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Archive for the 'Metareciclagem' category

Relato das ações no Coque Livre

Luiz Carlos Pinto | 3 de fevereiro de 2012 15:05

Vou postar aqui nos próximos dias algumas reflexões sobre os ciclos de atividades do Projeto Coque Livre, que implementamos em 2011 na comunidade do Coque, centro do Recife. Os textos têm uma pegada um tanto acadêmica – sobretudo a parte inicial, em que segue uma introdução a alguns conceitos que permearam as oficinas dos ciclos. Isso porque precisaremos apresentar esses relatos ao CNPq, que financiou as atividades. Nos próximos dias coloco as descrições das atividades mesmas.

1. Análise crítica das bases teórico-metodologias das oficinas de mídias livres

As oficinas com tecnologias livres baseiam-se teórica e metodologicamente no  que podem ser chamadas ‘ações coletivas com mídias livres’. Tais ações expressam um conflito e uma oposição ao modo com que os bens informacionais são comercialmente produzidos e controlados, bem como os objetivos dessa produção. Considerar como eixo característico a disposição antagonista implica em reconhecer a existência de questionamentos coletivos quanto à legitimidade do poder  e ao modelo estabelecido para o uso dos recursos sociais – esses princípios conduzem a base metodológica e filosófica das oficinas.

O sentido das oficinas com tecnologias livres está associado à criação de condições estruturais e conceituais para a produção, circulação, apropriação e usufruto de conhecimento, informação e cultura fora das hostes comerciais. Em termos filosóficos,  essa orientação, que prevalece sobre as outras linhas de atuação, expressa a atualização da análise de Ranciére (1996) para a emergência do exercício da política, com uma correspondente instituição de uma outra ordem do sensível. Ou seja a criação de tais condições estruturais e conceituais se vincula a um virtuoso processo de atualização da reivindicação da parcela dos que não têm parcela, da reivindicação da fala, do dissenso, da possibilidade e das condições para a expressão do desentendimento em relação a como se reparte o todo, entre os que têm parcela ou partes do todo e os que não têm nada.

Por outro lado, é possível considerar o modelo predominante de ‘inclusão digital’ ancorado à lógica da Justiça Distributiva . Nesse sentido, tal modelo também precisa ser compreendido sob os eflúvios das mudanças pelas quais passa o capitalismo pós-industrial – sobretudo naquilo que se refere à crise da noção de valor, que acompanha tais alterações sistêmicas. Se é verdade que no capitalismo pós-industrial não é mais no produto, na matéria, que se concentra o centro do valor, mas no conhecimento, na forma de se organizar e modelar a inteligência coletiva, então à Justiça Distributiva deve-se interpor um outro front de crítica – inclusive como forma de enquadrar e compreender  a perspectiva, os discursos e a programática de ações coletivas que lançam mão de tecnologias livres.

É necessário, antes de continuar, deixar claro a que se refere esse termo. As ‘tecnologias livres’ a que nos referimos são constituídas por softwares e hardwares que permitem que sejam usados, copiados, estudados e redistribuídos sem restrições, o que implica que as modificações feitas tanto em programas quanto nos equipamentos físicos podem se realizados e compartilhados também sem restrições. O conceito de ‘livre’ se opõe ao de restritivo e à noção de software proprietário, cujas alterações no seu código de funcionamento são vedadas. Tanto softwares livres quanto hardwares livres são vinculados a licenças de uso que visam garantir as liberdades de execução, distribuição, modificação e repasse sem que para isso seja necessário a permissão do(s) autor(es) (Torvalds & Diamond, 2001). Portanto, para tecnologias livres estão associados licenças de uso que procuram garantir
•    A liberdade de executar o programa ou de uso do hardware, para qualquer propósito;
•    A liberdade de estudar como o programa ou hardware funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades. Acesso ao código-fonte, no caso dos softwares, é um pré-requisito para esta liberdade;
•    A liberdade de redistribuir cópias de modo que se possa beneficiar o próximo;
•    A liberdade de aperfeiçoar o programa e/ou hardware, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie. Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade.
Portanto, o uso do termo tecnologia livre nesse texto considera será considerado livre se todos os seus usuários tiverem essas quatro liberdades.

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Sobre o momento digital

Luiz Carlos Pinto | 26 de setembro de 2011 14:30

Rodrigo Savazoni, na Revista Zona Digital

O teórico do ciberespaço Howard Rheingold afirma em seu livro Smart Mobs (Multidões inteligentes), ainda não traduzido para o português, que, do ponto de vista tecnológico, nosso mundo vem se transformando não pela ação dos líderes industriais estabelecidos (como já ocorrera com o surgimento da internet e dos computadores pessoais), mas pela força de “pequenos grupos de jovens empreendedores e de associações de aficcionados”. Aliás, Rheingold, nessa passagem, reforça: “sobretudo por meio de associações de aficcionados”.

Também não é por meio dos líderes estabelecidos e das forças tradicionais que a política se reinventa e se reforça, mas sim pela ação de grupo de “jovens realizadores”, cujo objetivo é a construção de novos territórios para as causas comuns. No Brasil, são justamente esses “jovens realizadores”, ativistas conectados à internet, os arquitetos dos movimentos sociais do século 21. Por meio de projetos democráticos e métodos provocativos, esses agrupamentos contemporâneos estão confrontando forças estabelecidas de nossa sociedade e já fazem algum barulho.

Uma característica (1) desse movimento é que ele provém de articulações cuja origem não está nas estruturas partidárias, sindicais ou mesmo nos movimentos sociais surgidos nas três décadas anteriores (como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST – ou mesmo as grandes associações de lutas por direitos humanos e sociais – como Ibase ou Ação Educativa, para ficar em apenas dois exemplos). São, acima de tudo, forças articuladas em rede, com forte influência do uso das novas tecnologias de informação e comunicação, que nem sequer podem ser chamadas de “organizações”.

Outro aspecto importante (2) é que são grupos que não se prendem a filiações ideológicas rígidas. Sua marca é a ação. São ideólogos da prática. Pode-se tentar compreendê-los buscando referências na esquerda libertária, de onde provém muitos dos princípios dessas articulações, mas boa parte de seus participantes não se furta a saquear métodos e símbolos extraídos da cultura corporativa. Há uma forte conexão com o altermundismo, o movimento por uma outra globalização que se espraiou no final dos anos 1990 e no início da primeira década do século 21, tendo nos Dias de Ação Global e no Fórum Social Mundial seus grandes momentos de reunião e expressão, mas somente essa filiação não explica o que está ocorrendo.

Se aproximarmos nossa lupa, cresce a imagem da cultura digital, que, conforme nos explica o professor André Lemos, da Universidade Federal da Bahia, se forja a partir do surgimento da internet e da popularização da microinformática, processos iniciados no final dos anos de 1970. Essa cultura ganha impulso adicional e assume sua forma mais visível com a aparição da web, nos anos 1990. Trata-se de uma cultura baseada na recombinação e na colaboração que se alastrou pelo planeta e produziu um curto-circuito no comportamento, na economia, nas artes, na mídia e, evidentemente, na política.

A percepção dessas transformações, com a massificação das tecnologias, só faz crescer. Com suas ferramentas digitais, esses “jovens realizadores” não só descrevem a realidade, mas acima de tudo transformam-na. Técnica e política, neste debate, jamais podem ser observadas em separado.

Por fim (3), outra característica da articulação desses “jovens realizadores” tecnológicos é a busca pela radicalização da política e da democracia, que vêm sendo paulatinamente aprisionadas pelos interesses econômicos e pela vacilações do representantes políticos tradicionais. Portanto, não se trata de um movimento de negação da política, mas de confrontação das estruturas e dos representantes desse mundo caduco.

Expoentes da transformação em curso

Destaco três redes como aquelas que são os expoentes do que descrevi acima. A rede Transparência Hacker, a rede Metareciclagem e a rede Fora do Eixo. Na sequencia, faço uma rápida descrição das três, para que posteriormente possamos avançar no debate.

A Transparência Hacker (1) é uma comunidade formada por ativistas, jornalistas, programadores e gestores públicos que conta com cerca de 800 membros em sua lista de discussão[1]. Essa rede conta com apoio do escritório brasileiro do W3C, a instituição criada por Tim Berners Lee para manter a world wide web (www) aberta e livre.

De acordo com Daniela Silva, da Esfera e da Casa da Cultura Digital, uma das principais articuladoras da rede, não existem regras prévias para participar da #THacker, mas sugere que a “colaboração, liberdade, autonomia, ética hacker, abertura para formas novas de agir e de pensar sobre o mundo, valores políticos emergentes e mutáveis (ou mutantes) e um certo gostinho pela provocação” são as principais características do movimento. Como está escrito na página do coletivo na internet, interessam “ideias e projetos que utilizem a tecnologia para fins de interesse da sociedade” e sua vocação específica é exigir a abertura dos dados governamentais. Ou seja, os ativistas querem que o estado, na era da informação, compartilhe com os cidadãos suas informações, o que por si só se constitui em uma forma de compartilhar poder.

A rede Metareciclagem (2) é pioneira desse movimento, tendo surgido no contexto do Fórum Social Mundial. Sua lista, que pode ser acessada por meio do site http://www.metareciclagem.org está ativa há oito anos. De acordo com Felipe Fonseca, um dos articuladores desse coletivo, “a metareciclagem é mais um foco de potência de ação política – porque as pessoas trocam entre si – do que uma instância política autônoma, que tenha uma coerência”. No início da política pública dos Pontos de Cultura, muitos dos ativistas desse coletivo trabalharam na elaboração do que viria a constituir os Kits Multimídia e a ação cultura digital, cujo objetivo é promover a criação tecnológica utilizando ferramentas livres. Fonseca é autor do livro Laboratórios do Pós-Digital, disponível para download no endereço http://efeefe.no-ip.org/livro/laboratorios-pos-digital, no qual apresenta muitas das questões centrais da reflexão da Metareciclagem.

O (3) Fora do Eixo (www.foradoeixo.org.br), por sua vez, é uma rede de coletivos de produção cultural que está presente em todos os estados do Brasil. Iniciada em 2005, por meio de uma parceria entre produtores das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR), a rede foi crescendo e hoje é tida como a principal força político-cultural surgida no país nos últimos anos. Somente no ano passado, mais de 5 mil bandas circularam por meio das ações dos coletivos que integram essa rede. A partir das articulações por eles lideradas, foram promovidas ações como a criação da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin)[2], e a criação do Partido da Cultura[3], que vem buscando interlocução com a classe política tradicional sobre questões de interesse das novas gerações, e as Marchas da Liberdade[4], movimento que este ano levou às ruas de várias cidades militantes em defesa das liberdades. Entre as inúmeras inovações introduzidas por esse coletivo de coletivos, está a de utilizar a economia solidária para construir relações sociais diferenciadas entre sua rede de produtores e ativistas.

Política Tropicalista

Descritos os exemplos que nos interessam, podemos prosseguir.

Durante os oito anos de governo Lula, esses “jovens realizadores”, adeptos de novas formas de fazer política, foram co-gestores de políticas públicas. Isso ocorreu especialmente no Ministério da Cultura, instituição que se apresentou como importante indutor do crescimento dos coletivos, dando a eles o reconhecimento institucional que, em geral, articulações de perfil libertário não recebem.

Essa configuração, porém, não foi especificidade da Cultura, posto que o diálogo entre os ativistas e o governo federal daqueles tempos propiciou: 1. as ações em defesa do software livre (que é a matriz ideológica de boa parte dos movimentos políticos e sociais em rede); 2. as políticas públicas em favor do compartilhamento do conhecimento, como o programa Cultura Viva (dos Pontos de Cultura), a defesa da reforma da Lei de Direitos Autorais (LDA), além de um conjunto de iniciativas mais pontuais, como o diálogo com a blogosfera, os Pontos de Mídia Livre e a rede CulturaDigital.Br; 3. a proposição de um Marco Civil de direitos dos cidadãos digitais pelo Ministério da Justiça, legislação elaborada de forma aberta e compartilhada (veja o site www.culturadigital.br/marcocivil).

Conforme afirma Hermano Vianna, em Políticas da Tropicália:

“Talvez os softwares livres do ministro Gilberto Gil criem um ciberespaço onde o espírito tropicalista se reproduza em inteligências artificiais e virtuais, na periferia de um novo império americano que o rock amado com tanto custo por determinados jovens baianos dos anos 60 nem sequer podia imaginar”.

Hermano utiliza neste texto, escrito há alguns anos, a expressão “talvez”, porque sabia que a reação de setores privilegiados pelas políticas de estado não tardaria a ocorrer. Atualmente, essa delicada relação entre os “novos agentes” e o governo popular” está escorrendo pelos dedos. O portal rumo ao desconhecido que se abriu durante o governo Lula, a nova gestão do Ministério da Cultura de Dilma Rousseff – e sua mudança de orientação – fechou. Com Luiz Inácio Lula da Silva e Gilberto Gil havia-se aberto um trilha de transformações profundas, no plano da existência e dos símbolos, que abalou estruturas. Aqueles que sempre foram privilegiados e entre 2003 e 2010 foram confrontados reagiram, organizando um movimento de reconquista que conta com a aderência de parte da esquerda tradicional.

O recorte tropicalista das políticas culturais, com sua opção de fomento das dissidências e estímulo às bordas do sistema (ou mesmo por aqueles que só se divisa a partir de dobras) – que é, conforme a citação de Rheingold no início deste texto, onde a inovação reside, o caldo da transformação entorna e a vida parece poder superar o capital – tornou-se contraditoriamente foco da ira dessa estranha aliança entre setores da esquerda e do empresariado da comunicação e da cultura. Esse movimento – é bom lembrar – não é privilégio do Brasil, mas sim uma reação global[5] à cultura digital.

Em busca de uma democracia biopolítica

É preciso mais uma vez reforçar: a essência dos movimentos da cultura digital provém do software livre. No início dos anos 1980, um grupo de engenheiros liderados por Richard Stallman criou a Free Software Foundation (FSF), organização com o objetivo de defender a colaboração e o compartilhamento quando os softwares começavam a se tornar instrumentos de enorme ganho financeiro. Para maximizar seus vencimentos, as empresas de tecnologia começaram a adotar patentes e mecanismos de proteção de propriedade intelectual, contrariando assim a essência do desenvolvimento científico, que é baseado na evolução a partir do conhecimento acumulado.

Para “amarrar” a liberdade de compartilhar ao modelo de licenciamento, a FSF criou um modelo alternativo (a licença GPL), que passou a ser utilizada pelos desenvolvedores no mundo todo. Essa ação, aparentemente técnica, embutia um confronto político que cresceria desde então: o da luta contra a propriedade na era do conhecimento.

É justamente essa visão de superação da propriedade privada que constitui o diferencial do movimento de cultura digital[6]. Era essa visão que estava a nortear as políticas públicas desenvolvidas durante o governo Lula. Uma construção que poderia apontar para uma democracia biopolítica, nos termos que propõe Peter Pál Pelbart, com base nos escritos de Deleuze, Foucault, Negri, Lazzaratto, Agamben, entre tantos outros pensadores contemporâneos que atualizam nossa compreensão do mundo.

Peço licença para uma citação do livro Vida Capital, de Peter Pál Pelbart:

“Podemos retomar nosso leitmotiv: todos e qualquer um, e não apenas os trabalhadores inseridos em uma relação assalariada, detêm a força-invenção, cada cérebro-corpo é fonte de valor, cada parte da rede pode se tornar vetor de valorização e de autovalorização. Assim, o que vem à tona, com cada vez maior clareza é a biopotência do coletivo, a riqueza biopolítica da multidão. É esse corpo vital coletivo reconfigurado pela economia imaterial das últimas décadas que, nos seus poderes de afetar e ser afetado e de constituir para si uma comunialidade expansiva, desenha as possibilidade de uma democracia biopolítica”.

Essa capacidade de reinventar o viver, que está na essência do confronto biopolítico, vejo explícita em dissidentes como o Transparência Hacker, o Metareciclagem e o Fora do Eixo. Como são projetos distintos, de formação distinta, ainda que com muitos pontos de conexão, evidentemente que não caberia analisá-los por igual, mas se há algo que é comum a todos eles é o permitir novas “formas de viver”, constituindo-se como agentes fundamentais no processo de construção dessa “democracia biopolítica”. Daí que, se estamos falando de políticas de esquerda, estimulá-los é uma obrigação.

Fato é, portanto, que algumas questões só poderão ser respondidas se compreendermos que a inovação cultural passa por esses “jovens realizadores”. Mais que de uma investigação aprofundada sobre o papel desses coletivos – algo extremamente necessário[7] – temos necessidade de políticas que os fomente e fortaleça. Era isso que vinha ocorrendo no governo Lula e que com Dilma parece ter perdido o passo[8]. A presidente parece não ter percebido que o investimento nos “jovens realizadores” pode ser o diferencial do Brasil.

Para discutir essas questões, as redes e coletivos estarão presencialmente em contato na terceira edição do Festival CulturaDigital.Br (que no início foi chamado de Fórum da Cultura Digital Brasileira). O evento será realizado entre os dias 2 e 4 de dezembro, no Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna e no Odeon, com patrocínio da Petrobras e apoio da Secretaria Estadual de Cultura. Quando ainda se chamava Fórum, esse evento, que acima de tudo é um processo de construção política, por meio do diálogo em rede, foi realizado a partir de uma articulação da sociedade civil organizada e o Ministério da Cultura. Seu objetivo inicial era ser um espaço de elaboração colaborativa de políticas culturais para o Século 21, o século das redes, da informação, da produção pós-industrial.

Atualmente, o Festival CulturaDigital.Br almeja ser um espaço de encontro dos novos realizadores, produtores e ativistas que operam na intersecção entre cultura, política e tecnologia, promovendo inovações. A edição passada foi uma grande arena de contatos e encontros que vêm reverberando desde então. Este é o momento digital.

[1] https://groups.google.com/group/thackday?hl=pt

[2] http://www.abrafin.com.br/

[3] http://partidodacultura.blogspot.com/

[4] http://www.marchadaliberdade.org/

[5] Na Espanha, a lei Sinde-Zapatero permite desconectar internautas que “violem” direitos autorais; na França, a lei Hadopi abriu caminho para criminalizar quem compartilha músicas, na Inglaterra, diante dos protestos dos jovens, que se articulam em redes, o premiê propõe a desconexão, no Egito, na Tunísia, na Líbia, em todo o norte da África, computadores (re)agem…

[6] Para não ser acusado de tecnoutópico, registro que o capital se propaga com força por meio das redes, e que a colonização da vida por meio das tecnologias ocorre. No entanto, o fito desta nota é justamente demonstrar que não existe resistência e superação ao capital fora desse combate no plano das subjetividades.

[7] Vale destacar a tese de doutoramento de Hernani Dimantas, na Universidade de São Paulo, sobre o Metareciclagem, trabalho executado por um pesquisador que é também um dos mais importantes articuladores dessa rede.

[8] O recente artigo do Ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, “As Razões do Diálogo com os Hackers” parece apontar para uma nova abertura governamental para políticas de fomento às dissidências: http://www.trezentos.blog.br/?p=6224

Já começou o penúltimo ciclo de oficinas do Projeto Coque Livre. Dessa vez as oficinas estão sendo dadas por Ricardo Brazileiro e por Ricardo Ruiz, que pretendem re-editar o Imersom, série de oficinas que mexeu com a criatividade da meninada a partir de experiências com hardware, programação básica, fotografia e web para construir um dispositivo móvel que tivesse uma funcionalidade pra comunidade.

A idéia daquele ciclo era criar as condições para que a apropriação dos recursos tecnológicos e dos conhecimentos andassem de mãos dadas com afinidades e subjetividades dos alunos e que pudessem servir para a construção desse dispositivos, que teria (como teve) a capacidade de documentar imagens e sons.

O atual ciclo tem, no final das contas, o mesmo objetivo final, que é a construção de uma Mimosa, uma máquina afetiva para a documentação das vivências, experiências e histórias que os meninos acham interessante. Como tem sido feito até agora, o jeito de fazer com que a criação não seja somente de Ruiz e de Brazileiro, mas de todos eles, é a procura por abrir a caixa preta, por desconstruir o objeto técnico, ou a idéia de que ele é um estranho sobre o qual não se pode atuar.

Para isso, BraziZ montaram o quarto ciclo em três fases: na primeira procuraram apresentar pra meninada o HTML, como forma de introdução de uma linguagem de programação. O passo é necessário para que se possa depois jogar os conteúdos na web de uma forma que n]ao seja operacional, mas que se possa compreender a linguagemd e marcação que em parte torna isso possível.

A segunda etapa é uma introdução a linguagem de funções e isso ta sendo feito por meio da criação jogos, que funcionam por meio de comandos que orientam efeitos (funções) de movimentos, de reações, de sons, de quadros, e cenários.

E finalmente a terceira fase vai ser uma introdução à linguagem de códigos como forma de permitir que os meninos possam programar minimamente com pure data.

Já foram criados alguns sites, que por enquanto, estão rodando no servidor do laboratório do Coque Livre. Segundo relato de Ruiz, essa turma atual tá se apropriando de forma surpreendente o que ele e Brazileiro trazem para a sala de aula. Acredito que em grande parte a forma de divulgação (tanto diretamente no Neimfa quanto nas escolas da comunidade) ajudou a encontrar e sensibilizar uma meninada aberta e disposta às atividades.

Como já disse, a idéia geral é por um lado dar prosseguimento à documentação de vivências,d e vontades,de afetos, de relações,de histórias vivenciadas pela meninada ou por pessoas que eles achem que devem ser documentados a partir de um dispositivo técnico coletivamente gestado. Por outro lado, esse ciclo também tem sido uma continuidade do trabalho de integração de todas essas coisas com o projeto Cotidiano Sensitivo (http://cotidianosensitivo.info/blog/oprojeto/).

O que mostra para todos nós as possibilidades de reflexão e de resultados, processos, “produtos” que podem emergir das interações nos ciclos do Coque Livre. Estamos pensando em fazer, para o próximo e último ciclo de oficinas. uma mescla das atividades desenvolvidas até aqui, mas ainda não começamos a pensar nisso de forma mais precisa.

Texto que sera apresentado no ALAS e que foi feito por mim e pelo Rafael Evangelista.

Introdução
Esse artigo procura lançar um olhar sobre os novíssimos cercamentos aos bens imateriais. Considera-se que duas dimensões contemporâneas – as tecnologias e as leis – operam no sentido de frear e/ou controlar as trocas simbólicas no ambiente, ainda comum, em que tais bens são gerados. Ambos os processos estão na base dos arranjos monopólicos contemporâneos de produção de informação, cultura e conhecimento e expressam tanto num plano estrutural quanto num plano superestrutural a desigualdade das condições de participação e dos recursos de produção midiática. O artigo procura também refletir como projetos distintos para a circulação desses bens procuram controlar ou incentivar esses fluxos, disputa que se refletiu na recente re-orientação da política posta em prática pelo Ministério da Cultura do Brasil.

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Em Maio de 2012, quando as chuvas começam a parar, vai acontecer o Encontrão Hipertropical de MetaReciclagem: um evento organizado coletivamente, com o objetivo de promover o intercâmbio entre projetos do Brasil inteiro (e do exterior).

A programação e a produção serão construídas em rede (ajude aqui ou mande uma mensagem). A rede Metareciclagem está em busca de ações, projetos, coletivos e redes que adotem práticas de MetaReciclagem no dia a dia, e tenham o interesse em trocar, aprofundar-se, aprender e articular novos horizontes.

A MetaReciclagem não trata apenas de recondicionar computadores, mas de promover a apropriação crítica de tecnologias. A rede espera repetir o sucesso do Encontrão Intergalático e do Encontrão Transdimensional. São bem vindas ideias para programação, organização, financiamento, logística e parcerias.

Organizando aqui: http://rede.metareciclagem.org/wiki/EncontraoHiperTropical

Paulo Lara, fotografado no momento em que preparava a palestra

Na próxima sexta-feira, 29, o Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM) e a Rede Coque Vive promovem a palestra As potências da mídia tática e s caminhos da comunicação autônoma, com Paulo “Pajé” Lara. O encontro é um dos ponta-pés da intervenção que estamos realizando na comunidade do Coque e que são formadas por oficinas de áudio, vídeo, experimentação com hardware, construção de ambientes web, web rádio, etc. Pajé é um dos auxílios luxuosos dessa empreitada. Abaixo, um resumo da palestra. O encontro é aberto  a todos com interesses em cultura livre, democratização da comunicação, políticas culturais, políticas de mídias, políticas do afeto, apropriação crítica de tecnologias, etc.

As potências da mídia tática e s caminhos da comunicação autônoma

Um dos desafios tanto do Estado brasileiro quanto da sociedade civil é estruturar o país para uma nova realidade econômica e geopolítica que virá com os próximos anos. Se nada de desastroso ocorrer, o Brasil passará a ter em torno de 30 milhões a mais de consumidores. O grande desafio, portanto, passa a ser oferecer as possibilidades de uma vida completa e emancipada para milhões de pessoas que estiveram até hoje em um estado de extrema obliteração. Isso, praticamente, remete a pergunta: O que fazer politicamente com a cultura, estética e educação em relação a grupos que estão passando a consumir, acessar e participar da vida social, evitando que se tornem apenas “serviçais voluntários”?

A preocupação que se apresenta a uma “nova classe média” surge pelo fato de que o consumo, material e simbólico acarreta em um modelamento da consciência por parte de diversas forças que não raras vezes atuam contra a sociedade. Atentaremos aqui para o modo como a aquisição de educação, “cultura”, conhecimento crítico, capacidade de análise e de uma prática sensível pode promover uma autonomia tecnológica capaz de colaborar com a formação de uma comunidade potente.

Para isso, torna-se urgente a atenção para a capacidade das formas de expressão segundo os próprios termos, além de um aprendizado estético e tecnológico, que é sensível, político, radical e aponta para uma nova forma de encarar as regras do pensamento. Isso significa antecipar um exercício que é tecno-social, na medida em que forma e apresenta uma visão de mundo construída a partir das próprias experiências, conhecimentos e desejos.

Com a possibilidade da intervenção no campo simbólico a partir de máquinas comunicacionais, as potências artísticas, culturais, educacionais, sentimentais e técnicas afloram no sentido de uma descoberta da própria expressão e da negação da imposição de vontades e políticas alheias. Neste sentido as possibilidades da comunicação preparam uma sociedade mais crítica, analítica e autônoma, que aprende que a matéria prima da cultura está na base da formação e desenvolvimento social. Com isso, apresentaremos elementos dos usos das tecnologias que atiçam uma criatividade política e uma inserção na vida pública, permitindo a grande parte do povo brasileiro ser mais que mero consumidor e passando a ser produtor de seu próprio destino.

Dia 29 de abril, a partir das 9 horas

Auditório do PPGCOM – UFPE, CAC, 1º andar.

Hoje à noite embarco para o nobre municipio de Cabrobó, Sertão do São Francisco, com destino final à aldeia Tumbalalá, perto município de Abaré. De hoje até domingo acontece o encontro dos projetos Cine Kurumin e Espalha a Semente em parceria com o coletivo Nordeste Livre. Na programação, oficinas de áudio e vídeo, de contação de histórias, Caixa Escura e presença da Rádio Amnésia e da saudada Mimosa.

Território Tumbalalá. Foto: Ugo Maia

Território Tumbalalá. Foto: Ugo Maia

Não conheço essa região do Sertão do São Francisco, que fica ao sul da Cabrobó, cruzando-se o rio, na parte bahiana e minha expectativa é grande. Por um lado porque eu não viajo muito, embora a vontade seja muita. Por outro lado, porque viajo ainda menos para atividades como essas. A última foi para Lençóis, durante um dos submidialogias que aconteceu lá – um dos últimos diga-se de passagem. Aliás, alguns dos mais queridos personagens daqueles encontro estarão em Tumbalalá – José Balbino, Thais Brito, Ricardo Ruiz, Tininha, Akim.

Expectativca também pelo contato com os parentes.  O site da ONG Povos Indígenas do Brasil tem essa descrição do poro Tumbalalá:

Em dezembro de 2001 a Funai incluiu os Tumbalalá no quadro das comunidades indígenas reconhecidas e assistidas pelo Estado brasileiro. O reconhecimento oficial ocorreu após uma mobilização iniciada em meados de 1998 e direcionada para a adoção de projetos de articulação coletiva que gravitavam em torno de uma história, destino e origem comuns para as pessoas que formam hoje uma comunidade com fronteiras sociais em processo e ainda sem território demarcado. Habitando o sertão de Pambú, uma área na margem baiana do sub-médio São Francisco ocupada no passado por várias missões indígenas e alvo de criação extensiva de gado bovino durante os séculos XVII, XVIII e XIX, os Tumbalalá estão historicamente ligados a uma extensa rede indígena de comunicação interétnica, sendo, assim, parte e produto de relações regionais de trocas rituais e políticas que sustentam sua etnogênese no plano das identidades indígenas emergentes e os colocam no domínio etnográfico dos índios do Nordeste brasileiro.

Segundo informações da Funasa, são 1469 pessoas (dados de 2006) vivendo entre os municípios de Curaçá e Abaré. Uma das referências da localização é o pequeno e antigo povoado de Pambú (S 08o 33’ W 039o 21’), a ilha da Assunção (TI Truká) e a cidade de Cabrobó (PE).

A história da ocupação dessa região norte da Bahia é a criação extensiva de gado bovino e a formação de missões indígenas nas ilhas do sub-médio São Francisco – aidna segundo a Povos Indígenas. “Essas duas agências coloniais, somadas a outros fatores tanto políticos quanto naturais, responderam por fluxos de deslocamentos e convergência de pessoas e famílias que fizeram desta parte do sertão uma referência regional no século XVIII”.

Formando um importante núcleo de atração e povoamento interior, o sertão de Pambú foi ocupado até este período por ajuntamentos portugueses, vilas e aldeias de índios cariri, fazendas de gado, grupos de índios nômades não reduzidos, mas contatados, e outros ainda sem comunicação com os colonizadores. Dessa babilônia étnica que colocou lado a lado, em um complexo e tenso campo intersocial, pessoas e instituições com interesses e estilos culturais mais diversos derivam os Tumbalalá e as demais comunidades indígenas do sertão do sub-médio São Francisco.

para quem se interessar, mais informações aqui.

Toré Tumbalalá. Foto: Ugo Maia

Toré Tumbalalá. Foto: Ugo Maia

É interessante observar que os Tmbalalá falam apenas o português e não há evidências lingüísticas comprovadas do uso de fragmentos de um léxico que possa ser remetido a uma língua indígena pretérita. Entretanto, palavras associadas a objetos rituais do toré – como “pujá”, “kwaqui” e “cataioba” – são representadas por alguns tumbalalá como remanescentes cariri, língua outrora falada em quase toda a extensão do sub-médio São Francisco e que, ostentando significativas variações dialetais, foi relacionada por alguns autores a um tronco lingüístico independente e pouco conhecido (Adam, 1897; Pinto, 1935). Embora não fosse de origem jê nem tupi, filiação da maioria das línguas ameríndias faladas no Nordeste, o cariri era uma língua corrente em uma extensa área no interior desta região e estava dividida em quatro dialetos dos quais dois, o dzubukuá e o kipea, eram falados no sertão do São Francisco, enquanto os dialetos Pedra Branca e sapuya eram de domínio mais próximo ao litoral. Por se tratar de uma língua não mais falada pelas populações locais, seu estudo linguístico é precário e quase todo baseado nas gramáticas elaboradas por missionários que estiveram na região durante os séculos XVII e XVIII.

Cine Kurumin/Espalha a semente/políticas do cotidiano

É nesse cenário que acontece uma das ações de letramento digital e áudio-visual atuais mais interessantes, que é o Cine Kurumin, projeto contemplado pelo Edital de Apoio a mostras e festivais audiovisuais do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. R que está articulado ao Espalha a Semente, que você pode conhecer melhor lendo esse texto.

Sobre todas essas iniciativas eu já escrevi um bocado. Elas materializam uma forma de fazer política vinculada ao cotidiano e suas práticas, processos, imanências, afetos. Elas pontam para a busca de uma autonomia criativa no trato com objetos e processos técnicos e, em última instãncia, procurar criar condições de possibildiade para o acesso a bens informacionais, conhecimento, cultura. Mas a perspectiva não é a que é guiada pela Justiça distributiva – a mesma aliás, que orienta o grosso dos chamados projetos de inclusão digital à la CDI.

A questão também não está restrita ao tema da democratização das comunicações, como pode-se pensar inicialemnte. O debate é mais amplo e mais complexo e mais sutil também pois incide sobre assuntos como bens comuns (ou commons, em sua perspectiva imaterial e simbólica, os bens comuns que pertencem a toda a humanidade, os conhecimentos elementares coletivamente produzidos, cujo fluxo e usufruto é limitado ou apropriado, de acordo com a conveniência do Capital pós-industrial).

A questão sobre a qual incidem as ações acima também estão relacionadas às questões de identidade e pertencimento, assim como aos processos de ensino-aprendizagem que permitem a verbalização justamente da identidade, das necessidades,d as reivindicações, dos relatos não alinhados com as visões de mundo veiculados pelo discurso hegemônico dos meios de comunicação.

De modo que essas ações coletivas com tecnologias livrs não se restringem (nem mesmo se dirigem necessariamente) aos espaços institucionais do exercício da política, embora sejam políticas do cotidiano nas mais verdadeira acepção da palavra.

Documentação da viagem

Vou tentar documentar o périplo até Tumbalalá e as atividade por lá. Não sei como é o estado da internet por lá, nem mesmo se há operadoras além da TIM prestando serviço. De qualquer forma, vou trazer alguns vídeos e muitas fotos, isso com certeza. A viagem começa hoje à noite, na saudosa e invencível plataforma da Empresa Rodoviária Progresso, pontualmente às 22h10. São 11 horas até Cabrobó, depois um transporte de meia hora pra Abaré e depois o pessoal me pega lá. Só sei que em algum momento vou ter que atravessar o velho Chico. A ver…

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Hoje pela manhã e à tarde instalamos o Ubuntu 10.10 nas máquinas que usaremos nas oficinas do Projeto Coque Livre. Acho uma etapa importante essa, sobretudo porque ela implica em contar que as pessoas que passarão pelas oficinas serão levadas a usar uma outra plataforma de relacionamento com a máquina. É uma mudança de paradigma muito grande. Até hoje, os usuários do telecentro montado no NEIMFA usavam o Windows. Além do estranhamento natural com novas interfaces, procedimentos, lógicas de relação com o objeto técnico (o computador) e com objetos imateriais (o que for produzido nesa nova plataforma) existe um aspecto que não pode deixar de ser levado em consideração: é que o Linux não foi pedido por essas pessoas, ele está sendo “implantado” por um “pessoal de fora”. É um grande risco, se considerarmos ainda mais que a maior parte dos que passarão pelas oficinas são adolescentes, uma idade complicada para todos, de negação, de não aceitação do que os adultos lhes mostram, etc. Eu sei que essa é uma análise vaga e superficial, o que eu tô procurando refletir inicialmente é a necessidade de levarmos em consideração essa dupla articulação que envolve a instalação de um novo sistema operacional: a faixa etária (e sua carga comportamental) dos que farão as oficinas e o fato dessas novidades no trato com o computador ser mediado agora por um sistema que não foi solicitado.

É por essas razões que a instalação – e se possível, a migração gradual do NEIMFA ou ao menos de seu laboratório a plataformas livres – precisa ser feita com atenção, cuidado, atentando para as dimensões culturais estabelecidas no relacionamento com o espaço e seus mecanismos – telemáticos ou não. Daí a necessidade da expressão do afeto num espaço/ambiente real, de pessoas reais, de história real. Daí a necessidade de preparar as máquinas de modo a que o estranhamento não seja tal que cause antipatia, aversão, e no limite evasão.

O ideal é que o processo de instalação e configuração dos computadores acontecesse de forma coletiva, talvez numa oficina, e sendo realizada de forma intensiva pelos próprios alunos, guiados pelos oficineiros. Seria a oportunidade para discutir várias coisas como por exemplo direitos autorais, o papel desempenhado pelas techs  no controle do cidadão, autonomia para lidar com o objeto técnico e mudá-lo quando necessário, etc., e por esse caminho deixar às claras as razões da importância de se usar softwares livres, de se evitar a lógica fechada, privatista, excludente das plataformas proprietárias. As limitações impostas na manipulação de arquivos, no compartilhamento dos mesmos, e os riscos apontados na legislação são por si só bem convincentes.

Recentemente ouvi que “no mundo real o bom pode ser inimigo do ótimo; o ideal, o inimigo do possível“. Sim, é lá uma afirmação limitante das possibilidades. O ideal aqui, essa instalação feita de forma comunitária, pela qual se compartilhem conhecimentos, ansiedades, expectativas, experiências, não é inimiga do possível, visto que já ocorreu e ocorre noutros lugares, e noutros tempos.

A nossa contingência é que não nos permite agora que o ideal seja o possível. Mas isso pode mudar e mais pra frente poderemos fazer install fests ou mesmo oficinas específicas. Por outro lado acho preferível ressaltar a perspectiva que um lab com 14 máquinas rodando linux e derivados derivantes significa. Há pouco tempo o espaço e a comunidade não possuíam infra tão interessante. Se for conduzida de forma interessada e envolvida; se o próprio NEIMFA se abrir e se descomplicar mais; se a comunidade se apropriar dessas possibilidades muita coisa boa poderá sair desse angú.

Porque para aqueles afeitos à Cultura Livre, às ações coletivas com tecnologias livres, a toda a discussão relacionada ao descentramento da noção de autor e a correspondente batalha pela flexibilização dos marcos jurídicos que regulam monopólios artificiais sobre expressões de bens simbólicos; todos aqueles que atuam por democratização das condições de possibilidade para a produção, apropriação, remix, e veiculação de informações, cultura e conhecimento; todos aqueles que em maior ou menor medida sabem da necessidade da desmistificação das máquinas como percurso possível para o letramento, no momento atual da história do capitalismo,

tenho pra mim que para todas essas pessoas o uso dos softwares livres é uma condição (não a única necessária e suficiente) para processos de profunda e orgânica apropriação crítica de tecnologias da informação e comunicação – bem como, a partir daí, de desenvolvimento das condições de possibilidade de um caráter protagonista, mais autônomo e crítico para exercer sua dimensão política, para o estar no mundo, para o trânsito numa economia-política na qual o valor está cada vez mais calcado nas relações, nos afetos e no conhecimento coletivamente gestado.

Por mais que esse discurso conviva com os cinismos diários, que nos rodeiam e nos seduzem; por mais que esse discurso conviva com suas fragilidades inerentes (outro post, outro dia), por mais que ele se fragilize com experiências que não deram certo, e com as ameaças de todo tipo, não é possível deixar de considerar sua potencialidade e, nesta, procurar se agarrar ao que pode ser mais efetivo.

Show me more… »

Por necessidade de meu trabalho, precisei procurar uma ferramenta que permitisse disponibilizar num site aberto os feeds relacionados a sites diversos. Essa é uma funcionalidade corriqueira para os agregadores de feeds que existem por aí – o GReader talvez seja o que tenha maior capilaridade pela quantidade de gente que utiliza o Gmail. Mas o que eu precisava era que aquela agregação, que é feita de forma privada, direcionda ao usuário, fosse o contrário: que fosse pública.

Com isso, minha preocupação era que um conjunto de pessoas pudesse ter acesso de forma ágil, prática e pública a informações disponibilizadas em endereços diferentes. Quebrei a cabeça um bocado para encontrar essa funcionalidade – sei que o site do Metareciclagem agrega informaões de sites previamente cadastrados. Mas se não me engano FF precisou aprender a mexer com drupal para desenvolver alguns daqueles módulos. Eu não tinha esse tempo e o perfil era outro. Além disso, precisava também que o site permitisse agregar os feeds em canais sob critérios estabelecidos pela leitura e necessidades das pessoas que irão (espero) ausá-lo. Ou seja, era preciso estabelecer filtros, pois nem todas as informações do sites a serem catalogados interessariam.

Aí, graças a Marcelo Zenaide, encontrei o que até agora tem sido a melhor alternativa para a minha necessidade aqui no trabalho. Uma das sugestões de Marcelo foi usar o Feed Rinse, um serviço gratuito para ler feeds. Um diferencial dele é que é possível estabelecer canais para a importação das URLs sob os feeds e estabelecer critérios tanto para a agregação dos feeds quanto para a distribuição dos endereços nos canais. O que eu precisava agora era dispor os canais e as respectivas postagens dos sites cadastrados em um site. Foi aí que Marcelo lembrou do Net Vibes, um agregador de feeds, mas com a vantagem de permitir criar uma página pública com os posts.

Criei então uma conta no Feed Rinse e outra no Net Vibes e comecei a cadastrar alguns feeds como experimentação. Vinculei as duas contas e, depois de cadastrados os feeds, criados os canais e formado um OMPL importei este para o Net Vibes. Usei os feeds de alguns dos sites que mais acompanho. O resultado é uma página pública que disponibiliza os sites que eu mais leio atualmente. A disposição das informações é muito variada e amigável, permite o compartilhamento via redes sociais e email, a incorporação de widgets dos canais para sites e/ou para a conta do iGoogle do freguês. Uma imagem:

Apanhei um bocado para fazer o negócio, como experiência para essa demanda no trabalho, mas valeu à pena – embora não haja novidade nenhuma nisso. Essa aqui é a página dos feeds que eu acompanho. A quem interessar possa, boa leitura…

Marcelo, mais uma vez brigadão pelas dicas.

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