Archive for the 'Sangue, suor e lágrimas' category

Existe alguma coisa de improvável na escrita de uma tese. Esse nome que a pompa da academia resolveu dar em algum momento ao resultado de uma investigação, que é feita com certos pressupostos e dentro de algumas regras – como aliás, toda investigação é feita. A improbabilidade é mais real, palpável e cheirosa entre a metade e o término do tempo que lhe deram: uma costura de impossibilidades que o sujeito tem que chamar de ‘meu trabalho’ é um fio tênue com o qual se agarra o doutorando e, de fora, nada parece que vai se arrumar.

É claro que isso ão é geral. Assim como esse blog não se pretende geral, nem eu sou geral. No geral, ninguém é geral para ninguém. E o geral em geral é ‘em  geral’… Mas tergiverso.

O fato é que aquela arquitetura que ao final parece tão fechadinha, tão bem resolvida, como os sociólogos que parecem ter nascido sociólogos, esconde uma cadeia de gambiarras, de maquinações, de solvências, de mapas, arranjos, planos, rampas, estiligues, cordas de nylon, baldes, tintas, relógios, alçapões, pianos e violinos, bigodes e escaramuças, vontades e dormências, um jogo de dominó que não acaba durante quatro anos, botinas, macacões de trabalho, óculos de proteção, martelos, pregos, serrotes, machados, alicates, fios, pêndulos, roldanas, pontes, aritmética e álgebra e um pouco trigonometria.

Quando do meio pro fim você percebe que é possível tirar alguma melodia desse entulho de possibilidades, quando finalmente você vê ali no fundo uma possibilidade de que a peça se estique até o arco e dispare um solfejo colorido; quando você finalmente vê que poderá logo logo tomar uma cerva no sábado à tarde sem culpa, você enche o peito de novo e diz:

Ok, go.

Esse blog entra agora de férias por tempo determinado.

A partir dessa quarta-feira vou começar a trabalhar à tarde aqui na Secretaria. Acordei com a chefia que assim farei até o final do mês para poder terminar a tese. Meu plano é viver uma disciplina que na verdade faz tempo eu não tenho. Ou é assim ou não sai. O que é o mesmo que dizer  ‘ou vai ou racha’ . As coisas vão ser mais ou menos assim, variando pouco:

04 h – acordar com fé em Deus e disposição para trabalhar

4h30 – 12 horas – escrita do capítulo 3, revisão dos capítulos anteriores e correções

14 h – 19h30/20 – trabalho na Secretaria

22h – 24h – escrita do capítulo 3, revisão dos capítulos anteriores e correções

Os horários devem mudar um pouco somente nos horários e dias em que me dispuser a fazer exercício físico e/ou nos dias em que eu resolver tomar uma cerveja porque eu não deixei de ser filho de Deus. Esse acoxo no tempo, na verdade, é algo conhecido já. Principalmete por quem fez algum curso ligado a comunicação. Por falar nisso, devo reduzir minha presença na internet de forma geral, o que não é somente uma medida para ter mais tempo. É uma providência para sentir menos angústia – aquela angústia de saber que tem uma festa lá fora e você não está participando.

No mais é deixar de frescura e permitir que as coisas sigam seu caminho. E ele é bom.

Vamo que vamo.

Para o bom entendedor, meia palavra basta; chuva com sol é casamento de raposa; domingo, pé de cachimbo; o amor é a melhor coisa que existe, é melhor ser alegre que ser triste; É assim como a paz no coração; Lindoval gás – 3088.8027; o amor com o amor se paga; Gentileza gera gentileza; Créditos para celular, só à vista; mil meu com mil teu, quanto é que dá?; “Então, para que temer o monstruoso grito do vento?”; Vai, meu irmão, pega esse avião, você tem razão; …

A Ilustração é de Fábio Moon.

Denise
by Bob Dylan

Denise, Denise
Gal what’s on your mind?
Denise, Denise
Gal what’s on your mind?
You got your eyes closed
But I know you ain’t blind

Well, I can see you smiling
but your smile’s inside out
Well, I can see you smiling
but your smile’s inside out
Well I know you’re laughin’
but what are you laughin’ about?

Well, if you’re tryin’ to throw me
Babe, I’ve already been tossed
Well, if you’re tryin’ to throw me
Babe, I’ve already been tossed
Babe, you’re tryin’ to lose me
Babe, I’m already lost

Well, what are you doing
Are you flying or have you flipped?
Well, what are you doing
Are you flying or have you flipped?
Well, you call my name
and then you say your tongue just slipped

Denise, Denise
Are you for sale or just on the shelf?
Denise, Denise
Are you for sale or just on the shelf?
I’m lookin’ deep in your eyes
but all I can see is myself.

Um salve a Mercedes Sosa

Luiz Carlos Pinto | 4 de outubro de 2009 10:25

Da arte de perder tudo II

Luiz Carlos Pinto | 11 de junho de 2009 9:31

Levei o notebook à Up grade, empresa que vende periféricos, computadores e fornece assistência técnica. De início a avaliação foi a pior possível: impossibilidade de recuperar os dados contidos no HD avariado e impossibilidade de se voltar a usar o mesmo HD. Prejuízo mínimo: R$ 200 por um novo HD, mais mão de obra e uma enorme dor de cabeça. Mas a Up Grade parecia mais interessada em me vender um novo HD, de modo que desconfiei e levei a máquina noutro lugar, a Notebook City, a primeira loja a oferecer os mesmos serviços para computadores portáteis no Recife.

Enquanto esperava um laudo mais sério (a Up Grade não informou nem os procedimentos que usou para avaliar o HD) fiquei sabendo que a coisa mais equivocada num caso desses é levar o notebook para uma dessas lojas. O mais correto é levar a uma empresa especializada em recuperação de HDs, pois o equipamento e toda a estrutura usada é mais precisa e limpa: a sensibilidade da superfície dos HDs hoje é tal que somente o ar de um ambiente pode aumentar os danos, inviabilizando qualquer recuperação mais bem sucedida. Quanto mais uma dessas empresas não-especializadas mexe, pior. O problema dessas especializadas é o preço. Fácil fácil você paga o valor de um novo computador.

Fui na Notebook city retomar a máquina, não sem antes solicitar para parar o processo, pedi para que não abrissem o velho guerreiro prateado. Felizmente há uma dessas especializadas no Recife, a BCL Tech. Deixei lá. Cinco dias para nova avaliação, confiança renovada, depois do laudo pessimista da Up Grade. Enquanto isso, retomo as mudanças que Maria Eduarda pediu no texto do primeiro capítulo.

Ontem não foi um dia fácil. Dia de jogo da seleção na cidade, véspera de feriado, todo mundo querendo largar cedo, o trânsito um inferno e todas as partes por onde andei no Recife, e fui da região norte à região sul. Depois de muita luta para chegar ao shopping onde deixei o computador, me dirigi a outro extremo, no Pina, região que, embora seja do mesmo bairro, é distante – além disso, um trânsito insuportável separa os dois lugares, quase sempre.

Foi ai que coisas interessantes aconteceram: na BCL Tech você não pode deixar a máquina. Tem que deixar o HD somente. Eu não tinha uma chave apropriada para abrir o compartimento e retirar a peça – outra lição não aprendida, andar com uma chave de fenda pode impedir muitos desagrados e contratempos.

Mas pode revelar lições também. Foi o que aconteceu: depois de circular pelo Pina com o computador nas costas, com medo de ser assaltado, encontrei uma biboca onde se consertava computadores. Eu só precisava pedir a chave. Mas disse que queria saber se eles trabalhavam com notebooks pois precisava retirar o HD do meu para levar ao conserto ali perto. Um senhor de seus 55 anos, camisa aberta, crucifixo pendurado, cabelo escovado, me atendeu. Era o dono da biboca, minutos antes o vi resolvendo uma bronca no telefone, um verdadeiro cu de boi, estava estressado demais com alguém que o enganou. E eu também estava uma pilha. Pois esse sujeito, no meio do inferno dele, parou para procurar no mapa da lista telefônica o endereço de uma empresa ali perto que poderia fazer o serviço de abrir o laptop. Encontrou o lugar, anotou endereço e telefone e, antes de me entregar o papel, ligou pro lugar para confirmar os dados.

Quando cheguei ao lugar, cerca de um quilômetro distante, outro sujeito no telefone resolvia um outro problema. Depois de me ouvir me disse que me empresatava a chave por R$ 30 para abrir o fundo do notebook e retirar o HD – operação que não dura mais de 20 segundos. Devo ter olhado pra ele de um jeito que me denunciou: o estresse e o medo de um dia inteiro. Ou então ele percebeu o exagero da cobrança, ou então foi que ele precisava fazer uma boa ação para que eu soubesse dela, não sei… Me pediu o notebook dizendo que ia quebrar meu galho. Tirou o HD cuidadosamente e me entregou. Agradeci a ele também, segui para a BCL Tech com o HD separado pensando que às vezes solidariedade e gentileza se aprende na marra, vendo o exemplo de quem tinha justificativas para não exercê-la.

Atualização: o computador que andava aqui em casa encostado tem peças da placa-mãe queimadas, fonte também queimada. Outra placa-mãe com compatibilidade com a memória é difícil de achar. Salva-se cok certeza a memória e o hd. pensava em reabilitar essa máquina com uma distribuição linux enxuta e ir tocando, mas não vai ser dessa vez.

Da arte de perder tudo

Luiz Carlos Pinto | 9 de junho de 2009 7:58

<<O satã de Milton é moralmente superior ao seu Deus, assim como quem persevera a despeito da adversidade e da sorte é superior àquele que, na fria segurança de um trinunfo certo, exerce a mais horrível vingança sobre os inimigos>> Herman Melville

Finalizado o primeiro capítulo, pronto para enviá-lo à orientadora, junto com o esboço do seguinte, eis o computador sofre um acidente. Por umas questões paralelas, um dano físico comprometeu todo o trabalho acumulado em três anos e meio. Quase seis horas para fazer recuperar o hd avariado não surtiram efeito. Tive que levar o velho guerreiro numa ssistância técnica. Laudo definitivo na quarta.

Como eu tenho tentado fazer de um tempo pra cá, e não somente em relação ao doutorado, tô tentando aprender com isso. Primeiro, acho que fui negligente com meu espaço de trabalho. Acho que não o bloqueei como deveria das questões paralelas, dos acidentes e incidentes que rondam qualquer pessoa. Considerando que o ambiente não é somente físico, mas que inclui o meu próprio corpo e minha própria mente, acho que faz sentido pensar que a proteção que eu não vinha fazendo da forma mais apropriada incluia esses espaços também.

Vivo recomendando os amigos maios chegados e até Eduarda, minha orientadora, a usar Linux, fazer backup, guardar senhas de acesso em lugares seguros, etc, etc. Maior espeto de pau aqui. Meu backup era velho, coisa de oito meses. Num cenário pessimista, em que se confirme que o HD foi todo perdido, vai me ajudar, mas um backup bem feito e adequado à situação de quem faz um doutorado é que me impediria de comprometer meu trabalho.

Havia outro computador, um desktop, acho que Pentium, aqui enconstado. Se era para manter encostado, deveria tê-lo doado e há miuta gente precisando de um por aí. Meus planos era reabilitá-lo com uma distribuição linux enxuta, e usá-lo como laboratório para aprender a mexer com programas livres. Sufocado por leituras e outros trabalhos, nem comecei esse projeto. Se o tivesse feito, provavelmente seria uma boa forma de fazer um backup automático, talvez colocando esse velho computador e o laptop agora avariado em rede.

Ontem, ao tentar colocá-lo para funcionar, a fonte queimou. De forma que agora, há alguns meses para terminar o doutorado, me encontro sem máquina para trabalhar. Não quero ficar indefinidamente me queixando ou sentindo pena de mim. Isso durou uma noite só. Mais vale seguir em frente como o satã de Milton.

Quarta, vejo o estado do laptop. Hoje, final de tarde ligo pra outra assistência onde coloquei o desktop pra conserto – esse tempo todo estudando metarreciclagem e mídias livres e nem essas tretas consego ainda resolver, tsc, tsc.

Domingo

Luiz Carlos Pinto | 24 de maio de 2009 17:23

Cenas de um funeral
As árvores caem com certa frequência na cidade do Recife. Também é comum se conhecer gente num funeral – amigos do morto, parente da família, colega de trabalho. Nesse sábado tombou sobre a rua e o muro um dos jambeiros da frente aqui de casa. Um dos dois que faziam com que todos os moradores do prédio em que moro ostentassem um pedaço de orgulho em morar onde moram. Caiu pelo peso da água que lhe caiu sobre os ombros nos últimos três dias, não lhe suportaram as raízes. Um vaso com plantas que estava à beira do tronco ficou intocado pela queda. Como dizia, às vezes é  preciso morrer alguém para que pessoas próximas se cheguem. E foi o que aconteceu no sábado enquanto molhados de uma fina garoa pensávamos de como o acaso foi que impediu que o acidente se desse na cabeça ou no carro de alguém – ao meio dia normalmente a rua vê seu maior movimento. Moramos nesse lugar há quase quatro anos e ainda não havia falado mais de 1 minuto com nenhum vizinho – o ponto marcado no mapa é exatamente o jambeiro que caiu.

Thanks a lot

Hoje é o aniversário de Bob Dylan. Não vou me arriscar a escever mais alguma coisa sobre o homem. Qual o sentido escrever um happy birthday mister Dylan, and thanks a lot? Dylan não vai ler isso e mesmo que soubesse ler em português não se interessaria em chegar aqui, nem isso o acrescentaria em nada. Escreve-se para deleite próprio, para lembrar, porque os que gostam dele (e não vive de vagão de trem em vagão de trem, nomadicamente, mas no coração triste do sedentarismo) se reconhecem num mundo que é cantado pelo thin man.

happy birthday mister Dylan, and thanks a lot.

Capítulo 1
Até dia 9 estará pronta a versão primeira do primeiro capítulo.

Johann Hari: The Independent, UK

Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa – e navios de mais 12 nações, dos EUA à China – navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilãos de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos ‘ocidentais’ estão rotulando como “uma das maiores ameaças de nosso tempo” têm uma história extraordinária a contar – e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.

Os piratas jamais foram exatamente o que pensamos que fossem. Na “era de ouro dos piratas” – de 1650 a 1730 – o governo b ritânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Por quê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villains Of All Nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito interessantes.

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domingo

Luiz Carlos Pinto | 28 de dezembro de 2008 18:23

aaaaaaaaaaaaaaaaaeghs