Dia desses vi um filminho muito interessante sobre a relação entre a forma de pensar criativamente e a forma de organizar sua área de trabalho – a forma como você organiza seus espaços estariam ligados à forma de organizar ideias, vontades, disposições, criatividade, etc. Lembrei desse vídeo por causa de meu birô (foto acima), minha área de trabalho em casa hoje. Nela, ainda que desfocada, uns livros, revistas, papéis velhos, remédio vazio, cordas de contra-baixo, material de ilustração – lapis e cadernos – um pote de iogurte, fiação do computador, de caixas de som e de eletricidade, uma capa de DVD com um DVD dentro, latas de metal que continham mantega e hoje contém outras coisas, óculos, baterias, um cinzeiro do Uruguay, um retrato de Vinícius. Na verdade, desde que terminei a tese ela vive assim, amontoada de uma desordem que eu nunca vivi. O velho birô, que eu comprei na Rua da Conceição uns anos atrás, anda abarrotado de coisas, e ideias, e carbono impresso, se derramando por todos os lados, vazando.
De modo que se por uma parte a finalização do trabalho me abriu muitas possibilidades, vários encontros, pessoas, afetos, processos etc, a verdade é que não tenho conseguido dar conta de praticamente nada. A exceção é o trabalho na Secretaria, que me toma o dia inteiro. Somente ele tô conseguindo fazer direito. E isso me deixa bem quebrado ao fim do dia.
Uma interação maior com a rede Metarec, sobretudo nas reflexões dos processos; a edição de um livro com o querido amigo Inácio a partir de uma boa ideia; uma agenda de trabalho/estudo visando os concursos que virão por aí; dedicar um pouco mais ao Grupo de Estudos de Educação para o qual o querido Rui me convidou; e as mais recentes possibilidades de trabalho conjunto com Pajé, Pixies, Thais, Ruiz e Djahdjah depois do Fórum de Cultura Digital; além da chamada para ‘ invadirmos’ a SBS também entram nessa conta. São só algumas das coisas mais recentes que não tem andado. O próprio Fórum já vai em duas semanas, o Encontro Metarec no Recife, vai completar uma semana, sem que eu tenha conseguido fazer e postar nenhum relato.
Toda essa romaria de coisas iniciadas e não finalizadas, uma inflação de informação me cercando, a dificuldade de concentração nos projetos que surgem e nas possibilidades que se abrem têm me dado a impressão duma estagnação danada – física, mental, espiritual. Queria me convencer de que esse day after prolongado pós entrega de tese acontece com todo mundo.
Mas não sei não.
Ao lado disso tudo tenho andado muito cansado. Por um lado, tô precisando parar 20 dias que seja – o corpo tem dado sinais de que é também um calendário. Por outro lado é engraçado isso. A impressão do cansaço no corpo, que resiste mais hoje em dia às intencionalidades, é muito clara. O que é outra forma de perceber o envelhecimento. Antes, eu achava engraçado quando alguém dizia ‘não sou mais um garoto de 22 anos’. Hoje essa frase é mais próxima do que antes.
E há outro cansaço me rondando. Mas desse é mais difícil de falar, porque é intangível. Cansei daquilo que me toma o tempo por ser mentira, por ser hipocrisia, mise en cene (assim que escreve?) e tô abrindo mão sempre que puder de conviver com essas forças…
Daqui uma semana faço 38. Acho que já deveria ter aprendido a contornar certas coisas, como a frustração de não poder me dedicar integralmente àquilo que me interessa e viver disso – e muito mais. Ou saber evitar os pulhas que sempre aparecem pelo caminho. Ou saber dizer NÃO mais vezes. Ou saber dizer SIM mais vezes ainda. Talvez viver seja isso, a procura por limpar sua área de “trabalho” constantemente, sem fim, descartando os pulhas de antes, de hoje e do futuro; re-colocando prioridades; aprender a usar outros vocabulários e aprender a se curar com eles… E no fim e durante, aprender a fazer o amor.
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