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A universidade nos tempos de FHC

Luiz Carlos Pinto | 25 de agosto de 2010 18:29

Cynthia Semíramis

Outro dia me vi contando para colegas de faculdade bem mais jovens como era a educação universitária no governo Fernando Henrique Cardoso e porque eu tenho tanto desgosto por essa época. Achei que seria interessante deixar o registro no blog também, para refrescar as lembranças e lutarmos para que algo assim não volte a acontecer.

Passei a década de 1990 praticamente inteira dentro da UFMG. Primeiro na Escola de Música, cursando formação musical enquanto fazia o segundo grau. Fiz um intervalo de um ano, em 1996 (aqui já era governo FHC), estudando pro vestibular. Depois, cursei a faculdade de Direito. A formatura seria em dezembro de 2001, mas foi em fevereiro de 2002 por causa da greve de servidores.

Lembro-me da aposentadoria em massa dos professores da Escola de Música, pois estavam sendo implantadas novas regras para trabalho e previdência que seriam ruins para os docentes. Mais tarde, vi o impacto dessas aposentadorias na Faculdade de Direito: as vagas deixadas em aberto pelas aposentadorias foi preenchida em sua maioria por concursos de professores temporários (os famosos professores substitutos).

Alunos de pós-graduação ou bacharéis em Direito sem pós-graduação (não havia cursos de especialização, havia pouquíssimas vagas de mestrado e doutorado na UFMG, e o mestrado da PUC-MG só foi implantado em 1997) eram contratados como professores substitutos, recebendo um salário de R$300,00 (baixo, mesmo para a época) para ministrar aulas. Como professores temporários ficavam somente em sala de aula, não desenvolviam pesquisa. As poucas vagas abertas para professores efetivos exigiam dedicação exclusiva, com salários baixíssimos e sem recursos de nenhum tipo para desenvolver pesquisa.

Alunos de graduação que quisessem seguir carreira acadêmica tinham de se dispor a fazer pesquisa e monitoria de forma voluntária, pois as raríssimas bolsas não eram suficientes para todos os candidatos aprovados. A ausência de bolsas afastou alunos que queriam fazer pesquisa, mas que não tinham família para bancar seus estudos: ou trabalhavam (e aí eram recusados na monitoria/pesquisa voluntária, pois muitos orientadores exigiam dedicação em tempo integral), ou se sujeitavam a pesquisar sem bolsa e aguardar pacientemente na fila até obtê-la.

Os prédios onde estudávamos eram ruins, pois não havia um mínimo de preocupação com planejamento ou manutenção. Os elevadores nunca funcionaram a contento, e sempre alguém ficava preso neles. A faculdade de Direito conseguiu fazer algumas reformas em meados da década de 90, alterando um dos prédios (o menos velho) para receber todos os alunos de graduação, e ampliando a biblioteca (que funcionava num porão e passou a ter um prédio acima do porão, com mais mesas para estudo, novas instalações elétricas e até elevador). Porém, o problema da manutenção era sério: quando um professor e meus colegas ficaram presos no elevador da biblioteca e foi necessário destruir sua porta para que eles saíssem, mais de seis meses se passaram até consertarem o elevador e reorganizarem a biblioteca.

Falando em biblioteca, ela era um horror: só tinha livros velhos, mofados, e poucos periódicos estavam atualizados. Estudar na biblioteca era sinônimo de sinusite e alergias. Cansei de estudar lá em época de chuva ouvindo goteiras. Não havia verba para comprarem os livros indicados pelos professores. O D.A. fazia campanhas incentivando editoras a doarem livros para melhorar o acervo.

O período em que estudei foi também o período das greves. A de 1998 é particularmente memorável, pois metade dos professores entrou em greve (eram os professores em dedicação exclusiva) e metade não aderiu à greve (professores substitutos, em estágio probatório, e em tempo parcial que priorizavam atividades não-acadêmicas como advocacia). A greve foi de março a julho, e bagunçou todo o calendário acadêmico por cerca de dois anos. Pra mim, o impacto da greve foi terrível, pois tive aula direto entre março e outubro (primeiro com os professores que furaram a greve, e depois com as aulas de reposição) e o novo calendário bagunçou todo o esquema de férias, que passaram a ser bem curtas, em maio e outubro, totalmente incompatíveis com minhas férias no trabalho. Ter aulas em salas abafadas em pleno 40 graus de janeiro foi algo bastante desgastante, não tinha ventilador que amenizasse o desconforto (pelo que me explicaram, a reforma do prédio para receber as turmas de graduação alterou – pra pior – a circulação de ar).

Quando o calendário voltou ao normal, veio outra greve. E mais outra, e mais outra… quando não era greve de professores, era greve de servidores, ou de ambas as categorias. E todos tinham razão em suas reivindicações: salários baixos, congelados, planos de carreira que só retiravam direitos, e péssimas condições de trabalho.

Não tenho saudade das dificuldades dessa época, e ainda não entendo como um presidente que era professor universitário conseguiu destruir a universidade desse jeito.

Estando hoje novamente na UFMG, vejo o quanto algumas coisas mudaram (mais verbas pra pesquisa, bolsas de monitoria, novos livros – inclusive estrangeiros – na biblioteca). Tem muita coisa que pode ser melhorada (como a manutenção dos prédios e elevadores), mas não tem nem comparação com o pesadelo que foi estudar durante o período Fernando Henrique Cardoso. Às vezes é necessário ver ou viver situações bastante ruins para dar valor quando elas melhoram…

No final de semana, tomando uma cerveja em pé no Bar de Dona Maria – o único que abre fielmente de domingo a domingo no nobre bairro das Graças – ouvi de um senhor de cabelo e bigode brancos que “O Senador Marco Maciel é um diplomata. Aquele sim é um político”.

Lembrei da breve conversa com aquele senhor, 70, 75 anos, numa cadeira de balanço do chuvoso domingo passado, quando vi essa entrevista do senador da República Marco Maciel, publicada nesse 24 de agosto.

Acho essa entrevista particularmente feliz por permitir que o senador exponha a forma pela qual exercita sua forma particular de anulação e a desnecessidade da Política. Explico. A Política a que me refiro é o debate de idéias; é a atividade humana que nasce do desentendimento, do conflito, da cisania provocada por um demos que questiona a gestão dos corpos, dos lugares e da riqueza na vida social. O debate político nasce desse desentendimento em torno da distribuição dessas coisas.

Não me interessa se o Senador Marco Maciel tem interesse ou condições de discutir a emergência da Política nesses termos. O que interessa particularmente aqui é a ordem de seu discurso.

E o discurso do Senador Marco Maciel procura excluir qualquer possibilidade de encontro de idéias, de desentendimento: o desentendimento faz surgir não somente a política, mas as ordens ideológicas da ação social. E nesse processo o sujeito político se compromete, diz sim ou não claramente, se destempera, briga, esquece, cresce, diminui, aparece, negocia, entra em contradição necessariamente, é incoerente, efetiva sua condição de sujeito pensante.

Não é por outra razão que o Senador Marco Maciel se preocupa tanto em afastar a possibilidade de discordância ideológica com qualquer outro Senador que venha a ser eleito. É por essa razão que o Senador Marco Maciel afirma com tanta clareza que não é o senador por um partido, da oposição ou da situação, mas senador representante de Pernambuco e dos pernambucanos.

É precisamente a generalidade das afirmações uma das estratégias discursivas do apagamento da Política e consequentemente, da ação política ao longo da vida pública do senador. Das respostas dessa entrevista pode-se tirar algumas das frases mais anódinas e ao mesmo tempo exemplares dessa maneira de apagar o embate político e as posições assumidas nesse percurso:

  • “sempre conservei minhas convicções políticas, sempre tive muito cuidado com a ética no exercício das funções públicas”;
  • “Quem faz vida pública é sacerdócio e, consequentemente, tem que se dedicar inteiramente à tarefa que lhe foi confiada”;
  • “O político, o homem público, tem que ter uma visão plena do país e, de modo especial, do seu estado”;
  • “eu sempre tenho presente que a alternância e a rotatividade são pressupostos de uma sociedade democrática” – essa é uma das poucas afirmações anódinas do senador Marco Maciel que se presta à contestação, uma vez que o sentido da democracia não é a mudança no poder e sim a possibilidade de escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Nesse caso, como se sabe Marco Maciel foi um político sempre aliado dos governos e grupos políticos que se prestaram a servir ás condições de desigualdade, dependência externa e exploração sistêmica.
  • “elogio de boca própria é vitupério”;
  • “Eu me sinto realizado só de verificar que estou sendo útil a Pernambuco e ao seu povo”;
  • “Um dos predicados do político é a coerência”;
  • “é possível ser coerente se a pessoa se comportar de acordo com as exigências que a atividade pública requer”;
  • “A reforma política tem que ser feita em vários estágios para que nós possamos ter essas instituições a que Joaquim Nabuco se referia: instituições fortes, bem cravejadas, que venham assegurar a todos e a cada um a certeza de que vivemos em uma sociedade aberta, democrática e na qual todos se sintam devidamente representados”;
  • “Quando sou eleito, sou eleito senador. Não um senador de oposição ou de governo. Recebo um mandato popular e zelo muito pelo mandato popular”;
  • “O senador que for eleito terá que bem cumprir a sua função. Procurar servir da melhor forma ao seu país e às suas instituições”;
  • “Acho que a política exige muitas renúncias, muito trabalho, dedicação e, às vezes, correção de rumo ao verificar que o caminho que adotamos não é o melhor agora”;

Essas e outras frases poderiam compor um manual do político politicamente correto. Não é por acaso. É difícil discordar delas no geral. Elas dizem e calam no coração de muita gente – o senhor de cabeça branca, bigode branco e óculos embaçado do domingo, em sua admiração pelo porte de estadista do Senador se referia na verdade a ela por causa da dimensão inquestionável da fala.

Mas a fala é mais do que o dito e é preciso avaliar também o local de onde se fala. E nesse sentido a história de seus mais de 40 de vida pública confirmam vírgula a vírgula que o Senador Marco Maciel representa

“uma burguesia dependente, que luta por sua sobevivência e pela sobrevivência do capitalismo dependente, confundindo as duas coisas com a sobrevivência da ‘civilização ocidental cristã’. Em suas mãos, o individualismo egoístico, o particularismo agressivo e a violência ‘racional’só se voltam para um fim: a continuidade do tempo econômico da Revolução Burguesa, ou seja, em outras palavras, a intensificação da exporação capitalista e da opressão de classe, sem a qual ela é possível”, (Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa no Brasil).

Sabemos entretanto, que o Senador Marco Maciel sempre se comprometeu com a ordem do poder institucionalizado vigente, seja ela qual for – e sabemos que apesar de nossa Constituição afirmar que todo poder emana do povo, sabemos também que no Brasil o poder dos extratos dirigentes

“se impõe sem rebuços de cima para baixo, recorrendo a quaisquer meios para prevalecer, erigindo-se a si mesmo em fonte de sua própria legitimidade e convertendo, por fim, o Estado nacional e democrático em instrumento puro e simples de uma ditadura de classe preventiva”, (Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa no Brasil).

Há, por certo, quem considere essa uma postura defensável, embora eu não tenha competência para explicá-la ou defendê-la, felizmente. Ainda mais quando essa ordem do poder historicamente foi o agente da desigualdade social, da injustiça, do privilégio e da pobreza. Chico de Oliveira:

“A formação da sociedade brasileira, se a reconstituirmos pela interpretação de seus intelectuais demiúrgicos … é um processo complexo de violência, proibição da fala, mais modernamente privatização do público, interpretado por alguns com a categoria de patrimonialismo, revolução pelo alto, e incompatibilidade radical entre dominação burguesa e democracia; em resumo, de anulação da política, do dissenso, do desentendimento”, (Privatização do público, destituição da fala e anulação da política).

Um dos pontos mais batidos dessa ladainha é a correção de caráter, a postura de estadista, nunca ter se envolvido em corrupção, em desmando, roubalheira. na verdade essa não poderia ser adorada como bandeira ou elemento de diferenciação, é o mínimo a se esperar dos homens públicos num regime político representativo. Mas, também aqui, serve como estratégia de anulação da política, do choque de idéias, seja ele nos ambientes lesgislativos ou na sala de um apartamento onde houve essa entrevista.

Uma outra estratégia tradicionalmente usada pelo Senador Marco Maciel no sentido do apagamentoao final falar o que bem lhe aprover quando a coisa apertar. Isso todos os políticos e mesmo técnicos de governo fazem. De modo que não se pode considerar essa uma contribuição autêntica ou inédita ou inovadora à política brasileira. O futuro não vem de longe. Essa é uma afirmação anti-histórica.

Acho que as duas pessoas que entrevistaram o Senador Marco Maciel têm o mérito de procurar e insistir nas respostas, mesmo sabendo que elas não viriam – e nesse sentido sairam preparadas para o que iriam encontrar. Ma ssinto falta de que se entreviste o senador Marco Maciel com base em questões mais espionhsas. A ver…

Do Milton Ribeiro, veja o post original

1. “Alternância no poder é bom”.

Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.

2. “Não há mais diferença entre direita e esquerda”.

Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de “esquerdistas”, como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da “direita” do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Borhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Borhausen, José Sarney é Che Guevara.

3. “Dilma não é simpática”.

Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito “simpatia” depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.

4. “Dilma não tem experiência”.

Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.

5. “Dilma foi terrorista”.

Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações “terroristas”. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.

6. “As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano”.

Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate “quem começou o quê” torna-se irrelevante.

7. “Serra vai moralizar a política”.

Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista – no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC – foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela “Operação Sanguessuga”. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com “engavetador da república”, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de “mensalão” foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no “mensalão do DEM”. Roberto Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao contrário.

8. “O PT apóia as FARC”.

Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?

9. “O PT censura a imprensa”.

Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram “a posição oposicionista (sic) deste país”. Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.

10. “Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra”.

Isso é verdade. E mais um bom motivo para votar nela e não nele.

do O Descurvo de Hugo Albuquerque

A Lei Complementar n. 135, mais conhecida como Lei da Ficha Limpa, é um dos grandes temas da campanha eleitoral em curso – além dos factóides diários e das pesquisas eleitorais – porque ela institui mecanismos normativos que facilitam a invalidação da candidaturas – fundamentado na “ficha” do candidato, isto é, o seu histórico judiciário. Mudanças nas regras eleitorais não são espantosas no Brasil, FHC, por exemplo, modificou as regras do jogo no meio dele aprovando a famigerada emenda da reeleição, por outro lado, a enorme confusão não só do Código Eleitoral – um monstrengo criado nos anos de chumbo e que cujas emendas ao longo do tempo o transformaram numa colcha de retalhos – como de toda a legislação eleitoral dão aos juízes eleitorais uma enorme margem de discricionariedade, o que é perigoso – como no caso Jackson Lago, derrubado por uma alteração na interpretação de um dispositivo vago. Se uma Democracia princípios e regras eleitorais claras e simples, então temos graves problemas por aqui.

A referida Lei Complementar foi fruto de um Projeto de Lei de “iniciativa popular”, isto é, sua proposição teve origem na “sociedade civil  organizada” e, a partir da necessária coleta de assinaturas, foi levada à Câmara dos Deputados e ao Senado, seguindo aí todos ditâmes do Processo Legislativo. Claro, falar em “iniciativa popular” significa tudo ou nada, afinal, Povo nada mais é que a unidade representativa da coletividade, um conceito meramente ideológico – na prática, temos uma multidão -, usado em tempos como nosso, onde a maioria das pessoas são mantidas em um sufocante estado de alienação que as reduz a espectadores ou, no máximo, instrumentos ou obstáculos frente a vontade organizada de uma minoria em busca de legitimação. A questão, portanto, é examinarmos quem – ou o que – realmente está articulou isso. Aí chegamos no Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, uma construção heterogênea que reúne desde a CUT e a CNBB  até a OAB passando pelos Baha’i. Em suma, temos associações e até autarquias ligadas a grupos religiosos e a sindicatos. Tudo junto e misturado. A maioria com grande influência nos corredores do poder, outras com enorme capacidade de mobilização. No Congresso, entre as várias propostas de emendas, comissões, o relator oficial na Câmara  foi o deputado petista José Eduardo Cardozo – e, sim, Índio da Costa foi um dos que passaram pela função mesmo, mas não foi o relator final – e no Senador o indefectível Demóstenes Torres do DEM.

A aplicação pelos tribunais eleitorais da referida Lei tem causado certa celeuma na mídia. Alguns figurões que seriam enquadrados pelo Ficha Limpa acabaram podendo se candidatar e, ao mesmo tempo,  alguns candidatos ligados aos movimentos sociais estão ameaçados. Evidentemente, a discussão não é essa. O problema é como essa Lei em questão frauda a Democracia aumentando o arbítrio da Justiça Eleitoral sobre quem pode ser candidatar e como os fundamentos dessa medida violam desde a ampla defesa, a presunção de inocência até um ponto que anda sendo muito pouco debatido: A função ressocializadora da Pena. Pela nova Lei, um cidadão que cometeu certo crime, foi devidamente sancionado por ele pode ficar mais oito anos depois do cumprimento da Pena sem poder se candidatar. Mais do que o risco iminente disso ser usado apenas contra candidatos contrários ao sistema – em um país onde se criminaliza sim movimentos sociais e a própria pobreza -, a Lei é eivada de duas falácias centrais: O moralismo cristão e a lógica mecanicista do Positivismo – caracterizada tanto por um esforço sublimador da Democracia quanto pela paranóia coercitiva.

A questão do Pecado e de um ética idealista está claramente impregnada na participação dos sem-número de organizações e parlamentares cristãos na referida Lei – inclusive na participação da esquerda católica, responsável por muitas das melhorias do país nos últimos anos, mas que em certos casos como esse encontra seu teto – assim como a perspectiva mecanicista, que reduz a questão democrática à aristocracia eletiva: Eleições tornam-se um modo não de escolher meros representantes para levar as demandas públicas a uma instância deliberativa mais ampla, mas sim “melhores”, que devem ter sua pureza atestada previamente, e cuja função é conduzir a massa do Velho para o Progresso, numa marcha incessante. Os mecanismos formalmente democrático usados para a aprovação dessa Lei foram todos usados esvaziados de seu conteúdo material, não se promoveu um debate real esclarecedor junto as pessoas, apenas uma parcela delas foi conduzida por uma série de sábios dotados de uma razão que só lei conhecem para aumentar mais ainda o poder de outros sábios. No fundo, estamos falando mesmo da roupa do Rei, aquela que só os inteligentes veem.

Uma pequena empresa web chamada Inuda desenvolveu um mecanismo interessante para avaliar a visibilidade de marcas nas redes sociais chamado HoWSociable? Resolvi aplicar o serviço em alguns de nossos candidatos e o resultado é muito interessante de se observar. Se quiser saber como a ferramenta calcula os scores que apresenta vá a essa página.

Uma das justificativas para se aplicar o mesmo mecanismo desenvolvido pela Inuda é o componente mercadológico das campanhas e da imagem dos candidatos, que são embalados mesmo como produtos.

Rede Social Jarbas Vasconcelos Educardo Campos
Wikipédia Page Score 64 96
Google Blog Posts Score 78 114
Twitter Score 1001 1001
MySpace Pages Score 4 31
Facebook People Score 0 2176
Facebook Pages Score 0 817
Facebook Groups Score 142 71
Youtube Channels Score 34 50
Youtube Vídeos Score 27 46
Ning Pages Score 109 191
Yahoo Pages Score 41 71

Na comparação entre Eduardo Campos e Jarbas vasconcelos, o primeiro teve um score global de 159, enquanto jarbas pontuou 74.

Não tenho como auferir a legitimidade mateática do algorítimo que fornece esses resultados. De qualquer forma essa brincadeira permite observar como Eduardo está á frente também nessa forma de avaliar sua popularidade. Em termos gerais, o favoritismo assim como o nível de rejeição a um candidato é formado no seio de grupos sociais variados, cujos agentes se relacionam em rede e interagem em rede – trocando informações, se influenciando mutuamente, etc.

Será interessante ver no Brasil como vai se dar essa formação da opinião que crescentemente se vincula às redes sociais em suas formas telemáticas. Ainda mais com o uso que vem sendo dado ao Orkut  (28.7 milhões de usuários) e do Facebook (11.5 milhões). De modo que pode até ser queo algorítimo da Inuda seja falho, mas que a criação de índices, scores, medidas de popularidade nas redes sociais telemáticas já é necessário, não há dúvida.

ps.: fiz esse post à noite.

Existe alguma coisa de improvável na escrita de uma tese. Esse nome que a pompa da academia resolveu dar em algum momento ao resultado de uma investigação, que é feita com certos pressupostos e dentro de algumas regras – como aliás, toda investigação é feita. A improbabilidade é mais real, palpável e cheirosa entre a metade e o término do tempo que lhe deram: uma costura de impossibilidades que o sujeito tem que chamar de ‘meu trabalho’ é um fio tênue com o qual se agarra o doutorando e, de fora, nada parece que vai se arrumar.

É claro que isso ão é geral. Assim como esse blog não se pretende geral, nem eu sou geral. No geral, ninguém é geral para ninguém. E o geral em geral é ‘em  geral’… Mas tergiverso.

O fato é que aquela arquitetura que ao final parece tão fechadinha, tão bem resolvida, como os sociólogos que parecem ter nascido sociólogos, esconde uma cadeia de gambiarras, de maquinações, de solvências, de mapas, arranjos, planos, rampas, estiligues, cordas de nylon, baldes, tintas, relógios, alçapões, pianos e violinos, bigodes e escaramuças, vontades e dormências, um jogo de dominó que não acaba durante quatro anos, botinas, macacões de trabalho, óculos de proteção, martelos, pregos, serrotes, machados, alicates, fios, pêndulos, roldanas, pontes, aritmética e álgebra e um pouco trigonometria.

Quando do meio pro fim você percebe que é possível tirar alguma melodia desse entulho de possibilidades, quando finalmente você vê ali no fundo uma possibilidade de que a peça se estique até o arco e dispare um solfejo colorido; quando você finalmente vê que poderá logo logo tomar uma cerva no sábado à tarde sem culpa, você enche o peito de novo e diz:

Ok, go.

Esse blog entra agora de férias por tempo determinado.

Luis Favre

José Serra: “o PAC é apenas uma lista de obras, a maioria das quais não saiu do papel, é um lista” (discurso de Serra aos empresários, durante sua visita a Minas).

José Serra: “Eu nunca diz que o PAC não saiu do papel. No Rodoanel, de cada 4 reais gastos para fazer a obra, 1 é do governo federal, não tenho problema em reconhecer” (Serra na entrevista com Datena ontem).

“O mercosul é uma farsa que só atrapalha” (reproduzido por Valor dando conta da afirmação de Serra que vai acabar com o Mercosul).

***

“Não vou acabar com o Mercosul (entrevista de Serra à Folha 10 dias depois da declaração precedente).

***


Serra é a favor da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Ele já diz que é a favor do Bolsa-família e que o governo Lula é um bom governo. Ontem, no Datena, proclamou seu apoio a proposta do governo de reajustes dos aposentados.

“O pré-candidato à Presidência da República da oposição, José Serra (PSDB), apoiou a posição do governo federal quanto ao reajuste dos aposentados do INSS, a ser votado hoje na Câmara. “Eu apoiarei a posição do governo, que tem os números na mão”, afirmou Serra, durante o programa Brasil Urgente, apresentado por José Luiz Datena na Band TV.

O governo propôs alta de 6,14%, mas há uma acordo entre parlamentares para que o reajuste passe para 7,71%. “Se sou candidato a presidente, vou estar com as coisas na mão no ano que vem, quero que o governo atue com responsabilidade. Eu confio nisso, confio no Guido Mantega [ministro da Fazenda], é um homem responsável, e também que o presidente Lula saberá o que decidir melhor. De mim, só ouvirá elogio”, disse o pré-candidato tucano.”(Valor).

Enquanto dele só ouve elogio, os deputados dele, segundo O Globo, propõem demagógicos aumentos: “a oposição ameaça pôr em votação a extensão do reajuste de 9,67% dado ao salário mínimo para todas as faixas de aposentados”

Se trata da típica dupla linguagem, ditada pela determinação da oposição de realizar um “estelionato” eleitoral. Levar a população a votar no tucano, como se fosse a continuação de Lula e depois fazer o que a oposição apregoou todos estes anos, e que praticou onde e quando foi governo.

Por isso assistimos a esse espetaculo de farsa montado por José Serra, com grande cumplicidade da mídia. A pérola fica com Dora Kramer que dedica sua coluna hoje, a mudanças que estaria se exigindo por motivos eleitorais na personalidade de… Dilma!

No Valor, em artigo assinado palavra do gestor com o título “O mundo financeiro seguirá os empresários na eleição?” votando tucano, – o autor responde que sim – apresenta-se assim o motivo:

“José Serra transmite aos empresários (e para o mercado em geral) uma posição bem mais ortodoxa em relação ao lado fiscal, o que contrastaria com aquilo que deveríamos esperar de um possível governo Dilma; uma continuidade de política fiscal frouxa.”

Pouco importa se o candidato em questão, antes mesmo de ter começado a campanha eleitoral para valer, já tenha proposto o “inchazo” do Estado com a criação de mais dois novos ministérios. Mesmo a sua afirmação que ira renegociar os contratos -outrora motivo de inquietação com Lula- não provoca qualquer indagação. O mesmo acontece quando Serra proclama que vai continuar e ampliar o Bolsa-família e os elogios que pródiga ao aumento do salário mínimo.

Ninguém evoca o governo FHC,  que contou com a participação de Serra, aumentando a carga tributária, os juros estratosféricos e o grau em que foi relapso durante anos sobre a questão da dívida e do superávit primário.

A questão está em outro lugar. É a questão da distribuição de renda, que um setor das elites querem ver “controlada” e limitada, para sustentar o “rigor fiscal”, sem ter que contribuir com qualquer contrapartida, ao esforço que exigem dos assalariados e dos mais pobres.

É o que o editorial de hoje do jornal O Globo, explica assim:
“Lula colocou em prática um entendimento de “Estado forte” — defendido pela candidata Dilma — cujo resultado tem sido o crescimento das despesas em custeio a taxas superiores às do PIB. E, pior, despesas que se eternizam; só podem, portanto, ser podadas pela inflação: salários de servidores, benefícios previdenciários e assistencialismo.”
(O Globo – “As crises previstas por Ciro Gomes”).

Não, o entendimento de “Estado forte” não compactua com “crescimento de despesas de custeio”, nem com aquelas  provocadas pela gigantesca dívida interna, que junto com a externa, serviram de alicerce a farra populista da paridade Real=dólar dos primeiros quatro anos do governo FHC. Acontece que essa “herança”, como muitas outras, não podem ser resolvidas por um passe de mágica e não deveriam ser resolvidas pelo esforço exclusivo dos mais pobres.

O Globo mistura no “custeio” gastos correntes da máquina, que podem ser contidos e com maior eficiência administrativa, com os serviços e conquistas sociais que o Estado garante, como aposentadoria ou o “assistencialismo”, com o qual O Globo designa os programas sociais e o Bolsa-família.

Por isso o verdadeiro programa de José Serra, diferente da propaganda enganosa, tem a marca do retorno do passado e da “confiança” – afiançada na experiência dos governo tucanos – que o Bolsa-família acabará podado (como acontece no Estado e na cidade de São Paulo); que os salários dos servidores serão reduzidos (como acontece com os professores, policiais e outros que ganham bem menos em SP que em Estados bem mais pobres); que a Petrobras perdera a preeminência conquistada no pré-sal e que a integração latinoamericana cederá espaço ao velho canto de sereia da parceria bilateral privilegiada com os EUA.

O que é um sinal dos tempos é que os defensores desse programa estejam obrigados a andar mascarados de progressistas e defensores do governo Lula, tamanha a impopularidade que sua plataforma de Estado mínimo e lucro máximo, alcançou no Brasil.

Por isso aqui no Brasil, a oposição não fala em “mudanças”, porque como constatou o Wall Street Journal um tempo atrás “os brasileiros querem mais, do mesmo”.

Para contrariar esse desejo dos brasileiros é que a oposição se fantasia de situação.O eixo é enganar uma nação.

Vai funcionar?

Por Katarina Peixoto, no Insurgente

A candidatura José Serra enfrenta dificuldades importantes, que ultrapassam o debate sobre a presença ou não do ex-governador de Minas Gerais como seu candidato a vice. Não é irrelevante sacar do bolso o slogan da campanha de Obama para tentar embalar a candidatura que se opõe à de Dilma. Revela, antes, uma falta de perspectiva e uma confusão de agenda. Talvez um celenterado acredite que Dilma se parece com Bush e Serra, com Obama. Fora da mídia das seis famílias, talvez não soe como algo razoável essa conversa de sim, nós podemos, o Brasil pode mais protagonizada pelo PSDB e ex-PFL, entre outras agremiações menos chegadas à lida democrática, porque é estúpido, além de mentiroso.

A campanha de Barack Obama, e portanto a sua agenda de campanha, orientou-se por uma posição frente à história e à tese delirante levada ao extremo pela direita estadunidense, de que não há alternativa ao destino.

No Brasil, quem sempre disse e atuou como não houvesse alternativa foi a turma que hoje apóia Serra e a quem, há mais de duas décadas, ele se juntou. Todas as críticas não racistas e não políticas levadas a cabo pela oposição à experiência do governo Lula concentraram-se na defesa da manutenção da grande agenda financista, exatamente embalada pela tese de que não havia alternativa. E o reconhecimento político, quando raramente houve, de algum acontecimento de responsabilidade do governo Lula sempre foi, pela oposição de direita, derivado de uma reivindicação – no mais das vezes delirante – de autoria.

O legado da oposição de direita ao Governo Lula não pode ser descrito como a defesa e menos ainda construção de possibilidades. E talvez aí resida o embaraço que deu lugar ao engodo do slogan feito a toque de caixa para lançamento da campanha de Serra. Talvez essa relação rançosa frente à idéia mesma de possibilidade na história seja mais determinante do que uma tentativa frustrada de manobra manipulatória velhos tempos da opinião pública, ou midiática. E esse vazio de agenda é mais preocupante do que ocorresse à esquerda do governo Lula. Porque, salvo uma ou duas seitas, os que marcharam para uma oposição de esquerda tem um mundo negativamente refletido e ressentido por que lutar (essa não quer ser uma observação desrespeitosa, em tempo).

O desmantelo da direita ao governo Lula exige muita reflexão e talvez venha a produzir algo intelectualmente robusto, porque é historicamente um fenômeno robusto. Não é exagero algum dizer que o grau de delírio e de racismo a que chegaram algumas expressões políticas ligadas à candidatura Serra revelam uma desorientação diante do momento histórico. É cedo para traçar um quadro completo, mas não para perceber que a experiência Lula presidente não causou confusão apenas do lado de cá. Ocorre, porém, de a história da direita sem agenda ser especialmente danosa e violenta. Então, o caráter cambaleante da candidatura Serra é um motivo razoável para atenção.

Fernando Henrique disse, entre outras coisas, na ocasião da convenção tucana, que é preciso trabalhar e estudar, defendendo Serra, que sempre fez ambas as coisas. O ataque foi uma reedição da ladainha fleumática contra Lula. FHC dizer isso é só mais uma nota nesse samba triste e sem cadência em que vem se embolando a oposição. Não tem importância; quem leva Fernando Henrique a sério não está entendendo o que está em jogo, no momento. O que importa, nessa declaração odiosamente classista e semeadora de irracionalidade, é ter FHC, para além de qualquer delírio pessoal que possa estar o vitimando, ter recorrido, em 2010, a tamanha baixeza.

A candidatura Dilma tem decerto fragilidades e é possível que venha a ter inúmeras disputas vinculadas à sua agenda. Há, “do lado de cá”, uma série indefinida de dificuldades a serem superadas. E há da parte de Dilma um legado de luta e de construção de possibilidades na gramática da desigualdade capitalista periférica, que engatinha na democracia. E ela sabe disso, assim como Serra sabe. Ponto para Dilma, mas um embaraço para o tucano, que não erra por ignorância, mas por desorientação e inércia históricas.

Uma das razões que saltam aos olhos para atestar a irrelevância política de Fernando Henrique é que nestas eleições, a ignorância não é categoria política da agenda classista da direita. Essa é uma razão que se tornou historicamente possível por causa da experiência Lula presidente, aliás. Outra razão que salta aos olhos é o discurso que mistura racismo, classismo, defesa de uma imaginária união nacional e de uma “verdade”, a ser jogada, disse Serra, sobre “eles”, os do lado de cá.

A cobertura que a Folha de São Paulo fez da convenção do PSDB talvez sirva para expressar, de maneira translúcida, o grau de violência a que a direita brasileira é capaz, enquanto fala em verdade e se diz popular, liquidando o possível, na história. A declaração da jornalista Eliane Cantanhêde não é infeliz pelo que diz estar reportando; nem mesmo o é pela falta de pudor e contenção em reportar o irreportável; é infeliz porque semeia o ódio, o preconceito e a intolerância.

O gesto de Cantanhêde está no que ela não fala, no que não é dito. E isso merece atenção.

Contribuição de Fabiana Moraes.

Por Gunter Zibell, via Luís Nassif

Afinal, já dá para enxergar algo em pesquisas eleitorais? Sim.

A “pesquisa do momento” é a Datafolha divulgada em 27/mar e analisada por Fernando Rodrigues, que é um grande conhecedor de históricos de pesquisas. Talvez para não comprometer a isenção, as análises dele e de outros na imprensa ou nos institutos ficam quase sempre na apresentação trivial do “quem-subiu-e-quem-caiu”. Por isso, quem as lê fica com a sensação de que falta algo. Porque tantas perguntas e tantos cenários são feitos, não é?

Podemos ir além dessa abordagem e ver que há dados e tendências, comuns a todos os institutos, mas pouco comentados. Mas quem for observador autônomo pode arriscar algumas conclusões também.

A . A candidatura Dilma foi a única com tendência de crescimento de longo prazo.

Não é necessário ser torcedor para afirmar isso, pois, simplesmente, é o único grande movimento que pôde ser observado e a explicação é que houve a falada “transferência”. Esta é uma campanha sem novidades, os potenciais candidatos são os mesmos nas pesquisas há mais de dois anos e os únicos eventos foram a substituição (por coincidência) de Heloísa Helena por Marina Silva e a aparente decisão do PSDB por Serra.

Movimentos “dois pra frente, um pra trás” são algo comum e não devem causar estranheza, até por que são resultados de amostragens, não de populações inteiras. Por isso, além de se olhar para as oscilações de curto prazo (as “árvores”), temos que observar as tendências de longo prazo (a “floresta”.) Haverá mais 25 a 40 pesquisas até as eleições, essa é a forma de acompanhá-las sem estresse.

Para “intenções de voto no 1º turno” há algumas macrotendências : 1) leve declínio ou estabilidade em 35% de Serra, a chamada “resiliência”; 2) crescimento em etapas para Dilma, talvez por fases de exposição, pois saber o nome é importante para o pesquisado; 3) e, resultante das duas primeiras, uma redução do espaço para candidaturas alternativas, concomitante com redução na quantidade de indecisos, brancos e nulos. Conclusão : a eleição parece estar caminhando para a polarização.

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