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Archive for the 'Investigações paralelas' category

Jampa, no jampapernambuco

Em dezembro de 2009 o sociólogo francês Bernard Lahire estava em Recife. Visitava a UFPE a convite do Núcleo de Pesquisa Sociedade, Cultura e Comunicação, coordenado pela professora Lília Junqueira. Na mesma época, Fabiana Moraes havia acabado de finalizar seu trabalho sobre os sertões. Naquela ocasião tive a oportunidade de jantar com os dois. Conhecia Fabiana, mas não o seu trabalho. O melhor naquele agradável jantar foi ter percebido o seguinte: em Recife,  havia essa jovem jornalista que se inspirava na sociologia para fazer seu trabalho de reportagem. Tratei de acompanhar mais o que a moça fazia. E não muito tempo depois fiquei sabendo que os ”retratos sociológicos” que ela havia pintado (linkado acima) lá do sertão lhe dariam um prêmio importante no jornalismo brasileiro…

Escrevo esse texto movido por minha convicção pessoal de que Fabiana Moraes me ensina e motiva muito em sociologia. O jornalismo dela me ajuda a manter o prumo sociológico. A recente publicação no youtube de um depoimento acusando-a (ver aqui) de ser ”falsa” e homofóbica”  revela, a  meu ver, um pouco mais desse lado sociológico dessa incrível jornalista. Meu sonho era não apenas ser aceito e entrevistado por Fabiana Moraes. Meu sonho, era ser sociólogo como Fabiana é jornalista, escrevendo sobre o sonho de Luisas Marilacs e afins.

Digo essas coisas porque acredito que só quem trabalha se confrontando de maneira direta com o mundo social pode sentir as tensões e contradições desse mundo na pele. Digo melhor, só com esse tipo de trabalho se pode sentir na pele o que é ser um investigador do mundo social,  um pesquisador-sociólogo.  Essa é umas das características da sociologia que coloca o estudioso numa posição social crítica: o sociólogo, talvez mais do que o historiador e o antropólogo, trabalha e interpreta a sociedade da qual ele faz parte. Por essa razão, o pesquisador é levado a enfrentar uma condição particular: a que o induz a ser frenquentemente questionado, diga-se, a qualquer momento, pelo que diz a respeito daquilo que as pessoas disseram. E, mais importante, é questionado pelo que diz a respeito do que o entrevistado(a) disse a respeito de si própio(a).

Questões do tipo: quem é você para saber mais da minha vida do que eu, que a vivo?, podem ganhar várias versões e correspondem a tradução reativa da relação tensa produzida pela construção da narrativa sobre o outro no presente. No caso entre Luisa Marilac e Fabiana Morais a interpretação intelectual da palavra “aceitação” precisaria de uma mediação menos imediata que a reativa. Como Luisa Marilac leu o artigo O sonho de ser aceita, de Fabiana Moraes? Que uso do “ser aceita” fez ela para disparar tamanha virulência contra a jornalista? No  meu entender, a resposta violenta no youtube traduz ao mesmo tempo algo daquilo que Fabiana quis ressaltar ao escrever a matéria e Luisa Marilac refutar ao agredir a jornalista: o mecanismo de defesa (no sentido de ser um verdadeiro recalque, em significado freudiano)gerado por anos de esforço de autoaceitação.  Sei que houve um problema de interpretação. E que a própria violência presente no mundo social é parte da explicação para tamanha incompreensão. Não deixa de ser interessante, porém, essa pergunta que fica do trabalho depois da reação por ele criada: pode-se exigir de Luisa Marilac uma leitura mais antenta( menos reativa) e  raivosa do texto?

Não sei. O que sei é que continuo a admirar Fabiana Moraes. Aliás, admiro-a mais e mais a cada trabalho. Porque de sua coragem e ousadia, que nos faz conhecer mais sobre mundos que não ousamos sequer falar em nosso dia-a-dia, eu encontro lições para continuar acreditando em jornalismo sério, principalmente quando ele tem tanta cara de sociologia. De boa sociologia, diga-se.

Atualização: para entender melhor o que aconteceu Lula (aqui) contextualiza o caso e coloca os links sobre o extraordinário trabalho de Fabiana vem fazendo sobre o assunto. Acho que o texto do Soy Louco explica melhor também o que chamei de atitude reativa, de recalque.

No dia 28/5/2011 Fabiana Moraes publicou um texto entitulado “Luísa Marilac e o sonho de ser aceita” (confira AQUI ), por ocasião da passagem da transexual pelo Recife e que é efeito de sua súbita notoriedade por causa de vídeos como esse. À primeira vista, Luísa não gostou do texto, embora se refira somente ao título da reportagem no vídeo que postou reclamando que não precisava ser aceita. No mesmo vídeo, ela acusa Fabiana de homofobia e em seguida desce um bocado a ladeira. A reação imediata, como Lola bem adjetivou, foi de manada. As pessaos que a seguem no seu canal no Youtube e na sua conta do Twitter replicaram, sem aparentemente ler o texto, as acusações e a série de baixarias a Fabiana, indo às raiais da ameaça. Em seguida, o Jornal do Commercio emitiu uma nota, que pode ser lida aqui.

A matéria foi dedicada a Patrícia Gomes, vice-presidente da Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans), que havia falecido recentemente. Mais que isso, o trabalho se alinha coerentemente com outros que Fabiana já havia feito e que tocam a questão básica a que se dirige à luta pelos direitos da população LGBT: no final das contas, a batalha é pela garantias de direitos humanos. Se você chegou agora sem saber muito bem desses outros trabalhos, vale à pena dar uma olhada no Especial duplo Joaquim Nabuco e no Especial O nascimento de Joicy. E entender, assim, a reação descabida de Luísa e seus seguidores.

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Há uma certa tristeza nessa reação. Minha impressão, mais ou menos como escreveu lá o Flávio Alves, é que ela tá relacionada a uma série de violências sofridas, de restrições, exclusões impostas às pessoas ou a parceiros, parceiras, parentes, próximos e/ou distantes. A falta de atenção com o texto em si, que em sua precisa ternura se coloca contra essas violências, é em parte reflexo do estado de atenção armada gerada pelas violências à condição LGBT – violências no dia a dia, na política policial do cotidiano na escola, na família, no trânsito, no trabalho, etc., etc., etc.

Mas a tristeza maior é perceber que essas violências, que geram indelicadezas como as que se viu contra Fabiana são, na base, violências à condição humana. A reação de Luísa se vincula a uma condição humana, sua condição, e de milhares de outras transexuais que não são aceitas pelo status quo – político, econômico, simbólico, etc. Isso precisa ser dito.

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Por outro lado, toda a onde de fúria e descuido e grosseria que se viu são também expressões de um tempo sem tempo em que vivemos. Do repassar pra frente a opinião de quem você confia ou admira, sem pensar muito, sem criticar, sem ler a entrelinha. O histórico de mágoas e ressentimentos e lembranças pessoais e coletivos não pode ser uma desculpa ou explicação para a burrice. E não por acaso, nos primeiros dias que se seguiram ao tresloucado vídeo de Luísa Marilac, várias pessoas passaram a ler com mais atenção o texto de Fabiana e a se posicionar com mais racionalidade.

Um tempo líquido, uma prática cotidiana líquida, uma atenção líquida, para usar a surrada  expressão de Bauman, só pode gera uma coisa: cocô líquido, para usar uma conhecida expressão de Wu Ming.

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Outros aspecto que precisa se observado é que, em face à decadência do jornalismo comercial, do grosso do modus operandi industrial de produzir o que se convencionou a chamar de ‘notícia’, o trabalho de Fabiana mostra a ainda relevância da última das profissões românticas. É por essa razão, é por essa relevância, que quase naturalmente o profissional se expõe mais e foi isso o que também aconteceu.

Nos últimos anos, os especiais e as reportagens individuais de Fabiana não a expuseram somente ao combalido mercado jornalístico nacional, mas também à leitura vesga como a de Luisa Marilac (será que ela leu o texto?); à leitura homofóbica (a reação à defesa dos direitos humanos que se encontra em todos esses textos já poderia ter gerado reações mais preocupantes desses grupos); às interpretações hipócritas das bancadas religiosas (que só têm dado provas de sua tacanhice política e do descompromisso com o bem público).

É por essas últimas razões que os textos de Fabiana se reveste do poder de suscitar o debate público de interesses gerais – coisa que está na origem histórica do jornalismo. E essa poencialidade no Brasil é mais que necessária, pois em nosso país as principais discussões da vida pública historicamente foram e ainda o são decididas de forma não transparente, à guisa das trocas e dos favores e dos previlégios – mas essa é quase outra história que fica para outro dia, noutro post. Também fica pra outro dia algum texto sobre a arte da aceitação.

O vídeo lá em acima é a última das reações de quem se indignou com todo esse processo.

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É por aí…

Tá pra completar um ano uma experiência arriscada que resolvi encarar desde a metade do ano passado. Resolvi procurar desenhar e ilustrar, mais na raça e na vontade do que recorrendo a talento e técnica, duas coisas que eu desenvolvi muito pouco – vale outro post, outro dia, o acidentado aprendizado de tocar baixo elétrico que também tá rolando. Essa ‘experiência’ ainda que meio arriscada em pouco tempo deixou de ser algo externo e estranho para mim e se instaurou como uma coisa natural. Desde sempre gostei de ilustração, de narrativas gráficas, de quadrinhos, arte sequencial. Em Arcoverde era mais comum ler as edições da Panini do que acompanhar a programação da Rede Globo, que só era integral nos dias de domingo.

De repente, no ano passado, eu me dei conta que as narrativas gráficas sempre estiveram presentes na minha formação, no entendimento das formas com que era possível se comunicar, exprimir isso ou aquilo. De modo que o ‘arriscado’ é relativo. A vontade de desenhar também apareceu no contexto de outras coisas: o fechamento a que me impus para terminar a tese, por um lado – o desenho passou a ser uma daquelas coisas adiadas por causa do compromisso maior que me ocupou durante 4 anos; e por outro, a necessidade de ‘pensar com o desenho’, mais do que exprimir com o desenho.

Eu queria ocupar minha cabeça, dar um rumo mais interessante para coisas que andava pensando e sentindo, era um caminho mais pra dentro do que pra fora, por mais irônico e contraditório que isso possa parecer. Não é engano dizer que de certa maneira o que eu tava procurando era um processo de cura e não resultados gráficos. Uma escrita do afeto. Um alfabeto do pensamento, mais do que da consciência.

Espinoza e a leitura que Deleuze tem da vida e da obra do primeiro me ajudaram desde o início, mas só vim perceber o que eu estava procurando depois. Deleuze escreveu o seguinte sobre a noção de consciência em Espinoza:

Trata-se de mostrar que o corpo ultrapassa o conhecimento que dele temos, e o pensamento não ultrapassa menos a consciência que dele temos. Não há menos coisas no espírito que ultrapassam a nossa consciência que coisas no corpo que superam nosso conhecimento. É, pois, por um único e mesmo movimento que chegaremos, se for possível, a captar a potência do corpo para além das condições dadas do nosso conhecimento, e captar a força do espírito, para além das condições dadas da nossa consciência. Procuramos adquirir um conhecimento das potências do corpo para descobrir paralelamente as potências do espírito que escapam à consciência, e poder compará-los.

Em suma, o modelo do corpo, segundo Espinoza, não implica nenhuma desvalorização do pensamento em relação à extensão, porém o que é muito mais importante, uma desvalorização da consciência em relação ao pensamento: uma descoberta do inconsciente e de um inconsciente do pensamento, não menos profundo que o desconhecido do corpo. E isso porque a consciência é naturalmente o lugar de uma ilusão. A sua natureza é tal que ela recolhe efeitos, mas ignora as causas. A ordem das causas define-se pelo seguinte: cada corpo na extensão, cada ideia ou cada espírito no pensamento são constituidos por relações características que subsumem as partes desse corpo, as partes dessa ideia. Quando um corpo “encontra” outro corpo, uma ideia outra ideia, tanto acontece que as duas relações se compõem para formar um todo mais potente, quanto que um decompõem o outro e destrói a coesão das suas partes. Eis o que é prodigioso tanto no corpo quanto no espírito: esses conjuntos de partes vivas que se compõem e decompõem segundo leis complexas. A ordem das causas é então uma ordem de composição e decomposição de relações que afeta infinitamente toda a natureza. Mas nós, como seres conscientes, recolhemos apenas os efeitos dessas composições e decomposições: sentimos alegria quando um corpo se encontra com o nosso e com ele se compõe, quando uma ideia se encontra com a nossa alma e com ela se compõe; inversamente, sentimos tristeza quando um corpo ou uma ideia ameaçam a nossa coerência. Encontramos numa tal situação que recolhemos apenas “o que acontece”  ao nosso corpo, “o que acontece” à nossa alma, que dizer, o efeito de um corpo sobre o nosso, o efeito de uma ideia sobre a nossa. Mas o que é o nosso corpo sob a sua própria relação, e nossa alma sob a sua própria relação, e os outros corpos e as outras almas ou ideias sob suas relações perspectivas, e as regras segundo as quais todas essas relações se compõem e decompõem – nada sabemos disso tudo na ordem de nosso conhecimento  e de nossa consciência. Em suma, as condições em que conhecemos as coisas e tomamos consciência de nós mesmos condenam-nos a ter apenas ideias inadequadas, confusas e mutiladas, efeitos distintos de suas próprias causas.

Bem, o que isso tem a ver? Tudo. Porque redefine um lugar da ação (o pensamento) e a fugacidade da consciência. A potência dessa linha de fuga é tal que embora seja agora evidente para mim e para a relevância que ela tem na pulsão por desenhar, só se afirmou conscientemente agora há pouco. Estava, antes, no corpo já. O que tá posto aqui é uma tentativa de política da liberdade através da potência do corpo e das expressões que ele pode gerar. O que não é nada de novo.

Final do ano passado lembro de conversar com Fabiana, Patricia Amorim e Raul sobre os planos para 2011. E quase sem pensar disse que tudo estaria melhor na minha vida se eu chegasse a ao final de 2011 desenhando, ilustrando e fazendo tiras melhor que estava naquele momento. Por essas e muitas outras coisas (que valem outro post, outro dia) ando otimista com esse ano, apesar de tudo.

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Moyses Pinto Neto, d’ O Ingovernável

A maior burrice que poderíamos fazer agora seria deixar de apoiar os movimentos crescentes que Fernando Henrique Cardoso faz em direção a uma revisão da política de drogas por razões partidárias. Parece evidente que FHC está realizando um movimento estritamente político-estratégico, e não por convicção plena. Seu espírito tucano não lhe permitiria ver além do horizonte tecnocrático que caracteriza seu partido orgulhoso pelos seus “gerentes”. No intuito de reposicionar o PSDB ao centro – após a forte guinada à direita nas Eleições 2010 que levaram, por exemplo, Bresser-Pereira a deixar o partido – FHC apela a uma bandeira “liberal” e capaz de provocar estardalhaço, deixando simultaneamente ruborizados os petistas que marcaram o início da gestão de política criminal pela demissão de Pedro Abramovay. Não esqueçamos que Serra volta e meia reivindicava estar “à esquerda” do PT pelas suas posições econômicas. Na política criminal, contudo, nada poderia ser mais bizarro, à medida que é característica do PSDB exatamente a identificação com a “Tolerância Zero”, a pouca fiscalização sobre a observância dos direitos humanos pela polícia e o hiperencarceramento.

Apesar de tudo isso, FHC assumiu uma posição necessária diante de um contexto em que os discursos críticos são veementemente bloqueados, quiçá pela violência física, tal como ocorreu com a Marcha da Maconha e de todos os boçais – juristas ou não – que querem a proibir. Esses covardes que atacam a juventude descontente com o proibicionismo e seus efeitos nefastos são incapazes de agir contra o ex-Presidente, apesar de o caso ser o mesmo. É um tabu infernal cuja impossibilidade de questionar é exatamente o sintoma da sua fragilidade (como sempre, aliás). Nesse caso, a jogada política de FHC é realmente de mestre: se conseguir mudar a tendência da opinião pública, terá se recapitalizado politicamente e arremessado a esquerda para o lado conservador, impossibilitando-a de uma resposta contrária sob pena de descontentar grande parte do seu eleitorado. FHC fala a um eleitorado de perfil conservador, tendo que por vezes abrandar o discurso e repetir abobrinhas do tipo “devemos não penalizar, mas tratar o usuário” (como se todo usuário fosse usuário problemático), além de não tocar na questão essencial do tráfico, que não se resolve satisfatoriamente pela mera descriminalização do porte e uso para fins pessoais. Contudo, provoca uma rachadura nessa estrutura maciça que hoje comanda o Ocidente – a “War on Drugs” dos puritanos norte-americanos exportada para o resto do mundo. Isso já é suficiente.

Estratégia política brilhante pois coloca, como já disse, o PT numa sinuca-de-bico: ou se volta para o lado conservador, desagradando parte do seu eleitorado, ou o acompanha, recapitalizando FHC. Por que o PT caiu nessa armadilha? É simples, meus amigos: porque se comporta como a direita. No lugar de ouvir as vozes mais críticas da sociedade, questionando a fragilidade dos discursos conservadores hegemônicos, o PT se entrega permanentemente ao desejo de poder, conciliando todos os pólos numa salada cujas contradições não tardarão a aparecer. O PT é escravo da Realpolitik, do pragmatismo cujo símbolo é o PMDB. É um retrato pálido dos partidos social-democratas europeus que hoje são vaiados pela juventude do Toma La Plaza, esgotados no seu discurso envergonhado e incapazes de enfrentar o fascismo – quer dizer, de fazer política. O petismo pensa com a cabeça do século XX: é preciso imitar os social-democratas e, depois que chegarmos lá, pensamos no que vamos fazer.  O PT governa para a “família brasileira” cujos preconceitos deveria democraticamente ajudar a desconstruir. É fácil, nesse caso, atacá-lo: basta usar a inteligência. E FHC não é burro. Nem nós.

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Miguel do Rosário, do Óleo do Diabo

O Brasil é hoje o principal exportador de soja e carne do mundo, e isso numa época em que não há mais abundância de alimentos. Os estoques mundiais de grãos caíram. A demanda global vem subindo a um ritmo crescente, ano a ano, impulsionada pelo rápido processo de industrialização em curso nas economias emergentes. Há pouca terra agricultável disponível na Ásia, onde o problema da segurança alimentar tem se tornado particularmente grave, sobretudo porque se soma ao esgotamento de reservas de água subterrâneas.

As pessoas tem pouca informação acerca da segurança alimentar global. Falta ainda um sentimento humanista verdadeiro. Não basta amar a Palestina, é preciso torcer também para que os chineses não passem fome. A harmonia alimentar do planeta é saudável para todas as nações, e se a soja brasileira tem uma função relevante neste sentido, devemos parabenizá-la. Critica-se a produção de soja no Brasil porque ela seria usada para alimentar porcos na China… como se esses porcos não constituíssem a principal fonte de proteína para bilhões de asiáticos!

Ou então desconhecem que a mesma soja é usada como nutriente fundamental para o fabrico de rações que sustentam as populações de frango, bois e suínos no Brasil, os quais servem ao consumo doméstico e à crescente demanda externa. Por mais que isso machuque a consciência dos adoradores do Green Peace e fanáticos pelo MST, a proteína que dá vida ao povo brasileiro passa pelo cultivo de soja e milho nas grandes propriedades rurais. Não digo que isso é bom, mas é um fato concreto.

E com a receita gerada pela exportação de soja, importamos remédios e produtos manufaturados importantes para nossa sobrevivência e desenvolvimento.

A repercussão do código florestal foi péssima nas redes sociais, por causa de uma visão maniqueísta da questão agrícola brasileira. Os ruralistas não são respeitados enquanto agentes políticos de um setor chave para a economia e para nossa segurança alimentar. Produtores rurais são depreciados, julgados moralmente. Uma conhecida até concordou, nervosa e indignada, quando eu falei, jocosamente, que eles “comiam criancinhas”.

A bancada ruralista é formada por parlamentares de centro-direita, mas em nome do pluralismo político e da democracia devemos respeitá-los. Não é coerente falar em favor do pluralismo, e quando se está diante da necesssidade de exercê-lo, virar-lhe a cara. Os ruralistas foram eleitos por brasileiros com tantos direitos políticos quanto nós e você. Eles tem suas razões para serem de centro-direita, e a falta de respeito do militante de esquerda para com a milenar figura do produtor rural é uma delas.

Não se pode confundir ainda os elementos criminosos que existem no seio da classe rural, com a classe inteira. Isso é uma generalização absurda, injusta e antidemocrática. Um clássico preconceito!

E já que não temos planos de transformar a agricultura brasileira em gigantescos kibutz soviéticos, controlados pelo governo federal, precisamos aprender a lidar com os anseios e trejeitos dos produtores rurais, assim como eles tem de suportar o estilo maconheiro-greenpeace dos esquerdistas urbanos. Eles podem ser reacionários, mas a força de trabalho que dispendem em prol do país não vale menos por causa disso.

O agronegócio brasileiro será uma das galinhas de ovos de ouro que, juntamente com o pré-sal e a melhora de nossa infra-estrutura, poderá fazer o Brasil dar um grande salto econômico. É produto básico, mas o processo histórico da divisão internacional do trabalho (como ensinava o bom Adam Smith) tornou a atividade agrícola um setor altamente tecnificado e especializado. E sempre há a possibilidade de elevarmos a exportação de produtos agropecuários já industrializados. Sem esquecer que o aumento da produtividade da agricultura nacional implica em ganho similar ao de agregar valor ao produto.

O governo hoje não perdoa mais dívida de produtor rural. As enormes pendências que existiam originaram-se da terrível confusão cambial que viveu o Brasil nas décadas de 80 e 90. Foram sanadas pelo governo Lula. Hoje o produtor não mais dá calote porque ele perderia o acesso a novos financiamentos do Banco do Brasil.

O código florestal nada mais fez do que trazer o produtor para legalidade. Antes do novo código, quase 90% dos produtores (a maioria pequenos) vivia como um clandestino em sua própria fazenda, em situação de irregularidade permanente. E o pior, o código não era aplicado na prática. O novo código permitirá ajustar a lei à realidade do campo, liberando as autoridades para focar suas ações no combate ao desmatamento.

Entretanto, o texto não permite que haja desmatamento. Está-se falseando a verdade através de uma grande caricaturização do código. Trata-se de uma das leis florestais mais rigorosas do mundo, que representa um esforço para conciliar os interesses do pequeno agricultor, a grande agricultura comercial e a preservação do meio ambiente. No caso da Amazônia, as restrições ao desmatamento são draconianas. Ninguém poderá derrubar uma árvore sem autorização expressa de várias entidades.

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Gostaria de linkar ainda um artigo do cientista político Fabiano Santos, que por acaso é filho do mestre Wanderley Guilherme dos Santos. Fabiano publicou nesta terça-feira um artigo no Valor fazendo uma crítica aos petistas pela falta de apoio que deram ao Código Florestal.

Fabiano faz considerações sobre a importância do código florestal para liberar as forças produtivas nacionais:

[O código florestal visa] preservar a soberania nacional sobre o solo pátrio, permitindo aos setores do capital e do trabalho boas condições de utilização de nossos recursos na geração de riqueza. A coalizão com os ruralistas vem daí. A rejeição do PT ao acordo, no entanto, é mais complexa e potencialmente explosiva.


A posição do PT, que, ao cabo, orientou sua bancada a dizer sim ao Código, mas que votou dividido, é explicada, por Fabiano, pela necessidade que o partido tem de se aproximar daquela mesma classe média que optou por Marina Silva no primeiro turno das eleições de 2010. Para capturar, enfim, parte do eleitorado paulista de classe média.

A perda da classe média, entretanto, visível nos mapas eleitorais das eleições de 2006 e 2010, não é absorvida pela cúpula partidária, localizada em São Paulo. Não há chance de vitória neste Estado sem seu apoio. Não há chance, sobretudo, de derrotar seu principal inimigo – o PSDB paulista. A questão nacional para o PT pós-Lula transforma-se unicamente na perspectiva de derrotar os tucanos em solo bandeirante. Aqui entra então o endurecimento na negociação do Código Florestal. O que vemos, na verdade, é a tentativa de resgatar para o seio do partido parcelas da classe média perdida e que dão o voto de minerva em eleitorados como o de São Paulo. Se o namoro com os verdes e com os eleitores de Marina Silva adquire agora inteligibilidade, nada mais longe dos interesses envoltos na expansão do capitalismo brasileiro e das possibilidades de aprofundamento de uma agenda trabalhista. Namoro que na ótica da esquerda nacionalista significa tão somente recepcionar uma agenda ecológica de inspiração exógena.


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O fato da direita agrária estar apoiando o código florestal não significa que a esquerda também não pode fazê-lo, como aconteceu. Tenha em mente que foi uma vitória esmagadora: 410 a 63! Não se pode avaliar um fato social tendo apenas em vista a opinião do adversário. Tipo assim: se Ronaldo Caiado festejou, então é porque é ruim. Ora, o código florestal foi defendido por todas as organizações de agricultura familiar, como Contag e Fetag, que participaram da construção do texto. Ainda não vi se estão satisfeitas com o resultado, mas sei que elas lutaram para que o código fosse aprovado.

Observo ainda um descompasso entre o sentimento do povo e as redes sociais. Militantes da web repetem o quanto trabalharam na campanha de Dilma Rousseff, como se a presidenta lhes devesse alguma coisa. Quem elegeu Dilma não foi o Twitter, mas 135 milhões de eleitores! Dilma deve sua vitória a 56 milhões de brasileiros, igualmente, e não a nenhum internauta em particular.

Num sufrágio limpo, transparente e universal, os  brasileiros elegeram seus parlamentares preferidos, e estes aprovaram o Código Florestal, depois de muito debate. Todos os partidos da base, incluindo os de esquerda, como PSB, PT, PDT e PCdoB orientaram suas bancadas para que votassem sim pelo Código Florestal. Não venham culpar a Dilma por isso. Permitam-me ser piegas: se os deputados votaram maciçamente em favor do Código, temos uma legítima manifestação da vontade soberana do povo brasileiro. Você pode não gostar, mas é assim que funciona a democracia. E se todos os partidos de esquerda votaram pelo código, não venham chamar de direitoso quem o defende na internet!

O código poderá ser aperfeiçoado (ou piorado) no Senado e a presidente sempre pode vetar um outro ponto que ela considere inapropriado.

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Eu tenho impressão que se houvesse Twitter em 2005, Lula sofreria um impeachment, com ajuda de tuiteiros e blogueiros do PT. Nunca se viu, a cinco meses do governo, tanta gritaria e agressividade dos próprios “amigos” contra aquela mesmo que, segundo estes, custou tanto sangue, suor e lágrimas. Um blogueiro disse até que gastou muito dinheiro na campanha, e que agora se arrepende de tê-lo feito. Talvez queira a grana de volta?

Aliás, de 2003 a 2005, houve algo parecido, mas graças a Deus não havia rede social. Tem gente que enxerga derrota e vergonha em qualquer pequeno recuo. Passa uma nuvem no céu e parece que viram os sinais do apocalipse! É preciso ver do alto, analisar o conjunto da obra, ter um pouco de calma e paciência! Esperar para ouvir outras versões do fato.

O impressionante é como esse sentimento se espalha. É sempre a mesma classe média, politizada, com seu DNA lacerdista, ainda que avermelhado. O lacerdismo não se caracteriza apenas pelo moralismo, mas também por essa indignação afobada, arrogante, apoplética.

As pesquisas mostram Dilma nadando em popularidade. O povo continua apoiando a presidente que escolheu, sem impaciência ou ansiedade. Sabe que as conquistas são lentas, e que eventuais recuos podem ser compensados com avanços mais adiante. Em 2003, quando Lula era atacado virulentamente por essa mesma esquerda hoje em polvorosa, um instituto fez uma pesquisa para saber a expectativa da população para com o governo. A grande maioria respondeu que daria até dois anos para que Lula promovesse alguma mudança efetiva. Não vamos confundir a opinião volúvel, instável e sempre meio neurastência das redes sociais, com o sonho poderoso, otimista e sereno de 200 milhões de brasileiros!

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É muita manipulação, inclusive no lado oeste. No dia da votação do Código, alguém falou do púlpito sobre o recente assassinato de dois ambientalistas do Pará. Muitos deputados vaiaram. Ora, não vaiaram os ambientalistas! Vaiaram a tentativa de se fazer chantagem emocional. Um blogueiro ainda falou que os parlamentares do PCdoB deveriam ter se retirado do recinto. Muito bonito! Eles deveriam ter abandonado a votação, em vez de ficarem ali e praticarem a luta política?

O fato de termos acesso, diariamente, a milhares de notícias eleva exponencialmente a possibilidade de recebermos uma notícia desagradável. Creio que devemos nos manter, porém, sempre céticos em relação à qualquer informação veiculada pela grande mídia. Os jornais enganam mesmo falando a verdade, através de intrigas, pequenos exageros, sugestões…

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Neste debate, é preciso que as pessoas pensem com suas próprias cabeças. Não adianta distribuir link de fulano como se isso fosse um argumento. Acabo de ler um blogueiro afirmando que a aprovação do Código se deu por causa do Palocci, e que os ruralistas só conseguiram aprová-lo por conta de ameaças contra o ministro. Ué, não foram mais de 400 deputados, inclusive de todos os partidos de esquerda, que votaram pelo Código? Não foram só os ruralistas! Foi o Congresso inteiro! Não se pode torcer a realidade para caber na sua teoria.

E a tese de que Dilma cedeu no caso do “kit gay” também por causa do Palocci é outra forçação de barra. A presidenta pode ter cometido um recuo lamentável e covarde. Ou uma atitude sensata, segundo o Brizola Neto. Mas a principal razão desse recuo é que as bancadas religiosas tem poder e pressionaram. O poder deles é um fato. Mesmo que tenhamos um Estado laico, não se pode subestimar o poder eleitoral e político desse pessoal. Esse é o fator determinante, a força eleitoral da bancada religiosa, não o Palocci.  Se não fosse o ministro, usariam qualquer outro artifício. Não é uma questão de afronta ao laicicismo, e sim uma demonstração de poder, nada espiritual, concretíssimo, por parte dos carolas. Eu antipatizo profundamente com a bancada religiosa, mas sei que a luta política contra eles é um jogo de xadrez tão complicado como a política internacional. Tudo é difícil, irmão.  Dilma tem uma relação delicada com o mundo religioso, como bem vimos nas eleições. As igrejas se posicionaram duramente contra a sua candidatura, tanto a católica quanto a evangélica, as duas maiores do país. Ela está ainda está matutando como vai resolver esse problema, que não é só dela, é um problema da esquerda laica, representada pela Dilma, com as igrejas, reacionárias por natureza. Em 2014 teremos outra eleição, e ela tem de pensar nisso desde já, para não abrir espaço para um salvador da pátria, com benção do papa, entregar a tocha olímpica aos carolas da direita. Não esqueçamos que, na véspera do pleito, bispos católicos conseguiram arrancar do papa uma declaração pró-Serra… Os boatos sobre demônio, imposição de ideologia gay nas escolas, etc,   foram muito pesados. Dilma sabe que tem de olhar isso com cuidado para não atrapalhar, no médio e longo prazo, a própria luta do movimento homossexual.

Lula não tinha problema com religião porque sempre viveu rodeado de padres, freis e bispos. O PT do Lula sempre esteve bem amparado pelas igrejas, tanto que o próprio governo Lula avançou bem pouco, em oito anos, nessa questão. Como querem que Dilma, depois de tudo que passou, vença a bancada religiosa em apenas cinco meses!

Tenho confiança, contudo, que venceremos todos esses obscurantistas. Não sou e nunca serei um derrotista. Não vou choramingar pelos cantos ao primeiro revés. A história e a razão estão do nosso lado. Há pouco tempo queimávamos mulheres vivas na fogueira e tentávamos curar homossexuais com torturas escabrosas. Avançamos um pouco desde então.

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Em relação ao Ministério da Cultura, temos pelo menos uma excelente notícia, que é a presença de Wanderley Guilherme dos Santos na direção da Casa Rui Barbosa!

A atual legislação do país sabota a pesquisa e impede a exploração assistida das baratíssimas propriedades medicinais da maconha

RENATO MALCHER LOPES

Houve época em que o uso de determinadas plantas medicinais era considerado bruxaria, e às almas das bruxas restava receber benevolente salvação nas fogueiras da Inquisição. Atualmente, o estigma que a maconha carrega faz, para muitos, soar como blasfêmia lembrar que se trata, provavelmente, da mais útil e bem estudada planta medicinal que existe.

Pior, no Brasil, se alguém quiser automedicar-se com essa planta, mesmo que seja para aliviar dores lancinantes ou náuseas insuportáveis, será considerado criminoso perante uma lei antiética, sustentada meramente por ignorância, moralismo e intolerância.

Apesar de sua milenar reputação medicinal ser inequivocamente respaldada pela ciência moderna, no Brasil, a maconha e seus derivados ainda são oficialmente considerados drogas ilícitas sem utilidade médica. Constrangedoramente, acaba de ser anunciado, na Europa e nos EUA, o lançamento comercial do extrato industrializado de maconha, o Sativex, da GW Pharma.

Enquanto isso, nossa legislação atrasada impede tanto o uso do extrato quanto o uso da planta in natura ou de seus princípios isolados.

Consequentemente, pessoas em grande sofrimento são privadas das mais de 20 propriedades medicinais comprovadas nessa planta.

Um vexame para o governo brasileiro, já que, em países como EUA, Canadá, Holanda e Israel, tais pessoas poderiam, tranquila e dignamente, aliviar seus sofrimentos com o uso da maconha e ver garantido seu direto de fazê-lo com o devido acompanhado médico.

Ingeridos ou inalados por meio de vaporizadores (que não queimam a planta), os princípios ativos da maconha podem levar ao alívio efetivo e imediato de náuseas e falta de apetite em pacientes sob tratamento quimioterápico, de espasmos musculares da esclerose múltipla e de diversas formas severas de dor -muitas vezes resistentes aos demais analgésicos.

Pesquisas recentes indicam também o potencial da maconha para o tratamento de doença de Huntington, do mal de Parkinson, de Alzheimer e de algumas formas de epilepsia e câncer. A redução da ansiedade e os efeitos positivos sobre o estado emocional são valiosas vantagens adicionais, que elevam sobremaneira a qualidade de vida dessas pessoas e, por conseguinte, seus prognósticos.

A maconha não serve para todos: há contraindicações e grupos de risco, como gestantes, jovens em crescimento e pessoas com tendência à esquizofrenia. Em menos de 10% das pessoas o uso descontrolado pode gerar dependência psicológica reversível. Mas, ponderados riscos e benefícios, para a grande maioria das pessoas, a maconha continua a ser remédio seguro.

A biotecnologia brasileira tem todas as condições para desenvolver variedades com diferentes proporções de princípios ativos, reduzindo efeitos colaterais e aumentando a eficácia das plantas (ou de seus extratos) para cada caso.

Indiferente, contudo, à ciência e à ética médica, a atual legislação brasileira sabota nossa pesquisa básica, clínica e biotecnológica nessa área de ponta e impede por completo a exploração assistida das preciosas e baratíssimas propriedades medicinais dessa planta.

É hora de virar esta página carcomida pelo obscurantismo e pelo desdém com o sofrimento humano, fazendo valer não apenas direitos fundamentais dos indivíduos mas também as próprias diretrizes da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que, segundo o Ministério da Saúde, tem por objetivo: “garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade, o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional”.

RENATO MALCHER LOPES, neurobiólogo, mestre em biologia molecular e doutor em neurociências, é professor adjunto do departamento de fisiologia da Universidade de Brasília e coautor, com Sidarta Ribeiro, do livro “Maconha, Cérebro e Saúde”.

Fonte: http://sergyovitro.blogspot.com/

Como políticas oficiais proíbem algumas substâncias, mas estimulam consumo irresponsável de centenas. Por que é preciso fazer exatamente o contrário

Por Henrique Carneiro* no site Outras palavras

Uma política sobre drogas deve abranger os três circuitos de circulação das substâncias psicoativas existentes na sociedade contemporânea: o das substâncias ilícitas, o das lícitas de uso recreacional e o das lícitas de uso terapêutico.

A divisão estrita entre estes três campos é recente e sempre vem se alterando. O álcool já foi remédio, tornou-se droga proibida e voltou a ser substância de uso lícito controlado. Outras, como os derivados da Cannabis, que por milênios fizeram parte de inúmeras farmacopéias, foram objeto de uma proscrição oficial no século 20, a ponto de a ONU querer “erradicar” essa planta – assim como outras, tais como a coca e a papoula, produtora de ópio. Hoje, entretanto, a Cannabis tem uso medicinal reconhecido em muitos estados norte-americanos e em outros países.

Qual a fronteira conceitual estrita que separa essas drogas? LSD, DMT1 ou MDMA2 não possuem usos terapêuticos? O que é recreacional e o que é terapêutico? Esse último campo deve estar submetido apenas a monopólios de especialistas ou deve também abranger um amplo uso de técnicas de auto-cura?

Pretendo, neste texto, defender um regime mais “equalizador” em relação aos três tipos de substâncias mencionadas. Ao mesmo tempo que antiproibicionista, ele deve ser mais severo no que diz respeito à interdição da publicidade e à facilidade do acesso. Como “substâncias essenciais”3 as drogas psicoativas não devem estar ligadas a emprendimentos que estimulem continuamente o consumo os lucros crescentes que decorrem dao interesse privado. Defendo assim, a criação de um “fundo social” constituído com o faturamento de um mercado legalizado e estatizado de produção de drogas psicoativas em geral — tanto as hoje ilícitas como as legais.

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That´s the secret to life

Luiz Carlos Pinto | 28 de abril de 2011 11:59

Cristiane Melo

Meu nome é Cristiane, sou sobrinha de Joicy, filha de Nenem, primeira entrevistada da reportagem que trata do “diálogo com a família”. Atualmente moro em Fortaleza, mas todos os dias acompanho as edições online do JC e hoje tive a grata surpresa de ver essa reportagem tão sensível, que pelo roteiro poderia virar um filme.

Tia Joicy não é fácil! Mas imagine desde a adolescência sofrer desprezo e descaso pelo simples fato de não ser igual a todos!
Tia é diferente, mas é igual aos seus familiares e amigos, na simplicidade e leitura da vida: deseja ser feliz e luta para isso como toda boa nordestina obcecada por seus sonhos. Por isso sofre para conseguir reconhecimento pela sua condição feminina e  continua a enfrentar o preconceito, porém com suas ferramentas: a rispidez, a  ignorância, mas não daquela ignorância  que falava Tereza Brito, mas da ignorância pela falta de conhecimento, por falta de orientação, pela falta de compreensão e afeto.

Não conhecia a obstinação da minha tia para conseguir essa cirurgia, mas convivi com minha tia e sei que Joicy não é odiada,pelo menos não tão odiada, como disse Luciana, sua sobrinha; antes ela é ignorada, agredida verbalmente por familiares, que não compreendem sua situação e ela obviamente revida com vigor.

Não estou indo contra minha mãe, pelo contrário, até porque minha mãe sempre foi uma das pessoas que sempre esteve ao seu lado, até porque como ela mesmo disse “para nós ela sempre vai ser a mesma” e é verdade ela mudou o corpo, mas o espírito irreverente continua o mesmo. Porém, para Joicy a história é outra, agora o corpo se moldou a alma!

Tia Joicy, tem a força masculina, mas é fêmea e resiste como as fêmeas, desafia o machismo inerente a essa sociedade, que cobra do homem atitude de homem, ainda que ele não seja, esse homem que muitas vezes descarta o diálogo e não pondera as diferenças, esse homem que tanto pode ser homem como mulher, não é questão de gênero e sim de humanidade.

Acho que Deus não julga tia Joicy, porque Ele conhece profundamente seus filhos! Os homens julgam porque são incapazes de libertar-se de sua existência recalcada e encruada pelo desamor.

Parabéns ao JC pelo respeito como mostrou tia Joicy.
Um beijo especial para Joicy!

Veja aqui o especial produzido pelo Jornal do Commercio sobre a transformação de Joicy (na foto acima).

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O texto acima foi escrito pela sobrinha de Joicy e enviado ao Jornal do Commercio.

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