Archive for the 'Metareciclagem' category

Existe alguma coisa de improvável na escrita de uma tese. Esse nome que a pompa da academia resolveu dar em algum momento ao resultado de uma investigação, que é feita com certos pressupostos e dentro de algumas regras – como aliás, toda investigação é feita. A improbabilidade é mais real, palpável e cheirosa entre a metade e o término do tempo que lhe deram: uma costura de impossibilidades que o sujeito tem que chamar de ‘meu trabalho’ é um fio tênue com o qual se agarra o doutorando e, de fora, nada parece que vai se arrumar.

É claro que isso ão é geral. Assim como esse blog não se pretende geral, nem eu sou geral. No geral, ninguém é geral para ninguém. E o geral em geral é ‘em  geral’… Mas tergiverso.

O fato é que aquela arquitetura que ao final parece tão fechadinha, tão bem resolvida, como os sociólogos que parecem ter nascido sociólogos, esconde uma cadeia de gambiarras, de maquinações, de solvências, de mapas, arranjos, planos, rampas, estiligues, cordas de nylon, baldes, tintas, relógios, alçapões, pianos e violinos, bigodes e escaramuças, vontades e dormências, um jogo de dominó que não acaba durante quatro anos, botinas, macacões de trabalho, óculos de proteção, martelos, pregos, serrotes, machados, alicates, fios, pêndulos, roldanas, pontes, aritmética e álgebra e um pouco trigonometria.

Quando do meio pro fim você percebe que é possível tirar alguma melodia desse entulho de possibilidades, quando finalmente você vê ali no fundo uma possibilidade de que a peça se estique até o arco e dispare um solfejo colorido; quando você finalmente vê que poderá logo logo tomar uma cerva no sábado à tarde sem culpa, você enche o peito de novo e diz:

Ok, go.

Esse blog entra agora de férias por tempo determinado.

Então, se por um lado há uma incompatibilidade entre as ‘organizações permantes’ que o programa político do modelo gramsciano implica e exige, por outro lado esse mesmo programa político considera que o ato político advém do terreno econômico. No capitalismo tardio essa ‘vida econômica’ não tem mais como principais resultados os produtos do trabalho cristalizado e sim do conhecimento cristalizado. O que implica em uma diversidade muito grande de capacidades heterogêneas, “sem medida comum, como o julgamento, a intuição, o senso estético, o nível de formação e de informação, a faculdade de aprender e de se adaptar a situações imprevistas; capacidades elas mesmas operadas por atividades heterogêneas que vão do cálculo matemático à retórica e à arte de convencer o interlocutor; da pesquisa técnico-científica à invenção de normas estéticas”, (Gorz, 2005, p.29).

A dimensão econômica, no capitalismo tardio, funciona como o contexto que mobiliza a ação e áreas para além da institucionalidade, da própria concepção de política e que se dirige e se instaura no terreno das subjetividades, do simbólico. É essa dimensão do fazer vivo, que se transpõe ao fazer político que é aberto com essa reflexão de Gramsci.

Dessa forma aquela incompatibilidade também indica a atualidade virtuosa do raciocínio de Gramsci e indica a fertilidade das ações coletivas com mídias livres, em uma improvável (mas real) continuidade da intencionalidade gramsciana.

(A imagem é de André Kitagawa)

A luta por hegemonia a qual se pode associar as ações coletivas com mídias livres não se vincula ao processo e às ferramentas de dominação. De um ponto de vista gramsciano, portanto, esse fator pode suscitar o questionamento da sua validade, de sua viabilidade e de sua verdade. O inferno em que Sísifo labora não é uma possibilidade considerada no horizonte historicista com o qual a ótica gramsciana opera. Nesse sentido, a construção da contra-hegemonia mobilizada pelas ações coletivas com mídias livres é claramente o exercício de uma energia utópica – em função do que, aliás, vale à pena viver e trabalhar.

(A foto é de Romain Laurent)

Considerando as ações coletivas com mídias livres como instâncias da sociedade civil, e lembrando que esta na teoria gramsciana é a instância de exercício da hegemonia (em que os grupos dirigentes procuram ganhar aliados para suas posições mediante a direção política e o consenso), é necessário ter claro que o programa político que viemos estudando não se alia à conquista/manutenção dessa hegemonia. Há uma inapropriedade, uma desconexão entre a virtuosidade das ações coletivas com mídias livres e seu papel de instrumento de hegemonia que essa instância da sociedade civil poderia assumir se não fossem suas caracterísiticas próprias desenvovidas e analisadas até aqui. Isso quer dizer que as ações coletivas com mídias livres não servem para a conquista da hegemonia pelo bloco histórico no poder atualmente? Significa que os conceitos, metodos, discursos, e instrumentos imateriais desenvolvidos pelas ações coletivas com mídias livres podem ser instrumentalizados. É aqui que se situa o limite da abordagem gramsciana das ações coletivas com mídias livres. A compatibilidade não é completa, 100%. Isso porque a luta hegemônica nos termos de Gramsci visam a conquista da totalidade social; mas as tramas, os hardis, as táticas, as submidialogias se situam no aquém dessa possibilidade e para além de sua concretização. A questão que se impõe é: qual a visada das ações coletivas com mídias livres com relação à ação sobre a totalidade social e a esperada mudança desta?

Postando para o deserto 2

Luiz Carlos Pinto | 4 de março de 2010 22:24

Do capítulo 5, em 5.3:

Nesse sentido, faz parte dessa mescla de concepções de mundo a idéia de propriedade compartilhada de informação, conhecimentos e culturas, o acervo imaterial e inapropriável de bens simbólicos, historicamente determinados, coletivamente gestados e universalmente disponíveis a todos os homens sobre a terra.

O que isso quer dizer? Que a constituição de uma condição de autonomia possível e de domínio e apropriação da produção social (sua contraparte formada pelo controle de sistemas complexos de informações, símbolos, relações sociais) permite a mobilização da parcela dos sem parcela para a afirmação de sua existência, de seus pertencimentos, de suas reivindicações e subjetividades. A prática da política nesses termos expressa-se como a escrita de um nome no céu, a arquitetura de um lugar numa ordem simbólica de poucos falantes, de poucos que exercitam e tomam parte das decisões políticas. No âmbito da excludente sociedade brasileira, de sua tradição política que prioriza o viés do privilégio, a escrita e a narratividade da realidade vivida tradicionalmente incorporaram aos registros da história o ponto de vista das camadas privilegiadas. Esse paradigma se encontra diante de múltiplas e vivas possibilidades da real democratização da prática política na sociedade.

do capítulo 5, em 5.3:

Como não pensar que a retomada e apropriação crítica de tecnologias é uma subversão (ou uma atualização) do modelo de contagem que Ranciére descreve? (É, eu sei que isso é uma analogia, que por sua vez expressa o pensamento aristotélico e platônico sobre o qual se edifica a forma de conhecimento sedentário. Mas também é preciso se descarregar do peso dessa diferença entre o pensamento nômade e o pensamento sedentário. Essa oposição é frustrantemente imobilizadora).

Os modos de apropriação crítica das tecnologias de informação e comunicação são formas de recontagem, ou pelo menos abrem possibilidades para que uma outra contagem aconteça – concatenadas cacofonias. O alfabeto necessário para isso incui afetos, vivências, implica na invenção de um cotidiano, na descoberta de outros, ações coletivas, paixões coletivas, jardinagens bivolts e alguma alegria.

Acredite em suas ações

Luiz Carlos Pinto | 8 de dezembro de 2009 20:33

O pessoal da Amnésia Discos está produzindo o primeiro disco do grupo Gia. O samba abaixo é o primeiro a sair e uma homenagem a Daniel Pádua, metarrecicleiro que moreu prematuramente recentemente. Tudo a ver com o momento pessoal desse que escreve vez por outra aqui.

Ubuntu

Luiz Carlos Pinto | 27 de outubro de 2009 21:05

Caixinha de insight

Luiz Carlos Pinto | 12 de setembro de 2009 15:37

Tenho cá comigouma caixinha de metal, dessas de cigarrilhas, em que fui guardando post-its (aqueles pedaços de papel colorido que você cola nos lugares para lembrar de outros lugares, de outras coisas e compromissos). Vinha usando esses post-its em livros, como formas de marcação de texto, referência ou como recados para mim mesmo, colados a móveis, computadores e outros objetos sobre minha mesa de trabalho. Tive alguns meses atrás de guardar tudo nessa tal caixinha para devolver livros emprestados e fazer uma faxina no quarto. Alguns desses recadinhos têm vida própria. Outros se perderam no tempo, ou foram superados, ou não fazem sentido ou foram respondidos e outros são mistérios mesmo pra mim:

Nomadismo, tribo, festa} a tríade das táticas de mídia no Brasil?
Pós-neoliberalismo – As políticas sociais e o Estado Democrático – Francisco de Oliveira, Rio de Janeiro, terra e paz – 2000
Capítulo 2: as condições das ações coletivas com mídias na modernidade

Onde localizar o ‘radical’?

O debate a crítica contemporânea ao estatuto dos bens imateriais na sociedade contemporânea

As instituições sociais materializaram o princípio da realidade, cujos requisitos são a lei a e ordem → prox. Geração

Referências de (para) identidade
* ANTROPOFAGIA
* NOMADISMO
*MULTIPLICIDADE

O desenvolvimento do home civilizado é um fato resultante da substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade

Injustiça: 301 M821i CFCH

Revolta e melancolia: 804 L922r CCSA

Dr. Sérgio Paulo 3221.5947

DIY: relação com Deleuze, o DIY é a oposição ao pensamento sedentáro, que aceita a condição normativa das coisas

Por favor, não durma, não desista, não sita dor de cabeça, não tenha medo!

A conservação precisa reivindicar o que deveria consistir no seu contrário

A recuperação da memória e do registro do prazer pleno vem junto com o conteúdo da fantasia. Por isso que a psicanálise busca resgatar a memória.

Na linha de pensamento marxiana, incorporada por Marcuse em sua crítica da sociedade industrial, a automatização representa o ápice do afastamento entre o homem e sua produção.

- Corpo
- Celebração
- Festa
- Encontro
- Eros
- Prazer
- Relação com o corpo
- Expressão corpórea da cultura
- Convívio
- Afeto
- Amor

Método inclui ouvir a conversa dos outros!
Associar ‘Fechamento da política’ às possibilidades abetas pela tecnologia para o silenciamento da fala. Conectar isso à supressão do logos para poder deposi conectar coma reflexão de Ranciére

- Uso passivo da tecnologia/caixa preta
- Proeminência de elite logotécnica
- Orientação espoliativa da técnica como condição ontológica

Como relacionar com as formas efetivas de controle dos bens imateriais hoje?

O saber local
CFCH – 39G298s

O decínio do homem público
301.151 S478d

Dirs: manutenção/ planejamento/ operação/ TIC/Amd&Financeira

A dominação cujo artifície é o objeto técnico ou mais exatamente a racionalidade técnica concebe uma passividade do trabalhador

O preço da lib erdade é o conhecimento, você deve dominar aquilo que você usa.

- Necessidades
(formação da), liberdades e comodidades → passividade em relação à tecnologia

- “o véu tecnológico…

The sociology of taste

Acontece em algum momento a virtualização do controle racinal, da racionalidade técnica. Até então ele é físico, econômico

Dia da In(ter)dependência

Luiz Carlos Pinto | 8 de setembro de 2009 9:25

Precisamos reinventar o Brasil.
Porque as narrativas que o inventaram têm sido exclusivamente daqueles que se abraçaram à ordem e o progresso da bandeira, daqueles que sempre tiveram em mãos os instrumentos certos para que seu discurso fosse entronizado. É preciso redesenhar o Brasil à imagem e semelhança de sua precária virtuosidade.

É preciso reinventar a fala do Brasil sobre o Brasil.
Francisco Oliveira já afirmou de tantas formas diferentes, em tantos lugares diferentes: a anulação da fala, do dissenso, da política faz parte de nossa história. Mais até: é a forma pela qual se desenhou o mapa mundi do Brasil, nossa história extemporânea. O mesmo Chico nos disse que a procura da política, que seu encontro e manifestação sempre foram demandas da parcela dos sem parcela, daqueles extratos que na matemática oficial não contavam. Ou não convinham.

E no entanto, o silenciamento da fala, a relativa anulação da política, a contagem daquilo e daqueles que contam e que merecem ser contados sempre estiveram ancoradas à conveniência dos que escreviam a História.

É preciso recontar o Brasil, sua cartografia de discordâncias, seu mapa de vozes, de dissensos que passeiam todos os dias nas ruas, encharcadas de suor, poeira, e brilho. E a necessidade da retomada do Brasil passa pela retomada das tecnologias que permitem suas narrativas, seus mapeamentos, suas linhas de fuga:

Ranciére, filósofo francês, viu e descreveu a base dessa interpretação de forma mais clara: desde a antiguidade grega, os que merecem ser contados são aqueles que detém o conhecimento, a faculdade de pensar e de articular a palavra. Coincidentemente (!), estas mesmas pessoas eram os ricos da sociedade grega. Os detentores desse conhecimento, e do conhecimento sobre o conhecimento, do logos, eram os Homens.

Os outros não mereciam a discussão política, não mereciam ser representados nem se representar, não possuiam a palavra pois não tinham o logos, nem podiam ser contados: não eram homens.

Estes mesmos não-homens inventaram seu logos, suas leis e inauguraram a política.

Como não pensar que a retomada e apropriação crítica de tecnologias é uma subversão do modelo de contagem que Ranciére descreve? (É, eu sei que isso é uma analogia, que por sua vez expressa o pensamento aristotélico e platônico sobre o qual se edifica a forma de conhecimento sedentário. Mas também é preciso se descarregar do peso dessa diferença entre o pensamento nômade e o pensamento sedentário. Essa oposição é frustrante e imobilizadora).

Como não pensar que os não-cidadãos gregos anteciparam cooperações, adequações, gambiarras e formas de compartilhamento simbólicos?

Os modos de apropriação crítica das tecnologias de informação e comunicação são formas de recontagem, ou pelo menos abrem possibilidades para que uma outra contagem aconteça – concatenadas cacofonias. O alfabeto necessário para isso incui afetos, vivências, implica na invenção de um cotidiano, na descoberta de outros, ações coletivas, paixões coletivas, jardinagens bivolts e alguma alegria.