nome que a pompa da academia resolveu dar em algum momento ao resultado de uma investigação, que é feita com certos pressupostos e dentro de algumas regras – como aliás, toda investigação é feita. A improbabilidade é mais real, palpável e cheirosa entre a metade e o término do tempo que lhe deram: uma costura de impossibilidades que o sujeito tem que chamar de ‘meu trabalho’ é um fio tênue com o qual se agarra o doutorando e, de fora, nada parece que vai se arrumar.

É claro que isso ão é geral. Assim como esse blog não se pretende geral, nem eu sou geral. No geral, ninguém é geral para ninguém. E o geral em geral é ‘em  geral’… Mas tergiverso.

O fato é que aquela arquitetura que ao final parece tão fechadinha, tão bem resolvida, como os sociólogos que parecem ter nascido sociólogos, esconde uma cadeia de gambiarras, de maquinações, de solvências, de mapas, arranjos, planos, rampas, estiligues, cordas de nylon, baldes, tintas, relógios, alçapões, pianos e violinos, bigodes e escaramuças, vontades e dormências, um jogo de dominó que não acaba durante quatro anos, botinas, macacões de trabalho, óculos de proteção, martelos, pregos, serrotes, machados, alicates, fios, pêndulos, roldanas, pontes, aritmética e álgebra e um pouco trigonometria.

Quando do meio pro fim você percebe que é possível tirar alguma melodia desse entulho de possibilidades, quando finalmente você vê ali no fundo uma possibilidade de que a peça se estique até o arco e dispare um solfejo colorido; quando você finalmente vê que poderá logo logo tomar uma cerva no sábado à tarde sem culpa, você enche o peito de novo e diz:

Ok, go.

Esse blog entra agora de férias por tempo determinado.

Luiz Alberto Gómez de Souza

Faz alguns meses escrevi que o protagonismo popular ia ameaçando cada vez mais as elites latino-americanas retrógradas. Temos uma nova vitória dos setores populares, fechando o cerco no Mercosul e quase cobrindo o mapa da América do Sul. A alegria pela eleição de Fernando Lugo é semelhante à que sentimos com Lula em 2002 e, mais adiante, com Evo Morales na Bolívia. Com figuras bem diferentes, mas em grandes linhas numa mesma direção, temos uma equipe de governantes inédita, no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Venezuela e agora no Paraguai, ainda que possamos fazer reparos aqui ou ali a um ou outro. Peru é um caso mais complexo, onde o partido no governo, o APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana), que nascera em 1924 com uma vocação continental, foi perdendo suas intuições originais. Mas não podemos esquecer que, nas últimas eleições peruanas, um mestiço, Ollanta Humala, ainda que de perfil político pouco nítido, chegou a ameaçar o poder branco tradicional. Fica isolada a Colômbia, com uma violência que vem de longe, prisioneira de uma guerrilha anacrônica, dos para-militares seus inimigos complementares e de um narco-tráfico em alianças com ambos. Mas a região sul-americana, com exceções que não invalidam a regra, adquire um rosto novo, com o povo pobre entrando como sujeito determinante do processo político. Já meses atrás, Lugo declarou: “o povo deve ser protagonista”. Tão diferente da União Européia que, se por um lado reelegeu Zapatero, por outro deu a vitória ao histriônico Sarkozy ou, recentemente, ao magnata Berlusconi.

O Paraguai esteve em mãos de uma oligarquia autoritária, voraz e corrupta desde sempre, ou pelo menos desde os tempos da chamada “guerra grande”, quando a tríplice aliança praticamente o destruiu,. A vitória de Lugo sinaliza um novo e profundo processo histórico de construção, ou refundação do país. E começa logo com a exigência de recuperar uma plena soberania energética diante de seus visinhos Brasil e Argentina. “Yacyretá e Itaipu são tratados leoninos, injustos”, declarou meses atrás. Provavelmente veremos novamente, pela imprensa, ex-chanceleres e outros arautos de uma linha dura, denunciar sinais de debilidade do governo de Lula e de seu ministro Celso Amorim. Todos eles aceitavam docilmente serem suseranos dos Estados Unidos e, num mecanismo de transferência compensatória, só se sentiam cômodos diante da doutrina golberiniana do “satélite privilegiado”, pela qual havia que tratar os menores como fazia conosco o poder imperial.

Nosso torneiro mecânico presidente e o índio cocalero, iniciaram uma diplomacia totalmente diferente, às vezes com momentos ásperos e difíceis, mas sempre respeitadora dos direitos dos mais fracos. Agora se abrirá certamente um período de discussões, para a revisão do tratado de Itaipu Binacional ou, pelo menos, chegar logo a uma remuneração adequada da energia comprada pelo Brasil ao Paraguai, como indicou Celso Amorim. Este tratado foi negociado a partir de 1966 e assinado em 1973, em pleno governo autoritário entre nós e com políticos venais e autoritários no país visinho. Aliás, em 1979, houve um acordo tripartite entre Brasil, Argentina e Paraguai sobre água e energia, os três com ditaduras militares. Para Lugo, não há que esperar 2027, data prevista para a revisão do tratado com o Brasil, mas o fará por via diplomática, num estilo possivelmente diferente do que teve Evo Morales com o gás e o petróleo.

Lugo indica que não seguirá nenhum modelo alheio: “Creio que hoje, na América Latina, não há paradigmas comuns unificados… Temos de fazer nosso próprio caminho para nos integrar e não ser uma ilha entre governos progressistas” (entrevista ao jornal espanhol El País, publicada em 18 de abril). Ao mesmo tempo, tem declarado sua estima plural tanto por Lula, Evo Morales, Rafael Correa, ou Michelle Bachelet, quanto por Hugo Chávez. Temos diante de nós um tempo fecundo e criativo, não isento de tensões normais e indispensáveis, nas novas relações entre o Brasil e o Paraguai.

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Entre trombetas

Luiz Carlos Pinto | 6 de março de 2008 5:02

Já faz tempo que deixei de acompanhar como fazia o noticiário e a política sulamericana, da mesma forma deixei de poder opinar de forma mais decente sobre o que acontecia na região. Até porque esse blog deixou praticamente de ser jornalístico. Tentando entender e poder ter alguma opinião sobre a crise envolvendo o Equador, a Colômbia e a Venezuela, entretanto, é incrível como o que de melhor eu li até agora não está nos jornais ou nos grandes sites dos grupos de comunicação. Até agora, as análises melhores estão nos blogs de umas poucas pessoas – aliás, não necessariamente jornalistas.

Um dos melhores textos sendo produzidos sobre essa crise em particular e sobre a América Latina em geral é o dos Conspiradores. O último texto publicado por Maurício Santoro comea assim:

A crise escapou dos Andes e alcançou a esfera das instituições multilaterais, com negociações muito tensas na Organização dos Estados Americanos (OEA) e a declaração de Uribe de que irá processar Chávez no Tribunal Penal Internacional. Nenhuma das duas iniciativas é boa notícia para a América do Sul.

Sérgio Léo, também tem boas análises com muito humor e informação. Seu texto sobre o assunto começa assim:

É da Colômbia que os venezuelanos compram 40% dos ovos,e carnes, e outros alimentos que consomem, informou, ainda em dezembro, o excelente Fabiano Maisonnave, que, na Folha, vem, há tempos, mostrando os suplícios sofridos na Venezuela pelo povo afetado com o desabastecimento de bens essenciais.

E termina assim:

Enquanto isso, para melhor avaliação das chances de guerra na fronteira, trago aos bons leitores deste sítio dados para melhor avaliar as condições da mais bem guarnecida retaguarda colombiana.

Vale a pena ler o meio do que Sérgio Léo escreveu.

Fidel, 18 de fevereiro de 2008

Luiz Carlos Pinto | 19 de fevereiro de 2008 6:25

A assinatura acima é a de Fidel Castro, que anunciou hoje sua saída da presidência de Cuba por meio do Granma, o órgão oficial de comunicação do regime. Fidel já havia deixado a presidência do Conselho de Estado em julho de 2006 para tratar da saúde. Agora, na carta que escreveu ao povo cubano, Fidel reafirma não ter interesse na presidência desses Conselho, além de seu afastamento da Presidência da República.

De imediato, nada deverá mudar muito em Cuba – pelo menos é no que aceditam a maior parte dos analistas que tenho visto até agora. O raciocínio é que Fidel não é uma fortaleza de pedra a cal armada com canhões de 50 milímetros que impeça a invasão norte-americana. E além disso, o regime conta com uma polícia secreta que coibe de forma eficiente porque sanguinária as tentativas de afrouxamento da ditadura que lá se instalou.

A questão principal para mim não é essa. Arrisco dizer que a saída de Fidel tem uma carga simbólica para o povo cubano que até agora ainda não foi considerada – e provavelmente não estará na pauta da cobertura dos jornais, amanhã. De que vale essa carga simbólica? Vale muito, como os eventos que estão para se desenvolver na ilha mostrarão nos próximos dias e meses.
Na carta de despedida, Fidel acena justamente com uma certa continuidade do regime, ao afirmar:

Afortunadamente nuestro proceso cuenta todavía con cuadros de la vieja guardia, junto a otros que eran muy jóvenes cuando se inició la primera etapa de la Revolución. Algunos casi niños se incorporaron a los combatientes de las montañas y después, con su heroísmo y sus misiones internacionalistas, llenaron de gloria al país. Cuentan con la autoridad y la experiencia para garantizar el reemplazo. Dispone igualmente nuestro proceso de la generación intermedia que aprendió junto a nosotros los elementos del complejo y casi inaccesible arte de organizar y dirigir una revolución.

O afastamendo de Fidel, por motivos vários, de certa maneira é um recolhimeno mais do que do poder, mas esse é um clima que até hoje foi Gabriel Garcia Marquez quem melhor expressou (em O Outono do Patriarca):

Não apenas havíamos acabado de acreditar que de fato ele fora concebido para sobreviver ao terceiro cometa, mas essa convicção nos infudira uma uma segurança e um sossego que pensávamos disfarçar com todo tipo de piadas sobre a velhice, atribuíamos a ele as virtudes senis das tartarugas e os hábitos dos elefantes, contávamos nas cantinas que alguém havia anunciado ao conselho de governo que ele tinha morrido e que todos os ministros se olharam assustados e se perguntaram assustados e agora quem vai dizer isto a ele, ah! ah! ah!, quando a verdade era que ele não teria importado saber nem teria estado muito seguro ele mesmo se aquela piada de rua era verdadeira ou falsa, pois então ninguém sabia senão ele que só lhe restavam nas torneiras da memória umas quantas migalhas soltas dos vestígios do passado, estava só no mundo, surdo como um espelho, arrastando suas densas patas decrépitas por sombrios gabinetes onde alguém de levita e colarinho engomado lhe havia feito um sinal enigmático com um lenço branco, adeus meu general, adeus, mas ele não ouvia nada desde os lutos crepusculares de Letícia Nazareno quando pensava que a voz dos pássaros de suas gaiolas estava se gastando de tanto cantar e lhes dava de comer do seu próprio mel de abelhas para que cantassem mais alto, pingava-lhes gotas de cantorina no bico com um cnta-gotas, cantava-lhes canções de outros tempos, fúlgida lua do mês de janeiro, cantava pois não percebia que não eram os pássaros que estavam perdendo a força da voz mas que era ele que ouvia cada vez menos, e uma noite o zumbido dos tímpanos rompeu-se em pedaçs, acabou-se, transformou-se em um ar de argamassa por onde passavam apenas os lamentos de adeuses dos navios ilusórios das trevas do poder, passavam ventos imaginários, barulhadas de pássaros interiores que acabaram por consolá-lo do abismo de silêncio dos pássaros da realidade. As poucas pessoas que então tinham acesso à casa civil viam-no na cadeira de balanço de vime suportando o bochorno das duas da tarde sob o caramanchão de amores-perfeitos, dasabotoara a túnica, tirara o sabre com o cinturão das cores da pátri, tirava as botas mas deixava vestidas as meias de púrpura das doze dúzias que lhe mandou o Sumo Pontífice de seus privados,…

35 anos

Luiz Carlos Pinto | 27 de novembro de 2007 8:18

Próximo sábado tem feijoada e apresentação dos “Inimigos do Ritmo” aqui em casa pra lembrar as 35 primaveras deste escriba. A banda, que toca alguns dos chorinhos mais bonitos da MPB, vai aproveitar e gravar o primeiro DVD. Aos convivas, feijoada, cerveja, cana, vodka, coquetel molotov e otras coisitas masss. A foto acima é um flagrante da primeira tiração de som dos Inimigos, no ano passado, também no aniversário.

Está em exposição em Madri uma mostra de fotos e pinturas de 26 artistas argentinos sobre a última ditadura no país. A mostra é inspirada na caão La memoria, de León Gieco. Abaixo, algumas das imagens que pincei do Clarin.


‘LA MEMORIA’, de Luis Felipe Noé


‘ACRILICO’, de Ernesto Pesce.


‘MEMORIA’, acuarela de Clorindo Testa.

Não chores por mim, Argentina

Luiz Carlos Pinto | 29 de março de 2007 3:31

Chávez quer aparecer também

Luiz Carlos Pinto | 6 de março de 2007 7:22

Enquanto Bush e seus 300 policiais se preparam para desembarcar no Brasil, Chávez anunciou que vai fazer uma rodada de visitas a países da região. Vai tentar disputar a atenção da comunidade internacional e contrapor assim seu discurso ao do presidente americano.

Até às Mães da Praça de Maio ele já anunciou que visitará esta semana. Sim, eu sei que é uma estratégia bem típica dele. Ao mesmo tempo é inédita – em parte também por ser financiada pelos petrodólares do país.

Enquanto Bush não vem, ele (Cháve) anunciou a criação de um novo partido, o Partido Socialista Unido de Venezuela (Psuv), em seu pronunciamento via rádio. 

Por Elaine Tavares

E, então, os olhos do governo estadunidense se voltaram para a América Latina. Depois de anos matando iraquianos civis, sob o argumento de que são malvados terroristas, e ainda disseminando pela mídia prostituída outras tantas mentiras acerca do Irã, George W. Bush decidiu dar um passeio pelo quintal de casa, visto que, para ele, algumas ervas daninhas estão crescendo para além da conta e é preciso passar a ceifadeira. O jornal New York Times mostrou, em detalhes, à nação do norte que a Venezuela anda gastando muito dinheiro com materiais militares e, segundo os analistas, isso se configura um abuso. É claro que o mesmo jornal não dá uma linha sobre o material bélico produzido anualmente pelos Estados Unidos. Bom, isso não é novidade. Para os estadunidenses, o país ter o maior arsenal de armas do mundo, inclusive atômicas, é muito natural. São a polícia do mundo. Eles podem ter bombas atômicas. O Irã ou qualquer outro país, não.

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