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Archive for the 'Estética' category

Uma entrevista de Clarice Lispector

Luiz Carlos Pinto | 10 de dezembro de 2010 15:37

A gente se mete a escrever porque não sabe lutar boxe nem tem colhões para isso, porque tem os dentes tortos e não pode sorrir como gostaria, porque para os impotentes de todo tipo não há outro caminho, porque todos os feios escrevem ou assassinam e a gente não é capaz de matar nem uma mosca, porque escrever dá importância, porque para chamarem alguém de escritor não é preciso escrever bem, mas para chamarem de filho-da-puta não importa se sua mãe é uma santa, porque tem medo de ficar à deriva sem fazer nada, porque não pode beber toda noite, porque ama a Deus mas odeia as sociedades sem fins lucrativos, porque não tem namorada, porque não há emoções mas insultos, porque na sua casa não tem televisão e o rádio quebrou, porque a mulher do vizinho é gostosa, porque tem medo de ficar careca e por isso evita os espelhos. A gente se mete a escrever porque não se atreve a assaltar um supermercado, porque ama a mulher e ela é namorada do garoto esperto da rua, porque não há revistas pornográficas suficientes, porque quer fazer alguma coisa além de cagar e se masturbar, porque não é o garoto esperto da rua nem o garoto forte nem o engraçado, porque é o garoto nada, porque não vale um tostão furado, porque apanha lá fora, porque sua mãe grita o tempo todo, porque não há ilusões nem luz no fim do túnel, porque sua mãe grita o tempo todo, porque sua mente voa baixo e nunca será outro Cioran, porque não tem coragem para saltar, porque não quer a esposa feia que merece, porque tem medo de morrer sem ter comido um belo cuzinho, porque não tem pai, amigos, nem fortuna, porque não tem o jeito de cuspir do Clint Eastwood, porque se paralisa entre uma e outra intenção, porque era uma vez o amor mas eu tive que matá-lo.

Efraim Medina Reyes

parece sobre literatura, mas serve para outras coisas…

Seymor Bits

Luiz Carlos Pinto | 2 de dezembro de 2010 17:53

Where is my mind?

Luiz Carlos Pinto | 30 de novembro de 2010 22:11

Meu birô nos últimos meses

Dia desses vi um filminho muito interessante sobre a relação entre a forma de pensar criativamente e a forma de organizar sua área de trabalho – a forma como você organiza seus espaços estariam ligados à forma de organizar ideias, vontades, disposições, criatividade, etc. Lembrei desse vídeo por causa de meu birô (foto acima), minha área de trabalho em casa hoje. Nela, ainda que desfocada, uns livros, revistas, papéis velhos, remédio vazio, cordas de contra-baixo, material de ilustração – lapis e cadernos – um pote de iogurte, fiação do computador, de caixas de som e de eletricidade, uma capa de DVD com um DVD dentro, latas de metal que continham mantega e hoje contém outras coisas, óculos, baterias, um cinzeiro do Uruguay, um retrato de Vinícius. Na verdade, desde que terminei a tese ela vive assim, amontoada de uma desordem que eu nunca vivi. O velho birô, que eu comprei na Rua da Conceição uns anos atrás, anda abarrotado de coisas, e ideias, e carbono impresso, se derramando por todos os lados, vazando.

De modo que se por uma parte a finalização do trabalho me abriu muitas possibilidades, vários encontros, pessoas, afetos, processos etc, a verdade é que não tenho conseguido dar conta de praticamente nada. A exceção é o trabalho na Secretaria, que me toma o dia inteiro. Somente ele tô conseguindo fazer direito. E isso me deixa bem quebrado ao fim do dia.

Uma interação maior com a rede Metarec, sobretudo nas reflexões dos processos; a edição de um livro com o querido amigo Inácio a partir de uma boa ideia;  uma agenda de trabalho/estudo visando os concursos que virão por aí; dedicar um pouco mais ao Grupo de Estudos de Educação para o qual o querido Rui me convidou; e as mais recentes possibilidades de trabalho conjunto com Pajé, Pixies, Thais, Ruiz e Djahdjah depois do Fórum de Cultura Digital; além da chamada para ‘ invadirmos’ a SBS também entram nessa conta. São só algumas das coisas mais recentes que não tem andado. O próprio Fórum já vai em duas semanas, o Encontro Metarec no Recife, vai completar uma semana, sem que eu tenha conseguido fazer e postar nenhum relato.

Toda essa romaria de coisas iniciadas e não finalizadas, uma inflação de informação me cercando, a dificuldade de concentração nos projetos que surgem  e nas possibilidades que se abrem têm me dado a impressão duma estagnação danada – física, mental, espiritual. Queria me convencer de que esse day after prolongado pós entrega de tese acontece com todo mundo.

Mas não sei não.

Ao lado disso tudo tenho andado muito cansado. Por um lado, tô precisando parar 20 dias que seja – o corpo tem dado sinais de que é também um calendário. Por outro lado é engraçado isso. A impressão do cansaço no corpo, que resiste mais hoje em dia às intencionalidades, é muito clara. O que é outra forma de perceber o envelhecimento. Antes, eu achava engraçado quando alguém dizia ‘não sou mais um garoto de 22 anos’. Hoje essa frase é mais próxima do que antes.

E há outro cansaço me rondando. Mas desse é mais difícil de falar, porque é intangível. Cansei daquilo que me toma o tempo por ser mentira, por ser hipocrisia, mise en cene (assim que escreve?) e tô abrindo mão sempre que puder de conviver com essas forças…

Daqui uma semana faço 38. Acho que já deveria ter aprendido a contornar certas coisas, como a frustração de não poder me dedicar integralmente àquilo que me interessa e viver disso – e muito mais. Ou saber evitar os pulhas que sempre aparecem pelo caminho. Ou saber dizer NÃO mais vezes. Ou saber dizer SIM mais vezes ainda. Talvez viver seja isso, a procura por limpar sua área de “trabalho” constantemente, sem fim, descartando os pulhas de antes, de hoje e do futuro; re-colocando prioridades; aprender a usar outros vocabulários e aprender a se curar com eles… E no fim e durante, aprender a fazer o amor.

Egon Schiele

Luiz Carlos Pinto | 30 de outubro de 2010 12:00

Paul Devaux

Luiz Carlos Pinto | 29 de outubro de 2010 23:19

Foi preciso eu ver uma segunda vez para gostar de Inception. Na verdade, gosto cada vez do filme desde que passei a ler e aprender com os textos disponíveis na internet. Em particular, essa interpretação junguiana do enredo e dos personagens me mostrou a(s) história(s) dentro do filme. Também é imperdível essa análise, que contém uma hipótese do que realmente acontece e de quem realmente está inserindo uma ideia e na cabeça de quem. Ainda que sejam viagens muito distantes do que pretendia o diretor Christopher Nolan (e acho que não são) são interpretações muito válidas e que deixam o filme ainda mais interessante.

Para mim, o que mais chamou a atenção logo de início é a proximidade com Matrix. O que é na verdade expressão da proximidade com uma filmografia que é ancorada na cibercultura. Gosto dos quatro principais sentidos dados ao termo cibercultura: a) a cibercultura como projeto utópico; 2) a cibercultura como interface cultural da sociedade da informação; 3) a cibercultura como práticas culturais e estilos de vida (uma noção propriamete antropológica) e 4) a cibercultura como uma teoria da nova mídia.

A primeira é a dimensão mais ficcional da cibercultura, vinculada aos autores e obras que surgiram quando da emergência do conceito. Há uma idéia de regeneração futurística da sociedade a partir das tecnologias da informação e comunicação.

O segundo aspecto entende a cibercultura como uma interface (eminentemente visual) entre tecnologia e cultura. É aqui que informação é visto como um código capaz de dar conta de toda a realidade – dos sistemas informáticos aos sistemas vivos. Erick Felinto: “A metáfora computacional implica uma tradução de toda a realidade em dados numéricos, em informações capazes de serem lidas e interpretadas pelos sistemas digitais”.

O terceiro sentido do termo cibercultura refere-se ao que se entende como expressão das formas de vida, práticas e problemas antropológicos ligados às tecnologias digitais. Arturo Escobar diz que a idéia fundamental é que as tecnologias fazem surgir um mundo. Erick Felinto escreve que “essa vertente ‘antropológica’é talvez a que mais se preocupa, de fato, com o tema das biotecnologias (e consequentemente com tópicos como os do ciborgue e do pós-humanismo). Mas também é em seu âmbito que se situam as investigações de cunho etnográfico, dedicadas a analisar comportamentos e interações sociais em fóruns de discussão ou chats na internet. (…) É essa compreensão da cibercultura que dá relevo, precisamente, à dimensão cultural dos fenômenos tecnológicos”.

Finalmente, o quarto sentido é o que associa o termo cibercultura à teorização das tecnologias informacionais. Macek explica: “a cibercultura é profundamente auto-reflexiva, pois as teorias são parte de suas narrativas (ciberculturais) e essas narrativas então vêm inspirar teorias emergnetes”. Ou seja, a cibercultura é objeto de conhecimento e ao mesmo tempo um saber do contemporâneo.

A VIRTUALIZAÇÃO DA VIDA

Acho que o filme possui elementos dos quatro aspectos acima. O que mais me chama atenção é o último, porque abre as portas para o ponto de encontro das obras de ficção com os discursos, conceitos e teorias do social e das ciências naturais. Ou seja, a aproximação entre ficção e teoria, na qual a primeira tematiza a segunda.

Nesse sentido da cibercultura, a ficção científica passa a ser um elemento importante dos estudos culturais sobre a sociedade tecnológica. Nossa sociedade tecnológica vem criando espaços, plataformas, serviços, experimentos, produtos, experiências que apontam para a virtualização da experiência da vida. Seu desprendimento no tempo e no espaço.

E no meu entendet Inception aponta para uma virtualização desse nipe, se pensarmos na experiência compartilhada do sonho que pode ser programada, arquitetada racionalmente. É interessante observar que existe uma economia da manipulação do inconsciente, formado por um mercado, pela formação de pessoas com essas habilidade, com treinamento, etc que, não sendo muito explicita no filme, eu gostaria de ver mais explorado. Não por acaso, um dos profissionais fundamentais nesse mercado é o do arquiteto, que lida com a construção não de outra coisa, mas de informação.

Acho também que o filme vai além da perspectiva da teoria cibercultural que trata preponderantemente das tecnologias da informação, dando não muita atenção à biotecnologia – o caso de Matrix, onde a experiência da consciência compartiulhada é possível por meio da conexão á máquina, no caso à Matrix. Inceptioné feliz em mostrar que a conexão do subconsciente dos personagens é mediado por drogas, bem líquidas. A conexão em Matrix entre os personagens é medida pela máquina e acontece na máquina, embora seja também ali uma experiência virtual compartilhada.

Embora eu tenha gostado muito de Inception – e particularmente de toda a bem urdida simbologia, ver links acima – fiquei meio decepcionado pela forma como o subconsciente dos personagens foi representado. Ele é um terreno passível de uma intervenção psíquica de tal modo que aceita construções e razões lógicas – construidas conscientemente.  Meu conhecimento das teorias da psiquê são poucas, tá certo. Mas mesmo assim isso me pareceu meio furado, uma vez que o subconsciente está mais para uma torrente incontrolável.

Aquela cena do trem desgovernado pelo centro da cidade é o que mais se aproxima da imagem que eu tinha (tenho) do subconsciente. Mas, novamente, o roteiro tem lá uma explicação, digna diga-se de passagem: o espaço do subconsciente onde ocorrem as atividades descritas no filme são criadas sob a proteção de um labirinto, que afasta as proteções naturais do subconsciente dos  ‘invasores’. Não fosse assim não haveria filme. E é essa uma das razões que dota Ariadne, a arquiteta, de posição tão importante na trama.

AS EXPERIÊNCIAS MENTAIS COMPARTILHADAS E O CINEMA RECENTE

Não tem sido poucas as tentativas recentes de transportar para a ficção esse elemento de compartilhamento da experiência mental – sobretudo no cinema. Um dos primeiros filmes de que me lembro é Cidade das Sombras (Dark City). Não é um grande filme, mas antecipa em 1998 de forma muito legal a vida compartilhada e escravizada que é mostrada em Matrix.

Dark City foi dirigido por Alex Proyas


Além de matrix, claro ainda houve A Cela. Embora não tenha a elaboração do roteiro de Inception, penso que é um filme em que o subconciente é mais crível. É um filme em que o visual é a principal senha para mostrar o desvario da mente de um assassino e mesmo dos desejos dos mocinhos. Vale mais pela forma como esse subconsciente é interepretado pelo diretor.

O figurino de A Cela é de April Napier

Mais recentemente foi Bruce Willis que protagonizou um desses filmes (Surrogates). Confesso que não vi, mas pelas descrições não parece ser grande coisa, nem se afastar da idéia de um ambiente virtual ou virtualizado compartilhado por várias mentes, conectadas entre si por um serviço que só funciona por causa de uma tecnologia avançadíssima.

A SUPRESSÃO DO DELÍRIO COLETIVO

Para finalizar, o que me parece mais falho em Inception, e por continuidade, em todos esses filmes (exceção a A Cela) é a supressão do delírio que uma experiência coletiva da percepção poderia gerar – ao menos em termos estéticos – na tela do cinema. Isso é ainda mais evidente em Inception, quando o ambiente compartilhado é o sonhar, aquele terreno governado por Morpheus – personagem cuja tradução mais marcante no mundo pop é aquela da série escrita por Neil Gaiman.

Sonho (Dream) e Morte (Death), dois dos Perpétuos, da premiadíssima série Sandman, publicado no Brasil pela Globo e pela Panini

Sonho (Dream) e Morte (Death), dois dos Perpétuos, da premiadíssima série Sandman, publicado no Brasil pela Globo e pela Panini

Aliás, não é à toa que corre há anos o boato da produçao do filme sobre o Sandman e seus irmãos.

A supressão do delírio, explícito em A Cela; tecnificado em Matrix e em Surrogates; tímido em Inception; me parece uma limitação tanto das teorias da ciberculturas, quanto da apreensão pelas produções, do aspect0 mais erótico do mundo subconsciente.

Talvez seja essa a pergunta que ainda não tenha sido feita às otimistas e às pessimnistas visões das técnicas de subjetivação coletivas: qual o lugar da loucura nesse velho novo ambiente que vocês criaram?