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Archive for the 'Comunicação' category

Relato das ações no Coque Livre

Luiz Carlos Pinto | 3 de fevereiro de 2012 15:05

Vou postar aqui nos próximos dias algumas reflexões sobre os ciclos de atividades do Projeto Coque Livre, que implementamos em 2011 na comunidade do Coque, centro do Recife. Os textos têm uma pegada um tanto acadêmica – sobretudo a parte inicial, em que segue uma introdução a alguns conceitos que permearam as oficinas dos ciclos. Isso porque precisaremos apresentar esses relatos ao CNPq, que financiou as atividades. Nos próximos dias coloco as descrições das atividades mesmas.

1. Análise crítica das bases teórico-metodologias das oficinas de mídias livres

As oficinas com tecnologias livres baseiam-se teórica e metodologicamente no  que podem ser chamadas ‘ações coletivas com mídias livres’. Tais ações expressam um conflito e uma oposição ao modo com que os bens informacionais são comercialmente produzidos e controlados, bem como os objetivos dessa produção. Considerar como eixo característico a disposição antagonista implica em reconhecer a existência de questionamentos coletivos quanto à legitimidade do poder  e ao modelo estabelecido para o uso dos recursos sociais – esses princípios conduzem a base metodológica e filosófica das oficinas.

O sentido das oficinas com tecnologias livres está associado à criação de condições estruturais e conceituais para a produção, circulação, apropriação e usufruto de conhecimento, informação e cultura fora das hostes comerciais. Em termos filosóficos,  essa orientação, que prevalece sobre as outras linhas de atuação, expressa a atualização da análise de Ranciére (1996) para a emergência do exercício da política, com uma correspondente instituição de uma outra ordem do sensível. Ou seja a criação de tais condições estruturais e conceituais se vincula a um virtuoso processo de atualização da reivindicação da parcela dos que não têm parcela, da reivindicação da fala, do dissenso, da possibilidade e das condições para a expressão do desentendimento em relação a como se reparte o todo, entre os que têm parcela ou partes do todo e os que não têm nada.

Por outro lado, é possível considerar o modelo predominante de ‘inclusão digital’ ancorado à lógica da Justiça Distributiva . Nesse sentido, tal modelo também precisa ser compreendido sob os eflúvios das mudanças pelas quais passa o capitalismo pós-industrial – sobretudo naquilo que se refere à crise da noção de valor, que acompanha tais alterações sistêmicas. Se é verdade que no capitalismo pós-industrial não é mais no produto, na matéria, que se concentra o centro do valor, mas no conhecimento, na forma de se organizar e modelar a inteligência coletiva, então à Justiça Distributiva deve-se interpor um outro front de crítica – inclusive como forma de enquadrar e compreender  a perspectiva, os discursos e a programática de ações coletivas que lançam mão de tecnologias livres.

É necessário, antes de continuar, deixar claro a que se refere esse termo. As ‘tecnologias livres’ a que nos referimos são constituídas por softwares e hardwares que permitem que sejam usados, copiados, estudados e redistribuídos sem restrições, o que implica que as modificações feitas tanto em programas quanto nos equipamentos físicos podem se realizados e compartilhados também sem restrições. O conceito de ‘livre’ se opõe ao de restritivo e à noção de software proprietário, cujas alterações no seu código de funcionamento são vedadas. Tanto softwares livres quanto hardwares livres são vinculados a licenças de uso que visam garantir as liberdades de execução, distribuição, modificação e repasse sem que para isso seja necessário a permissão do(s) autor(es) (Torvalds & Diamond, 2001). Portanto, para tecnologias livres estão associados licenças de uso que procuram garantir
•    A liberdade de executar o programa ou de uso do hardware, para qualquer propósito;
•    A liberdade de estudar como o programa ou hardware funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades. Acesso ao código-fonte, no caso dos softwares, é um pré-requisito para esta liberdade;
•    A liberdade de redistribuir cópias de modo que se possa beneficiar o próximo;
•    A liberdade de aperfeiçoar o programa e/ou hardware, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie. Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade.
Portanto, o uso do termo tecnologia livre nesse texto considera será considerado livre se todos os seus usuários tiverem essas quatro liberdades.

Show me more… »

Talvez haja algo a se tirar de proveitoso da greve dos gráficos e do indicativo à deflagração do Estado de Greve pelos jornalistas em Pernambuco. Até agora, o que me tem parecido mais evidente é a profunda fragilização da categoria, associada à incompreensão geral dos processos que geraram isso. A desobrigação do diploma para o registro profissional definida pelo STF em 2009 é um efeito e não a causa de problemas pela qual vem passando essa atividade profissional. É a ponta de um iceberg que mostra aqui e ali seu tamanho. Na entrelinha está a política, ou a falta dela.

Mercados & mercados
Os gráficos pararam porque, ao contrário de sua categoria meio-irmã, continuam com um mercado amarrado a quem detém as estruturas de trabalho: o gráfico não vai para casa e faz um frila à noite. Seu trabalho é nas dependências da empresa porque é lá que está o maquinário e que torna possível sua atividade.

O mercado dos jornalistas não. O crescimento da economia nos últimos anos gerou mais trabalho – não necessariamente mais emprego – e isso é, por incrível que pareça, um elemento de desmobilização política por onde a reivindicação de melhores condições salariais e de trabalho no modelo sindical.

Com um piso de R$ 944 (gráficos em jornais) e R$ 718 (em empresas gráficas) e sem alternativas reais de complementação de renda, é muito mais provável que a categoria dos gráficos se mobilizassem para a greve antes dos jornalistas (e sem eles).

Hegemonia & comunicação
Outro aspecto da fragilização da categoria de jornalistas tem a ver com a hegemonia política no Estado – na verdade, no meu entender essa fragilização é não somente da categoria, mas de toda a economia-política da comunicação, ou seja envolve as empresas e o Jornalismo realizado por elas também. Porque uma sociedade é mais plural e reflete isso no jornalismo (e também nas artes, na economia, etc) quando sua política é mais socializada e isso implica naquilo que a gente chama de condições de possibilidade da crítica.

Mas esse aspecto político é ainda mais amplo. A queda da obrigatoriedade do diploma pro registro em 2009 pelo nosso querido STF é o fim de um percurso (talvez não seja um fim, enfim) no qual se cruzam a queda de credibilidade do fazer jornalístico comercial, que se plasmou num modelo ou em certos modelos que não atendem mais a necessidades da sociedade, e um certo descentramento do sujeito que usa da ferramenta jornalística. Em outras palavras, mais gente passou a produzir informação, cultura e conhecimento, a fazê-la circular, a mixá-la também e isso muitas vezes acontece usando-se jornalismo como modo de construção de discursos. Mais gente, mais recursos, mais informação circulando e isso é ótimo.

E isso tá  convivendo por um lado com um excepcional retrocesso do grosso das empresas de comunicação (sobretudo as grandes) no quesito democracia, pluralidade e ética e por outro lado com um modelo plasmado ensinado nas universidades também, onde o nível de classe dos estudantes mudou.

Economias & comunicação
Porque no mercado de ensino do jornalismo a novidade dos últimos 20 anos não é somente o maior número de escolas e faculdades. É que também aumentou o poder aquisitivo dos estudantes que resolvem ser jornalistas – e isso é patente em qualquer redação de região metropolitana brasileira hoje.

Maior poder aquisitivo significa não somente mais conforto, mas também uma inflexão no tipo de egressos de classe que passou a compor a categoria dos jornalistas (atenção, classe é diferente de categoria). E isso tem implicações para a maior ou menor mobilização política. A classe ou as classes em que se enquadram a categoria dos gráficos tem passado por dificuldades por ter se mantido mais ou menos a mesma. E, assim sendo, passar por mais ou menos os mesmos perrengues financeiros que a empurram para mais reivindicação e confronto com os patrões.

Categoria & classe
A desmobilização da categoria jornalistas, que não é um privilégio negativo da pernambucanidade, mas que está relacionada a um universo maior de problemas, me faz pensar que talvez essa seja uma categoria que pode acabar em mais alguns anos. Será?

Eu não conheço nenhuma pauta de reivindicação sindical que inclua, por exemplo, o debate sobre a flexibilização/proteção de direitos autorais de obras produzidas no circuito comercial do jornalismo; ou o debate sobre navegação anônima na internet; ou o debate sobre a manutenção do princípio de neutralidade na internet; ou o das possibilidades de aprendizado do jornalismo comercial com a comunicação pública, por onde aquele poderia voltar a garantir sua relevância na dinâmica de nossas cidades, de nossa vida social, de nossas políticas  – é o envolvimento com essas coisas que garantirá a continuidade do jornalismo como categoria e como categoria relevante para a democracia, porque é a democracia que está em jogo sempre.

É também o envolvimento com essas discussões que poderá dar um perfil de categoria ao jornalismo, mais do que a garantia do diploma.

Meus dois vinténs.

Fabiana Moraes

Formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, João Carlos Ferreira Filho é o criador do @JornalismoWando, perfil com 1.355 seguidores na primeira semana de outubro e apenas 1.153 postagens (o que, no mundo Twitter, indica ou que o dono do perfil posta pouco ou é relativamente novo naquele ambiente). O sucesso que acompanha o avatar no qual vemos o rosto do famoso cantor popular (fofíssimo, não acham?) faz sentido: usando expressões como “beijo no coração!”, o perfil alfineta jornalistas e jornais famosos, chamando atenção para a candura não apropriada para suas práticas. Conversamos com João Carlos sobre seu alter ego. “O Wando ficou com ciúmes”, avisou.


Na sua opinião, por que o jornalismo do coração parece buscar sempre o consenso, tem esse caráter quase apaziguador?
Acredito que as faculdades de jornalismo (como todas as outras faculdades) estão mais preocupadas em preparar profissionais que se adequem aos interesses do mercado do que cumprir sua verdadeira função, que é de formar jornalistas que contribuam de alguma forma para a sociedade. A opinião, o espírito crítico e a reflexão não são incentivadas como deveriam, porque não ajudam o jovem que sai da faculdade a conseguir um bom emprego. Pelo contrário, quanto mais dócil e alinhado aos interesses do mercado o jornalista for, mais chances ele terá de ser bem sucedido profissionalmente.


Outra característica do Jornalismo Wando é a tentativa de estabelecer linguagem íntima tanto com o entrevistado quanto com a audiência. Você acha que essa é uma maneira/técnica de angariar mais espectadores/leitores?
Não. Acho que essa é uma técnica usada por jornalista mal preparado. Até porque não é da alçada do jornalista se preocupar com audiência. Conquistar a simpatia do entrevistado não é objetivo da profissão. Isso quem faz é a Ana Maria Braga, o Gugu e o Faustão. Jornalismo tem que ser, necessariamente, formal, sério e objetivo. Afinal de contas, sua função principal é relatar a realidade de forma nua e crua. Infelizmente, uma doçura quase infantil ocupou o espaço da opinião e da reflexão crítica dentro do jornalismo. Esse processo de “anamariabraguização” do jornalismo tupiniquim caminha a passos largos.


Houve um momento no qual jornalistas eram mitificados: a eles estavam ligadas as ideias de coragem, esforço, isenção, verdade, heroísmo. Hoje, a imagem é diferente: jornalistas têm um poder menor de influência e são duramente criticados no espaço da sociedade civil (os denominados blogueiros progressistas são um exemplo). A prática do Jornalismo Wando, a fofura como técnica de trabalho, não seria resultado desse lugar menos legítimo que a profissão hoje enfrenta?
O tal
Jornalismo Wando é atemporal. Sempre existiu e sempre vai existir. Mas, é evidente que isso está se acentuando. Acho que existe, sim, esse componente que você citou. Acho que os grandes monopólios de comunicação são os maiores indutores e incentivadores do Jornalismo Wando. Nenhuma empresa vai contratar jornalista que faça críticas que atrapalhem seus interesses. Nenhum empresário de comunicação, por exemplo, aceitaria um jornalista seu criticando uma empresa anunciante ou um ator/músico contratado dessa empresa. Vejamos os últimos ombudsman da Folha de S. Paulo. Passaram jornalistas bastante críticos do jornal pelo cargo. Cansada, a direção da Folha resolveu colocar um profissional alinhado aos seus interesses.


Você acha que esse jornalismo que preconiza o consenso enfraquece a prática jornalística que tem como fim informar, divulgar, provocar o debate?
Sem dúvidas. A natureza da profissão de jornalista está sendo totalmente desvirtuada. Não é à toa que vemos muitos jornalistas migrando para programas de entretenimento, como o Pedro Bial e o Britto Jr. Jornalismo e entretenimento estão cada vez mais próximos. Como diz o
@JornalismoWando: “Nasceu com o espírito crítico e investigativo? Então jornalismo não é sua praia, querido. Vá criticar restaurante e cinema ou ser investigador de Polícia. Jornalismo sem sentimento, não faz sentido.”


Há um sentido político do jornalismo fofo – falo dele em si, seu espraiamento, sua força, sua reprodução?
Claro que sim. Não é à toa que jornalista que faz crítica que fere o interesse do patrão é colocado no olho da rua. Isso inibe a sobrevivência de bons profissionais que querem exercer jornalismo de fato. É muito mais cômodo ser fofo e manter seu emprego, do que ser jornalista de verdade e correr riscos. Os poucos profissionais que não se submetem ao esquemão são obrigados a escrever em blogs e na imprensa independente, o que obviamente dá muito menos dinheiro. As poucas famílias que comandam as empresas de comunicação no país têm rabo preso com setores políticos e com grandes empresas. Acaba não sobrando quase nada pra criticar. Aí então, o profissional que já vem “adestrado” da faculdade, chega à conclusão de que é melhor sorrir, ser fofo e garantir o leitinho das crianças.

Leia mais:
Um beijinho em quem ler esta página, pro Fabiana Moraes

Recebi o texto abaixo numa das listas de discussão que assino. Na caixa de comentários eu comento o que acho dele…

O que mais quer a igreja católica?

Dioclécio Luz, no Observatório de Imprensa

A igreja católica não quer abrir mão do espaço que conseguiu na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). No início de 2011, depois de prorrogar por um ano seu posicionamento, o Conselho da EBC decidiu que os programas religiosos – cultos e missas – deveriam sair da grade de programação da TV Brasil. Para chegar a isso, a EBC colocou o tema em consulta pública. Por fim, decidiu que os programas das igrejas tinham um prazo para sair do ar – setembro de 2011 – e seriam substituídos por programas educativos que tratassem do fenômeno religioso. É o lógico, é o correto, é o decente.

Mas, quando estava prestes a cair o prazo para a igreja abandonar o lugar que não lhe pertence, ela apelou para o “tapetão”, a Justiça. E achou um juiz que manteve os privilégios.

Não me espanta que a igreja católica tenha feito isso. Acharia estranho se ela – democraticamente – acatasse a decisão. Por quê? Porque estamos tratando de uma religião acostumada a mandar, dar ordens, determinar como o mundo girar e, naturalmente, ter poder acima de todos os outros poderes. A igreja se acha o deus que ela inventou. E para deixar bem claro quem manda, coloca o crucifixo (seu símbolo) no plenário da Câmara dos Deputados, no Senado, no Supremo Tribunal Federal, nas várias Assembleias Legislativas. Inaugurada em 2010, a Câmara Distrital do Distrito Federal ostenta no plenário um grande crucifixo. Sobre a mesa, aberta, a Bíblia alerta sobre quem manda ali. O cristianismo – católico ou evangélico – não abre mão do poder.

A igreja católica entrou na justiça contra a EBC porque ela sempre mandou neste país – em todos os poderes – e não admite deixar esse poder. É claro que, do ponto de vista da moral, não há sustentação para ela permanecer ocupando esse espaço público. Mas desde quando a igreja tem pudores com relação à usurpação de espaços públicos?

A Constituição proíbe, mas…

Vide o que ocorre em todas as cidades do Brasil. A igreja sempre pegou os melhores terrenos para construir seus templos, suas catedrais, suas casas paroquiais etc. Isso não é coisa do passado. O caso de Brasília é emblemático. Ao buscar um terreno para instalar a Universidade de Brasília, Darcy Riberio descobriu que a melhor área já tinha dono: a igreja católica. Em seu livro Confissões, ele relata como teve que ir ao Vaticano para negociar com o papa o terreno.

Como a igreja conseguiu um terreno numa cidade que mal tinha sido inaugurada? Ela comprou esse terreno? Claro que não. Do mesmo modo, não veio um centavo do Banco do Vaticano para comprar o terreno e construir a catedral de Brasília, na Esplanada dos Ministérios. É a única religião instalada na Esplanada dos Ministérios. Como ela conseguiu pegar esse terreno público em área nobre, destinada somente aos ministérios? Ora, porque sempre foi poder.

Hoje, quando a catedral precisa de reforma ou de ampliação de suas instalações, são empregados recursos públicos. Para construção do batistério, por exemplo, ela recebeu R$ 1 milhão. Na verdade, essa coisa de receber dinheiro público para reconstrução de igrejas “seria” ilegal, mas como elas (essas igrejas velhas) recebem a tipificação de “patrimônio histórico”, sempre têm dinheiro público para sua reconstrução. Isso está em lei. Ou melhor, no acordo assinado pelo governo brasileiro com a Santa Sé – a gente reconstrói as igrejas deles. A Constituição proíbe, mas como se trata da igreja católica… Ou a sociedade aceitaria o investimento de recursos públicos num templo da Igreja Universal?

Revelações do passado

Esse tipo de coisa acontece em todo Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas acham normal ter uma imensa imagem católica (o Cristo) num espaço público, construído com recursos públicos, mas sob o comando da igreja. Ela fatura para “administrar” essa imagem. Em determinadas regiões, como no Nordeste, a força da igreja é tal que metade dos terrenos de alguns municípios lhe pertence. Sem contar o seu esforço de continuar dominando o povo pobre com milagres e mistificações. O melhor exemplo, no caso, é Juazeiro do Norte (CE), onde se estimula o sofrimento como forma de moeda de troca do deus criado pela igreja católica e se reconstrói a imagem de Padre Cícero, como santo, e agora – acredite-se – até como “ecologista”.

Acontece que, ao entrar com a ação na Justiça contra a EBC, a igreja católica não percebeu que o mundo mudou. Acostumada a mandar e a não receber críticas, agora ela está recebendo um monte delas. Pior, seu passado está sendo revelado. Pior ainda, revelou novamente sua ambição por mais poder e riqueza.

Consta que a ação pela manutenção dos programas foi apresentada pela arquidiocese do Rio de Janeiro na 15ª Vara de Brasília. Na ação, a igreja diz que houve “discriminação religiosa”. Se fosse sincera deveria dizer: “Olha, estamos acostumados a mandar no Brasil, por que vocês não obedecem?” Ou então: “Queremos manter esse espaço porque sempre ocupamos espaços públicos e ninguém nunca reclamou”.

Ações como essa da igreja têm a ver com a sua decadência. O número de católicos caiu quase 20% nos últimos 10 anos; falta quem queira ser padre. Tudo isso tem a ver com a sua imagem (manchada com as acusações de pedofilia acobertadas pelo papa); a falibilidade da retórica cristã sustentada por dogmas e imposições (que não convencem ninguém); revelações do seu passado de (muita) lama e sangue, incluindo matança de não-cristãos, de mulheres (somente por serem mulheres) e até relações com Hitler e Mussolini.

Não é preciso ser ateu

A doutrina ou moral católica é uma questão central nesse debate. Porque, afinal, o que a igreja quer é o direito de usar um espaço público – rádio e TV – para difundir que a mulher não vale nada; que homossexualidade é doença; que a camisinha não deve ser usada “porque não garante sexo seguro”; que o homem veio da mulher; que o sofrimento é bom; que somos todos pecadores; que o casamento deve ser eterno. O mais espetacular é que quem prega tudo isso são pessoas a quem foi proibido namorar, transar, casar, ter filhos, formar família. Bem, caiu a ficha: muita gente descobriu o óbvio: essa pessoa não tem condições de dar conselhos sobre família, filhos, sexo, moral.

Vejamos a questão política. Inventou-se na América Latina a tal Teologia da Libertação. A doutrina não mudou uma linha, apenas incorporou o pobre em seus discursos. Entenda-se o processo: ela não abandonou sua relação com o poder, com os ricos; somente acrescentou os pobres. Fez-se uma releitura dos ensinamentos bíblicos e se descobriu que Jesus era esquerdista e revolucionário. Surge a igreja progressista. Como se por acaso essa doutrina e essa hierarquia tivessem algo de socialista ou democrático.

No bojo disso tudo, para suprir a carência de religião do revolucionário de esquerda, dá-se um nó no marxismo e inventa-se o marxista cristão, o marxista transgênico. Desse modo todos ficam felizes: não é preciso ser ateu para ser marxista; o cristianismo aceita. No túmulo, Marx se revolve com esta invenção moderna da igreja. Patologia tupiniquim. Freud já explicou essa carência que faz com que o militante não consiga viver sem pedir a benção aos padres.

Morte anunciada

A igreja tem poder sobre os espaços públicos, mas também atua na educação (é dona das escolas mais ricas) e, principalmente, na comunicação. Embora se apresente como aliada do movimento pelo direito à comunicação (tem gente que acredita nisso), a igreja católica (progressista? direitista?) é “dona” de 46 emissoras de televisão, tem 863 retransmissoras e nove grupos filiados. Essa igreja católica dos padres de direita e dos “progressistas” possui 133 emissoras de rádio. Alguns programas ela consegue retransmitir por mais de mil emissoras. (Fonte: www.donosdamidia.com.br).

Por que essa igreja não se satisfaz com o que tem? Rica em finanças, dona de escolas, terras, emissoras de rádio e TV, ela ainda quer mais. Qual o limite para a ambição da igreja católica? A resposta é: a igreja tem um projeto de poder eterno e para conseguir isso ela precisa sempre e sempre juntar mais e mais poder. Este seu projeto não aceitaria jamais abrir mão de um espaço na TV e no rádio, mesmo que seja moralmente indefensável. Mesmo sabendo que se encontra em processo de extinção – ou talvez por isso mesmo. É o seu jeito de evitar a morte anunciada.

***

[Dioclécio Luz é jornalista, mestre em Comunicação pela UnB, autor de A arte de pensar e fazer rádios comunitárias]

Thiago Novaes, na Lista Submidialogia

Nesta segunda – 03.10.11 o coletivo CMI-DF recebeu prêmio de R$ 35 mil no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com o filme Sagrada Terra Especulada.

Narrado pelo rapper GOG, é um grito contra a especulação imobiliária e pelo respeito à diversidade. Trata da luta entre a permanência do Santuário Sagrado dos Pajés que é uma comunidade indígena Fulni-ô, localizada no plano-piloto de Brasília, e a construção do bairro Noroeste, destinado à classe alta do Distrito Federal.

Único filme copyleft do Festival, o documentário não recebeu qualquer tipo de patrocínio e foi realizado de maneira voluntária e coletiva.

Baixe, Assista, exiba, distribua livremente – http://vimeo.com/28597529

Neste momento o Santuário e matas nativa de cerrado são atacados ilegalmente por tratores da construtora EMPLAVI. O filme serve como arma a favor da população indígena e de rua contra os novos e constantes ataques.

Em tempo, este prêmio é uma resposta a cada bola de borracha, bomba de gás, pra cada transmissor de rádio livre roubado pelo Rei,pra cada noite na delegacia.Esse prêmio vai pra cada indígena, moradora de rua, sem-terra
assassinad@s ontem, hoje e amanhã. Ao cerrado sua fauna e flora, a quem dá vida aos movimentos sociais,todas as heroínas e heróis anônim@s, a quem se apropria da tecnologia como forma de libertação e…especialmente, do
fundo do coração pra cada voluntári@ que dedicou seu tempo e sonhos à REDE IndYmedia ! Som@s tod@s ! Venceremos ! ((( I )))

wiki do santuário: http://radius.tachanka.org/santuariodospajes/

Rumo à era da cooperação?

Luiz Carlos Pinto | 10 de setembro de 2011 9:35

                                               Por Ricardo Abramovay*

A riqueza contida na Wikipedia, nos softwares livres, nas plataformas de compartilhamento musical ou no YouTube não se deve apenas aos extraordinários meios técnicos oferecidos pela conexão em rede de computadores e “smart phones” cada vez mais poderosos e baratos. O mais importante, e o que faz desses exemplos parte do processo de construção de uma nova economia, são seus fundamentos sociais, que não podem ser dissociados das normas éticas que lhes dão sustentação. Longe de um paroquialismo tradicionalista ou de um movimento alternativo confinado a seitas e grupos eternamente minoritários, a cooperação está na origem das formas mais interessantes e promissoras de criação de prosperidade no mundo contemporâneo. E na raiz dessa cooperação (presente com força crescente no mundo privado, nos negócios públicos e na própria relação entre Estado e cidadãos) estão vínculos humanos reais, abrangentes, significativos, dotados do poder de comunicar e criar confiança entre as pessoas. É daí que vem o título do mais recente livro de Yochai Benkler, professor de direito em Harvard, ganhador do prêmio da Associação Americana de Ciência Política por seu livro de 2006, The Wealth of Networks, e certamente um dos pensadores mais originais da atualidade.

Por um lado, o Leviatã exprime organizações hierárquicas (públicas ou privadas) apoiadas em duas premissas centrais: a primeira é a clara distinção entre quem manda e quem obedece, quem concebe e quem executa, quem cria e quem consome, quem oferece e quem assiste. A segunda premissa está na assimilação entre racionalidade e egoísmo: o mundo econômico, sob a ótica do Leviatã, funcionaria tanto melhor quanto mais os indivíduos seguissem sua inclinação, supostamente natural, para defender exclusivamente o que lhes convém, só levando em conta os interesses alheios dentro dos limites exigidos pela lei e por uma reciprocidade abstrata, em que não há laços imediatos de colaboração entre as pessoas.

Em contraposição à centralização totalitária do Leviatã não está o mercado e sim o Pinguim, ícone da criação pioneira do engenheiro e hacker finlandês Linus Torvalds, autor do Linux kernel, o mais importante sistema operacional de acesso livre e que revolucionou o mundo digital desde o início dos anos 1990. O Pinguim simboliza a cooperação humana direta, voluntária e gratuita, cuja principal recompensa está no sentimento de que as relações entre as pessoas são justas, estimulam sua inteligência, valorizam sua participação, ampliam seu conhecimento, apoiam-se na comunicação e abrem espaço para a resolução conjunta de problemas.

A assimilação entre racionalidade e egoísmo (um dos pilares do pensamento de Hobbes e de quase toda a ciência econômica) é contestada não por uma metafísica a respeito da natureza humana, mas a partir da pesquisa científica. Benkler mobiliza de forma fascinante e didática evidências empíricas e experimentais da biologia da evolução, da neurologia, da psicologia, da economia experimental, da sociologia das redes e da ciência política para trazer à tona o que a vida cotidiana revela e muitas vezes o conhecimento especializado esconde: as pessoas não só são muito mais cooperativas do que habitualmente a ciência econômica e o senso comum supõem, mas, sobretudo, os processos de cooperação fluem tanto melhor quanto mais se apoiam em relações humanas reais, na satisfação do reconhecimento mútuo, no respeito e na confiança.

Os exemplos são inúmeros e vão desde o paradoxo de sistemas de doação de sangue que funcionam melhor quando gratuitos (na Grã-Bretanha) do que quando pagos (nos Estados Unidos, até os anos 1970), até a organização industrial em que o crescimento das disparidades salariais e as formas de trabalho que inibem iniciativas dos operários (na indústria automobilística americana) conduzem a resultados desastrosos diante da inovação que caracteriza o sistema japonês, em que os executivos ganham menos e os trabalhadores têm voz no chão de fábrica.

O subtítulo do livro de Benkler (o triunfo da cooperação sobre o autointeresse), mais que uma utopia, mostra uma das mais importantes tendências das organizações contemporâneas, que se exprimem em três dimensões fundamentais.

A primeira é de natureza ética: os estudos e as experiências citadas no livro derrubam o mito de que as organizações funcionam melhor quando apoiadas estritamente em incentivos materiais. Ao contrário, o pertencimento, o sentimento de que as negociações são feitas sobre base visível, clara e equânime, o prazer do convívio, o intercâmbio de ideias, a capacidade de ouvir e o poder de falar são atributos decisivos de realização humana e, ao mesmo tempo, estimulam melhores resultados nas organizações.

Daí o segundo aspecto do triunfo da cooperação, este de natureza política: sistemas de incentivo baseados no aumento da comunicação entre as pessoas, no estímulo a suas iniciativas e na compreensão das situações em que se encontram funcionam melhor que recompensa e punição. Estes princípios nortearam, por exemplo, a polícia de Chicago e lideranças religiosas que conseguiram, por meio da participação social, melhorar a qualidade da vida em bairros até então dominados pela violência das gangues.

O triunfo da cooperação, terceira dimensão, está igualmente no cerne das mais importantes organizações privadas. Linux é usado hoje pela IBM e por inúmeras corporações, sem deixar de ser um sistema aberto. Ao mesmo tempo, plataformas originalmente voltadas a finalidades de bem público transformam-se em prósperos negócios, sem que isso as condene a abandonar as bases relacionais em que se apoiaram quando criadas.

A obra de Yochai Benkler é parte de uma revolução científica em que convergem revelações surpreendentes sobre os comportamentos humanos e formas inéditas de organização do Estado, dos negócios e da vida associativa. A cooperação direta, intencional, apoiada em normas sociais claras, mas nem por isso localistas ou provincianas, é o mais importante caminho para novas relações entre economia e ética.

A OBRA:

The Penguin and the Leviathan – How Cooperation Triumphs Over Self-Interest, de Yochai Benkler
À venda pela internet.


Ricardo Abramovay é professor titular do departamento de economia da FEA, do Instituto de Relações Internacionais da USP, pesquisador do CNP e da Fapesp (www.abramovay.pro.br). Este texto também foi publicado no Valor Econômico.

Os Aparecidos Políticos, grupo de arte pública relacional com foco na arte ativista, convida a todos/as a participarem da Intervenção Urbana pelo Ar no SPA das Artes Recife (2011) entre os dias 14 a 16 de Setembro no Pátio de São Pedro. Informamos também que estão abertas as inscrições para participantes de uma oficina que faremos sobre Rádio Arte.

A ideia da Intervenção Urbana pelo Ar é fazer transmissões de rádio na frequência 103,5 FM com intuito de ocupar uma parte do espectro midiático do centro de Recife. Queremos com isso levantar questionamentos acerca do papel dos meios de comunicações, seus oligopólios e práticas mercadológicas.

Já na oficina que será realizada no dia 16 de setembro, às 10h no Pátio de São Pedro, pretendemos fazer discussões e produções a partir da relação entre rádio e arte. Além disso, abordaremos temas como mídias alternativas, exemplos de rádios livres e rádios arte no Brasil e no mundo, discussões técnicas e políticas. A ideia também é que a partir da oficina saia um material para se transmitido no dia.

A Rádio também está disponível para receber e transmitir trabalhos ou ideias de artistas, coletivos, transeuntes, poetas, músicos, andarilhos e quem já se cansou de ser somente receptor de informações. Seja a mídia! Apropriação dos meios já!

Morador de Recife, sintonize na: 103,5 FM

Transmissões também na Internet: http://www.spreaker.com/page#!/show/aparecidospoliticos

Blog dos Aparecidos Políticos: www.aparecidospoliticos.wordpress.com

Entre em contato: alexzapa@riseup.net

Facebook: http://www.facebook.com/spadasartes

Programação Completa do SPA das ARTES Recife 2011

O que é o SPA das Arte: Evento começa no dia 11 de setembro em Recife, no Museu Murillo La Greca, e traz uma semana de intensa programação, incluindo exposições, intervenções urbanas, lançamentos de livros, debates e oficinas para esquentar o circuito de artes visuais.

Por Leandro Fortes, no Brasília, eu vi

As relações arcaicas que ainda prevalecem nas redações brasileiras, sobretudo naquelas ancoradas nos oligopólios familiares de mídia, revelam um terrível processo de adaptação às novas tecnologias no qual, embora as empresas usufruam largamente de suas interfaces comerciais, estabeleceu-se um padrão de interdição ideológica dos jornalistas. Isso significa que a adequação de rotinas e produtos da mídia ao que há de mais moderno e inovador no mercado de informática tem, simplesmente, servido para coibir e neutralizar a natureza política da atividade jornalística no Brasil.

Baseados na falsa noção de que o jornalista deve ser isento, as grandes empresas de comunicação criaram normas internas cada vez mais rígidas para impedir a livre manifestação dos jornalistas nas redes sociais e, assim, evitar o vazamento do clima sufocante e autoritário que por muitas vezes permeia o universo trabalhista da mídia. Em suma, a opinião dos jornalistas e, por analogia, sua função crítica social, está sendo interditada.

Recentemente, a ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, opinou que jornalista não deveria ter Twitter pessoal. Usou como argumento o fato de que, ao tuitar algo “ofensivo”, o jornalista corre o risco de, mais para frente, ter que entrevistar o ofendido. A preocupação da ombudsman tem certa legitimidade funcional, mas é um desses absurdos sobre os quais me sinto obrigado a, de vez em quando, me debruçar, nem que seja para garantir o mínimo de dissociação entre a profissão, que tem caráter universal, e os guetos corporativos onde, desde os anos 1980, um sem número de manuais de redação passaram a ditar todo tipo de norma, inclusive comportamental, sobretudo para os repórteres.

Suzana Singer deu um exemplo prosaico, desses com enorme potencial para servir de case em cursinhos de formação de monstrinhos corporativos que pululam nas redações:

“Hoje o jornalista pode estar em um churrasco, com os amigos, e ser ofensivo com os palmeirenses porque eles ganharam o jogo de domingo. E na semana seguinte ele tem que ir entrevistar o presidente do Palmeiras. Ou seja, é uma situação muito desagradável, que poderia ter sido evitada se o repórter tivesse a postura adequada de não misturar as coisas. Não tem como ter dupla personalidade, separar a sua vida pessoal da profissional, assim como não dá para ter duas contas no twitter”.

Bom, primeiro é preciso esclarecer duas coisas, principalmente para os leitores desse blog que não são jornalistas: é possível, sim, separar a vida pessoal da profissional; e, claro, dá para ter duas contas no twitter. Essa história de que jornalista tem que ser jornalista 24 horas é a base do sistema de exploração trabalhista que obriga repórteres, em todo o Brasil, a trabalhar sem hora extra, ser incomodado nas férias e interrompido nos fins de semana, como se fossem cirurgiões de guerra. Também é responsável, na outra ponta, por estimular jornalistas que se tornam escravos de si mesmo, ao ponto de, mesmo em festas de crianças e batizados de bonecas, passarem todo tempo molestando alguma fonte infeliz que calhou de freqüentar o mesmo espaço.

A interdição imposta aos jornalistas pelas empresas de comunicação tem servido, entre outras coisas, para a despolitização das novas gerações de repórteres, instadas a acreditar que são meros repassadores de notícias e tarefeiros de redações. Desse triste amálgama é que surgem esses monstrinhos entusiasmados com teses fascistas, bajuladoras profissionais e bestas-feras arremessados sobre o cotidiano como cães raivosos, com carta branca para fazer, literalmente, qualquer coisa.

Não causa mais estranheza, mas é sempre bom expor o paradoxo dessa posição da ombudsman, que não é só dela, mas do sistema na qual ela está inevitavelmente inserida, desde que o pensamento reacionário e de direita passou a ser bússola fundamental da imprensa brasileira. Digo paradoxo porque o mesmo patronato que confunde, deliberadamente, liberdade de expressão com liberdade de imprensa, para evitar a regulação formal da atividade midiática, é esse que baixa norma sobre norma para impedir seus funcionários de se manifestarem no ambiente de total liberdade das redes sociais, notadamente o Twitter e o Facebook. Não o fazem, contudo, por zelo profissional.

Essa interdição visa, basicamente, evitar que os jornalistas opinem, publicamente, sobre a própria rotina e, assim, exponham as mazelas internas das corporações de mídia. Ou que expressem opiniões contrárias à de seus patrões. Foi assim, por exemplo, no caso da bolinha de papel na cabeça de José Serra, na campanha de 2010. Aquela farsa ridícula foi encampada, sem nenhum respeito ao cidadão consumidor de notícia, por quase toda a imprensa, por imposição editorial. Diversos colegas jornalistas, alguns que sequer conheço, me mandaram mensagens (um me abordou numa livraria de Brasília) implorando para que eu tratasse do assunto nas redes sociais. Todos me informaram que seriam demitidos sumariamente se contestassem, no Twitter e no Facebook, a tese patética do segundo ataque com um rolo de fita crepe. Todos, sem exceção.

A ética do jornalista é a ética do cidadão, dizia um grande jornalista brasileiro, Cláudio Abramo, aliás, responsável pela modernização de O Estado de S.Paulo e da Folha, nos anos 1960 e 1970. Portanto, nada mais natural que tenha o jornalista os mesmos direitos do cidadão, aí incluído o de se expressar. Impedi-lo, sob um argumento funcional, de exercer seu direito de opinião e crítica é, no fim das contas, mais um desses sinais de decadência moral da mídia brasileira. E, claro, retrato fiel do que ela se tornou nos últimos anos.

Marco Aurélio Weissheimer, no Insurgente

O que define o discurso jornalístico? Já ouvi de mais de um jornalista experiente, não sem um misto de constrangimento e surpresa, que jornalista reporta, relata o que está acontecendo, como se tal operação fosse suscetível de um software que descrevesse a realidade de forma indiscutível. Quem já fez uma pauta jornalística na vida, uma só, sabe que isso não existe. Não há tal coisa como um relato objetivo de um acontecimento, com exceção de eventos banais que garantem a objetividade, não por sua característica, mas sim por sua relativa irrelevância: se o Chevette placas XX-4536 bateu num poste é possível sim descrever esse fato de forma objetiva, mas isso define o que seria um “discurso jornalístico”? O discurso jornalístico padece de uma arrogância cultural que talvez derive, em boa parte, de sua proximidade com o poder.

Há alguns filmes míticos sobre jornalismo e jornalistas que exibem um pouco as raízes dessa arrogância, filmes como Cidadão Kane (de Orson Welles) e a Montanha dos Sete Abutres (de Billy Wilder). Há tentações profundas que acompanham o trabalho jornalístico: a busca do “furo” a qualquer preço, a pretensão da exclusividade, a sedução do poder que é tão mais forte quanto mais perto dele se está. A combinação dessas tentações com o mito do relato objetivo produzem monstrengos dos mais variados tamanhos e naturezas. A transformação dos veículos de comunicação em grandes corporações só vem agravar esse quadro, com a consequente transformação dos e das jornalistas em empregados que não se reconhecem como tais. Quando transformados em celebridades, então, a situação só se agrava.

Texto que sera apresentado no ALAS e que foi feito por mim e pelo Rafael Evangelista.

Introdução
Esse artigo procura lançar um olhar sobre os novíssimos cercamentos aos bens imateriais. Considera-se que duas dimensões contemporâneas – as tecnologias e as leis – operam no sentido de frear e/ou controlar as trocas simbólicas no ambiente, ainda comum, em que tais bens são gerados. Ambos os processos estão na base dos arranjos monopólicos contemporâneos de produção de informação, cultura e conhecimento e expressam tanto num plano estrutural quanto num plano superestrutural a desigualdade das condições de participação e dos recursos de produção midiática. O artigo procura também refletir como projetos distintos para a circulação desses bens procuram controlar ou incentivar esses fluxos, disputa que se refletiu na recente re-orientação da política posta em prática pelo Ministério da Cultura do Brasil.

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