Archive for the 'Metareciclagem' category

O capítulo 2

Luiz Carlos Pinto | 5 de julho de 2009 22:02

Ando escrevendo o segundo capítulo para não ficar parado, enquanto não recupero os dados do hd pifado. Nesse segundo vou tratar da tecnologia e da técnica, discutir como são instâncias fundamentais no controle das formas contemporâneas de produção, circulação e fruição de bens simbólicos. Nesse sentido não há nada de novo. É uma tese largamente usada. O principal objetivo desse capítulo (assim como do primeiro) é enunciar o problema que me tomou esses anos.

No caso específico do capítulo 2 a enunciação do problema é acompanhada por uma defesa de uma perspectiva de análise da técnica e da tecnologia que supere o pensamento individualizado que marcou a tradição ocidental sobre o assunto, que vem de Heiddeger a Habermas, passando por Jacques Ellul e por Marcuse. Estou em defesa de um pensamento que acentua a técnica como individuação. E para isso tô lançando mão das análises dos filósofos Gilbert Simondon e Gilles Deleuze e dos antopólogos Leroi-Gourhan e Bernard Stiegler.

Com isso pretendo do meio pro fim, com a ajuda de Alberto Melucci, mostrar como essa perspectiva de análise da técnica e da tecnologia é mais adequada para considerar as questões de apropriação que surgem entre os movimentos sociais contemporâneos.

Minha idéias era terminar esse segundo até o dia 15 desse mês, mas pelo andar da caruagem não sei não.

Da arte de perder tudo II

Luiz Carlos Pinto | 11 de junho de 2009 9:31

Levei o notebook à Up grade, empresa que vende periféricos, computadores e fornece assistência técnica. De início a avaliação foi a pior possível: impossibilidade de recuperar os dados contidos no HD avariado e impossibilidade de se voltar a usar o mesmo HD. Prejuízo mínimo: R$ 200 por um novo HD, mais mão de obra e uma enorme dor de cabeça. Mas a Up Grade parecia mais interessada em me vender um novo HD, de modo que desconfiei e levei a máquina noutro lugar, a Notebook City, a primeira loja a oferecer os mesmos serviços para computadores portáteis no Recife.

Enquanto esperava um laudo mais sério (a Up Grade não informou nem os procedimentos que usou para avaliar o HD) fiquei sabendo que a coisa mais equivocada num caso desses é levar o notebook para uma dessas lojas. O mais correto é levar a uma empresa especializada em recuperação de HDs, pois o equipamento e toda a estrutura usada é mais precisa e limpa: a sensibilidade da superfície dos HDs hoje é tal que somente o ar de um ambiente pode aumentar os danos, inviabilizando qualquer recuperação mais bem sucedida. Quanto mais uma dessas empresas não-especializadas mexe, pior. O problema dessas especializadas é o preço. Fácil fácil você paga o valor de um novo computador.

Fui na Notebook city retomar a máquina, não sem antes solicitar para parar o processo, pedi para que não abrissem o velho guerreiro prateado. Felizmente há uma dessas especializadas no Recife, a BCL Tech. Deixei lá. Cinco dias para nova avaliação, confiança renovada, depois do laudo pessimista da Up Grade. Enquanto isso, retomo as mudanças que Maria Eduarda pediu no texto do primeiro capítulo.

Ontem não foi um dia fácil. Dia de jogo da seleção na cidade, véspera de feriado, todo mundo querendo largar cedo, o trânsito um inferno e todas as partes por onde andei no Recife, e fui da região norte à região sul. Depois de muita luta para chegar ao shopping onde deixei o computador, me dirigi a outro extremo, no Pina, região que, embora seja do mesmo bairro, é distante – além disso, um trânsito insuportável separa os dois lugares, quase sempre.

Foi ai que coisas interessantes aconteceram: na BCL Tech você não pode deixar a máquina. Tem que deixar o HD somente. Eu não tinha uma chave apropriada para abrir o compartimento e retirar a peça – outra lição não aprendida, andar com uma chave de fenda pode impedir muitos desagrados e contratempos.

Mas pode revelar lições também. Foi o que aconteceu: depois de circular pelo Pina com o computador nas costas, com medo de ser assaltado, encontrei uma biboca onde se consertava computadores. Eu só precisava pedir a chave. Mas disse que queria saber se eles trabalhavam com notebooks pois precisava retirar o HD do meu para levar ao conserto ali perto. Um senhor de seus 55 anos, camisa aberta, crucifixo pendurado, cabelo escovado, me atendeu. Era o dono da biboca, minutos antes o vi resolvendo uma bronca no telefone, um verdadeiro cu de boi, estava estressado demais com alguém que o enganou. E eu também estava uma pilha. Pois esse sujeito, no meio do inferno dele, parou para procurar no mapa da lista telefônica o endereço de uma empresa ali perto que poderia fazer o serviço de abrir o laptop. Encontrou o lugar, anotou endereço e telefone e, antes de me entregar o papel, ligou pro lugar para confirmar os dados.

Quando cheguei ao lugar, cerca de um quilômetro distante, outro sujeito no telefone resolvia um outro problema. Depois de me ouvir me disse que me empresatava a chave por R$ 30 para abrir o fundo do notebook e retirar o HD – operação que não dura mais de 20 segundos. Devo ter olhado pra ele de um jeito que me denunciou: o estresse e o medo de um dia inteiro. Ou então ele percebeu o exagero da cobrança, ou então foi que ele precisava fazer uma boa ação para que eu soubesse dela, não sei… Me pediu o notebook dizendo que ia quebrar meu galho. Tirou o HD cuidadosamente e me entregou. Agradeci a ele também, segui para a BCL Tech com o HD separado pensando que às vezes solidariedade e gentileza se aprende na marra, vendo o exemplo de quem tinha justificativas para não exercê-la.

Atualização: o computador que andava aqui em casa encostado tem peças da placa-mãe queimadas, fonte também queimada. Outra placa-mãe com compatibilidade com a memória é difícil de achar. Salva-se cok certeza a memória e o hd. pensava em reabilitar essa máquina com uma distribuição linux enxuta e ir tocando, mas não vai ser dessa vez.

Da arte de perder tudo

Luiz Carlos Pinto | 9 de junho de 2009 7:58

<<O satã de Milton é moralmente superior ao seu Deus, assim como quem persevera a despeito da adversidade e da sorte é superior àquele que, na fria segurança de um trinunfo certo, exerce a mais horrível vingança sobre os inimigos>> Herman Melville

Finalizado o primeiro capítulo, pronto para enviá-lo à orientadora, junto com o esboço do seguinte, eis o computador sofre um acidente. Por umas questões paralelas, um dano físico comprometeu todo o trabalho acumulado em três anos e meio. Quase seis horas para fazer recuperar o hd avariado não surtiram efeito. Tive que levar o velho guerreiro numa ssistância técnica. Laudo definitivo na quarta.

Como eu tenho tentado fazer de um tempo pra cá, e não somente em relação ao doutorado, tô tentando aprender com isso. Primeiro, acho que fui negligente com meu espaço de trabalho. Acho que não o bloqueei como deveria das questões paralelas, dos acidentes e incidentes que rondam qualquer pessoa. Considerando que o ambiente não é somente físico, mas que inclui o meu próprio corpo e minha própria mente, acho que faz sentido pensar que a proteção que eu não vinha fazendo da forma mais apropriada incluia esses espaços também.

Vivo recomendando os amigos maios chegados e até Eduarda, minha orientadora, a usar Linux, fazer backup, guardar senhas de acesso em lugares seguros, etc, etc. Maior espeto de pau aqui. Meu backup era velho, coisa de oito meses. Num cenário pessimista, em que se confirme que o HD foi todo perdido, vai me ajudar, mas um backup bem feito e adequado à situação de quem faz um doutorado é que me impediria de comprometer meu trabalho.

Havia outro computador, um desktop, acho que Pentium, aqui enconstado. Se era para manter encostado, deveria tê-lo doado e há miuta gente precisando de um por aí. Meus planos era reabilitá-lo com uma distribuição linux enxuta, e usá-lo como laboratório para aprender a mexer com programas livres. Sufocado por leituras e outros trabalhos, nem comecei esse projeto. Se o tivesse feito, provavelmente seria uma boa forma de fazer um backup automático, talvez colocando esse velho computador e o laptop agora avariado em rede.

Ontem, ao tentar colocá-lo para funcionar, a fonte queimou. De forma que agora, há alguns meses para terminar o doutorado, me encontro sem máquina para trabalhar. Não quero ficar indefinidamente me queixando ou sentindo pena de mim. Isso durou uma noite só. Mais vale seguir em frente como o satã de Milton.

Quarta, vejo o estado do laptop. Hoje, final de tarde ligo pra outra assistência onde coloquei o desktop pra conserto – esse tempo todo estudando metarreciclagem e mídias livres e nem essas tretas consego ainda resolver, tsc, tsc.

Johann Hari: The Independent, UK

Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa – e navios de mais 12 nações, dos EUA à China – navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilãos de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos ‘ocidentais’ estão rotulando como “uma das maiores ameaças de nosso tempo” têm uma história extraordinária a contar – e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.

Os piratas jamais foram exatamente o que pensamos que fossem. Na “era de ouro dos piratas” – de 1650 a 1730 – o governo b ritânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Por quê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villains Of All Nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito interessantes.

Show me more… »

Isso aqui é gigante, tudo é grande. Do tamanho do lugar ao número de computadores e da banda de rede reservada pra tantas máquinas (10 Gb), o preço da comida, a quantidade de oficinas, palestras, demonstrações de serviços, geeks, geeks, geeks e conversas inacreditáveis nas bancadas vizinhas… O barulho também é grande e tudo acontece ao mesmo tempo. Ao contrário do que a grande imprensa teima em acreditar e repercutir, a Campus Party não é o lugar em que se encontra um bando de desmiolados conversando sobe banalidades, computadores, jogos, internet. Essa é a versão fácil de contar e a cômoda de acreditar. A imprensa, como noutras muitas ocasiões, não consegue dar conta do que acontece aqui e resume tudo a uma palavra: geek.

Hoje a Metareciclagem, um movimento social com todas as características apontadas por Alberto Melucci, ocupou seu devido espaço no evento. Uma bancada com lgar para 50, 60 computadores, espaço para oficinas e debate. Trouxeram muito material para construção de equipamentos, uma máquina de fliperama para ser modificada, algumas oficinas na agulha. O trabalho começou hoje com um encontrão – entre pessoas que em muitos casos só se conheciam via lista de discussão.Objetivo geral: múltiplo. Discutir teoria, apropriação de sentidos, construção de sentidos para o movimento, identidade, educação, processos e metodologias de ação, relacionamento com governo – novos e velhos temas e preocupações que devem ocupar as discussões e ações na bancada nos próximos dias. E isso, eu nem fui ver o restante do evento…


Estavam presentes:

Ariel
Elenara
Paulo Bailux
Jean Habib
Gama
Leila
Patricia Fisch
Flavio Teixeira
Luiz Waldor
Daniel Duende
Daniel Varga
Pixel
MBraz
Fabs Balvedi
Lixeira
Daniel Pádua
Carlos Henrique
Orlando
Andréa
Alyne Castro
Rodrigo Bonfé
Felipe Santos
Tatiana Prado
José Paulo
Fernando
Banto
Phelipe Ribeiro
Felipe Fonseca

FF deu início à discussão fazendo pública algumas preocupações e temas que ele acredita que são necessárias de serem discutidas. Ele iniciou comentando que apenas abrir e mexer no maquinário (bem cmo um certo processo educacional envolvido) não é suficiente para dizer que o que está sendo feito é metarreciclagem. Também incorporar a metarreciclagem à construção de telecentros não é novidade nem esgota a idéia. Nesse sentido Felipe disse que a metarreciclagem é principalmente fazer parte de uma rede em que não se depende da ação de reciclar computadores.

Essa articulação em rede é o que, segundo FF, dá força para continuar e relevância. Mas a necessidade de documentação é fundamental e nesse sentido um dos temas a serem colocados na roda é a melhora da infra-lógica para que ela possa efetivamente ser uma ferramenta de troca de equipamentos, idéias e de intercâmbio de pessoas.

Outro assunto em pauta é a “reconstrução depois da desconstrução”, no sentido de se ‘definir’ (na falta duma palavra melhor, pois tô muito cansado pra pensar mais fino) os novos sentidos dos usos, das técnicas, dos equipamentos, das tecnologias. É aqui o terreno do que Felipe indica como mitos.

Também se tratou no encontrão ficou o de se pensar como eeftivamente fomentar um intercâmbio mais efetivo dos esporos hoje existentes. Outro assunto que circulou entre as preocupações é a das teorias das práticas – o que recai na discussão de sentidos inventados, apropriados, desenvolvidos nos últimos anos.