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Archive for the 'Coisas imateriais' category

Hoje acontece o primeiro evento público do Coletivo Butuca, do qual eu tenho tido a alegria de construir. O COletivo é um grupo de estudos e pesquisas sobre Subjetividades coletivas, processos de resistência e inovação políticas em práticas educacionais. Em torno desse título, que é quase uma ementa completa, se reúnem alguns professores da Universidade Federal de Pernambuco – todos, com exceção de mim – trabalhando diretamente em faculdades/centros de educação. O lançamento do coletivo vai acontecer com a palestra de Joanildo Burity, cujo título é Religião e Alterglobalismo. A abertura dos trabalho ficará ao cargo do meu chapa Rui Mesquita, com debate do querido Gustavo Gilson Oliveira

Nos últimos meses nos reunimos várias vezes, tentando definir linhas de atuação conjunta e de produção de pesquisas que de alguma forma aproveitem e exprimam os interesses comuns de um grupo com pessoas de formação muito diversa. Depois de muitas conversas e reuniões chegamos a formular quatro linhas básicas de pesquisas:

Educação e Movimentos Sociais do Campo

Estudo de práticas educativas populares dos movimentos sociais do campo, buscando
perceber em suas dimensões política, cultura e econômica: relação com o Estado e políticas
públicas; relação educação-trabalho; juventude; questões étnico-raciais; religião; construção
de trajetórias e subjetividades individuais e coletivas; construção de saberes.

Educação, Identidades e Movimentos Religiosos

Objetiva-se com esta linha compreender os processos de construção coletiva de identidades
religiosas dentro de movimentos sociais, no sentido de analisar a constante interação/conflito
dessas identidades em trânsito, com as demandas elaboradas por esses grupos. Assim, é que
se almeja refletir acerca do lugar social da diferença à medida que este refletir incide sobre
processos educativos erigidos socialmente em torno de questões sexuais, culturais, políticas,
de raça e etnia etc.

Educação, Gênero e Diversidade Sexual

Esta linha de pesquisa objetiva compreender, a partir das interfaces estabelecidas entre
as áreas de educação e gênero, questões teóricas e empíricas que envolvam debates
estabelecidos em torno da constituição de subjetividades coletivas no campo da diversidade
sexual. Neste aspecto, é interesse nosso entrelaçar este debate, entre outros aspectos, às
lutas de movimentos sociais contra as desigualdades de gênero num cenário de embates e
correlações de força que faz emergir processos políticos educativos ao redor de noções como
as de cidadania, reconhecimento, visibilidade, tolerância etc..

Educação, mídias alternativas e novas tecnologias de informação

Foco nos processos educacionais que procuram estabelecer condições para a apropriação
de tecnologias livres, de modo que se possa analisar aspectos da construção de identidades
coletivas; as estratégias de desmistificação da técnica e da tecnologia; as consequentes
aberturas de condições de expressão cultural, reivindicação de direitos e construção de
discursos contra-hegemônicos.

A ideia geral que nos move é a produção coletiva de conhecimento e dos processos de constituição, crise e/ou deslocamento das subjetividades coletivas, das (im)possibilidades de articulação dessas subjetividades no contexto dos movimentos sociais contemporâneos e das relações desses processos, subjetividades e movimentos com as dinâmicas de elaboração, implementação e contestação das políticas de educação no Brasil.

Também queremos realizar e colaborar com eventos acadêmicos, publicações e atividades públicas (privilegiando as parcerias com os movimentos sociais) – nesse caso a estratégia é a divulgação e o debate dos trabalhos e temáticas propostos pelo grupo.

A palestra de Joanildo acontece às 19h, no auditório do Centro de Educação da UFPE.

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Lula Côrtes

Luiz Carlos Pinto | 2 de abril de 2011 9:31

Luciana Rabelo
luciana.rabelo@gmail.com

Sábado, 26 de março de 2011, Lua Minguante

Lula me apareceu em 1993, quando ouvi ‘Desengano’. Cris Jerônimo – um amigo da faculdade – tempos depois nos levou à casa dele, em Candeias. Encantei-me! Eu tinha 20 anos na época. Época boa, novas experiências, aventuras, subversão. Tudo a ver! Vitalidade! Eu Vital! Lula Vital!

Lembro de um show dele com a companheira Má Companhia, na Soparia, em algum Natal, ele era Papai-Noel, e Jesus. No Tipóia, em Tracunhaém, acho que em 2005, tive a honra de filmar um show massa. Procurei agora a fita e achei! Uhuu!! Presente! Eita que momentos sagrados! De cara, o encontro dele com Erickson Luna. Tavam felizes! A Má Companhia tava feliz!A cidade tava feliz! Vou postar a filmagem bruta, dos tempos quando comecei a filmar e vivia com a câmera e poucas fitas e uma só bateria.

Há não muito tempo fui na bela casa da UBE/PE pro lançamento de mais um livro de Cristiano Jerônimo, livro este ilustrado por Lula. As imagens estavam expostas nas paredes. Nesse dia Lula recebeu carteira de sócio efetivo da UBE, retroagindo o ano de admissão a 1972, quando lançou o Livro das Transformações. E também nessa noite, ouvi o ‘discurso’ mais sagrado que já ouvi. Augusto!

Fazia sete anos que eu não brincava Carnaval. Este ano resolvi ir ao centro do Recife. No domingo soube que iria ter show de Lula no Pátio de São Pedro. Quando cheguei tava rolando uns Afoxés e mais tarde rolou o show dele. Foi estranho! Ouvi umas três músicas meio de longe e resolvi ir embora. Mas antes de partir fui lá na frente do palco e fiquei olhando ele de perto. Já tava na travessia, e eu já sentia.

Tava na manhã de hoje no CEL (Centro de Educação e Lazer) quando o telefone de meu cumpade Moa tocou e ele me deu a notícia da partida de Lula. Baque. Luz. Já noite, olhando estrelas, lembro de ‘Desengano’. Choro, de Amor.

Guerreiro Sagrado Rola qual Pedra, Azul, Encandeia… em Tempos onde Netuno retorna a Peixes.

Fiz algumas perguntas a GIl durante o ruge ruge de sua presença na Campus Party 2009. Tava procurando umas coisas aqui e me deparei com essa resposta abaixo….


Luiz – Quais os cenários que podem ser traçados com relação às plataformas institucionais de fomento ao uso de tecnologias da informação e comunicação geradas na sua gestão no Ministério da Cultura?
Gil – O ministério da Cultura chamou a atenção pra uma série de questões importantes na interação da sociedade com essas novas técnicas. Ou seja, … políticas públicas que incentivem o acesso, que sejam o papel do governo junto com o mundo produtivo, junto com a sociedade no sentido de garantir acesso a novas tecnologias, a velhas tecnologias, acesso a educação, acesso aquilo e aquilo outro. Muitos dos programas do Ministério da Cultura estavam voltados exatamente para as possibilidades que essas tecnologias novas no campo digital dão. Alguns deles desembocaram nos Pontos de Cultura, outros desembocaram em outros programas de governo de outros ministérios, etc, etc. O que é fundamental é que nós deixamos um processo de envolvimento definitivo do Estado brasileiro, através dos seus governos, com essa questão, com a sociedade. No sentido de autorizar a sociedade… Por que é que o Ministério da Cultura vem participar de um evento como esse? Porque nós dissemos aos Ministério da Cultura naqueles momentos em que estávamos na gestão que era necessário. E hoje ele (o MinC) vai dialogar com a juventude no sentido das coisas que eles precisam, que eles querem. O que nós deixamos enfim pra responder a sua pergunta são processos irreversíveis. Porque que são irreversíveis? Porque não são mais processos mantidos pelo próprio governo ou pelo Estado, são mantidos pela própria sociedade civil.

Depois do choque inicial das cenas acima comecei a me convencer que minha náusea com esse carnaval não foi um cansaço físico de minha rotina; nem cansaço afetivo de brincar de brincante no meio de brincadeiras. A náusea que vinha sentindo esses dias tá mais relcionada à violência de quem naquele momento tem mais força, à violência de quem por capricho ou compromisso passa por cima de tudo, quebre parabrisa, perna, cabeça, diálogos, esperanças das coisas se ajeitarem, caminhos, acordos, carinhos, cuidados, gente.

Acho que esse diagnóstico se aplica ao insuspeito e rápido retrocesso pelo qual passa o Ministério da Cultura. Retrocesso que, diga-se de passagem, não começou com Anna de Hollanda, nem com Dilma, que escolheu mal, num erro de estratégia que revela o grau e o tipo despolitização do Partido dos Trabalhadores. Digo isso porque a conquista de uma hegemonia que flertasse com o socialismo, apesar de tantos pesares em oito anos de governo Lula, foi mais marcado e claro no Ministério da Cultura – e isso apesar de Gil não ser um socialista de carteirinha como a torcida do Bahia Futebol CLube sabe bem.

Na verdade, a desconexão com uma programática socialista do PT foi pras cucuias faz tempo e o que vem sendo observado é a confirmação do diagnóstico segundo o qual não somente o Partido dos Trabalhadores, mas o governo petista está indo para a Centro- Direita, como já analisou o Rodrigo Viana.

Os sinais evidentes emitidos por Dilma são de um governo que ruma para o centro. Isso já estava desenhado desde a campanha eleitoral de 2010. Lula havia feito movimento semelhante, ao escolher José Alencar para vice e ao lançar a “Carta aos Brasileiros”, em 2002. Mas o movimento de Lula rumo à centro-esquerda não tinha nitidez institucional. Ele se aproximou de personagens avulsos no mundo empresarial (além de Alencar, Gerdau e Diniz), e não fechou aliança formal com PMDB, mas apenas com pequenos partidos conservadores: PL (depois PR), PTB e PP. Fora isso, Lula manteve-se firme (fora da cartilha liberal) na relação com movimentos sociais e na política internacional – além de ter adotado ações econômicas keynesianas (para irritação dos economistas e colunistas atucanados) no segundo mandato.

O movimento de Dilma é mais claro, mais institucional. Michel Temer na vice. PMDB na aliança formal. Isso tudo já estava desenhado. O início de governo aprofundou esse movimento. Ao adotar, agora, prática econômica apoiada pelos liberais, Dilma capturou a simpatia (real? duradoura?) de setores da mídia que estiveram fechados com Serra durante a campanha. Faz o mesmo em relação à política internacional (menos “terceiro-mundista” do que Lula, como comemora a “Folha” em editorial nessa sexta-feira). E já há sinais de que o governo pode abandonar a proximidade estratégica que mantinha com movimentos como o MST (sinais que vêm de dentro do INCRA, por exemplo – a conferir).

É um movimento claro: Lula já ocupara a esquerda e a centro-esquerda; agora, o projeto petista expande-se alguns graus mais – rumo ao centro!

Embora reconheça que é uma estratégia inteligente, Rodrigo reconhece o ônus e o risco político que ele implica: apagar as diferenças de vez (e que na verdade vêm sendo dissipadas desde a Carta aos Brasileiros) e abrir caminho para que as forças de direita façam o mesmo.

Outras análises, como as de Tsvakko são mais amplas e evidenciam a assustadora metamorfose de parte da esquerda brasileira, na sua intransigente defesa do Capital. Vale a leitura da análise e acompanhar o site. No texto, Tsvakko antevê outra possibilidade ruim desse processo – que tá acontecendo rápidamente – a perda do apoio fundamental dos movimentos sociais e da comunidade acadêmica, que, reta final da campanha evitaram que José Serra virasse a mesa. Para Tsvakko, mas também para Maurício Caleiro, Alexandre Porto e Arnóbio Rocha a trajetória do governo Dilma vai prezando por um economicismo suicida a partir de um pacote de medidas neoliberal com um horizonte de sucateamento lá na frente.

Todas essas análises fazem a relação entre as escolhas políticas e o leque de possibilidades que advém delas. Essa compreensão pode ser ainda aprofundada com a discussão de modelos de democracia e estratégia socialista, mas isso exigiria uma vontade revolucionária que, definitivamente, parece fora de questão atualmente. O que apontaria a necessidade de começar a romper com o petismo em direção a uma cultura política que não descarte, mas que também não tenha o partido como dentro da ação política.

Cultura, hegemonia, política
No meu entender foi no Ministério da Cultura dos governos Lula que essa possibilidade começou a ser desenhada e experimentada. O refluxo no MinC não é da responsabilidade direta de Ana de Hollanda, é o refluxo do governo Dilma, acima esboçado. Arrisco dizer que a virtuosidade das iniciativas, programas, consultas públicas no âmbito MinC nos últimos oito anos se tornaram possível por causa de seu comando (Gil e Juca), claro, mas também por causa de uma lógica política que ia além do petismo, por causa do petismo, já que Gil foi para o MinC por causa e escolha do seu líder maior.

Acho que essa forma de fazer política cultural não está somente na maneira de elaborar a Ação Cultura Digital, dentro do programa Cultura Viva. Estava também na elaboração das mundanças à Lei 9.610, sobre Direitos Autorais – um processo aberto que incomodou demais os representantes das industrias da intermediação e os artistas e produtoras que se beneficiam dela – essa reportagem do Link demonstra bem esse incômodo. Tenho pra mim que a tecnocracia de esquerda a que Idelber se refere nesse post, como uma estratégia real da presidanta, recoloca os problemas políticos como questões técnicas e gerenciais é ruim para aquele processo.

De modo que acredito que o retrocesso no MinC é a ponta do iceberg do que é e do que quer ser todo o governo Dilma. O caso Bethânia é a ponta do gelo nesse iceberg. Espantam-se que um governo de suposta continuidade possa sediar esse retrocesso, mas é preciso entender para que lado do ring está caminhando o governo de uma forma geral. Olhando assim é que se pode compreender que o rompimento com as linhas das políticas do MinC de Gil e Juca espelha e reflete o movimento à centro-direita de todo o governo. Escreve Idelber:

Ao contrário dos antagonismos políticos, as escolhas gerenciais colocam aos sujeitos a tarefa de escolher “a opção correta”. Quanto menos explícitos ficarem os antagonismos, mais traduzível fica a política na linguagem do gerenciamento.

A questão que não quer cala é: o certo é o certo para quem? Para quem está governando? Para quem dá apoio a quem está na gerência? Para a indústria da cultura e seu capital transnacional? Para o autor, esse injustiçado? Mas qual autor, o que conseguirá captar R$ 1,3 milhão com ou sem apoio do MinC?

Não acredito mais que esse processo que temos visto seja extemporâneo; não espero mais a queda de Anna de Hollanda; não acredito que o esquecimento de Dilma em agradecer aos militantes, ativistas, ou pessoas que se envolveram na guerra de informação e contra-informação durante a eleição tenha sido um descuido. Acredito mais que o longo processo de mudança do discurso do PT e de abandono das teses socialistas se evidenciem com mais força na área da cultura agora, mas vem sendo buzinada há tempos noutras áreas. É também interessante observar como o processo de despolitização e de abandono das teses socialistas que ainda circulavam nas principais tendências do PT resulte na incapacidade de perbecer a perda de oportunidade em aprofundar as mudanças nesse front (cultura+comunicação+tecnologia), o que colaboraria para consolidar a hegemonia obtida nos últimos 8-9 anos e o papel do Brasil como referência no debate sobre bens públicos, commons, leis de propriedade sobre bens simbólicos, etc. Outro aliás, também não é acaso que a Agência Brasil tenha deixado de usar o Creative Commons…

A classe média desinformada e os velhos jornais
A grita que finalmente chegou aos jornais com relação ao retrocesso no MinC também chega à classe média – sobretudo aquelas partições que são pautadas pelos grandes grupos de comunicação do Brasil. Nos últimos anos essa parte da classe média nem suspeita dos avanços na forma de fazer política cultural, nas referências adotadas para democratizar a comunicação mas também a produção, circulação e usos de informação, cultura e conhecimento; assim como as implicações do debate sobre direitos autorias.

Essa parcela da classe média surpeende-se com as críticas ao MinC e é assustador como está à margem do debate – o que aliás é bem conveniente para o grupo que dá diretamente apoio à nova direção adotada pelo MinC. Aliás, como os temas que são objeto de confronto agora (e novamente) vem sendo tratados há anos, é difícil para que essa classe média desinformada não seja  manipulada pelos blogueiros de boa e de má intenção (sem falar nos grandes grupos de comunicaçã0), porque a interconexão dos temas é facilmente passível de falácias e de omissões. O complexo e judicializado debate sobre direitos autorais; o desenvolvimento de plataformas livres de comunicação; o uso de softwares livres como condição importante para a democratização das condições de possibilidade para a produção de cultura; a emergência de redes colaborativas de interação simbólica, fomentadas pela gestão anterior, não parecem, a esse olhar desinformado, tratar das mesmas questões – ou da mesma questão: uma política de democratização das oportunidades e dos recursos que cria condições de possibilidade para a produção cultural fora e para além da lógica industrial.

Aliás, para você que chegou aqui sem cansar do assunto, vale à pena fazer uma simulação dos custos com direitos autorais que você deve pagar para fazer uma festinha com os amigos, aqui. A lebre foi levantada por @andreasaraiva.

Facilmente o que tenho visto é que essa classe média fica atrelada ao andar da carruagem puxado pelos jornais, pelos portais de comunicação e também pelos blogueiros que falaciosamente acusam a existência de uma rede de intenções arquitetada para derrubar a ministra da cultura. A isso se referem mesmo pessoas críticas e que se envolveram na campanha de Dilma.

O curioso é observar também que parte desse debate todinho só foi possível porque as políticas, as redes  e as ações coletivas com tecnologias livres, fomentadas e fortalecidas na gestão anterior,  estão fazendo barulho. Pessoas viajaram, se conectaram, criaram redes, ganharam equipamentos, produziram resultados e estão agora se movimentando, bem ou mal, criticando e fazendo o barulho possível. Não fosse isso, as mudanças no MinC passariam incólumes e seriam decididas nos escritórios de Brasília, das majors, do Ecad, como aliás estão sendo, mas sem nenhuma reação.

Está longe, entretanto, de existir ma articulação organizada para mudar a  ministra Ana de Hollanda, o que é uma pena. Essa articulação só seria possível se essas redes tivessem alcançado um nível tal de articulação política e de auto-reflexão organizada que no meu entender ainda não aconteceu. Mas há a falácia de que existe uma articulação para derrubar a ministra, que o MinC estava aparelhado, que grandes grupos internacionais são os artífices desse aparelhamento, que os autores seriam prejudicados com a reforma da Lei do Direito Autoral. Uma das mais tradicionais formas de fazer política no Brasil é eliminar a discussão política ou desacreditar seu oponente. É esse o legado mais tradicional da forma brasileira (hegemônica) de fazer política: o fim da política, a anulação ou despotencialização do dissenso e do encontro de ideias. Em última análise, a violência de passar por cima de tudo o que é ameaça o atrapalha o caminho..

Abaixo alguns links, pra vc da classe média desinformada que ainda não cansou do assunto…

http://olharfeerico.wordpress.com/2011/03/16/os-milhoes-da-cultura-de-donana-amsterdam-sao-pra-quem-pode-nao-pra-quem-quer-ou-governo-e-pra-quem-tem-poder/#more-324

http://www.estadoanarquista.org/blog/?p=8293

http://www.outraspalavras.net/2011/03/10/de-que-ana-de-hollanda-tem-medo/

http://tsavkko.blogspot.com/2011/03/maria-bethania-falencia-do-minc-e.html/

http://www.cinemaemcena.com.br/pv/BlogPablo/post/2011/03/16/Por-que-o-MinC-esta-certo-em-autorizar-Maria-Bethania-a-captar-13-milhao-para-seu-blog.aspx

http://www.arianefonseca.com/index.php/reflexoes-para-um-jornalismo-melhor/maria-bethania-e-seu-blog-de-13-milhao/

http://www.trezentos.blog.br/?p=5627

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Está em curso um enorme esforço para tornar a web, o ambiente gráfico desenvolvido no final dos anos 1980 e que tornou a internet fácil de usar, mais que um repositório de dados. Esse trabalho, realizado por filólogos, sociólogos, cientistas da informação e, claro, os profissionais do software, deverá impactar a forma com que as coisas são percebidas, descritas, enunciadas, caracterizadas e classificadas em nossa sociedade, no nosso tempo. Alguma das muitas questões que essa gestação tem sugerido: dela resultará uma forma de conhecer nova? Qual a prosa do mundo que poderá emergir?

As perguntas evidenciam uma ambição que é proporcional ao projeto de construção de uma web semântica, o próximo passo evolutivo do ambiente desenvolvido pelo físico Tim Berners-Lee no final dos anos 1980. A evidência mais comum desse esforço (a ponta do iceberg) chega aos usuários comuns da rede mundial de computadores na forma das etiquetas, ou hashtags. A pergunta que não quer calar é: o que é, ou o que virá a ser, uma web semântica?

“É extensão da atual world wide web, resultado de uma série de providências que acrescentam informações extras aos dados já disponíveis e aos futuros dados que vierem a ser incorporados para dar-lhes significados”, explica Alex Sandro Gomes, pesquisador do Centro de Informática da UFPE. “No fundo, é um trabalho de criação de vocabulários que contribuem com a catalogação de informações”, complementa Carlos Cecconi, da W3C, o consórcio de empresas que planeja padrões para a internet. A biblioteca de Alexandria já fazia isso, portanto não é propriamente uma novidade que nenhum estudante de ciência da informação (anteriormente conhecida por biblioteconomia) desconheça. O que há de novo é que essa monumental tarefa precisa ser feita de tal forma que torne possível às máquinas gerar inferências para usos não humanos.

O que isso significa? “Bem, pretende-se que na web semântica toda a informação seja organizada de forma que não somente seres humanos possam entendê-la, mas principalmente as máquinas entre si”, afirma Alex Sandro Gomes. O próximo passo evolutivo da web incorpora o significado às informações. Isso permite um ambiente em que máquinas e usuários trabalhem em conjunto. Na medida em que cada tipo de informação é devidamente identificada, fica mais fácil para os sistemas encontrarem informações mais precisas sobre um determinado assunto – reduzindo a ambiguidade. O ambiente de que estamos falando terá informações devidamente identificáveis, onde sistemas personalizados possam manipular, compartilhar e reutilizar de forma prática as informações providas pela web.

“Hoje, um dos principais problemas é que a capacidade de gerar informação – útil e inútil – excedeu a habilidade para gerenciá-la”, já lembrou Clay Shirky, escritor e professor em Novas Mídias de Comunicação, da Universidade de Nova York no documentário Web 3.0, realizado pela psicóloga Kate Ray e disponível na web . Em termos pessoais isso é fácil de constatar. É possível afirmar que estamos nos afogando em nossa própria riqueza. Não é à toa que ganhou importância e procedência nos últimos anos o extenso cardápio de reflexões sobre a chamada economia da abundância, a economia do imaterial, a qual estão vinculados a crise do conceito de valor e de várias outras categorias da economia política clássica e neoclássica. Mas isso fica para outro dia. “Dispomos de toda essa informação, todos esses pontos de acesso e verdadeiramente não há uma maneira efetiva de ajudar a controlar tudo”, complementa Shirky. Exceção à velha estratégia do esquecimento, posto que esquecer também salva. Que o diga aliás Funes, o personagem memorioso de Borges, cuja incapacidade de esquecer se converteu numa doença – “Sabia as formas da nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança aos veios de um livro encadernado em couro que vira somente uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no rio Negro às vésperas da batalha do Quebracho”.

Borges in L'Hôtel, Paris

Borges / Image via Wikipedia

É justo pela falta de mecanismos mais sutis de desambiguação e pelo excesso de informação que hoje a escolha do que é de fato útil tem de passar necessariamente pelo escrutínio manual. A maior parte dos profissionais envolvidos com a construção de uma semântica para a web vê a oportunidade de que possamos descrever nosso mundo em termos que sejam mais práticos para que a máquina possa trabalhar com eles – o que não é o mesmo de fazer com que as máquinas pensem exatamente como as pessoas. O que está em pauta é uma reorganização da informação de nosso mundo real (de nossa cultura, vale dizer) disponíveis na rede – e não a construção de cérebros de silício.

É nesse sentido que incorporação símbolo # às palavras como regra para concentrar e indexar assuntos e informações de interesse comum – hashtags – é apenas a ponta do iceberg. Até porque usuários dos canais IRC e de chats já faziam há anos uso desse procedimento, que se popularizou graças à penetração do Twitter – a rede de micro-blogs mais acessada atualmente.

Mas de que maneira esse trabalho de etiquetamento (muitos experts usam a feia palavra tagueamento) pode ter impactos tão ambiciosos – e que serão nos próximos anos no mínimo interessantes de acompanhar? Primeiro, porque a ambição dos principais envolvidos nessa hercúlea tarefa vai além da redução da ambiguidade das informações em rede. “O que se pretende é que seja possível criar sistemas que possam explorar essa web e resolver problemas, responder perguntas complexas, fazer grandes descobrimentos e interconexões entre áreas diferentes do conhecimento”, afirma Cecconi. Há quem considere logo ali no horizonte a real chance de materializar a noção de inteligência coletiva com a qual Pierre Levy vem martelando seus leitores há anos. Segundo, porque atribuir sentido às informações disponíveis na rede implica na criação de vocabulários a partir dos quais as máquinas possam desenvolver inferências, interpretações. O que não deveria ser visto como algo completamente novo ou estranho.

Conhecimento moderno e uma certa arqueologia

É aqui que uma certa arqueologia permite expor a dimensão do possível para a web semântica. A arqueologia em questão é a do conhecimento, desenvolvida por Michel Foucault na década de 1960. É interessante recordar como o filósofo francês revisita a episteme do século XVI ao século XIX na tentativa de identificar as condições necessárias para que o homem passasse a se tornar objeto do estudo científico.

Michel Foucault

Foucault / Image via Wikipedia

Nesse percurso, Foucault identificou o século XVI como a Idade da Similitude, na qual as relações entre as palavras e as coisas eram marcadaspela semelhança, pela correspondência direta. A semelhança mágica ou tradicional entrepalavra e coisa permitia a ação sobre o mundo, através das palavras. Até o fim do século XVI, a linguagem era semelhança, repetição da realidade, e assim desempenhou um papel construtor no saber da cultura ocidental – com as suas respectivas consequencias. E seguiu assim até o alvorecer do século XVII e meados do século XVIII, a Idade da Representação. O saber se reconfigura. As palavras e as coisas separam-se como amantes na madrugada. Foucault afirma que nesse segundo momento o pensamento deixa de se mover no elemento da semelhança. A compreensão entre as palavras e as coisas passa a ser marcada pela mediação científica, a episteme busca sua fundamentação na Representação.

E é a figura do cavaleiro da triste figura que exprime a primeira brecha para que o homem e não as coisas se torne o objeto do saber: a verdade não está nos livros, na tradição ou na magia. A loucura de Dom Quixote é o exílio possível de um mundo em que se rompeu o laço que atava as palavras e e as coisas.

A segunda brecha só vem acontecer no curto século XIX, como o nascimento da Filologia, da Economia e da Biologia, com a busca dolorosa das estruturas atrás dos fenômenos e a superação do racionalismo ingênuo da idade clássica, a linguagem volta-se para a descrição dos esqueletos dissimulados dos objetos. Ou seja, o terreno da Interpretação. Como diz Foucault, cala-se a plenitude clássica do ser e instaura-se a era das interpretações. A partir das ideias de finitude e de historicidade, este homem – moderno, demasiado moderno – é uma invenção recente que passar a ocupar o ‘posto’ de sujeito de um conhecimento de validade temporária.

Aprofundando a modernidade

Mas e daí? Qual a relação da arqueologia do conhecimento desenvolvida por Foucault e a web semântica que vínhamos comentando? É que o advento da forma moderna de conhecer segundo o filósofo francês parece ser aprofundada e radicalizada com o desenvolvimento de vocabulários que possam ser utilizados por máquinas lógicas para a geração de inferências e de Interpretações.

Essa perspectiva se recobre de uma certa dramaticidade se lembrarmos que a soberania do homem como objeto e artífice do conhecimento para Foucault é ilusória – ou não é definitiva. A ideia moderna do homem é resultado das mudanças na forma do saber, de modo que de acordo com Foucault, quando essa episteme se modificar o homem ‘morrerá’ – afirmação pela qual o filósofo foi acusado de anti-humanista e que o levou, ao menos em parte, à produção de A Arqueologia do Saber, anos depois de finalizar As Palavras e as Coisas.

A expectativa de que os esforços para a construção da web semântica permitam a criação de sistemas modernos, a solução de problemas, a resposta a perguntas complexas encerra uma certa faceta enciclopedista em busca desse desdobramento da web. É também a que autoriza uma reflexão sobre o aprofundamento da episteme moderna, na qual a linguagem volta-se para a descrição dos já mencionados esqueletos dissimulados dos objetos.

Restam, como esperado, diversas dúvidas em torno da edificação da web semântica: A possibilidade dessa organização do mundo real em base digital pode mesmo conduzir à questão do sentido do mundo – a velha questão em torno da qual se debate a filosofia ocidental? Abre-se então a possibilidade de realizarmos uma interpretação desse mundo? Com base em que linguagem? Escrita por quem?

* Textinho meia boca pro Suplemento Pernambuco.
Referências

Michel Foucault – As palavras e as coisas – Uma arqueologia das ciências humanas – Ed. Martins Fontes.

Michel Foucault – A Arqueologia do Saber – Ed. Forense Universitária.

Maria do Rosário Gregoli – Foucault e Pêcheux na análise do discursos – Ed. Claraluz.

André Gorz – O Imaterial – Ed. Annablume.

Olivier Blondeau e outros – Capitalismo gognitivo, propriedade intelectual y creación colectiva – ed Traficantes de Sueños.

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Comecei a colaborar com um projeto de extensão da Universidade Federal de Pernambuco para fazer acontecer um laboratório de mídias no bairro do Coque. A iniciativa acaba de receber recursos do CNPq para isso e, formalmente, tem como objetivo a implantação de uma “Unidade de Inclusão Digital (UID)”. Essa é mais uma das ações em andamento a partir do CoqueVive, uma rede formada pelo Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), coletivo de jovens da comunidade; o Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (NEIMFA), associação presente no bairro há mais de 20 anos e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

De uma forma geral vamos aplicar oficinas introdutórias de edição de áudio e vídeo (inclusive com celulares), construção e edição de blogs e manipulação com hardwares – metareciclagem. Ainda estamos montando o conteúdo dessas oficinas e também um projeto pedagógico. Nas últimas conversas percebemos a necessidade de ter alguns elementos transversais guiando não somente o conteúdo das oficinas mas também nosso olhar sobre a experiência:

O uso de tecnologias livres
Um entendimento crítico da cultura digital
As redes sociais como espaços de veiculação e agenciamento
Incutir o debate sobre propriedade imaterial

O desafio é grande e as razões são muitas. Primeiro são as próprias dificuldades estruturais da comunidade e as dificuldades de ordem cognitiva da moçada; segundo, o tempo curto pois as oficinas estão sendo estruturadas em circuitos de três semanas. De modo que a complexidade dos pontos acima, já difícil de tratar por si só, vai ter que acontecer de forma bem orgânica para ser minimamente absorvida.

O Coque Vive designa hoje uma rede formada por três atores  que vivenciam uma intervenção social no bairro do Coque, localizado na cidade do Recife. São eles: o Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), coletivo de jovens da comunidade; o Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (NEIMFA), associação presente no bairro há mais de 20 anos e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), através de estudantes da graduação, mestrado e doutorado, alunos egressos e professores de vários departamentos.

Serão basicamente quatro tipos de oficinas:

Experimentações com hardware – com sorte, e trabalho, poderemos fomentar um esporo de metareciclagem na comunidade. No meu entender esse esporo pode não ter um local fixo. Acho mais interessante se desenvolver um hábito da experimentação com a máquina e se comece um processo de desmistificação real do aparato tecnológico.

Edição de áudio – oficinas para captação, edição e veiculação de som. Penso que alguns dos interessados podem ser os próprios grupos musicais da comunidade e/ou se direcionar para a documentação dessas manifestações. Ou não, pode ser que as oficinas de áudio explodam para diferentes direções. Fico pensando que a documentação e o registro sonoro pode ser feito sobre de histórias, vivências, experiências, da cultura criada e das formas como elas são absovidas pela comunidade. Também deveremos pensar, ainda como material dessas oficinas, as formas de veiculação do fruto do trabalho da moçada. E é aí que deverão acontecer a procura por se ampliar o olhar para as redes sociais para além do Orkut (altamente massificado entre os jovens do Coque).

Edição de vídeo – A ideia inicial é que trabalhemos com a mesma concepção de captação, edição e veiculação. Com o interessante detalhe de que um dos ciclos de oficinas de vídeo será dedicado ao uso de celulares como ferramenta de captação de imagens. O uso dos aparelhos se apóia na constatação de que os celulares estão muito usados pela moçada na comunidade.

Web/CMS – Oficinas para criação de sites e blogs.

Como se vê, as questões no Coque ainda giram em torno das estruturas de acesso e as ações ainda se debatem ante a necessidade de produção áudio-visual em um nível inicial, introdutório. As redes fomentadas pelas políticas do MinC e do Ministério das Comunicações no governo Lula, sobretudo as mais reflexivas, estão num estado de discussão política mais complexificada. É essa complexificação que tornou possível a emergência das discussões como a do Rede Labs. Embora os objetivos dessa rede se coloquem no ‘depois da conquista de infraestrutura de máquinas e de acesso’, o que não é o caso do Coque, ela em elementos muito interessantes que podem servir ao investimento do CoqueVive e seu laboratório de mídias digitais.

Bom, começou a documentação do trabalho no Coque.

Propondo um diálogo criativo e interativo entre comunidades indígenas e a experiência audiovisual, as aldeias Pataxó, Tupinambá e Tumbalalá recebem o Cine Kurumin, uma mostra infanto-juvenil indígena. O projeto inclui também oficinas de realização audiovisual e edição de vídeo em software livre. Ao todo, serão 15 dias de exibições de filmes e de atividades que culminarão com a produção de um vídeo em cada aldeia.

http://www.agendacultural.ba.gov.br/2011/01/28/indigenas-mostra-cine-kurumin-percorre-a-bahia/

Começa nessa segunda-feira a 13a. Conferência a Associação Internacional para o Estudo dos Commons (IASC, da sigla em inglês). Dessa vez o encontro acontece em Hyderabad, Sul da Ásia. Como diz o site do evento, o encontro é uma oportunidade única para a retomada da discussão e do debate sobre o commons e para colocar em evidência as experiências ao redor do mundo que mostram como o commons não é uma relíquia do passado, mas desenvolve um papel estratégico para mante a a saúde ambiental, reduzir a pobreza e intensificar a ação coletiva.

A programação da conferência inclui discussões sobre conservação, governança local, exclusão social e direitos humanos, questões agrárias e meios de subsistência rurais. Ativistas, pesquisadores, acadêmicos, tomadores de decisão (governos e mercado) tomarão parte da programação e com isso a organização pretende criar uma interface de debate em que a política, a pesquisa e a prática se encontrem. Com isso, um segundo objetivo é estabelecer pontos de encontro comum de mondo a enriquecer o entendimento comum sobre fontes de propriedade baseadas em commons e identificar áreas e medidas que possam subsidiar ações políticas e programáticas, assim como futuras pesquisas.

A programação é gigante. Os temas a serem tratados vão de recursos comuns físicos como florestas, áreas de pasto, áreas protegidas, recursos hídricos, pesca, áreas costeiras, lagoas, sistemas de irrigação, gado a novos recursos comuns tais commons de informação, commons culturais, recursos genéticos, patentes, clima, etc. Todos esses temas, cuja apropriação privada em certa medida renderiam conferências separadas, foram agrupada em set sub-temas:

The Commons, Poverty and Social Exclusion;
Governance of the Commons: Decentralization, Property Rights, Legal Framework, Structure and Organization;
The Commons: Theory, Analytics and Data
;
Globalisation, Commercialisation and the Commons;
Managing the Global Commons: Climate Change and other Challenges;
Managing Complex Commons (Lagoons, Protected Areas, Wetlands, Mountain Areas, Rangelands, Coastal Commons);
New Commons (Digital Commons, Genetic Commons, Patents, Music, Literature etc);

A programação completa você pode conferir aqui. Eu não tenho certeza se a programação poderá ser acompanhada online, provavelmente sim. De qualquer forma, não encontrei nenhum link no site da conferência. O encontro tem uma importância para a geopolítica muito grande. Sobretudo porque é um dos encontros esse ano que reforçará a convergência de vários movimentos que se guiam pela produção e utilização livre e aberta de recursos coletivamente gestados – e aí incluem-se os movimentos software livre e open source, hadware livre, cultura livre, creative commons, livre acesso (open acess) e dados abertos e também movimentos sociais que atuam sobre a gestão de recursos naturais (bancos de sementes, pastos comuns, entre outros). O Ecologia Digital tem um bom texto sobre esse assunto.

Em novembro desse ano haverá um outro encontro, organizado dessa vez Silke Elfrich que se chamará Conferência Internacional sobre Commons, que pretende reunir representantes de 170 países, e que também procurará contribuir para a convergência entre os estudiosos dos diversos ‘commons’ e os ativistas desenvolvendo projetos na prática. Aliás, nessa página estão os resumos dos trabalhos que serão apresentados em Hyderabad.

No Brasil, assim como no mundo, a convergência entre movimentos que atuam com objetivos comuns ou afins à ideia de commons, ainda não é evidente – mesmo entres os artífices dessas ações coletivas – mas isso fica para outro post, noutro dia. E é interessante observar que o commons, como salienta Silke Elfrich na entrevista que concedeu ao José Murilo, que a ideia de commons é um quadro conceitual que serve à compreensão do mundo, que abre a nossa mente para a identificação de soluções criativas, práticas, coletivas e institucionais para os dois problemas mais urgentes, ao mesmo tempo. Ou seja, o desafio ambiental e os problemas sociais que enfrentamos hoje.

Para entender os commons
Commons pode indicar aquilo que é comum ou os espaços e as coisas que são públicas. Está relacionado às trocas comunitárias ou à produção simbólica compartilhada. Segundo Yochai Benkler, commons são espaços institucionais em que se pode praticar um tipo particular de liberdade – liberdade em relação a restrições tão entranhadas nas práticas sociais que são tomadas como precondições para a existência de mercados funcionais. A sua principal característica é também a que a diferencia da propriedade privada: nenhuma pessoa tem o controle exclusivo do uso e da disposição de qualquer recurso comum em particular. Algumas dessas ideias Benkler expôs no livro A Riqueza das Redes, para download aqui.

Enquadram-se como commons fórmulas matemáticas, receitas culinárias, obras intelectuais de domínio público, patentes expiradas, a proteção conferida pelas Forças Armadas de um país, músicas de protesto, músicas reacionárias, músicas ligeiras, obras literárias, a luz dos faróis à deriva sobre os oceanos, os oceanos, iluminação pública sobre as vias e as vias públicas. O que define se um desses bens é um commons não é sua natureza, mas a forma como a sociedade resolve tratá-los, ou seja, o regime sob o qual se pretende tratar com determinado recurso. O ar, os oceanos, os ventos, são bens passíveis de compartilhamento por todos: são não-competitivos (aqueles cuja  fruição não priva ninguém da possibilidade de fazer o mesmo, dadas as mesmas condições. Outros bem não-competitivos a sociedade decide manter em regime privado).

Por outro lado, praias, ruas, praças e parques não são naturalmente passíveis de compartilhamento por todos, assim como não o eram os terrenos públicos usados para pasto na Idade Média, quando foram confiscados na “revolução dos ricos contra os pobres”, como disse  Polanyi. Entretanto, apesar de serem competitivos, são mantidos em regime de commons – a não ser que o regime mude, como foi o caso no século XVIII.

Obras literárias, as músicas e outras obras intelectuais, entretanto, perdem esse caráter não-competitivo quando se materializam em um suporte físico. É o processo de digitalização e de distribuição por redes telemáticas – ou seja, sua desmaterialização – que as faz retomar sua característica de bens não competitivos puros. Quando associados a suportes físicos – fitas eletromagnéticas, Lps de vinil, Cds, etc., – são considerados não-competitivos impuros. À medida que tais bens para serem produzidos, circularem e serem usufruidos dependem de uma corporiedade, aproximam-se da condição de não-competitivos puros.

A condição de competitivos dada a bens que ‘naturalmente’ são não-competitivos é possível graças a artifícios como os marcos jurídicos que garantem os direitos autorais. Os mesmos marcos garantem que tais criações voltarão ao bem comum, à condição de res commune, integrando-se ao domínio público. Os commons são fundamentais para a virtuosidade de qualquer cultura, enfim, para o patrimônio da cultura universal. O que finalmente a análise de Lessig aponta é que a crescente intervenção que permite identificar rotas de comunicação e o conteúdo leva à redução dos commons disponíveis no ambiente digital das redes telemáticas. A literatura recente que associa o debate diversidade-interatividade-democracia e controle de bens simbólicos também é pródiga em salientar que “sem commons é impossível conceber a possibilidade de inovação e desenvolvimento continuados, especialmente porque o principal common em jogo é a informação” – frase de Ronaldo Lemos aqui.

Alguns textos fundamentais sobre commons abaixo. É interessante observar que Elinor Ostom, prêmio Nobel de Economia em 2009, professora e pesquisadora na Indiana University in Bloomington, Indiana/USA, é uma das fundadoras da IASC.

From Legal commons to social commons in Brasil – Ronaldo Lemos
Los Cercamientos de La Inteligencia Colectiva – Emmanuel Rodriguez
Repensando o commons na comunicação científica – Evelyn Cristina Pinto
The opposite of property – James Boyle
The public domain – James Boyle
The second enclosure movement – James Boyle
Understanding Knowledge As A Commons – Hess C  e Ostrom Elinor