Colonização, imigração e exploração são aperitivo pra o que vem aí segundo Gilberto Cocco
Luiz Carlos Pinto | 28 de março de 2010 6:01Diego Viana
É provável que acabe passando em brancas nuvens, e será uma pena; mas afirmo que MundoBraz: O devir-mundo do Brasil e o devir-Brasil do mundo é um dos livros mais contundentes sobre os tempos que se preparam, para nosso país e nosso planeta, em meio a tanta badalação e tanto chute sobre a Terra Brasilis. De fato, Giuseppe Cocco, o autor, faz um exame anatômico do tema que tem feito a alegria de jornais ao redor do planeta e de políticos dentro do país: o lugar que o Brasil vai ocupar no mundo do futuro próximo. Rico ou pobre, poderoso ou frustrado mais uma vez, Cocco sustenta, com argumentos bastante bem assentados, que essa posição será no mínimo paradigmática.
Por que as brancas nuvens? Porque não é mesmo fácil se guiar no meio de tantas referências evocadas para sustentar a tese. É um corpo teórico que parte da filosofia e chega à antropologia, com paradas na sociologia e no urbanismo, no marxismo e na arte: Foucault e Oswald de Andrade, Simondon e Marx, Viveiros de Castro e Negri. Como a tendência corrente nos comentários de livros é de priorizar a quantidade, no lugar da profundidade, não duvide de que o argumento não seja enxergado e não ocupe o lugar que lhe cabe nos debates.
Asseguro que esse lugar é central. Temos visto, nos últimos tempos, toda sorte de comentários sobre a chegada do tempo projetado a que se destinava o Brasil, esse que sempre foi, pelo menos desde 1943, o país do futuro. Se a projeção era nossa sina, então, dizem os mais empolgados, ela se materializou como nosso destino. Provas? Temos a Copa de 2014, temos as Olimpíadas de 2016, temos um projeto de trem-bala, temos uma taxa de crescimento que pode chegar a 6%, temos uma indústria única de energia renovável (leia-se álcool). Temos uma série de cartas na mão; resta ver se não vamos deitar fora a canastra, como esperam os enfezados.
Falando em enfezados, temos ouvido deles, desde sempre, algo curiosamente próximo. O mundo está se “brasilianizando” – e os europeus têm termos parecidos: africanizando, terceiro-mundificando, toda sorte de neologismos depreciativos. Para esses, o mundo vai ficando parecido com o Brasil, de uma maneira nada apologética. Os países ricos estão virando uma bagunça, como o Brasil, eles dizem, e é por isso que se veem tantos mendigos em Paris, onde, por sinal, o metrô fede (lembrando-se que o metrô no Brasil não fede e a quantidade de moradores de rua, parece, vai pela descendente). Londres está cheia de moradias que parecem favelas… o sul dos EUA fala espanhol, ou “spanglish”, dá no mesmo… E por aí segue a cantilena. Tem também a versão racista, quer ouvir? É que, com a imigração, EUA e Europa estão cheios de árabes, asiáticos, africanos e latino-americanos (esses últimos somos nós). Ou seja, adeus idílio de um primeiromundo branquinho. Não vou começar a repertoriar esses argumentos, o próprio Cocco já faz isso muito melhor do que eu poderia fazer, com crítica e tudo.
Mas, como eu disse, o autor – que é franco-italiano mas vive no Brasil, onde ensina história e política na UFRJ – enxerga nesta nação sul-americana uma situação paradigmática para a configuração social e, por que não dizer, geopolítica do mundo no século XXI. Não é o papel de nova potência, nem de eterna dependência, nem de dominância, nem de subserviência; não é disso que se trata. No paradigma do século anterior, que envolvia Estados-nação fortes e bem delimitados, baseados muitas vezes em noções de raça mal disfarçadas, mas também envolvia uma forma de organização social e econômica que girava em torno de keynesianismo, fordismo, monetarismo e, vez por outra, fascismo, o Brasil era um país que se encaixava muito mal. Nunca tivemos homogeneidade suficiente para isso, mesmo que uma série de tacapadas tão dolorosas quanto ineficazes tenham tentado nos colocar em trilhos mais, digamos, ortodoxos.
Eis, porém, que a roda da história dá mais uma de suas voltas e nós nos encontramos em pleno processo de dissolução desse paradigma (disciplinar, para usar um termo de Foucault, mas isso já é outra história). Vai surgindo um mundo baseado em outras ideias: hibridização, miscigenação, colaboração, contribuição. Pois bem, o patinho feio do hemisfério Sul pode não ter se tornado exatamente um cisne, mas começa a grasnar por toda parte.
Essa metamorfose histórica não acontece por acaso, se é que alguma jamais aconteceu assim. Afinal, sempre esteve implícito nas análises da economia industrial-financeira (também conhecida como capitalismo, o que inclui a União Soviética, queiramos ou não), à direita e à esquerda, desde a teoria das vantagens comparativas de David Ricardo até a ideia de destruição criativa em Schumpeter, passando pelas análises do imperialismo de Rosa Luxemburgo e aos enganos do Tratado de Versalhes, que esse modo de produção avança e se desenvolve expulsando a miséria para o lado de lá de suas fronteiras, enquanto seu núcleo vai acumulando a riqueza e, claro, o capital, que nos fazem tão admirativos do dito primeiromundo. O fenômeno não é propriamente geográfico, porque as fronteiras do modo de produção que denominamos capitalismo podem ser encontradas em qualquer parte, sempre puderam. Mesmo assim, pode-se bem ver que, enquanto as classes inferiores européias e, mais tarde, americanas e japonesas começaram a ter poder de compra e uma opinião muito positiva sobre si próprias (a xenofobia não surgiu à toa, nada surge), o resto do mundo era transformado em campo de exploração, fonte de matérias-primas, depois trabalho, depois produtos que ninguém quer mais fabricar, e assim por diante.
Essa curiosa característica do sistema econômico que dominou o mundo nos últimos dois, quase três séculos (ou até mais, dependendo do ponto-de-vista) foi tornada explícita em obras como Império, de Hardt e Negri, justamente quando ela atingiu seu limite: não existe mais espaço para o lado de fora. Todas as fronteiras, étnicas, nacionais, econômicas, devem ser incorporadas ao sistema. Em outras palavras, a miséria, a alteridade e tudo aquilo que sempre esteve associado à ideia de um terceiromundo, a periferia global, bate à porta e inevitavelmente volta a se imiscuir com a pureza econômico-étnico-social do centro. Ele entra e se instala por capilaridade e não há outro jeito: é o imperativo operacional da economia contemporânea.
Daí o impasse verdadeiramente esquizofrênico das políticas de imigração nos países “centrais”. Ou a miséria entra, na forma de trabalhadores desesperados e estrangeiros, ou a riqueza sai, na forma de transferência de fábricas e tecnologias. O que tem acontecido, e vai continuar acontecendo, é ambos. E não adianta culpar nem os árabes, nem os terroristas, nem ninguém. O estágio atual do desenvolvimento econômico global é esse. Resultado: a geografia econômica e demográfica do mundo inteiro se torna parecida à do Rio de Janeiro, e não estou falando do Pão de Açúcar.
A propósito, menciono Negri e Hardt porque Cocco está associado à linha de análise deles; conceitos como multidão (não sei se é uma boa tradução para multitude, mas, em todo caso, eis o link para um texto imprescindível de Paolo Virno), comum e singularidade vêm e vão em seu vocabulário. Basicamente, MundoBraz confronta os movimentos do mundo e os caminhos do Brasil, para chegar à conclusão de que o que se fermentou no nosso país durante seus tantos anos de colonização, imigração e exploração foi algo como um aperitivo para essa ordem econômica que vai surgindo.
Assim, por exemplo, nossa questão racial, tão premente, se manifesta de maneira diferente do que é no antigo centro do imperialismo colonial (a Europa, leia-se) e também do que se pode observar no centro do imperialismo corporativo (sim, os EUA). Nossa desigualdade está nas esquinas, não nos passaportes. Nossa pujança está numa certa criatividade subterrânea que nossa própria postura subserviente insiste em sufocar. Pois é nisso que está se transformando o mundo, para o bem e para o mal. Antigas clivagens são não exatamente demolidas, mas mais propriamente dissolvidas, num processo de recriação das subjetividades que obrigará a humanidade, resistências à parte, a se encarar de outra maneira, mais nuançada e rica, salvo a intervenção de um desastre de proporções titânicas.
Esse processo sempre foi uma exigência no Brasil, país das clivagens sempre a ponto da dissolução, onde a arte sempre se ofereceu para fundir o morro e o Municipal, onde até o fascismo foi mulato, misturando o sigma de Homero com o anauê dos tupis acompanhando o gesto que os teutões incorporaram dos latinos. Como na realização de uma profecia, cabe ao país roer seus próprios arreios e assumir-se como paradigma do século que se abre. Se somos paradigmáticos, podemos então lançar uma hipótese: nossa capacidade de roer esses arreios, grande doença histórica do país, representará a capacidade do mundo inteiro de combater suas próprias grandes doenças históricas. É algo a observar. É, também, uma utopia pela qual vale lutar. Não para que nosso país se torne o próximo centro do mundo, o que, além de tolice, é impossível: os centros há muito são obsoletos. Mas para que o Brasil possa enfim ser o Brasil.
Nesse espírito, faço acompanhar este texto de um vídeo que resume, de certa forma, essa peculiaridade étnico-histórica do país; composta há trinta anos por um músico mineiro descendente de libaneses e espanhóis, cantada por uma de nossas maiores vozes:
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