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Archive for the 'Sociologia' category

O pensamento de Cláudio Ulpiano

Introdução

A questão da filosofia não é abalar a fraseologia da língua standard, ela não empreende experimentações no plano da semântica, da sintaxe ou da pragmática, como seria o caso da literatura e da poesia. “A filosofia é rigor e invenção”, diz Claudio. Coerente com isso, o que se observa em suas aulas é a vigência de princípios essenciais, a despeito da aparente simplicidade. 1º princípio: o ponto de partida para a compreensão é uma observação rigorosa do significado exato das palavras, condição para o entendimento das explicações; 2º princípio: a repetição das explicações, ainda que tomadas em diferentes linhas, em que Claudio “voltava” e recomeçava de outro modo, recorrendo a um outro autor, exemplo ou raciocínio, visando esclarecer um determinado ponto; 3º princípio: a filosofia é um trabalho árduo (aqui se manifestava um problema recorrente: o fato de que os alunos, em sua maioria, não liam os textos recomendados…), necessariamente lento e cuidadoso (em contraste com a obscuridade do pensamento dos professores apressados que acham que para explicar basta citar o nome do conceito), o que pode ser denominado “a paciência do conceito”.

Em suma, o ato da aula é uma atividade artesanal, não um delírio, um “espetáculo performático” ou um happening. Filosofar é forçar o advento do pensamento (como nª potência do pensamento) no interior do próprio pensamento. A partir da idéia de que o pensamento permanece imerso num sono letárgico e precisa ser provocado. Eis o ponto de partida do filósofo (aliás, também do cientista e do artista). O confronto do “pensamento desperto” com a subjetividade constituída é necessariamente um embate violento. Claudio tinha uma clara noção disso, em função de sua própria experiência (pois todo pensamento digno desse nome é produto concomitante de uma experiência ou experimentação com a vida). Por exemplo, quando fala do período em que se sentia sufocado por certas formas de pensamento, até o encontro com a filosofia de Deleuze. Por isso, o processo expressivo ou explicativo requer uma progressão, uma paciência, uma prudência, uma técnica enfim, que contemple tanto o entendimento (o bordão do Claudio: “Não sei se entenderam…”) quanto a segurança dos alunos que se expõem à potência de um pensamento que leva à quebra das estruturas estabelecidas. Como em Castaneda, quando o personagem de Don Juan diz, acerca do aprendizado: “As definições mudam na medida em que o conhecimento aumenta.”. e ainda que a consciência (o tonal) “deve ser preservada a todo custo”. Nos termos de Deleuze, reinventados por Claudio no contexto das exigências da aula: crítica e clínica. Isto é, o pensamento é crítico, não só porque “põe em questão” ou problematiza mas porque, conseqüente e concomitantemente, “põe em crise” o que se tinha como certo e seguro.


O exercício do pensamento que tem como condição a quebra com o regime da representação, desencadeia um processo de desterritorialização das subjetividades, isto é, um abalo das estruturas subjetivas que garantem o senso-comum (o desempenho coordenado das faculdades que produzem a representação, ou seja, o modo cognitivo normal). Assim, o  andamento da exposição, na aula, tem que seguir uma progressão em que a clareza e o cuidado se acompanham, devem se acompanhar: dar um passo no desconhecido e entender, dar um novo passo e entender, e assim por diante… bem devagar, sem excessos: a paciência da expressão. Como diz Deleuze sobre a escrita, no prólogo de Diferença e Repetição (podemos substituir o “escrever”, do texto, por “pensar”):
“Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro”.

O texto completo, de Emanuel Tadeu Borges, está disponível no site do Centro de Estudos Cláudio Ulpiano, uma ótima referência em língua portuguesa para muitas coisas – entre elas a humildade necessária pro ato de educar.

Na próxima sexta-feira vamos realizar no Auditório do Centro de Educação um Seminário que coroa um processo muito interessante acontecido nos último seis meses: o Projeto Didático para a Construção de Documentários. Foi um projeto de extensão que eu tive a honra e a alegria de participar como formador e que resultou na produção de três docs e de um livro. Nosso objetivo inicial era simples, mas complicado: dotar professores da rede pública estadual de recursos mínimos para usar a linguagem cinematográfica como instrumento didático, de modo que permitisse uma aproximação entre a escola (as escolas) e o seu entorno. Na real, muito do conteúdo e das metodologias usadas em sala de aula dão a impressão que a instituição escola é meio autista e não permite que haja um vínculo com a vida real de seus alunos. Esse é um aspecto que está na base dos altos graus de evasão escolar.

Mas queríamos fazer isso com um viés específico: colocar em pauta o debate (os debates) relacionados às relações étnico-raciais. Esse seria o eixo transversal do curso e das produções que teríamos de produzir e que produzimos. Uma das coisas mais interessantes da experiência é que o trabalho de produzir os documentários foi feito por não iniciados – claro, os professores não possuiam nenhuma experiência com a linguagem, equipamentos, providências, especifidades, etc. A idéia no final das contas é que o trabalho de pré-produção, produção e pós-produção com as suas camadas, pudessem ser associadas ao processo de ensino-aprendizagem.

Por exemplo? Um dos três docs trata da questão prisional. Mais precisamente, daquilo que os professores identificaram como uma política higienista de prisão, que recolhe a bandidagem, limpa as ruas e melhora os índices de violência aqui fora, enquanto o sistema prisional é abarrotado de gente e de problemas, sem que as causas da criminalidade sejam atacadas. Essa interpretação, fruto das interações entre os professores, identifica a criação e perenização de ciclos de criminalidade dentro dos presídios. Em todo esse processo, são os pretos os mais prejudicados. Para ver mais detalhes, sugiro irla no CE, e ver o doc.

É interessante observar ainda que, ao contrário do modelo comercial/profissional de se fazer áudio-visual e que tem dado tantas alegrias a Pernambuco recentemente, nosso caminho foi bem outro. Em primeiro lugar, porque os objetivos eram outros: o mais importante era o processo de aprendizagem e de criação coletiva. Aliás, a esola, alem de autista, também não incentiva produções coletivas, criações coletivas, aprendizado coletivo. Muito ao contrário, faz parte da tradição escolar a formação de performances individualizadas e concorrentes. Pôr em prática esse processo com os professores foi muito gratificante e produtivo.

A diferenciação também se colocou em termos de que o processo de pré-produção (debate coletivo, pesquisas, alinhamento dos conceitos e dos argumentos) aconteceu para todos no momento mesmo do aprendizado. Aprendíamos fazendo o que gerou boas discussões, bons links e boas abordagens dos temas tratados.

Fizemos uma parceria com a Oi Kabun para a captação de imagens e uma terceira empresa fez conosco o trabalho de edição. Não foi a melhor opção – a burocracia impediu de colocarmos em prática uma idéia mais orgânica, menos relação cliente-empresa. Mas não deu, e no entanto passamos adiante.

Enfim, foi uma boa experiência e logo logo vou colocar o livro para download aqui.

O aparente nonsense que dita o enredo de Holy Motors pode sugerir que qualquer interpretação crítica sobre o filme possa acabar em viagem de quem o faz. Mas pra mim, o filme trata de um aspecto bem específico da cultura contemporânea e também muito evidente. Tão evidente, mas tão evidente, que parece não existir ou se naturalizar. Nessa levada, ofilme tem o enredo apontado como bizarro e estranho.  Ele também vem sendo pensando como um exercício de ficção, um virtuoso exercício de ficção sobre o cinema, que por sua vez é celebrado como um terreno em que a fantasia de certa forma vence.

Sem discordar dessas interpretações, pensei em Holy Motors numa perspectiva um pouco diferente. O título me chamou atenção antes mesmo de ver o filme. ‘Holy Motors’ me parece desde o início uma referência à miríade de máquinas, maquinetas, gadgets, equipamentos, eletro-coisas e i-coisas, computadores, plataformas e sistemas de informação que alçamos à condição de essenciais para a lidar com a vida cotidiana. Para sermos mais felizes, compreendidos, lembrados, vistos; para sermos melhores, enfim. O fetiche dessas mercadorias vem radicalizando a sublimação do homem pela coisa, ou pelo motor. Você vale por quanto pesa o seu motor de mão.

Por outro lado, o título de santo, ao menos na hagiologia católica,  é dada a quem, além de grande caráter, está na graça de Deus (no céu). É portanto uma ironia muito interessante um objeto ter essa condição e exprime, por outro lado, um limite difícil de ser extrapolado para o sentido da reificação. Nesse sentido, é como se o título do filme sugerisse uma condição diferenciada para o próprio sentido da reificação do objeto em geral e para o objeto técnico em particular.

É claro que não é de hoje que atribuir a coisas a condição de santo. ‘Santa caninha”, “santa massa”, “santo cinto de utilidades”, “santo golinho” e por aí vai. Mas, até onde eu me lembro e a vista alcança, são sempre expressões dotadas de humor, são brincadeiras com a condição de altivez e proximidade a deus.

Universo alternativo – Holy Motors também tem sido considerado uma “trama”, se é que se pode falar em trama – mas me perdoem, é que eu tô cansado mesmo -, que acontece num universo alternativo. Eu tendo a achar que é mais interessante pensar que Holy Motors não tematiza um universo alternativo, mas esses universo aqui, essa sociedade aqui, que vive um processo agudo, no qual as identidades são forjadas ao gosto de uma racionalidade cínica. Para mais informação sobre essa última, você pode conferir aqui e aqui . Vou voltar a esse assunto em um outro post, noutrodia.

As identidades que o personagem Oscar (Denis Lavant) assume, são forjadas por uma lógica de visibilidade, mais do que pelo gosto pelo ato em si – aliás, mencionado pelo ator ator. Há uma lógica baseada na visibilidade dessas personalidades e das histórias que elas vivem que justifica a aparente desordem e nonsense da passagem de um personagem a outro. Há um negócio que se sustenta baseada nessa passagem e que no entanto não é obscena, ou seja não é muito evidente. Mais do que uma metáfora de uma sociedade do espetáculo, o que isso parece tematizar é, por um lado, a naturalização da lógica de significação baseada no ver e ser visto e, por outro, o corolário da personalidade fluida sobreposta a um fluxo de ficções que nós criamos sobre o cotidiano.

Adoráveis máquinas – Finalmente, para mim, o filme aponta ou permite apontar para uma crítica à invisibilidade do sistema de controle contemporâneo, no qual os sistemas e plataformas de informação desenvolvem uma função fundamental. Para quem subestima esse aspecto, sugiro ver ao menos a primeira parte do ótimo documentário “Tudo vigiado por máquinas de adorável graça”, dirigido por Adam Curtis. A primeira parte, entitulada Love and Power, narra uma utopia que se pretendia inescapável. E que no entanto ocorreu e que explica, em parte, a mais recente crise financeira do capitalismo e que ainda agora vem sento sentida.

Ou, como explica uma resenha:

“Esta é a história do sonho que surgiu nos anos 90, de que computadores poderiam criar um novo tipo de mundo estável. Eles originariam um novo tipo de capitalismo global, livre de riscos e sem os altos e baixos do passado. Aboliriam também o poder político e criariam um novo tipo de democracia por meio da internet onde milhões de pessoas seriam conectadas como nós em sistemas cibernéticos, sem hierarquia. O episódio conta a história de dois mundos perfeitos. Um formado pelo pequeno grupo de discípulos da romancista Ayn Rand, nos anos 50. Eles se viam como o protótipo de uma sociedade futura onde todos poderiam seguir seus próprios desejos egoístas. O outro é a utopia global que os empresários do Vale do Silício se propuseram a criar nos anos 90. Muitos deles também foram discípulos de Ayn Rand. Eles acreditavam que novas redes de computadores possibilitariam a criação de uma sociedade onde todos pudessem seguir seus próprios desejos, mas sem anarquia. Alan Greenspan, também discípulo de Ayn Rand, juntou-se a eles. Ele se convenceu de que os computadores estavam criando um novo tipo de capitalismo estável – “Como um novo planeta”, afirmou ele. Mas o sonho de estabilidade em ambos os mundos seria destruído por duas forças humanas dinâmicas – o amor e o poder…”

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Em Holy Motors, a esolha por um sistema de controle no qual as máquinas são subsumidas é sugerida apenas, sobretudo na última sequencia do filme, no já tão falado diálogo entre as limosines. A utopia de Ayn Rand parecia não somente mais letal, mas também mais utopicamente rigorosa do que aquela ameaça apenas sugerida e criticada em Holy Motors e, no entanto, ela foi posta em prática ou buscada com afinco e determinação por uma geração inteira.

O que o ‘desaparecimento’ da tecnologia, nessa perspectiva indica, é um apelo ao objeto técnico como recurso de delegação da vida. Delegar memória, raciocínio, controle, escolhas políticas, estéticas, administrativas a uma racionalidade técnica enlouquecida – a proximidade com a racionalida cínica já citada parece a verdadeira visão do inferno na terra, mas a isso também volto noutro dia noutro post.

Na próxima segunda-feira começo a dar um pequeno curso, ou oficina, sobre Economia da Cultura. Na verdade verdadeira, vão ser três dias de bate-papo sobre a crítica dessa tal Economia da Cultura, com alguns debates sobre a bibliografia já reconhecida (?) a respeito do assunto e os pontos de desvio do conceito, que apesar de não ter se consolidado com um paradigma teórico tem defensores radicais em quase toda esquina. De quebra pretendo apresentar além das críticas, a perspectiva da Economia Solidária relacionada aos bens imateriais – fonte, aliás, do que há de melhor em torno de críticas à EC. Espero poder apresentar o que tenho lido e observado e escrito nos últimos anos sobre o assunto. O curso é aberto a qualquer com interesse no tema, etc.  Abaixo está o resumo e a proposta de cada um dos encontros, que pode e deverá mudar ao longo do processo. O curso está sendo organizado e patrocinado pela Expoidea.

As inscrições podem ser feitas aqui.

Curso: Economia Criativa e Economia Colaborativa e Solidária: Quem é quem?

Resumo: Nos últimos 150 anos as democracias complexas têm dependido de uma economia industrial para as funções básicas de produção e informação, conhecimento e cultura. Novos paradigmas de ordem tecnológica, econômica e de práticas sociais criaram novas oportunidades para a produção e troca de informações, conhecimento e cultura de forma não-proprietária e fora do modelo hegemônico de mercado. O mini-curso /oficina pretende discutir algumas das principais conceituações e suas implicações de ordem social e para políticas públicas.

Programa – pode mudar, pra melhor ;-)

Encontro 1

Os conceitos de Economia da Cultura (até agora…). O percurso, na história da Economia Política, até o advento da Economia da Cultura como conceito. A predominância da abordagem neoclássica da economia sobre a Economia Criativa ou da Cultura. Um campo em constituição. Artes performáticas como dilema econômico.

Encontro 2

O uso corriqueiro de Economia da Cultura: mercadológico. Relações de mercado que se dão dentro da arte, bem como seus ciclos na cadeia econômica. Desmembrando a Economia da Cultura. O que é mesmo “economia”? O que é mesmo “cultura”? Os limites do entendimento mercadológico da Economia da Cultura para a elaboração de políticas públicas da cultura. A crise da teoria do valor aplicada ao mercado das artes. A interdisciplinaridade como elemento para melhor definição e determinação de políticas culturais.

Encontro 3

Para uma crítica da Economia da Cultura. As exclusões que o entendimento mercadológico da Economia da Cultura provoca: territorial, econômica, simbólica. O auxílio luxuoso da Economia Solidária. O olhar transversal para além da economia enquanto arte – afeto, integração, riqueza, gestão democrática, autonomia, educação, comunitarismo, equidade. Propostas de ações e práticas concretas para uma Economia Colaborativa e Solidária: Atividades que incentivem formas de cooperação – formais ou não; Dar assessoria, qualificação e acompanhamento a projetos; Melhoria nos Editais e Leis de Fomento; Democratização do Acesso à Cultura.

Período: 12, 13 e 14 de novembro de 2012

Vagas: 1 turma/ 20 vagas

Carga horária: 9h/aula (3 dias, segunda, terça e quarta-feira)

Horário: 1 turma: 9h/12h.

Parabéns ao socialista moreno

Luiz Carlos Pinto | 26 de outubro de 2012 11:53

Fabiana Moraes
fmoraes@jc.com.br

Darcy Ribeiro, noventa anos hoje se um câncer não o tivesse matado em 1997, foi moderno demais para o Brasil. Moderno demais porque não estávamos – nem estamos – acostumados a ter entre nós um intelectual que não se privava da vida política, tampouco um político que não se privava do pensamento reflexivo. Esse aspecto é sem dúvida um dos pontos-chave para se entender a importância desse homem que, de maneira encantadora e descarada, tanto amou o País onde nasceu. Tinha uma obsessão comovente pelos seus filhos: índios, pretos, misturados, gaúchos, sertanejos, litorâneos. Formavam ilhas de brasileiros que juntos formavam o Brasil, que juntos formavam Darcy. Ele, ministro da Educação de João Goulart em 1962, tinha apenas 29 anos, espantava-se: porque cargas d’água não dávamos certo? Ou melhor: porque é que o Brasil deu errado?

Show me more… »

16/10/2012
Por versão 0.1.0 coletiva

Epístola Digital Descentralizada
(versão 0.1.0 coletiva)
Outubro 2012

Plante e Viva! Código é Mato; Importante são Pessoas!
(Anônimo e Coletivo)

1 ponto e vírgula A+, “Enter”. && você já não está no mesmo lugar;
(Supla Selva & Yupana Kernel)

Não somos representados por nenhuma rede das redes
anonymus

Carxs leitorxs

Abrimos este canal para diálogar com o Ministério da Cultura, buscando destacar tópicos de suma importância para a cultura, em suas interfaces com a tecnologia, ciência e comunicação. Propomos abaixo alguns pontos que julgamos relevantes para o presente e o futuro, a partir da nossa larga experiência coletiva em redes cultivadas na Internet e nas ruas, com a utilização plena de software livre para produção cultural, bem como no exercício da cultura livre como prática constante. Na realização de encontros presenciais relacionados a arte, mídia, participação social, ciência, tecnologia presenciamos e integramos todo tipo de discussões políticas e ações distribuídas e não-verticalizadas. Durante este processo decidimos ampliar o número de destinatários, dada a pluralidade de intenções. Como e com quem resolver?

Esta carta foi escrita por diversas mãos a partir de uma iniciativa que surge no seio da rede MetaReciclagem e então se espalha pela Internet. Lembramos que a MetaReciclagem era parte fundamental do conceito e prática da Ação Cultura Digital elaborada nas gestões passadas. Entre as pessoas abaixo assinadas estão articuladores que participaram da criação e internacionalização do Cultura Viva, do Programa Nacional dos Pontos de Cultura e das ações de Cultura Digital, realizando na prática estes programas governamentais. Gostaríamos que o Ministério da Cultura e todxs xs destinatárixs desta carta atentassem aos pontos abaixo:

Lei do Acesso à Informação e Governo Aberto: Disponibilização adequada (de forma legível por pessoas e máquinas, em padrões abertos) de todas as informações do Ministério da Cultura, inclusive as relativas ao orçamento (levando em consideração também os recursos das leis de incentivo fiscal) e sua distribuição entre as regiões do país. Incentivo à formação de Conferências de Cultura permanentes e abertas, e ao aprimoramento e a simplificação dos canais de diálogo e intervenção da sociedade civil (organizada ou não-organizada legalmente) na gestão do Ministério. Tomada de decisões junto à sociedade civil através de consultas públicas.

Gênero, Produção Cultural e Apropriação Tecnológica – Estímulos a projetos de acesso e uso crítico da tecnologia (hardware, software e redes) e dos meios de produção cultural. Investimento em pesquisa e programas de introdução à apropriação tecnológica específicos para diversidade de gênero de todas as idades, culturas, raças e classes sociais, para que sejam estimuladxs a participar de processos de produção cultural com ferramentas tecnológicas. Esse contexto é onde mais existe déficit de participação. Entram nesse contexto mulheres, transgêneros, transexuais, travestis, prostitutas, queers e todo tipo considerado aberração para a sociedade machista, que ainda domina muitas das gerências da cultura, da ciência e da tecnologia.

Reforma da Lei de Direito Autoral: Um largo processo foi iniciado, durante o governo Lula, que tinha como missão atualizar a legislação brasileira sobre o direito autoral. É praticamente um consenso a necessidade da reforma da Lei 9.610/98, visto que a última década foi marcada por profundas transformações – não só técnicas mas principalmente políticas e culturais – que alteram radicalmente a forma como nos relacionamos com o direito autoral. Como exemplo dessas transformações, temos a difusão de espaços e práticas de compartilhamento – redes P2P – que se tornaram verdadeiros terrenos de uma guerra global entre defensores da “propriedade intelectual” e ativistas da cultura livre. Outro exemplo dessas transformações é a difusão cada vez maior de uma cultura de remix. Desde 2007, o MinC vem fomentando o debate sobre temas como cópia privada, uso educacional de obras protegidas, proteção ao autor e cessão de direitos.

Acreditamos necessário avançar muito nessa área pois o acesso a produções culturais é essencial para a multiplicidade e diversidade da cultura brasileira, para a diversificação de olhares, assim como a formação de uma cultura política e não somente políticas culturais. Alguns avanços significativos podem ser conquistados nessa área como a descriminalização de práticas ditas de “pirataria”, a possibilidade de cópia privada, a criação de um sistema de supervisão pública e descentralizada dos órgãos coletores de direitos autorais, a questão das cópias para uso educacional e o aumento das possibilidades de usos “justos” das obras protegidas. Devemos buscar soluções para a remuneração do trabalho da cultura e da arte que passem pelo reconhecimento da dimensão coletiva de sua produção, destacando as possibilidades de produção cooperativa e a impossibilidade da cultura ser entendida como submetida somente à economia – ainda que a questão da valoração do trabalho de artistas e produtores culturais seja essencial.

Cultura, Ciência e Tecnologia nas Comunidades Tradicionais: Investimento conjunto e dialógo com as instituições e agências oficiais da ciência, no reconhecimento dos saberes e ciências das comunidades tradicionais, como comunidades quilombolas, caiçaras, ribeirinhas e indígenas. Práticas e conhecimentos que por sua vez são indissociáveis de suas culturas (etnociências e etnoecologias) e constituem um enorme potencial ainda sub-valorizado. Qualificação do Estado para o diálogo com estes grupos, criando mecanismos que facilitem o repasse de recursos (como editais desburocratizados para micro-empreendedores individuais) e a submissão de projetos, aprimorando a experiência da Ação Griô, criando outras e pautando ações de ciência e tecnologia associadas à cultura.

Hacklabs Rurais e Biotecnologia: Incentivar práticas de biohacking abertas e livres a partir do conhecimento e ciências de povos tradicionais. Investimento em laboratórios que promovem a busca pela autonomia em diversos setores: humano, social, científico e tecnológico. Apoio ao desenvolvimento de pesquisas científicas livres, pautadas pela integração entre natureza e cultura, em estudos biotecnológicos, desenvolvimentos associados à computação física, à ciência comunitária e às tecnologias baseadas em práticas do faça-você-mesmo (DIY) . Hacklabs são práticas comuns em vários países, inclusive no Brasil, e têm como objetivo aproximar das pessoas comuns a produção científica e tecnológica de baixo custo e livre distribuição, criando espaços de convivência, experimentação e aprendizagem, por vezes em diálogo com os saberes das ciências duras e as ciências de comunidades tradicionais.

Assim como o aprimoramento das linguagens tecnológicas para esses ambientes, em prol de pesquisas transdisciplinares-antidisciplinares em laboratórios de biohacking ou DIYBIO (Biologia do faça-você-mesmo), envolvendo: energias renováveis, cartografias de faunas e floras, redes autônomas de telecomunicações, bioconstruções, agroecossistemas e outras investigações que apoiem uma reversão do êxodo de comunidades tradicionais rumo aos centros urbanos. Deste modo, sugerimos uma especial atenção no investimento em hacklabs rurais e ecológicos (em zonas costeiras, no cerrado, no semiárido, na região amazônica e em outros biomas em que ainda ocorrem trocas ecológicas diretas e abrigam comunidades tradicionais), estimulando a convivência com as realidades locais, apoiadas tanto por novas ferramentas, quanto nas tecnologias ancestrais de sustentabilidade e autonomias. A partir desta perspectiva, pode ser retomada a parceria da RNP com a Funarte, junto ao edital redigido (ainda não publicado) em 2010, em diálogo com a plataforma Rede//Labs.

Satélites: Apoio à sociedade civil na pesquisa e investigação para produção tecnológica de satélites, e a participação na discussão sobre os lançamentos de satélites. Está em jogo a questão dos espectros aéreos, assim como o acesso a tecnologia espacial. Os modos como são feitas as negociações sobre os domínios espaciais se dão do mesmo modo que as empreitadas colonialistas, a participação civil é ignorada. Propomos a participação de grupos interessados nas lutas espectrais e nos desígnos dos projetos espaciais, assim como pedimos espaços de residências artísticas e de desenvolvimento tecnológicos nas áreas de desenvolvimento e lançamento. Muitos dos satélites que estão em órbita estão sendo subutilizados, esses satélites são de grande utilidade para as redes de espectro livre, para termos acesso a esses satélites de forma legal necessitamos de acordos legais intraministeriais, e acordos entre ministérios e grupos empresariais. Esses satélites são facilmente cartografados, sendo vastas as redes que se prestam a esse tipo de análise. Propomos a criação de um espaço permanente de discussão aberta sobre a gerência civil de satélites.

Residências: Apoio à realização de intercâmbios e residências nacionais e internacionais entre laboratórios, Pontos de Cultura e agentes autônomos, expandindo e aprimorando a propostas como o programa Interações Estéticas da FUNARTE, e criação de outros programas para fortalecer uma rede de laboratórios culturais que inclua não só o Brasil, mas também outros Pontos de Cultura, espaços culturais, eventos, ações em redes da América Latina e do mundo.

Rádio e TV Digital: Reconhencimento do rádio como um importante instrumento de difusão, produção e identidade culturais, principalmente diante das novas oportunidades tecnológicas e sociais que oferece o rádio digital. Desejamos um padrão de rádio digital aberto, sem segredos industriais, com apropriações e adaptações para realidades de todas as estações de rádio do Brasil, potencializando a democratização da comunicação e o acesso popular à cultura. Somos também contra a criminalização da radiodifusão comunitária e livre: fomentamos a diversidade e a multiplicação de atores para o fortalecimento da pluralidade de expressões. Frente à iminente digitalização da radiodifusão, é essencial sublinhar potencialidades até agora pouco exploradas, como a otimização do uso do espectro eletromagnético, a multiprogramação e o desenvolvimento nacional de novos serviços, fundamentais para a plena promoção da diversidade e cidadania. É preciso, então, garantir o apoio à digitalização dos meios comunitários (que hoje somam mais de 10 mil emissoras de rádios de baixa potência em todo o país), a exploração das ondas médias, curtas e tropicais, bem como o acesso de Rádios e TVs comunitárias ao espectro aberto e democrático. Defendemos que o padrão Digital Radio Mondiale é o mais apropriado para a digitalização da radiodifusão brasileira (http://drm-brasil.org)

Hardware Livre: Expansão do incentivo pioneiro do Ministério da Cultura ao software livre também para o hardware: estimular a criação de novos dispositivos e novas mídias como bens culturais públicos, sujeitos aos mesmos príncipios de “propriedade intelectual” aberta como os discutidos neste documento. Somente através da produção autônoma de hardwares livres pode se garantir uma verdadeira apropriação pela sociedade dos meios de produção cultural no século XXI, caso contrário ainda que os softwares sejam abertos continuamos dependentes de empresas privadas estrangeiras. O Minc pode ter estratégias de incentivo que estimulem a criação e exploração de novos dispositivos midiáticos (computadores, radio e tv digital, telefonia, câmeras, projetores, instrumentos óticos, instrumentos musicais e etc.), com parcerias entre artistas e engenheiros, onde além da produção estética resultem também em alternativas para novos ciclos industriais mais acessíveis, para além das grandes patentes.

É possível e cada vez mais viável uma economia sustentável onde esquemas de placas eletrônicas, microchips, sensores e outras invenções sejam vistas como matéria para recombinações possíveis de novas invenções e sobretudo como reserva de conhecimento, numa área tão dominada pelas patentes de economias hegemônicas e sua lógica baseada em ocultar descobertas. Com licenças abertas é possível ampliar acesso a tecnologias colocando-os na pauta da educação pública, da ciência e dos meios de produção cultural, possibilitando uma economia mais colaborativa com acesso à matéria prima da indústria computacional e gerando fluxo de conhecimento industrial para os pequenos e micro empreendedores. Utilizar estas iniciativas como modelo para metodologias de ensino e produção em pequena escala e com soluções de logística local, incentivando a apropriação da tecnologia, a multidisciplinaridade e a criatividade no desenvolvimento de soluções para problemas comuns, que muitas vezes não são resolvidos pela lógica do mercado.

Infraestrutura de rede descentralizada – Neutralidade, segurança, transparência, acesso, controle são questões fundamentais que estão sendo discutidas em termos de marcos Legais, mas que precisam também ser enfrentadas através do desenvolvimento prático de alternativas tecnológicas que possibilitem uma infraestrutura descentralizada e gerida localmente. Para isso é necessário garantir recursos junto aos órgãos públicos, para desenvolvimento e implementação de redes que funcionem localmente com pareamento assíncrono com a Internet. Estas redes locais estão sendo discutidas e implementadas pela sociedade civil de forma independente, a exemplo das recentes investidas da Rede Mocambos de comunidades quilombolas nesta direção. Solicitamos um auxílio do estado para realizar os mapeamentos urbanos e rurais de disponibilidade de rede e implementações em si.

Acesso à internet – Garantir acesso à internet – rápida, estável e gratuita – a grupos, coletivos, pontos de cultura, telecentros dentre outras ações e estruturas, já existentes ou não, por meio da expansão da infraestrutura pública de conexão em banda larga (por exemplo, criando extensões a partir da Rede Ipê da RNP) para fins não somente científicos como também culturais. Garantir conexão dedicada de qualidade para Pontos de Cultura, hacklabs em periferias, comunidades indígenas e da zona rural e outros grupos com dificuldades de acesso à Internet, para que tenham condições de desenvolverem seus trabalhos e manifestarem seus entendimentos. Disponibilização de acesso aberto e livre a essa conexão para as comunidades e seus entornos. Para contornar as limitações de entrega de sinal por fibra ótica da rede Ipê, podem ser trabalhados pontos de distribuição de rede com tecnologias sem fio, ampliando seu alcance. Fomentar o acesso livre à internet ao menos em localidades de alta demanda, como centros urbanos e de eventos.

Comunidades de software livre – Solicitar ao MinC, MC, MCTI e MEC a adaptação de seus editais e mecanismos de incentivos para que atendam a um modelo que fortaleça as redes abertas de pesquisa livre e comunidades regionais de software livre, criando mecanismos de apoio ao ensino, pesquisa e principalmente desenvolvimento de soluções em softwares de código-aberto voltados à produção cultural. Criar mecanismos de interação entre essas redes e os sistemas de pesquisa institucionais no âmbito acadêmico e de ensino público, gerando apropriação e partipação das diferentes comunidades locais. Compreender a produção de código como manifestação cultural. Estimular a produção do código computacional livre como uma mídia que é tecnologia condensada, reativa, modular e reprodutível sem custo adicional. Contemplar o patrimônio da humanidade que é o repertório em circulação de código aberto. Incentivar as comunidades envolvidas com recursos de forma a facilitar as dedicações usuais sem prejuízo dos agentes que empregam nestas investidas seus tempos, recursos e relações interpessoais.

Lixo Eletrônico: Incentivo a práticas de apropriação e reaproveitamento de equipamentos descartados, contrapondo-se à lógica industrial da obsolescência programada e percebida, fomentando ações de transformação de lixo eletrônico em matéria-prima artística e experimental, kits educacionais e objetos carregados de significado ou utilidades sociais. Estimular o desenvolvimento de uma cultura não consumista e de não desperdício que promova o reuso antes do descarte, abrindo espaço para que as cooperativas de reciclagem, e outras formas de organização social baseadas na Economia Solidária, sejam multidisciplinares e se incorporem ao espaço urbano como ações socioculturais do cotidiano. Estimular que essa Cultura do Remix se estenda a outros campos da Cultura criando novas possibilidades de criação coletiva.

Economia solidária – Investimento na economia solidária, feira de trocas de conhecimento tecnológico e de produção cultural, coletas de lixo eletrônico e apropriação de tecnologias, seja na sua forma física de equipamentos eletrônicos ou de subprodutos, fazendo com que a responsabilidade do descarte e recriação de material seja medido em moeda social de acordo com as ações de cada participante e redes produtoras. Conectar através de projetos convergentes as Incubadoras e Centros Públicos de Economia Solidária aos Hacklabs, para que a inovação seja prática de aprimoramento das produções que se pautem pelos príncipios do movimento social da Economia Solidária.

Plataformas digitais de repositórios públicos – Ampliar o diálogo entre vários órgãos da administrção pública, estabelecendo parcerias efetivas e estimulando o empenho de recursos e projetos que viabilizem a implementação de servidores em nuvem garantindo que a produção nacional de mídia, principalmente com recursos oriundos de editais e serviços públicos, estejam garantidos legalmente e digitalmente no Brasil. Hoje o SERPRO trabalha em um projeto de implementação de repositórios públicos, a EBC possui o projeto do Canal P para toda a produção multimídia pública, assim como N outros órgãos estão investindo esforços nessa frente. Ao MINC cabe o papel de valorizar a disseminação e preservação do patrimônio cultural brasileiro em ambientes digitais que fortaleçam a nossa soberania cultural, devendo assim assumir o protagonismo para juntar, organizar esses diferentes agentes e viabilizar que o Brasil tenha um ambiente digital público e seguro para sua produção simbólica e imaterial.

Infra-estrutura pública de federação de redes – uma das frentes na qual a Secretaria Geral da Presidência atua é a mobilização e atuação em redes. Esse esforço vem juntar-se com as centenas de iniciativas de trabalho em rede e construção de territórios digitais. Mas essa proliferação de iniciativas, inclusive, e principalmente, dentro do Estado traz o risco de tudo se esvaziar pela multiplicidade de identidades criadas pelos usuários. Já existem elaborações e iniciativas de implementar a Federeação de Redes. Essa Federação consiste de infra-estrutura e de protocolos que permitam que usuários cadastrados em diferentes Redes Sociais Temáticas possam se relacionar sem precisar criar novas identidades. O Estado brasileiro produz muitas redes, mas elas não se conectam, levando ao cidadão assumir multiplas identidades junto ao Estado e suas políticas. Ao invés de investir recursos em criar mais redes, e mais micro-concentrações de informação, que acabam se perdendo, o MINC, junto a MCTI, SEPRO, MPOG, RNP, entre outros, deve lançar uma edital que viabilize a implementação de um protocolo público de interconexão de Redes.

Licenciamento público de obras – A discussão quanto a reforma da Lei de Direito Autoral está além da capacidade imediata de gestão dos recursos públicos e das poíticas públicas que cabem ao Ministério. Diante disso, e mantendo o compromisso de valorizar e respeitar a Cultura brasileira, sugerimos ao MINC, conformar um grupo de trabalho interministerial, em parceria com o Conselho Nacional de Cultura, Ministério da Justiça, SLTI/Ministério do Planejamento e elaborar um Licença Pública de Obras. A partir do exemplo dado pelo – Portal de Software Público – SLTI/MPGO, é possível estabelecer uma licença exemplificada em modelos como a GNU/Linux, Creative Commons, Copy Left e garantir que todo e qualquer projeto, que se valha de recursos públicos, mediante prêmios, convênios, editais ou prestação de serviços, ceda os direitos para o domínio público. Com isso desafios como o de levar obras realizadas com recursos públicos às escolas podem facilmente ser liberadas, e poderá ainda influenciar de forma prática no debate sobre a Reforma da Lei do Direito Autoral e sua aplicabilidade na sociedade e no Congresso Nacional, além de garantir o processo de Remix Cultural.

A imagem construída neste período vinculava as cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Salvador, Recife, à idéia de atraso, falta de civilidade e desordem. Fugindo dos padrões modernos, nossos centros exibiam aos visitantes vielas sujas e tortuosas, habitações insalubres, falta de transportes, de saneamento e precariedade no sistema de distribuição de água, além de concentrar amplas parcelas da população, cujos hábitos e expressões culturais chocavam-se diretamente com os novos preceitos de salubridade, disciplina e moral.

Show me more… »

Há em volta da cidade do Recife lindas casas de campo, onde a gente abastada reside de novembro até o começo da quaresma; as mais notáveis estão situadas nas risonhas margens do Capibaribe; a classe média dos habitantes principia também a erguer ali as suas casinhas muito alegres.

Não posso dizer de que maneira os brasileiros ali vivem, porque não penetrei em nenhuma delas. Um só negociante havia vivamente instado para que eu fosse visitar no seu sítio; dirigi-me para lá uma tarde. à minha chegada as senhoras desapareceram e fiquei só no salão a palestrar com o dono da casa. Não se faz nada para tornar os jardins próprios a passeios. Balançar-se em uma rede num aposento bem arejado é o prazer mais comum; com efeito é mais apropriado ao clima do que o passeio.

O prazer que se parece gozar com mais sensualidade é o do banho. VOu algumas vezes tomá-lo, com o meu hóspede, à beira mar nas noites claras, e nos proporcionamos o prazer de entrar e sair da águas várias vezes em um quarto de hora; seja que, estendidos njus sobre esteiras, exponhamos os nossos corpos à fresca viração marinha, seja que, mergulhando nas ondas nos agitemos em meio das fulgurações fosforescentes que faz brilhar cada um dos nossos movimentos, a alegria é sempre intensa e o prazer sempre novo.

Mas, é nas margens do Capibaribe que cumpre ver famílias inteiras mergulhando no rio e nele passando parte dodia, abrigadas do sol sob pequenos telheiros de folhas de palmeira; cada casa tem o seu, perto do qual há um pequeno biombo de folhagem para se vestir e despir.

As senhoras da classe mais elevada banham-se nuas, assim como as mulheres de cor e os homens.

À aproximação de alguma canoa mergulham até o queixo, por decência: mas o véu é demasiado transparente!

Vi nesse banhos a mãe amamentando o filho, a avó mergulhando ao lado dos netos, e as moças da casa, traquinando no meio dos seus negros, lançarem-se com rpesteza a atravessarem o rio a nado.

A posição do corpo requerida por este exercício não deixa ver a quem passa, nem o seio nem parte alguma da frente do corpo, de sorte que elas consideram o pudor resguardado; mas, há outras formas não menos sedutoras que o olhar pode contemplar à vontade. COnfesso que fiquei tão surpreendido quanto encantado ao encontrar um dia, neste estado de naidades sem véus, as senhoritas N…, filhas de um dos meus primeiros negociantes da praça.

Aliás, se os passeantes, deslumbrados por tantos atrativos, terstemunham curiosidade impertinente, num fechar de olhos as lindas anfitrites dão um mergulho e vão reaparecer na superfície d´água vinte passos adiante.

É raro encontrar margens mais risonhas do que as do Capibaribe, quando se sobe em canoa até o povoado do Poço Da Panela.

(…)

Há um lugar, um pouco acima da Ponte d’Uchoa, onde o leito do rio, até então bastante largo, parece perder-se sob um imenso caramanchão de verdura formado pelas altas palheteiras vermelhas, cujos ramos superiores se encontam ou estão ligados por cipós floridos, pendentes em guirlandas.

Quando se entra sob esta abóbada, crê-se penetrar no palácio encantado da deusa do rio.

Notas Dominicais, L.F. de Tollenare, Edupe, pags 118 e 119. Trecho do relato que fez a respeito de um passeio acontecido em fevereiro de 1817.

Demos início nessa segunda-feira às entrevistas preparatórias para o documentário que estamos produzindo no presídio de Igarassu. A iniciativa está dentro das ações do projeto de Extensão ‘Projeto Didático para a Construção de Documentários’, que está sendo tocado em parceria com o Centro de Estudos de Educação e Linguagem, do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. O objetivo geral do projeto é desenvolver com professores da rede estadual de ensino metodologias e processos de investigação utilizando a produção de documentários como caminho. Escolhemos utilizar problemáticas das relações étnico-raciais como eixo estruturador dos docs. O projeto já está em seu segundo mês de atividades e com isso começamos a trabalhar em campo.

A visita foi muito proveitosa, sobretudo para colocar em prática a metodologia que a gente tem tentado desenvolver com os professores – nossa esperança é que essa mesma metodologia possa ser assimilada por eles e aplicada em salas de aula. A ideia geral é, primeiro, pensar a metodologia (o caminho, o processo, por assim dizer) como momento de construção de conhecimento, de investigação e intervenção na realidade. Mais do que o “produto”, o que interessa é o processo de construção e por isso de crítica aliada a construção.

Isso implica em criar narrativas, interpretações, estórias sobre o mundo – o cotidiano, as dinâmicas de ordem contingentes, os olhares fora da narrativa hegemônica e mainstream. Nossa expectativa com isso é contribuir para uma aproximação da escola – essa entidade disciplinar e em grande parte autista – das comunidades em que ela está inserida.

A visita
Como ia dizendo a visita foi muito proveitosa. Serviu, como esperávamos, para que as perspectivas iniciais pudessem ser re-alinhadas em função do que se encontrou em campo e para iniciar a familiaridade com os ambientes e as pessoas. E também para definir novas pesquisas a serem feitas pela equipe. O ponto de partida era tratar da questão da remissão da pena e da aplicação da legislação pertinente. Pela experiência de algumas das professoras do grupo (um dos três grupos em que dividimos a sala de 30 alunos-educadores do projeto) há preconceito de cor na seleção dos detentos para os serviços de administração.

Esse é um fato empiricamente observado na Penitenciária Feminina Bom Pastor qual três das professoras ensinam. A visita ao Presídio de Igarassu mostrou outra coisa. A escolha dos detentos para os serviços de administração – pelos quais eles recebem salário e abatimento na pena – não passa de forma determinante pela questão racial. Outros elementos parecem definir a seleção de quem trabalha nas dependência do lugar.
Isso nos forçará a rever a hipótese original e re-orientar as coisas. E a necessidade de debater a questão étnico-racial impõe um desafio interessante.

Visitamos a escola que existe dentro do presídio, o rancho, as dependências onde dormem os detentos que trabalham na cozinha, a fábrida de portões eletrônicos, a marcenaria. Não nos permitiram visitar as celas e não é difícil saber a razão. Passamos pelas áreas mais agradáveis da unidade prisional – limpa, onde as pessoas trabalham, onde há atividade saudável, onde se vêem as iniciativas mais evidentes de ressocialização.

Essas atividades são realizadas por apenas 200 homens. Há, no presídio 2.400 almas – a unidade foi projetada para apenas 400. Ou seja, há uma superpopulação de negros, pobres, que em sua maioria não faz nada de produtivo e que esperam o tempo passar. A prostituição e a droga são muito presentes. E, embora o discurso hegemônico o proria, não é o sexo (homossexual e heterosexual) e o acesso às drogas que impede o bairro de explodir. Aliás, esse discurso tem seu quê de preconceito.

Política de prender
O que atribui uma relativa calma à realidade prisional que estamos começando a acompanhar é de outra ordem, pois nem todos os detentos tem grana ou saúde para os exo e as drogas. Penso que, na conversa com o diretor da unidade, ele deu a senha para se comprender que a relativa pacividade está relacionada a dois fatores: a grande maioria dos presos viveu na infância e na adolescência em pequenos espaços, com grandes privações, sem instalações sanitárias nas casas, pouco conforto. A superlotação não é, assim, uma realidade muito diferente e afastada da que eles vivenciavam quando livres. A superlotação não é, assim, um elemento de revolta. O outro fator é a alimentação. A comida no presídio é muito boa e constante. Há as três refeições, com oferta abundante de frutas, sendo acompanhada por nutricionista e muito bem executada – comemos por lá e posso falar por mim próprio.

Ainda segundo a fala do diretor, o principal desafio (ele reiterou que o único desafio) é a morosidade da Justição no julgamento dos apenados. Há diversos casos de detentos que já pagaram suas penas e ainda não foram julgados!

Embora o diretor não tenha afirmado, um outro obstáculo para a melhoria da qualidade de vida na unidade é a própria política de segurança do Estado. Palavras do diretor:
- Não existe uam política de segurança no Estado de Pernambuco. Há uma política de prisão. Prende-se o criminoso e amontoa-se essas pessoas em lugares como esse. Isso baixa os índices de violềncia do lado de lá (nas ruas), mas cria um outro problema social, que é fazer com que essas pessoas vivam amontoadas.

Pobres & Pretos
Ficamos sabendo, ainda durante a visita, que está sendo finalizado no próximo sábado, 29 de setembro, o trabalho de censo carcerário. Esses dados, que são públicos e que poderemos usar no doc, será de muita valia. Sobretudo porque fornece uma base da dasos confiável e atual da população carcerária – inclusive com a porcentagem de cor.

O que tenho pensado agora é que aos condicionantes históricos que marginalizam a população negra se soma uma política de Estado que amontoa os indivíduos. A superpopulação tem uma relação direta com a questão racial no Brasil – ao mesmo tempo em que também está relacionada à não observação do direito dos aprisionados.

Na verdade, nada nesse raciocínio é novo – mas é um caminho possível para a construção do documentário. Ou seja, a crítica do Pacto pela Vida (que o diretor chama Pacto pela Prisão) como política de Estado insuficiente que tem a perversa característica de prejudicar mais a população carcerária negra.

No próximo sábado temos novamente reunião para juntar as informações coletada e repensar caminhos. A ver…

Vai iniciar mais um projetinho de extensão em que eu colaboro. Minha expectativa é que as atividades me permitam refletir de forma mais apurada questões relacionadas a educação. Mais especificamente  pretendo me aproximar de um entendimento segundo o qual o método é um  elemento didático. Tenho lido e ouvido sobre como o ‘processo’ é o tempo mais rico das relações de letramento digital, das experiências de apropriação crítica de tecnologias da informação e comunicação nas quais a subversão de objetos técnicos é o resultado da modulação dos produtos da indústria às necessidades pontuais, efêmeras e/ou contingentes dos indivíduos.

Escrevi algo sobre isso tempos atrás. A origem desse entendimento parce ser Simondon e também Husserl. O trabalho deles aponta para uma compreensão do objeto técnico que não somente supera a âncora de sujeito-objeto, mas que também abandona a visão algo conformista segundo a qual os objetos estão finalizados, acabados. Isso significa dizer que os aparelhos técnicos podem ser vistos em seu processo de individuação, no que são libertos do modelo matérica-forma, o que implica sua separação do modelo de trabalho a eles atribuido pela indústria. A individuação dos objetos técnicos se abre a operações de deformação, a modulações e adaptações em função das necessidades de seus usuários numa zona obscura que se localiza entre a forma e a matéria, entre as essências e as coisas formadas. São zonas intermédias onde habita o objetoi técnico e sua individuação é resultado de um fluxo, de uma itinerância, de uma deambulação nas mãos de quem precisa. Isso é também um método de aprendizado. De alguma forma, está presente na Metareciclagem e nas experiências de ensino-aprendizagem a ela associados.

Pois bem. O projeto de extensão (cujo texto de divulgação está aí embaixo) parece estar de alguma forma relacionado e próximo a esse entendimento dos objetos técnicos e da maneira como podemos nos relacionar com eles pois tem também um entendimento do métodoco como recurso didático que acontece no caminhar, no processo, nas adaptações às necessidades, afetos, singularidades e inspirações de quem tá envolvido. Em didática há um método que vem sendo aplicado que se chama ’sequencias didáticas’, que me parece bem próximo desse ‘processo’ a que me referi acima. Então uma tarefa para os próximos meses é pesquisar essa aproximação e quem sabe fortalecer conceitualmente essa associação.

Curso de documentários para professores das redes estadual e municipal

Estão abertas até o dia 09 de agosto (próxima quinta-feira) as inscrições para a formação do corpo discente do Projeto Didático para a Construção de Documentários, que acontecerá aos sábados pela manhã (08h às 13h), no período entre 11 de agosto e 09 de dezembro, no Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. O curso terá uma carga horária total de 120 horas (88 horas presenciais e 32 horas à distância) e emitirá certificado pela Pró-reitoria de Extensão da UFPE. Serão oferecidas 45 vagas.

O curso tem como eixo o entendimento de que o gênero ‘documentário’ pode ser um virtuoso facilitador de processos de formação, uma metodologia em si de ensino-aprendizagem, de compreensão e de intervenção na realidade. O objetivo principal, assim, é o desenvolvimento de projetos didáticos voltados à construção de três documentários-pesquisa, cujo intuito é investigar, tendo como pano de fundo o tema das relações étnico-raciais, problemáticas relevantes e de interesse das comunidades em que se localizam as escolas envolvidas no projeto.

Para se inscrever os interessados precisam ser professores da rede pública de ensino (estadual ou municipal) da educação básica. Além disso, devem enviar um e-mail para o endereço cursodocumentario.ufpe@gmail.com contendo as seguintes informações:

NOME COMPLETO:
CPF:
NOME DA ESCOLA E REDE EM QUE ESTA LOTADO(A):
COMPONENTE CURRICULAR EM QUE ATUA:
TELEFONES PARA CONTATO:
E-MAIL:

Além desses dados, o candidato deverá enviar, em anexo no e-mail, uma CARTA DE INTENÇÃO com a seguinte formatação: tamanho máximo de 1 página, escrita em fonte Arial (tamanho 12), com espaçamento entre linhas de 1,5 e formato doc. ou PDF. Nessa carta de intenção o candidato deverá explicitar sua disponibilidade para frequentar o curso e os motivos de interesse que o levou a se candidatar à vaga.


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