
Essa semana peguei uma gripe ou coisa que o valha, daquelas que os médicos quando não sabem o que é dizem logo que é uma virose. Minha cabeça ainda parece uma caçamba de caminhão, pesada, grande, um frio de febre aparece aqui e acolá, dor nas juntas – isso tudo acendeu o sinal de alerta. Não posso ficar doente de jeito nenhum nos próximos 28 dias. É que como se sabe, esse é o período de exercício do esporte nacional, o carnaval.
A cidade já se prepara com pressa, sem pudores, pra quando a hora chegar. Manequins tribalistas procuram perucas black power; minimalistas urbanos compram armarinhos de ouro; punks neo-conservadores preferem asas de anjo; alcaides e sogras sonham com a colombina; sacis compram maquiagem, o pessoal muderno se veste de cartomantes, marinheiros, reis de pastoril, homens da cobra, soldados e osamas.
O centro desse comércio é uma área meio decadente da cidade chamada vucovuco, no bairro de São José. Espero neste fim de semana ou na outra semana poder ir lá comprar minhas fantasias desse ano, tudo baratinho.
O fato é que não é incorreto dizer que cada um tem seu bloco de preferência. É fácil ouvir ‘meu bloco’ em mesas de bar, nas conversas entre amigos, no elevador, nas combinações pro sábado de Zé Pereira.
- Vais pro Galo?
- Vou não, meu bloco sai em Casa Amarela à tarde.
E assim seguimos, entoando no dia-a-dia a vontade de cair na gandaia que o calor nos ensinou. Gandaia que parece o sentido da vida, fora do qual, emprego, compromissos de toda sorte, falta de amor e de educação, pobreza e falta de alegria perdem o seu sentido de ser.
Vou deixar abaixo a letra da música que tô ouvindo agora:
QUANDO O CARNAVAL CHEGAR
Chico Buarque - 1972
Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
E não posso falar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as penas de louça da moça que passa e não posso pegar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E que me ofende, humilhando, pisando, pensando
Que eu vou aturar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
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