Archive for the 'Investigações paralelas' category

O Pintinho: http://opintinho.tumblr.com/

Existe alguma coisa de improvável na escrita de uma tese. Esse nome que a pompa da academia resolveu dar em algum momento ao resultado de uma investigação, que é feita com certos pressupostos e dentro de algumas regras – como aliás, toda investigação é feita. A improbabilidade é mais real, palpável e cheirosa entre a metade e o término do tempo que lhe deram: uma costura de impossibilidades que o sujeito tem que chamar de ‘meu trabalho’ é um fio tênue com o qual se agarra o doutorando e, de fora, nada parece que vai se arrumar.

É claro que isso ão é geral. Assim como esse blog não se pretende geral, nem eu sou geral. No geral, ninguém é geral para ninguém. E o geral em geral é ‘em  geral’… Mas tergiverso.

O fato é que aquela arquitetura que ao final parece tão fechadinha, tão bem resolvida, como os sociólogos que parecem ter nascido sociólogos, esconde uma cadeia de gambiarras, de maquinações, de solvências, de mapas, arranjos, planos, rampas, estiligues, cordas de nylon, baldes, tintas, relógios, alçapões, pianos e violinos, bigodes e escaramuças, vontades e dormências, um jogo de dominó que não acaba durante quatro anos, botinas, macacões de trabalho, óculos de proteção, martelos, pregos, serrotes, machados, alicates, fios, pêndulos, roldanas, pontes, aritmética e álgebra e um pouco trigonometria.

Quando do meio pro fim você percebe que é possível tirar alguma melodia desse entulho de possibilidades, quando finalmente você vê ali no fundo uma possibilidade de que a peça se estique até o arco e dispare um solfejo colorido; quando você finalmente vê que poderá logo logo tomar uma cerva no sábado à tarde sem culpa, você enche o peito de novo e diz:

Ok, go.

Esse blog entra agora de férias por tempo determinado.

Hoje é maio, dia 3, amanhã é dia 4. Próximo mês é junho e já teremos passado cinco meses do ano, quase metade de 2010 terá ido embora. Ando escrevendo pouco por aqui, talvez porque ande escrevendo muito na tese, talvez por falta de paciência, talvez por achar que já tenha muita informação poluindo o ambiente, chegando às pessoas sem que elas possam impedir. Talvez eu tenha resolvido dar minha contribuição em não produzir nada de novo, o que é fácil em se tratando desse blog.

O fato é que comecei a escrita do derradeiro capítulo da tese, que não é o último. É o terceiro. A luta vai ser pesada, porque teoricamente esse é o capítulo em que o sujeito tem que abrir a caixa de ferramentas e mostrar e justificar porque usou um prego de 12 polegadas e não de 10 polegadas, porque usou uma marreta pra quebrar uma porta e não uma chave para atravessá-la. Porque enfim fez certas escolhas e não outras…

Não quero mais atrasar a entrega e a defesa. Acho que cansei mesmo desse trabalho e suspeito que vou passar pouco tempo gostando do resultado final. Paciência.

Nessa reta final o que mais me tem incomodado é a vontade de fazer coisas diferentes, partir pra outras atividades. Algumas delas inclusive por causa da pesquisa, que me mostrou que eu andava perigosamente me agarrando a um mundinho bem restrito e isso é bom.

É a ansiedade que me deixa incomodado em não poder fazer logo. Paciência.

Também vi como me afastei de meus amigos, tanta gente que eu gosto e que gostam (ou gostavam) de mim. Saudade é ruim. Nesse ponto não sou romântico.

Muita gente me diz que depois de finalizado, entregue e defendido a tese deixa um vazio no sujeito. Vai ver eu ando sentindo esse vazio desde já.

Dragon

Luiz Carlos Pinto | 1 de maio de 2010 21:07

Por Fabiana Moraes, no Suplemento PE

O chá, os sequilhos e a geléia disseram adeus e deixaram um vazio no coração do bairro das Graças. Da porcelana branquinha, repleta de miúdas flores azuis, existe um ou outro exemplar na cristaleira. A casa grande, com oito quartos, foi vendida com todos os móveis dentro (“Parece que foi R$ 500 mil”, diz o guardador de carros que passa o dia sob uma árvore na rua das Pernambucanas). Perto, um solar cheio de eiras e beiras deu lugar a um edifício marrom. Quem prestar atenção ainda encontra no chão os trilhos dos bondinhos que circulavam por ali, onde a Pernambuco Street Railway Company, com seus bondes puxados a cavalos (chegaram em 1883) acabou se rendendo à modernidade dos veículos elétricos da Pernambuco Tramways (a novidade chegou em 1915). Sem chá, finas xícaras e moças usando finas rendas enquanto observavam o progresso passar, o que restou dessa antiga freguesia que em 1872 contava com 4.511 orgulhosas pessoas livres e 922 escravos Apenas ela, a querida Casa dos Frios.


Erguido há mais de 50 anos, esse verdadeiro oásis do bem-estar não resume, observe, suas prateleiras abarrotadas de antepastos e vinhos do Dão ao clichê de ponto turístico. Se aquele bolo que não ouso dizer o nome – aquele, enroladinho, feito de pão de ló, recheio de goiabada – foi também responsável pela promoção destas terras em escala extra-estadual, ele, ao mesmo tempo, causou certa popularização de um canto onde se reuniam, ainda que timidamente, os saudosos donos da porcelana branquinha. De repente, no corredor das massas caseiras, perto do balcão que exibe o incomparável queijo de cabra (fromage de chèvre, prefere o gourmet) encontravam-se os amigos cujos avós banharam-se num outrora limpo rio Capibaribe. A alegria de encontrar aqueles que pertencem e sempre pertenceram a um círculo prestigioso e feliz, no entanto, foi de alguma maneira maculada pela invasão de curiosos atraídos pelo bolo que não ouso dizer o nome. Ah, se eles soubessem que há tantos outros segredos naqueles becos cheirosos onde o gourmet sente-se finalmente feliz ao encontrar o seu arroz selvagem preferido, o chardonnay inebriante, os delicados filamentos de açafrão…

Na verdade, a circulação de donos de sobrenomes e cores mais comuns entre a antiga população de 922 escravos do que entre as 4.511 orgulhosas pessoas livres ocorre para além das paredes da Casa dos Frios. Lá fora, no entanto, é mais fácil encontrá-los ocupando-se de funções como a do nosso citado guardador de carros da Rua das Pernambucanas. Há também a senhora que assa tapiocas pertinho da Igreja de Nossa Senhora das Graças, padroeira do bairro; há os meninos que brincam e pedem uns trocados em frente a pequena padaria de onde sai o cheiro reconfortante de pão no fim de tarde. Há também um ou outro morador atraído pelo charme dos prédios antigos, de encanamento ruim e aluguel possível. São eles que também, talvez se sentindo em casa, vão até a nossa delicatesse-símbolo em busca de algo mais gostoso e menos ordinário. Chegando lá, percebem um ou outro olhar não acostumado à face do “novo visitante”, o olhar daqueles cujos avós banharam-se num outrora limpo rio Capibaribe.



Mas nem tudo é tristeza: alguns dos novecentos e poucos misturaram-se de fato aos quatro mil e tantos, multiplicaram-se em termos de população e todos observaram, felizes, a
pesquisa onde se via que o agregado dos bairros residenciais Graças/Aflitos/Derby/Espinheiro estava no segundo lugar no ranking de áreas mais ricas da cidade, com índice de 0,953. É preciso frisar que nesse atual bolo (respeitando a tradição açucareira de nosso Estado) a proporção de participantes daqueles novecentos e poucos e a outra, a dos quatro mil e tantos, se mantém. A receita leva bem mais leite do que chocolate. Essa gente hoje passa com seus carros, ora levando a caixa azul do bolo comprido, ora os vinhos do Dão, por cima dos trilhos dos antigos bondes da Street Railway Company e da Pernambuco Tramways: 87,6% dos moradores das Graças/Derby/Espinheiro têm um. É a maior proporção por habitante no Estado.

Talvez isso explique a necessidade de os belos modelos, alguns importados, pararem na pequena praça reservada aos pedestres localizada em frente a nossa querida Casa. Talvez explique o engarrafamento em frente ao histórico Palácio dos Manguinhos, aquela gostosa confusão que a gente se acostumou a ver no início da manhã ou no comecinho da noite. Mas é preciso considerar. Muito já foi perdido e é necessária alguma leveza, tanta quanto a da massa do bolo com goiaba. Deixem os carros bonitos sobre a praça, que os pedestres caminhem pelas  históricas ruas. arborizadas, beleza que certamente é maior que um ou outro esgoto estourado ou a enorme quantidade de cocô deixada pelos cãezinhos  vestidos com blusas de time.  É preciso, sempre, abrir passagem para aqueles que procuram alguma paz nas prateleiras da Casa dos Frios.

REFERÊNCIAS:

Feito por Nando Costa, designer brasileiro que trabalha nos Estados Unidos.

If the internet has taught me anything it’s that, from the right perspective, anything can become fascinating. It’s a particular sort of alchemy comprised of varying parts talent, ingenuity, and obsession. Blogs are full of such inanities turned art projects; thousands of words devoted to even the most banal activities. Sites like YouTube are littered with such exercises in elevating the everyday, such as the one shown here in which gentleman goes about shining a shoe. Never uttering a word, the viewer is instead treated to a series of precise movements set to a soundtrack of clinking, tapping, rattling, and scratching. It is almost disturbingly riveting.

via Dark Roasted Blend

Vale uma reflexão mais apurada da relação entre os ambientes digitais em rede e as represesentações do cotidiano. Mas sem tempo agora. Fica para outro post, noutro dia…

Alexa Salomão e Gustavo Poloni, do iG

No começo de abril, 60 operários darão início a uma obra num terreno de 220 hectares em Tauá, município de 17 mil habitantes localizado no sertão cearense. O trabalho promete ser duro. Distante 340 quilômetros do mar, Tauá ganhou fama por ser o lugar com a maior incidência de sol entre os 184 municípios do estado. Por causa dessa peculiaridade, em pouco tempo a cidade será conhecida também por abrigar a maior fazenda de energia solar da América do Sul, a segunda maior do mundo. A produção começa até o final do ano, mas a princípio será modesta: apenas 1 megawatt, suficiente para abastecer duas mil pessoas. Até 2013, esse número deverá chegar a 50 MW, gerando energia capaz de iluminar uma cidade de 100 mil habitantes. Idealizada pela MPX, do grupo EBX, do empresário Eike Batista, o projeto piloto da fazenda vai atrair investimentos de US$ 250 milhões para a região. Mais importante, vai ajudar a consolidar o Ceará como a capital nacional da energia limpa e referência internacional em crescimento econômico sustentável.

Essa é a nova face do desenvolvimento nordestino. Indicadores macroeconômicos mostram nos últimos anos que a região tornou-se um dos mais dinâmicos pólos de investimentos e de consumo do País, movido principalmente pelo aumento da renda. Segundo o IBGE, o rendimento médio do nordestino aumentou 77% entre 2003 e 2008, enquanto o aumento médio da renda no Brasil foi de 60% no período. As pesquisas e seus números, no entanto, não captam que as transformações locais vão muito além do clichê divulgado no Sudeste que fala do aumento nas vendas de potes de margarina e de iogurte e da ridícula caricatura da troca do jegue pela moto como veículo de transporte. A emergente economia nordestina é marcada pela criatividade, pela inovação e pela geração de novas tecnologias. Ao contrário do senso comum, que acredita ser o dinamismo monopólio do Sul, ilhas de excelência pipocam na região e colocam a economia local em linha com o que há de mais moderno no mundo e, em alguns casos, à frente do resto do Brasil. O parque de energia solar que brota sob o sol escaldante do sertão cearense é apenas um dos sinais de que Nordeste não apenas cresce, moderniza-se.

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