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	<title>Soy Loco Por Ti, América &#187; Sociologia</title>
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		<title>A razão e as razões da filosofia &#8211; ou O pensamento de Cláudio Ulpiano</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Feb 2013 16:41:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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O pensamento de Cláudio Ulpiano
Introdução

A questão da filosofia não é abalar a fraseologia da  língua standard, ela não empreende experimentações no plano da  semântica, da sintaxe ou da pragmática, como seria o caso da literatura e  da poesia. “A filosofia é rigor e invenção”, diz Claudio. Coerente com  isso, o que [...]]]></description>
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<h1><strong>O pensamento de Cláudio Ulpiano</strong></h1>
<p><em><strong>Introdução</strong><br />
</em></p>
<p><em>A questão da filosofia não é abalar a fraseologia da  língua standard, ela não empreende experimentações no plano da  semântica, da sintaxe ou da pragmática, como seria o caso da literatura e  da poesia. “A filosofia é rigor e invenção”, diz Claudio. Coerente com  isso, o que se observa em suas aulas é a vigência de princípios  essenciais, a despeito da aparente simplicidade. 1º princípio: o ponto  de partida para a compreensão é uma observação rigorosa do significado  exato das palavras, condição para o entendimento das explicações; 2º  princípio: a repetição das explicações, ainda que tomadas em diferentes  linhas, em que Claudio “voltava” e recomeçava de outro modo, recorrendo a  um outro autor, exemplo ou raciocínio, visando esclarecer um  determinado ponto; 3º princípio: a filosofia é um trabalho árduo (aqui  se manifestava um problema recorrente: o fato de que os alunos, em sua  maioria, não liam os textos recomendados…), necessariamente lento e  cuidadoso (em contraste com a obscuridade do pensamento dos professores  apressados que acham que para explicar basta citar o nome do conceito), o  que pode ser denominado “a paciência do conceito”.</em></p>
<p><em> Em suma, o ato da aula é uma atividade artesanal, não um delírio, um “espetáculo performático” ou um happening. Filosofar  é forçar o advento do pensamento (como nª potência do pensamento) no  interior do próprio pensamento. A partir da idéia de que o pensamento  permanece imerso num sono letárgico e precisa ser provocado. Eis o ponto  de partida do filósofo (aliás, também do cientista e do artista). O  confronto do “pensamento desperto” com a subjetividade constituída é  necessariamente um embate violento. Claudio tinha uma clara noção disso,  em função de sua própria experiência (pois todo pensamento digno desse  nome é produto concomitante de uma experiência ou experimentação com a  vida). Por exemplo, quando fala do período em que se sentia sufocado por  certas formas de pensamento, até o encontro com a filosofia de Deleuze.  Por isso, o processo expressivo ou explicativo requer uma progressão,  uma paciência, uma prudência, uma técnica enfim, que contemple tanto o  entendimento (o bordão do Claudio: “Não sei se entenderam…”) quanto a  segurança dos alunos que se expõem à potência de um pensamento que leva à  quebra das estruturas estabelecidas. Como em Castaneda, quando o  personagem de Don Juan diz, acerca do aprendizado: “As definições mudam  na medida em que o conhecimento aumenta.”. e ainda que a consciência (o  tonal) “deve ser preservada a todo custo”. Nos termos de Deleuze,  reinventados por Claudio no contexto das exigências da aula: crítica e  clínica. Isto é, o pensamento é crítico, não só porque “põe em questão”  ou problematiza mas porque, conseqüente e concomitantemente, “põe em  crise” o que se tinha como certo e seguro.</em></p>
<p><em><br />
O exercício do pensamento que tem como condição a quebra com o regime da  representação, desencadeia um processo de desterritorialização das  subjetividades, isto é, um abalo das estruturas subjetivas que garantem o  senso-comum (o desempenho coordenado das faculdades que produzem a  representação, ou seja, o modo cognitivo normal). Assim, o  andamento da  exposição, na aula, tem que seguir uma progressão em que a clareza e o  cuidado se acompanham, devem se acompanhar: dar um passo no desconhecido  e entender, dar um novo passo e entender, e assim por diante… bem  devagar, sem excessos: a paciência da expressão. Como diz Deleuze sobre a  escrita, no prólogo de Diferença e Repetição (podemos substituir o  “escrever”, do texto, por “pensar”):<br />
“Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos  ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter  algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta  ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que  transforma um no outro”.</em></p>
<p>O <a href="http://claudioulpiano.org.br.s87743.gridserver.com/?p=3665" target="_blank">texto completo</a>, de Emanuel Tadeu Borges, está disponível no site do Centro de Estudos Cláudio Ulpiano, uma ótima referência em língua portuguesa para muitas coisas &#8211; entre elas a humildade necessária pro ato de educar.</p>
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		<title>Uma experiência do uso de documentários como instrumento didático</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Feb 2013 20:13:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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Na próxima sexta-feira vamos realizar no Auditório do Centro de Educação um Seminário que coroa um processo muito interessante acontecido nos último seis meses: o Projeto Didático para a Construção de Documentários. Foi um projeto de extensão que eu tive a honra e a alegria de participar como formador e que resultou na produção de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-2946" href="http://www.locoporti.blog.br/?attachment_id=2946"><img class="aligncenter size-medium wp-image-2946" title="Cartaz_Seminário" src="http://www.locoporti.blog.br/wp-content/uploads/2013/02/Cartaz_Seminário-600x450.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p>Na próxima sexta-feira vamos realizar no Auditório do Centro de Educação um Seminário que coroa um processo muito interessante acontecido nos último seis meses: o Projeto Didático para a Construção de Documentários. Foi um projeto de extensão que eu tive a honra e a alegria de participar como formador e que resultou na produção de três docs e de um <a href="http://www.locoporti.blog.br/wp-content/uploads/2013/02/Miolo-do-Livro-1.pdf" target="_blank">livro</a>. Nosso objetivo inicial era simples, mas complicado: dotar professores da rede pública estadual de recursos mínimos para usar a linguagem cinematográfica como instrumento didático, de modo que permitisse uma aproximação entre a escola (as escolas) e o seu entorno. Na real, muito do conteúdo e das metodologias usadas em sala de aula dão a impressão que a instituição escola é meio autista e não permite que haja um vínculo com a vida real de seus alunos. Esse é um aspecto que está na base dos altos graus de evasão escolar.</p>
<p>Mas queríamos fazer isso com um viés específico: colocar em pauta o debate (os debates) relacionados às relações étnico-raciais. Esse seria o eixo transversal do curso e das produções que teríamos de produzir e que produzimos. Uma das coisas mais interessantes da experiência é que o trabalho de produzir os documentários foi feito por não iniciados &#8211; claro, os professores não possuiam nenhuma experiência com a linguagem, equipamentos, providências, especifidades, etc. A idéia no final das contas é que o trabalho de pré-produção, produção e pós-produção com as suas camadas, pudessem ser associadas ao processo de ensino-aprendizagem.</p>
<p>Por exemplo? Um dos três docs trata da questão prisional. Mais precisamente, daquilo que os professores identificaram como uma política higienista de prisão, que recolhe a bandidagem, limpa as ruas e melhora os índices de violência aqui fora, enquanto o sistema prisional é abarrotado de gente e de problemas, sem que as causas da criminalidade sejam atacadas. Essa interpretação, fruto das interações entre os professores, identifica a criação e perenização de ciclos de criminalidade dentro dos presídios. Em todo esse processo, são os pretos os mais prejudicados. Para ver mais detalhes, sugiro irla no CE, e ver o doc.</p>
<p>É interessante observar ainda que, ao contrário do modelo comercial/profissional de se fazer áudio-visual e que tem dado tantas alegrias a Pernambuco recentemente, nosso caminho foi bem outro. Em primeiro lugar, porque os objetivos eram outros: o mais importante era o processo de aprendizagem e de criação coletiva. Aliás, a esola, alem de autista, também não incentiva produções coletivas, criações coletivas, aprendizado coletivo. Muito ao contrário, faz parte da tradição escolar a formação de performances individualizadas e concorrentes. Pôr em prática esse processo com os professores foi muito gratificante e produtivo.</p>
<p>A diferenciação também se colocou em termos de que o processo de pré-produção (debate coletivo, pesquisas, alinhamento dos conceitos e dos argumentos) aconteceu para todos no momento mesmo do aprendizado. Aprendíamos fazendo o que gerou boas discussões, bons links e boas abordagens dos temas tratados.</p>
<p>Fizemos uma parceria com a Oi Kabun para a captação de imagens e uma terceira empresa fez conosco o trabalho de edição. Não foi a melhor opção &#8211; a burocracia impediu de colocarmos em prática uma idéia mais orgânica, menos relação cliente-empresa. Mas não deu, e no entanto passamos adiante.</p>
<p>Enfim, foi uma boa experiência e logo logo vou colocar o livro para download aqui.</p>
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		<title>Holy Motors, reificação e o apelo do objeto técnico</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Jan 2013 16:25:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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O aparente nonsense que dita o enredo de Holy Motors pode sugerir que qualquer interpretação crítica sobre o filme possa acabar em viagem de quem o faz. Mas pra mim, o filme trata de um aspecto bem específico da cultura contemporânea e também muito evidente. Tão evidente, mas tão evidente, que parece não existir ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://1.bp.blogspot.com/-aP87byN9mSQ/UNfCJLWEoQI/AAAAAAAAGTU/LaRv85yLx5g/s1600/holy-motors01.jpg"><img class="aligncenter" src="http://1.bp.blogspot.com/-aP87byN9mSQ/UNfCJLWEoQI/AAAAAAAAGTU/LaRv85yLx5g/s1600/holy-motors01.jpg" alt="" width="806" height="645" /></a></p>
<p>O aparente nonsense que dita o enredo de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Holy_Motors" target="_blank">Holy Motors</a> pode sugerir que qualquer interpretação crítica sobre o filme possa acabar em viagem de quem o faz. Mas pra mim, o filme trata de um aspecto bem específico da cultura contemporânea e também muito evidente. Tão evidente, mas tão evidente, que parece não existir ou se naturalizar. Nessa levada, ofilme tem <a href="http://cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt/904498.html" target="_blank">o enredo apontado</a> como bizarro e estranho.  Ele também vem sendo <a href="http://www.blogdoims.com.br/ims/holy-motors-e-a-ficcao-radical/" target="_blank">pensando </a>como um exercício de ficção, um virtuoso exercício de ficção sobre o cinema, que por sua vez é celebrado como um terreno em que a fantasia de certa forma vence.</p>
<p>Sem discordar dessas interpretações, pensei em Holy Motors numa perspectiva um pouco diferente. O título me chamou atenção antes mesmo de ver o filme. &#8216;Holy Motors&#8217; me parece desde o início uma referência à miríade de máquinas, maquinetas, gadgets, equipamentos, eletro-coisas e i-coisas, computadores, plataformas e sistemas de informação que alçamos à condição de essenciais para a lidar com a vida cotidiana. Para sermos mais felizes, compreendidos, lembrados, vistos; para sermos melhores, enfim. O fetiche dessas mercadorias vem radicalizando a sublimação do homem  pela coisa, ou pelo motor. Você vale por quanto pesa o seu motor de mão.</p>
<p>Por outro lado, o título de santo, ao menos na hagiologia católica,  é dada a quem, além de grande caráter, está na graça de Deus (no céu). É portanto uma ironia muito interessante um objeto ter essa condição e exprime, por outro lado, um limite difícil de ser extrapolado para o sentido da reificação. Nesse sentido, é como se o título do filme sugerisse uma condição diferenciada para o próprio sentido da reificação do objeto em geral e para o objeto técnico em particular.</p>
<p>É claro que não é de hoje que atribuir a coisas a condição de santo. &#8216;Santa caninha&#8221;, &#8220;santa massa&#8221;, &#8220;santo cinto de utilidades&#8221;, &#8220;santo golinho&#8221; e por aí vai. Mas, até onde eu me lembro e a vista alcança, são sempre expressões dotadas de humor, são brincadeiras com a condição de altivez e proximidade a deus.</p>
<p><strong>Universo alternativo</strong> &#8211; Holy Motors também tem sido considerado uma &#8220;trama&#8221;, se é que se pode falar em trama &#8211; mas me perdoem, é que eu tô cansado mesmo -, que acontece num universo alternativo. Eu tendo a achar que é mais interessante pensar que Holy Motors não tematiza um universo alternativo, mas esses universo aqui, essa sociedade aqui, que vive um processo agudo, no qual as identidades são forjadas ao gosto de uma racionalidade cínica. Para mais informação sobre essa última, você pode conferir <a href="http://www.uva.br/trivium/edicoes/edicao-i-ano-iii/artigos/2-sobre-o-cinismo-em-um-tempo-de-identificacoes-ironicas.pdf" target="_blank">aqui </a>e <a href="http://www.revistaserrote.com.br/2013/01/como-viver-sem-ironia-por-christy-wampole/" target="_blank">aqui </a>. Vou voltar a esse assunto em um outro post, noutrodia.</p>
<p>As identidades que o personagem Oscar (Denis Lavant) assume, são forjadas por uma lógica de visibilidade, mais do que pelo gosto pelo ato em si &#8211; aliás, mencionado pelo ator ator. Há uma lógica baseada na visibilidade dessas personalidades e das histórias que elas vivem que justifica a aparente desordem e nonsense da passagem de um personagem a outro. Há um negócio que se sustenta baseada nessa passagem e que no entanto não é obscena, ou seja não é muito evidente. Mais do que uma metáfora de uma sociedade do espetáculo, o que isso parece tematizar é, por um lado, a naturalização da lógica de significação baseada no ver e ser visto e, por outro, o corolário da personalidade fluida sobreposta a um fluxo de ficções que nós criamos sobre o cotidiano.</p>
<p><strong>Adoráveis máquinas</strong> &#8211; Finalmente, para mim, o filme aponta ou permite apontar para uma crítica à invisibilidade do sistema de controle contemporâneo, no qual os sistemas e plataformas de informação desenvolvem uma função fundamental. Para quem subestima esse aspecto, sugiro ver ao menos a primeira parte do ótimo documentário &#8220;Tudo vigiado por máquinas de adorável graça&#8221;, dirigido por Adam Curtis. A primeira parte, entitulada Love and Power, narra uma utopia que se pretendia inescapável. E que no entanto ocorreu e que explica, em parte, a mais recente crise financeira do capitalismo e que ainda agora vem sento sentida.</p>
<p>Ou, como explica uma resenha:</p>
<blockquote><p>&#8220;Esta é a história do sonho que surgiu nos anos 90, de que computadores  poderiam criar um novo tipo de mundo estável. Eles originariam um novo  tipo de capitalismo global, livre de riscos e sem os altos e baixos do  passado. Aboliriam também o poder político e criariam um novo tipo de  democracia por meio da internet onde milhões de pessoas seriam  conectadas como nós em sistemas cibernéticos, sem hierarquia. O episódio  conta a história de dois mundos perfeitos. Um formado pelo pequeno  grupo de discípulos da romancista Ayn Rand, nos anos 50. Eles se viam  como o protótipo de uma sociedade futura onde todos poderiam seguir seus  próprios desejos egoístas. O outro é a utopia global que os empresários  do Vale do Silício se propuseram a criar nos anos 90. Muitos deles  também foram discípulos de Ayn Rand. Eles acreditavam que novas redes de  computadores possibilitariam a criação de uma sociedade onde todos  pudessem seguir seus próprios desejos, mas sem anarquia. Alan Greenspan,  também discípulo de Ayn Rand, juntou-se a eles. Ele se convenceu de que  os computadores estavam criando um novo tipo de capitalismo estável &#8211;  &#8220;Como um novo planeta&#8221;, afirmou ele. Mas o sonho de estabilidade em  ambos os mundos seria destruído por duas forças humanas dinâmicas &#8211; o  amor e o poder&#8230;&#8221;</p></blockquote>
<p>[There is a video that cannot be displayed in this feed. <a href="http://www.locoporti.blog.br/holy-motors-reificacao-e-o-apelo-do-objeto-tecnico/">Visit the blog entry to see the video.]</a></p>
<p>Em Holy Motors, a esolha por um sistema de controle no qual as máquinas são subsumidas é sugerida apenas, sobretudo na última sequencia do filme, no já tão falado diálogo entre as limosines. A utopia de Ayn Rand parecia não somente mais letal, mas também mais utopicamente rigorosa do que aquela ameaça apenas sugerida e criticada em Holy Motors e, no entanto, ela foi posta em prática ou buscada com afinco e determinação por uma geração inteira.</p>
<p>O que o &#8216;desaparecimento&#8217; da tecnologia, nessa perspectiva indica, é um apelo ao objeto técnico como recurso de delegação da vida. Delegar memória, raciocínio, controle, escolhas políticas, estéticas, administrativas a uma racionalidade técnica enlouquecida &#8211; a proximidade com a racionalida cínica já citada parece a verdadeira visão do inferno na terra, mas a isso também volto noutro dia noutro post.</p>
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		<title>Economia Criativa e Economia Colaborativa e Solidária: Quem é quem?</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Nov 2012 12:26:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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Na próxima segunda-feira começo a dar um pequeno curso, ou oficina, sobre Economia da Cultura. Na verdade verdadeira, vão ser três dias de bate-papo sobre a crítica dessa tal Economia da Cultura, com alguns debates sobre a bibliografia já reconhecida (?) a respeito do assunto e os pontos de desvio do conceito, que apesar de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://24.media.tumblr.com/tumblr_lmujl6vkhq1qjfd19o1_500.jpg"><img class="aligncenter" src="http://24.media.tumblr.com/tumblr_lmujl6vkhq1qjfd19o1_500.jpg" alt="" width="500" height="396" /></a></p>
<p>Na próxima segunda-feira começo a dar um pequeno curso, ou oficina, sobre Economia da Cultura. Na verdade verdadeira, vão ser três dias de bate-papo sobre a crítica dessa tal Economia da Cultura, com alguns debates sobre a bibliografia já reconhecida (?) a respeito do assunto e os pontos de desvio do conceito, que apesar de não ter se consolidado com um paradigma teórico tem defensores radicais em quase toda esquina. De quebra pretendo apresentar além das críticas, a perspectiva da Economia Solidária relacionada aos bens imateriais &#8211; fonte, aliás, do que há de melhor em torno de críticas à EC. Espero poder apresentar o que tenho lido e observado e escrito nos últimos anos sobre o assunto. O curso é aberto a qualquer com interesse no tema, etc.  Abaixo está o resumo e a proposta de cada um dos encontros, que pode e deverá mudar ao longo do processo. O curso está sendo organizado e patrocinado pela <a href="http://expoidea.com.br/2012" target="_blank">Expoidea</a>.</p>
<p>As inscrições podem ser feitas <a href="http://expoidea.com.br/2012/inscricao/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p><strong>Curso: Economia Criativa e Economia Colaborativa e Solidária: Quem é quem?</strong></p>
<p>Resumo: Nos últimos 150 anos as democracias complexas têm dependido de uma economia industrial para as funções básicas de produção e informação, conhecimento e cultura. Novos paradigmas de ordem tecnológica, econômica e de práticas sociais criaram novas oportunidades para a produção e troca de informações, conhecimento e cultura de forma não-proprietária e fora do modelo hegemônico de mercado. O mini-curso /oficina pretende discutir algumas das principais conceituações e suas implicações de ordem social e para políticas públicas.</p>
<p><strong>Programa &#8211; pode mudar, pra melhor <img src='http://www.locoporti.blog.br/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' /> </strong></p>
<p><strong>Encontro 1</strong></p>
<p>Os conceitos de Economia da Cultura (até agora…). O percurso, na história da Economia Política, até o advento da Economia da Cultura como conceito. A predominância da abordagem neoclássica da economia sobre a Economia Criativa ou da Cultura. Um campo em constituição. Artes performáticas como dilema econômico.<br />
<strong><br />
Encontro 2</strong></p>
<p>O uso corriqueiro de Economia da Cultura: mercadológico. Relações de mercado que se dão dentro da arte, bem como seus ciclos na cadeia econômica. Desmembrando a Economia da Cultura. O que é mesmo “economia”? O que é mesmo “cultura”? Os limites do entendimento mercadológico da Economia da Cultura para a elaboração de políticas públicas da cultura. A crise da teoria do valor aplicada ao mercado das artes. A interdisciplinaridade como elemento para melhor definição e determinação de políticas culturais.</p>
<p><strong>Encontro 3</strong></p>
<p>Para uma crítica da Economia da Cultura. As exclusões que o entendimento mercadológico da Economia da Cultura provoca: territorial, econômica, simbólica. O auxílio luxuoso da Economia Solidária. O olhar transversal para além da economia enquanto arte – afeto, integração, riqueza, gestão democrática, autonomia, educação, comunitarismo, equidade. Propostas de ações e práticas concretas para uma Economia Colaborativa e Solidária: Atividades que incentivem formas de cooperação – formais ou não; Dar assessoria, qualificação e acompanhamento a projetos; Melhoria nos Editais e Leis de Fomento; Democratização do Acesso à Cultura.</p>
<p><strong>Período:</strong> 12, 13 e 14 de novembro de 2012</p>
<p><strong>Vagas:</strong> 1 turma/ 20 vagas</p>
<p><strong>Carga horária:</strong> 9h/aula (3 dias, segunda, terça e quarta-feira)</p>
<p><strong>Horário:</strong> 1 turma: 9h/12h.</p>
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		<title>Parabéns ao socialista moreno</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Oct 2012 14:53:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Fabiana Moraes
fmoraes@jc.com.br
Darcy Ribeiro,  noventa anos hoje se um câncer não o tivesse matado em 1997, foi moderno  demais para o Brasil. Moderno demais porque não estávamos  nem estamos   acostumados a ter entre nós um intelectual que não se privava da vida  política, tampouco um político que não se privava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Fabiana Moraes</em><br />
fmoraes@jc.com.br</p>
<p><em>Darcy Ribeiro,  noventa anos hoje se um câncer não o tivesse matado em 1997, foi moderno  demais para o Brasil. Moderno demais porque não estávamos  nem estamos   acostumados a ter entre nós um intelectual que não se privava da vida  política, tampouco um político que não se privava do pensamento  reflexivo. Esse aspecto é sem dúvida um dos pontos-chave para se  entender a importância desse homem que, de maneira encantadora e  descarada, tanto amou o País onde nasceu. Tinha uma obsessão comovente  pelos seus filhos: índios, pretos, misturados, gaúchos, sertanejos,  litorâneos. Formavam ilhas de brasileiros que juntos formavam o Brasil,  que juntos formavam Darcy. Ele, ministro da Educação de João Goulart em  1962, tinha apenas 29 anos, espantava-se: porque cargas dágua não  dávamos certo? Ou melhor: porque é que o Brasil deu errado?<br />
<span id="more-2911"></span></em><em></em></p>
<p><em>Autora  de Sociologia de um indisciplinado e coordenadora do Centro de Pesquisa  e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV), a  socióloga Helena Bomeny diz que essa pergunta está no fundo de toda a  produção intelectual do autor. Para ela, ele nunca deixou de questionar a  responsabilidade da elite sobre nossa formação e situação, nossa má  vontade em pensar uma educação integral, a estranha e recaldada aversão  pela mestiçagem. Tais fenômenos, porém, não permaneceram na cabeça e na  escrita de Darcy Ribeiro, que, munido de um saber excepcional, lançou-se  às ruas. Ele foi um intelectual público, diz a pesquisadora, para  quem o também ex-ministro-chefe da Casa Civil (aos 30, em 1963) faz  parte de um momento nacional, localizado nos anos 60 e 70, onde o pensar  acontecia fortemente ao lado do agir. Celso Furtado e Florestan  Fernandes também fazem parte de uma geração que pensou profundamente o  desenvolvimento do Brasil, a travessia nacional de um local para outro.  Eles apostaram energicamente nessa realidade.</em></p>
<p><em>Essa convivência  tão aproximada com a materialidade da política  e do seu pensamento   provocaram, é claro, fissuras e abismos na relação entre o antropólogo e  o mundo. Uma delas se deu justamente entre ele e Florestan. Professora  da pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco  (PPGS/UFPE), a também socióloga Eliane Veras diz que, amigos de longa  data, os dois pensadores divergiram e romperam relações no final da vida  por discordarem dos rumos que deveriam ser seguidos na elaboração da  Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. No artigo Florestan  Fernandes e os dilemas intelectuais contemporâneos, ela escreve que,  segundo Heloísa Fernandes, filha de Florestan, os olhos de seu pai  marejavam quando se mencionava o nome de Darcy.</em></p>
<p><em>Para Veras, Darcy  Ribeiro é o intelectual que elabora uma teoria, propõe um programa  político cultural de identidade nacional, coloca em prática suas idéias.  Os diversos momentos de sua trajetória são pautados pela produção de  algo novo: a atuação no Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a criação  da Universidade de Brasília, dos Centros Integrados de Educação Pública  (Cieps), da Universidade Estadual do Norte Fluminense, entre tantos  outros projetos colocados em prática, escreve. Helena Bomeny diz que as  máculas deixadas pelo Darcy político no Darcy intelectual são próprias   e comuns  no processo de união das duas esferas. Nem sempre política e  cultura andam juntas. É só lembrar de Fernando Henrique Cardoso, que  disse esqueçam o que eu escrevi quando tornou-se presidente. Ele não  podia ser cobrado como intelectual naquele cargo.</em></p>
<p><em>Outra  característica forte desse socialista moreno, do homem que pensou em um  marxismo apropriado para a realidade nacional (um marxismo para índios,  pretos, misturados, gaúchos, sertanejos, litorâneos) era sua produção  exuberante, que fez Antônio Cândido escrever sobre sua incrível  capacidade de viver muitas vidas, enquanto a maioria de nós mal consegue  viver uma. Autora de O lugar do arquivo: a construção do legado de  Darcy Ribeiro (Contra Capa/Faperj, 2012), a pesquisadora Luciana  Heymann, também CPDOC/FGV, foi a responsável pelo projeto de organização  do arquivo de Ribeiro, estimado em dezenas de milhares de documentos.  Mais do que explorar a documentação exaustivamente, minha pesquisa  buscou analisar o lugar do arquivo na construção da memória, ou do  legado, do personagem, diz. Para Luciana, o arquivo, de certa maneira,  contradiz a imagem do homem público que o próprio Darcy, que ocupava uma  cadeira no Senado quando morreu, construiu para si, a de um intelectual  inquieto e múltiplo, sempre envolvido com um novo projeto. Analisando a  documentação de seu arquivo percebe-se que alguns temas e projetos  foram perseguidos por ele ao longo da vida toda, aparecendo em versões  diferentes, separadas no tempo por décadas. Assim, por meio do arquivo  foi possível entrever o caráter repetitivo da sua ação e o compromisso  com a sistematicidade.</em></p>
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		<title>DES-CARTA DA REDE METARECICLAGEM PARA O MINISTÉRIO DA CULTURA – E OUTROS MINISTÉRIOS TAMBÉM</title>
		<link>http://www.locoporti.blog.br/des-carta-da-rede-metareciclagem-para-o-ministerio-da-cultura-%e2%80%93-e-outros-ministerios-tambem/</link>
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		<pubDate>Tue, 16 Oct 2012 18:10:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[América do Sul]]></category>
		<category><![CDATA[Coisas imateriais]]></category>
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		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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		<category><![CDATA[Metareciclagem]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia & Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[
16/10/2012
Por versão 0.1.0 coletiva

Epístola Digital Descentralizada
(versão 0.1.0 coletiva)
Outubro 2012
Plante e Viva! Código é Mato; Importante são Pessoas!
(Anônimo e Coletivo)
1 ponto e vírgula A+, “Enter”. &#38;&#38; você já não está no mesmo lugar;
(Supla Selva &#38; Yupana Kernel)
Não somos representados por nenhuma rede das redes
anonymus
Carxs leitorxs
Abrimos este canal para diálogar com o Ministério da Cultura,  buscando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1 style="text-align: right;"></h1>
<h2 style="text-align: right;">16/10/2012<br />
Por versão 0.1.0 coletiva</h2>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><em>Epístola Digital Descentralizada<br />
(versão 0.1.0 coletiva)<br />
Outubro 2012</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Plante e Viva! Código é Mato; Importante são Pessoas!<br />
(Anônimo e Coletivo)</em></p>
<p><em><strong>1 </strong>ponto e vírgula A+, “Enter”. &amp;&amp; você já não está no mesmo lugar;<br />
(Supla Selva &amp; Yupana Kernel)</em></p>
<p><em>Não somos representados por nenhuma rede das redes<br />
anonymus</em></p>
<p><em>Carxs leitorxs</em></p>
<p><em>Abrimos este canal para diálogar com o Ministério da Cultura,  buscando destacar tópicos de suma importância para a cultura, em suas  interfaces com a tecnologia, ciência e comunicação. Propomos abaixo  alguns pontos que julgamos relevantes para o presente e o futuro, a  partir da nossa larga experiência coletiva em redes cultivadas na  Internet e nas ruas, com a utilização plena de software livre para  produção cultural, bem como no exercício da cultura livre como prática  constante. Na realização de encontros presenciais relacionados a arte,  mídia, participação social, ciência, tecnologia presenciamos e  integramos todo tipo de discussões políticas e ações distribuídas e  não-verticalizadas. Durante este processo decidimos ampliar o número de  destinatários, dada a pluralidade de intenções. Como e com quem  resolver?</em></p>
<p><em>Esta carta foi escrita por diversas mãos a partir de uma iniciativa  que surge no seio da rede MetaReciclagem e então se espalha pela  Internet. Lembramos que a MetaReciclagem era parte fundamental do  conceito e prática da Ação Cultura Digital elaborada nas gestões  passadas. Entre as pessoas abaixo assinadas estão articuladores que  participaram da criação e internacionalização do Cultura Viva, do  Programa Nacional dos Pontos de Cultura e das ações de Cultura Digital,  realizando na prática estes programas governamentais. Gostaríamos que o  Ministério da Cultura e todxs xs destinatárixs desta carta atentassem  aos pontos abaixo:</em></p>
<p><em>Lei do Acesso à Informação e Governo Aberto: Disponibilização  adequada (de forma legível por pessoas e máquinas, em padrões abertos)  de todas as informações do Ministério da Cultura, inclusive as relativas  ao orçamento (levando em consideração também os recursos das leis de  incentivo fiscal) e sua distribuição entre as regiões do país. Incentivo  à formação de Conferências de Cultura permanentes e abertas, e ao  aprimoramento e a simplificação dos canais de diálogo e intervenção da  sociedade civil (organizada ou não-organizada legalmente) na gestão do  Ministério. Tomada de decisões junto à sociedade civil através de  consultas públicas.</em></p>
<p><em>Gênero, Produção Cultural e Apropriação Tecnológica – Estímulos a  projetos de acesso e uso crítico da tecnologia (hardware, software e  redes) e dos meios de produção cultural. Investimento em pesquisa e  programas de introdução à apropriação tecnológica específicos para  diversidade de gênero de todas as idades, culturas, raças e classes  sociais, para que sejam estimuladxs a participar de processos de  produção cultural com ferramentas tecnológicas. Esse contexto é onde  mais existe déficit de participação. Entram nesse contexto mulheres,  transgêneros, transexuais, travestis, prostitutas, queers e todo tipo  considerado aberração para a sociedade machista, que ainda domina muitas  das gerências da cultura, da ciência e da tecnologia.</em></p>
<p><em>Reforma da Lei de Direito Autoral: Um largo processo foi iniciado,  durante o governo Lula, que tinha como missão atualizar a legislação  brasileira sobre o direito autoral. É praticamente um consenso a  necessidade da reforma da Lei 9.610/98, visto que a última década foi  marcada por profundas transformações – não só técnicas mas  principalmente políticas e culturais – que alteram radicalmente a forma  como nos relacionamos com o direito autoral. Como exemplo dessas  transformações, temos a difusão de espaços e práticas de  compartilhamento – redes P2P – que se tornaram verdadeiros terrenos de  uma guerra global entre defensores da “propriedade intelectual” e  ativistas da cultura livre. Outro exemplo dessas transformações é a  difusão cada vez maior de uma cultura de remix. Desde 2007, o MinC vem  fomentando o debate sobre temas como cópia privada, uso educacional de  obras protegidas, proteção ao autor e cessão de direitos.</em></p>
<p><em>Acreditamos necessário avançar muito nessa área pois o acesso a  produções culturais é essencial para a multiplicidade e diversidade da  cultura brasileira, para a diversificação de olhares, assim como a  formação de uma cultura política e não somente políticas culturais.  Alguns avanços significativos podem ser conquistados nessa área como a  descriminalização de práticas ditas de “pirataria”, a possibilidade de  cópia privada, a criação de um sistema de supervisão pública e  descentralizada dos órgãos coletores de direitos autorais, a questão das  cópias para uso educacional e o aumento das possibilidades de usos  “justos” das obras protegidas. Devemos buscar soluções para a  remuneração do trabalho da cultura e da arte que passem pelo  reconhecimento da dimensão coletiva de sua produção, destacando as  possibilidades de produção cooperativa e a impossibilidade da cultura  ser entendida como submetida somente à economia – ainda que a questão da  valoração do trabalho de artistas e produtores culturais seja  essencial.</em></p>
<p><em>Cultura, Ciência e Tecnologia nas Comunidades Tradicionais:  Investimento conjunto e dialógo com as instituições e agências oficiais  da ciência, no reconhecimento dos saberes e ciências das comunidades  tradicionais, como comunidades quilombolas, caiçaras, ribeirinhas e  indígenas. Práticas e conhecimentos que por sua vez são indissociáveis  de suas culturas (etnociências e etnoecologias) e constituem um enorme  potencial ainda sub-valorizado. Qualificação do Estado para o diálogo  com estes grupos, criando mecanismos que facilitem o repasse de recursos  (como editais desburocratizados para micro-empreendedores individuais) e  a submissão de projetos, aprimorando a experiência da Ação Griô,  criando outras e pautando ações de ciência e tecnologia associadas à  cultura.</em></p>
<p><em>Hacklabs Rurais e Biotecnologia: Incentivar práticas de biohacking  abertas e livres a partir do conhecimento e ciências de povos  tradicionais. Investimento em laboratórios que promovem a busca pela  autonomia em diversos setores: humano, social, científico e tecnológico.  Apoio ao desenvolvimento de pesquisas científicas livres, pautadas pela  integração entre natureza e cultura, em estudos biotecnológicos,  desenvolvimentos associados à computação física, à ciência comunitária e  às tecnologias baseadas em práticas do faça-você-mesmo (DIY) . Hacklabs  são práticas comuns em vários países, inclusive no Brasil, e têm como  objetivo aproximar das pessoas comuns a produção científica e  tecnológica de baixo custo e livre distribuição, criando espaços de  convivência, experimentação e aprendizagem, por vezes em diálogo com os  saberes das ciências duras e as ciências de comunidades tradicionais.</em></p>
<p><em>Assim como o aprimoramento das linguagens tecnológicas para esses  ambientes, em prol de pesquisas transdisciplinares-antidisciplinares em  laboratórios de biohacking ou DIYBIO (Biologia do faça-você-mesmo),  envolvendo: energias renováveis, cartografias de faunas e floras, redes  autônomas de telecomunicações, bioconstruções, agroecossistemas e outras  investigações que apoiem uma reversão do êxodo de comunidades  tradicionais rumo aos centros urbanos. Deste modo, sugerimos uma  especial atenção no investimento em hacklabs rurais e ecológicos (em  zonas costeiras, no cerrado, no semiárido, na região amazônica e em  outros biomas em que ainda ocorrem trocas ecológicas diretas e abrigam  comunidades tradicionais), estimulando a convivência com as realidades  locais, apoiadas tanto por novas ferramentas, quanto nas tecnologias  ancestrais de sustentabilidade e autonomias. A partir desta perspectiva,  pode ser retomada a parceria da RNP com a Funarte, junto ao edital  redigido (ainda não publicado) em 2010, em diálogo com a plataforma  Rede//Labs.</em></p>
<p><em>Satélites: Apoio à sociedade civil na pesquisa e investigação para  produção tecnológica de satélites, e a participação na discussão sobre  os lançamentos de satélites. Está em jogo a questão dos espectros  aéreos, assim como o acesso a tecnologia espacial. Os modos como são  feitas as negociações sobre os domínios espaciais se dão do mesmo modo  que as empreitadas colonialistas, a participação civil é ignorada.  Propomos a participação de grupos interessados nas lutas espectrais e  nos desígnos dos projetos espaciais, assim como pedimos espaços de  residências artísticas e de desenvolvimento tecnológicos nas áreas de  desenvolvimento e lançamento. Muitos dos satélites que estão em órbita  estão sendo subutilizados, esses satélites são de grande utilidade para  as redes de espectro livre, para termos acesso a esses satélites de  forma legal necessitamos de acordos legais intraministeriais, e acordos  entre ministérios e grupos empresariais. Esses satélites são facilmente  cartografados, sendo vastas as redes que se prestam a esse tipo de  análise. Propomos a criação de um espaço permanente de discussão aberta  sobre a gerência civil de satélites.</em></p>
<p><em>Residências: Apoio à realização de intercâmbios e residências  nacionais e internacionais entre laboratórios, Pontos de Cultura e  agentes autônomos, expandindo e aprimorando a propostas como o programa  Interações Estéticas da FUNARTE, e criação de outros programas para  fortalecer uma rede de laboratórios culturais que inclua não só o  Brasil, mas também outros Pontos de Cultura, espaços culturais, eventos,  ações em redes da América Latina e do mundo.</em></p>
<p><em>Rádio e TV Digital: Reconhencimento do rádio como um importante  instrumento de difusão, produção e identidade culturais, principalmente  diante das novas oportunidades tecnológicas e sociais que oferece o  rádio digital. Desejamos um padrão de rádio digital aberto, sem segredos  industriais, com apropriações e adaptações para realidades de todas as  estações de rádio do Brasil, potencializando a democratização da  comunicação e o acesso popular à cultura. Somos também contra a  criminalização da radiodifusão comunitária e livre: fomentamos a  diversidade e a multiplicação de atores para o fortalecimento da  pluralidade de expressões. Frente à iminente digitalização da  radiodifusão, é essencial sublinhar potencialidades até agora pouco  exploradas, como a otimização do uso do espectro eletromagnético, a  multiprogramação e o desenvolvimento nacional de novos serviços,  fundamentais para a plena promoção da diversidade e cidadania. É  preciso, então, garantir o apoio à digitalização dos meios comunitários  (que hoje somam mais de 10 mil emissoras de rádios de baixa potência em  todo o país), a exploração das ondas médias, curtas e tropicais, bem  como o acesso de Rádios e TVs comunitárias ao espectro aberto e  democrático. Defendemos que o padrão Digital Radio Mondiale é o mais  apropriado para a digitalização da radiodifusão brasileira  (http://drm-brasil.org)</em></p>
<p><em>Hardware Livre: Expansão do incentivo pioneiro do Ministério da  Cultura ao software livre também para o hardware: estimular a criação de  novos dispositivos e novas mídias como bens culturais públicos,  sujeitos aos mesmos príncipios de “propriedade intelectual” aberta como  os discutidos neste documento. Somente através da produção autônoma de  hardwares livres pode se garantir uma verdadeira apropriação pela  sociedade dos meios de produção cultural no século XXI, caso contrário  ainda que os softwares sejam abertos continuamos dependentes de empresas  privadas estrangeiras. O Minc pode ter estratégias de incentivo que  estimulem a criação e exploração de novos dispositivos midiáticos  (computadores, radio e tv digital, telefonia, câmeras, projetores,  instrumentos óticos, instrumentos musicais e etc.), com parcerias entre  artistas e engenheiros, onde além da produção estética resultem também  em alternativas para novos ciclos industriais mais acessíveis, para além  das grandes patentes.</em></p>
<p><em>É possível e cada vez mais viável uma economia sustentável onde  esquemas de placas eletrônicas, microchips, sensores e outras invenções  sejam vistas como matéria para recombinações possíveis de novas  invenções e sobretudo como reserva de conhecimento, numa área tão  dominada pelas patentes de economias hegemônicas e sua lógica baseada em  ocultar descobertas. Com licenças abertas é possível ampliar acesso a  tecnologias colocando-os na pauta da educação pública, da ciência e dos  meios de produção cultural, possibilitando uma economia mais  colaborativa com acesso à matéria prima da indústria computacional e  gerando fluxo de conhecimento industrial para os pequenos e micro  empreendedores. Utilizar estas iniciativas como modelo para metodologias  de ensino e produção em pequena escala e com soluções de logística  local, incentivando a apropriação da tecnologia, a multidisciplinaridade  e a criatividade no desenvolvimento de soluções para problemas comuns,  que muitas vezes não são resolvidos pela lógica do mercado.</em></p>
<p><em>Infraestrutura de rede descentralizada – Neutralidade, segurança,  transparência, acesso, controle são questões fundamentais que estão  sendo discutidas em termos de marcos Legais, mas que precisam também ser  enfrentadas através do desenvolvimento prático de alternativas  tecnológicas que possibilitem uma infraestrutura descentralizada e  gerida localmente. Para isso é necessário garantir recursos junto aos  órgãos públicos, para desenvolvimento e implementação de redes que  funcionem localmente com pareamento assíncrono com a Internet. Estas  redes locais estão sendo discutidas e implementadas pela sociedade civil  de forma independente, a exemplo das recentes investidas da Rede  Mocambos de comunidades quilombolas nesta direção. Solicitamos um  auxílio do estado para realizar os mapeamentos urbanos e rurais de  disponibilidade de rede e implementações em si.</em></p>
<p><em>Acesso à internet – Garantir acesso à internet – rápida, estável e  gratuita – a grupos, coletivos, pontos de cultura, telecentros dentre  outras ações e estruturas, já existentes ou não, por meio da expansão da  infraestrutura pública de conexão em banda larga (por exemplo, criando  extensões a partir da Rede Ipê da RNP) para fins não somente científicos  como também culturais. Garantir conexão dedicada de qualidade para  Pontos de Cultura, hacklabs em periferias, comunidades indígenas e da  zona rural e outros grupos com dificuldades de acesso à Internet, para  que tenham condições de desenvolverem seus trabalhos e manifestarem seus  entendimentos. Disponibilização de acesso aberto e livre a essa conexão  para as comunidades e seus entornos. Para contornar as limitações de  entrega de sinal por fibra ótica da rede Ipê, podem ser trabalhados  pontos de distribuição de rede com tecnologias sem fio, ampliando seu  alcance. Fomentar o acesso livre à internet ao menos em localidades de  alta demanda, como centros urbanos e de eventos.</em></p>
<p><em>Comunidades de software livre – Solicitar ao MinC, MC, MCTI e MEC a  adaptação de seus editais e mecanismos de incentivos para que atendam a  um modelo que fortaleça as redes abertas de pesquisa livre e comunidades  regionais de software livre, criando mecanismos de apoio ao ensino,  pesquisa e principalmente desenvolvimento de soluções em softwares de  código-aberto voltados à produção cultural. Criar mecanismos de  interação entre essas redes e os sistemas de pesquisa institucionais no  âmbito acadêmico e de ensino público, gerando apropriação e partipação  das diferentes comunidades locais. Compreender a produção de código como  manifestação cultural. Estimular a produção do código computacional  livre como uma mídia que é tecnologia condensada, reativa, modular e  reprodutível sem custo adicional. Contemplar o patrimônio da humanidade  que é o repertório em circulação de código aberto. Incentivar as  comunidades envolvidas com recursos de forma a facilitar as dedicações  usuais sem prejuízo dos agentes que empregam nestas investidas seus  tempos, recursos e relações interpessoais.</em></p>
<p><em>Lixo Eletrônico: Incentivo a práticas de apropriação e  reaproveitamento de equipamentos descartados, contrapondo-se à lógica  industrial da obsolescência programada e percebida, fomentando ações de  transformação de lixo eletrônico em matéria-prima artística e  experimental, kits educacionais e objetos carregados de significado ou  utilidades sociais. Estimular o desenvolvimento de uma cultura não  consumista e de não desperdício que promova o reuso antes do descarte,  abrindo espaço para que as cooperativas de reciclagem, e outras formas  de organização social baseadas na Economia Solidária, sejam  multidisciplinares e se incorporem ao espaço urbano como ações  socioculturais do cotidiano. Estimular que essa Cultura do Remix se  estenda a outros campos da Cultura criando novas possibilidades de  criação coletiva.</em></p>
<p><em>Economia solidária – Investimento na economia solidária, feira de  trocas de conhecimento tecnológico e de produção cultural, coletas de  lixo eletrônico e apropriação de tecnologias, seja na sua forma física  de equipamentos eletrônicos ou de subprodutos, fazendo com que a  responsabilidade do descarte e recriação de material seja medido em  moeda social de acordo com as ações de cada participante e redes  produtoras. Conectar através de projetos convergentes as Incubadoras e  Centros Públicos de Economia Solidária aos Hacklabs, para que a inovação  seja prática de aprimoramento das produções que se pautem pelos  príncipios do movimento social da Economia Solidária.</em></p>
<p><em>Plataformas digitais de repositórios públicos – Ampliar o diálogo  entre vários órgãos da administrção pública, estabelecendo parcerias  efetivas e estimulando o empenho de recursos e projetos que viabilizem a  implementação de servidores em nuvem garantindo que a produção nacional  de mídia, principalmente com recursos oriundos de editais e serviços  públicos, estejam garantidos legalmente e digitalmente no Brasil. Hoje o  SERPRO trabalha em um projeto de implementação de repositórios  públicos, a EBC possui o projeto do Canal P para toda a produção  multimídia pública, assim como N outros órgãos estão investindo esforços  nessa frente. Ao MINC cabe o papel de valorizar a disseminação e  preservação do patrimônio cultural brasileiro em ambientes digitais que  fortaleçam a nossa soberania cultural, devendo assim assumir o  protagonismo para juntar, organizar esses diferentes agentes e  viabilizar que o Brasil tenha um ambiente digital público e seguro para  sua produção simbólica e imaterial.</em></p>
<p><em>Infra-estrutura pública de federação de redes – uma das frentes na  qual a Secretaria Geral da Presidência atua é a mobilização e atuação em  redes. Esse esforço vem juntar-se com as centenas de iniciativas de  trabalho em rede e construção de territórios digitais. Mas essa  proliferação de iniciativas, inclusive, e principalmente, dentro do  Estado traz o risco de tudo se esvaziar pela multiplicidade de  identidades criadas pelos usuários. Já existem elaborações e iniciativas  de implementar a Federeação de Redes. Essa Federação consiste de  infra-estrutura e de protocolos que permitam que usuários cadastrados em  diferentes Redes Sociais Temáticas possam se relacionar sem precisar  criar novas identidades. O Estado brasileiro produz muitas redes, mas  elas não se conectam, levando ao cidadão assumir multiplas identidades  junto ao Estado e suas políticas. Ao invés de investir recursos em criar  mais redes, e mais micro-concentrações de informação, que acabam se  perdendo, o MINC, junto a MCTI, SEPRO, MPOG, RNP, entre outros, deve  lançar uma edital que viabilize a implementação de um protocolo público  de interconexão de Redes.</em></p>
<p><em>Licenciamento público de obras – A discussão quanto a reforma da Lei  de Direito Autoral está além da capacidade imediata de gestão dos  recursos públicos e das poíticas públicas que cabem ao Ministério.  Diante disso, e mantendo o compromisso de valorizar e respeitar a  Cultura brasileira, sugerimos ao MINC, conformar um grupo de trabalho  interministerial, em parceria com o Conselho Nacional de Cultura,  Ministério da Justiça, SLTI/Ministério do Planejamento e elaborar um  Licença Pública de Obras. A partir do exemplo dado pelo – Portal de  Software Público – SLTI/MPGO, é possível estabelecer uma licença  exemplificada em modelos como a GNU/Linux, Creative Commons, Copy Left e  garantir que todo e qualquer projeto, que se valha de recursos  públicos, mediante prêmios, convênios, editais ou prestação de serviços,  ceda os direitos para o domínio público. Com isso desafios como o de  levar obras realizadas com recursos públicos às escolas podem facilmente  ser liberadas, e poderá ainda influenciar de forma prática no debate  sobre a Reforma da Lei do Direito Autoral e sua aplicabilidade na  sociedade e no Congresso Nacional, além de garantir o processo de Remix  Cultural.</em></p>
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		<title>Notícias de uma cidade em particular #2</title>
		<link>http://www.locoporti.blog.br/noticias-de-uma-cidade-particular-2/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Oct 2012 19:20:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[A imagem construída neste período vinculava as cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Salvador, Recife, à idéia de atraso, falta de civilidade e desordem. Fugindo dos padrões modernos, nossos centros exibiam aos visitantes vielas sujas e tortuosas, habitações insalubres, falta de transportes, de saneamento e precariedade no sistema de distribuição de água, além de concentrar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A imagem construída neste período vinculava as cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Salvador, Recife, à idéia de atraso, falta de civilidade e desordem. Fugindo dos padrões modernos, nossos centros exibiam aos visitantes vielas sujas e tortuosas, habitações insalubres, falta de transportes, de saneamento e precariedade no sistema de distribuição de água, além de concentrar amplas parcelas da população, cujos hábitos e expressões culturais chocavam-se diretamente com os novos preceitos de salubridade, disciplina e moral.<br />
<span id="more-2892"></span></em></p>
<p><em>Na Europa, nesta fase, nasce uma nova urbanística, fruto das discussões de técnicos, médicos, sanitaristas e reformadores, no sentido de remediar os incovenientes da cidade industrial que nascia. Paris se tomou o exemplo clássico desta experiência de intervenção no urbano. Implementadas em meados do século passado, as reformas englobaram a realização de obras viárias, com a abertura e retificação de mas, reconstrução das novas edificações e moradias, criação de jardins e parques públicos, instalação de um complexo hidráulico, transformando a cidade no protótipo da</em><em><br />
</em><em>metrópole industrial: moderna, civilizada, progressista.</em><em><br />
</em><em><br />
</em><em>Assimilada pela elite nacional, a viabilização deste novo projeto de sociedade moderna apoiava-se não só numa reformulação do espaço das cidades, mas sobretudo numa transformação do próprio indivíduo em cidadão &#8216;útil&#8221;, inserido num novo contexto onde o amor ao trabalho e o respeito à propriedade representavam o único caminho para a construção de uma sociedade civilizada e progressista.</em></p>
<p><em>(&#8230;)</em></p>
<p><em>Os preceitos desta nova experiência urbanística e a utilização deste discurso do trabalho como elemento básico, princípio moralizador, são postos à sociedade brasileira num contexto complexo, quando a pobreza urbana surge de modo visível aos grupos dominantes, no decorrer do processo de transição de uma sociedade escravista para a ordem capitalista nos centros urbanos do país.</em></p>
<p><em>(&#8230;)</em></p>
<p><em>No Recife, as primeiras iniciativas no sentido de modernizar a cidade e instituir leis disciplinando as práticas e costumes das camadas populares datam dos meados do século XIX. Na administração do Conde da Boa Vista (1837-1844), foram restauradas pontes, calçadas as vias principais, praças foram construídas, ruas abertas, a numeração das casas foi estabelecida, a iluminação à gás e o serviço de água encanada foram implantados. Nas administrações posteriores a cidade foi sofrendo novas transformações - cemitério público, Conselho de Salubridade, sistema de coleta de lixo; aperfeiçoamento de transportes urbanos e outras inovações foram implantadas. Mas, é só a partir de 1905 que as propostas de urbanização começaram a se transformar em realidade.</em><em><br />
</em><em><br />
</em><em>Adotado o modelo francês, que pressupunha a exclusão de grupos sociais de determinadas áreas, numa prática que segregava as camadas populares e hierarquizava espaços, foram iniciados: a reforma da Praça da Independência, o alargamento da rua do Cabugá, da rua 7 de Setembro e da rua do Hospício, e posteriormente as obras do Porto, a construção do Plano de Esgotamento Sanitário pelo engenheiro Saturnino de Brito, a grande reforma do Bairro do Recife e do Bairro de Santo Antônio, esta realizada já na década de 1930. Era urgente a recriação da cidade e a construção de um imaginário que correspondesse ao novo homem e à nova sociedade que se consolidava. Demolições de residências, de estabelecimentos comerciais, igrejas e monumentos (como a Igreja do Corpo Santo e os Arcos da Conceição e de Santo Antônio), desapropriações, abertura e alargamento de ruas foram realizados em nome de uma moderna urbanidade.</em><em><br />
</em></p>
<p><em>A população pobre se toma um empecilho à realização destes objetivos; residindo em áreas centrais, onde se desejava abrir osboulevards, praticando cultos &#8220;primitivos&#8221;, disseminando as epidemias, exercendo atividades &#8220;desprezíveis&#8221;, corno a mendicância e o comércio ambulante, esta camada da sociedade foi a mais atingida com as leis que objetivavam manter a &#8220;ordem&#8221; a &#8220;moralidade&#8221; e o &#8220;progresso&#8221; nas novas cidades. Portanto, esta população foi sendo empurrada para áreas periféricas e sua tradição, história e costumes foram reprimidos em função de um pa-</em><em><br />
</em><em>drão de &#8220;beleza&#8221; e &#8220;civilização&#8221; europeus.</em><em><br />
</em><em><br />
</em><em>A partir de 1849, a municipalidade estabeleceu a interdição das casas vulgarmente conhecidas por casas de batuques; os infratores, chefes dos divertimentos ou donos dos prédios, foram ameaçados com pesadas multas. Não se permitia mais a queima de fogos &#8211; bombas e foguetes &#8211; exceto em Santo Amaro e na vila de Joana Bezerra. Os condutores de burros de carga &#8211; almocreves &#8211; ficavam proibidos de entrar na cidade montados nos animais e com a camisa por fora das calças. As cantorias e pregões dos negros carregadores de carga também estavam sendo desaconselhados. Os pedintes de esmolas para os santos estavam sendo combatidos. Os moradores queixavam-se de um realejo que perturbava a vizinhança na Rua Direita, e dos cortiços da Rua do Sossego, onde as prostitutas &#8216;divertiam-se&#8217; em orgias (Sette, 1978, p. 46-49).</em><em><br />
</em><em><br />
</em><em>Nesta fase são elaboradas de forma mais sistemática as primeiras leis de repressão aos pequenos ofícios urbanos, como o comércio ambulante.</em></p>
<p>e segue&#8230;</p>
<p><strong>Sylvia Couceiro Bompastor, Cadernos de Estudos Sociais do Recife, v. 10, n. 1, p. 25-40, fan.flu n. , 1994</strong></p>
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		<title>Notícias de uma cidade em particular #1</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Oct 2012 03:14:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
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		<description><![CDATA[Há em volta da cidade do Recife lindas casas de campo, onde a gente abastada reside de novembro até o começo da quaresma; as mais notáveis estão situadas nas risonhas margens do Capibaribe; a classe média dos habitantes principia também a erguer ali as suas casinhas muito alegres.
Não posso dizer de que maneira os brasileiros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Há em volta da cidade do Recife lindas casas de campo, onde a gente abastada reside de novembro até o começo da quaresma; as mais notáveis estão situadas nas risonhas margens do Capibaribe; a classe média dos habitantes principia também a erguer ali as suas casinhas muito alegres.</em></p>
<p><em>Não posso dizer de que maneira os brasileiros ali vivem, porque não penetrei em nenhuma delas. Um só negociante havia vivamente instado para que eu fosse visitar no seu sítio; dirigi-me para lá uma tarde. à minha chegada as senhoras desapareceram e fiquei só no salão a palestrar com o dono da casa. Não se faz nada para tornar os jardins próprios a passeios. Balançar-se em uma rede num aposento bem arejado é o prazer mais comum; com efeito é mais apropriado ao clima do que o passeio.</em></p>
<p><em>O prazer que se parece gozar com mais sensualidade é o do banho. VOu algumas vezes tomá-lo, com o meu hóspede, à beira mar nas noites claras, e nos proporcionamos o prazer de entrar e sair da águas várias vezes em um quarto de hora; seja que, estendidos njus sobre esteiras, exponhamos os nossos corpos à fresca viração marinha, seja que, mergulhando nas ondas nos agitemos em meio das fulgurações fosforescentes que faz brilhar cada um dos nossos movimentos, a alegria é sempre intensa e o prazer sempre novo.</em></p>
<p><em>Mas, é nas margens do Capibaribe que cumpre ver famílias inteiras mergulhando no rio e nele passando parte dodia, abrigadas do sol sob pequenos telheiros de folhas de palmeira; cada casa tem o seu, perto do qual há um pequeno biombo de folhagem para se vestir e despir.</em></p>
<p><em>As senhoras da classe mais elevada banham-se nuas, assim como as mulheres de cor e os homens.</em></p>
<p><em>À aproximação de alguma canoa mergulham até o queixo, por decência: mas o véu é demasiado transparente!</em></p>
<p><em>Vi nesse banhos a mãe amamentando o filho, a avó mergulhando ao lado dos netos, e as moças da casa, traquinando no meio dos seus negros, lançarem-se com rpesteza a atravessarem o rio a nado.</em></p>
<p><em>A posição do corpo requerida por este exercício não deixa ver a quem passa, nem o seio nem parte alguma da frente do corpo, de sorte que elas consideram o pudor resguardado; mas, há outras formas não menos sedutoras que o olhar pode contemplar à vontade. COnfesso que fiquei tão surpreendido quanto encantado ao encontrar um dia, neste estado de naidades sem véus, as senhoritas N&#8230;, filhas de um dos meus primeiros negociantes da praça.</em></p>
<p><em>Aliás, se os passeantes, deslumbrados por tantos atrativos, terstemunham curiosidade impertinente, num fechar de olhos as lindas anfitrites dão um mergulho e vão reaparecer na superfície d´água vinte passos adiante.</em></p>
<p><em>É raro encontrar margens mais risonhas do que as do Capibaribe, quando se sobe em canoa até o povoado do Poço Da Panela.</em></p>
<p><em>(&#8230;) </em></p>
<p><em>Há um lugar, um pouco acima da Ponte d&#8217;Uchoa, onde o leito do rio, até então bastante largo, parece perder-se sob um imenso caramanchão de verdura formado pelas altas palheteiras vermelhas, cujos ramos superiores se encontam ou estão ligados por cipós floridos, pendentes em guirlandas.</em></p>
<p><em>Quando se entra sob esta abóbada, crê-se penetrar no palácio encantado da deusa do rio. </em></p>
<p><strong>Notas Dominicais, L.F. de Tollenare, Edupe, pags 118 e 119. Trecho do relato que fez a respeito de um passeio acontecido em fevereiro de 1817.</strong><em> </em></p>
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		<title>Projeto Didático para a Construção de Documentários: primeira ida a campo</title>
		<link>http://www.locoporti.blog.br/projeto-didatico-para-a-construcao-de-documentarios-primeira-ida-a-campo/</link>
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		<pubDate>Wed, 26 Sep 2012 15:16:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sangue, suor e lágrimas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Demos início nessa segunda-feira às entrevistas preparatórias para o documentário que estamos produzindo no presídio de Igarassu. A iniciativa está dentro das ações do projeto de Extensão &#8216;Projeto Didático para a Construção de Documentários&#8217;, que está sendo tocado em parceria com o Centro de Estudos de Educação e Linguagem, do Centro de Educação da Universidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Demos início nessa segunda-feira às entrevistas preparatórias para o documentário que estamos produzindo no presídio de Igarassu. A iniciativa está dentro das ações do projeto de Extensão &#8216;Projeto Didático para a Construção de Documentários&#8217;, que está sendo tocado em parceria com o Centro de Estudos de Educação e Linguagem, do Centro de Educação da <a href="http://www.ufpe.br" target="_blank">Universidade Federal de Pernambuco</a>. O objetivo geral do projeto é desenvolver com professores da rede estadual de ensino metodologias e processos de investigação utilizando a produção de documentários como caminho. Escolhemos utilizar problemáticas das relações étnico-raciais como eixo estruturador dos docs. O projeto já está em seu segundo mês de atividades e com isso começamos a trabalhar em campo.</p>
<p>A visita foi muito proveitosa, sobretudo para colocar em prática a metodologia que a gente tem tentado desenvolver com os professores – nossa esperança é que essa mesma metodologia possa ser assimilada por eles e aplicada em salas de aula. A ideia geral é, primeiro, pensar a metodologia (o caminho, o processo, por assim dizer) como momento de construção de conhecimento, de investigação e intervenção na realidade. Mais do que o “produto”, o que interessa é o processo de construção e por isso de crítica aliada a construção.</p>
<p>Isso implica em criar narrativas, interpretações, estórias sobre o mundo – o cotidiano, as dinâmicas de ordem contingentes, os olhares fora da narrativa hegemônica e mainstream. Nossa expectativa com isso é contribuir para uma aproximação da escola – essa entidade disciplinar e em grande parte autista – das comunidades em que ela está inserida.</p>
<p><strong>A visita</strong><br />
Como ia dizendo a visita foi muito proveitosa. Serviu, como esperávamos, para que as perspectivas iniciais pudessem ser re-alinhadas em função do que se encontrou em campo e para iniciar a familiaridade com os ambientes e as pessoas. E também para definir novas pesquisas a serem feitas pela equipe. O ponto de partida era tratar da questão da remissão da pena e da aplicação da legislação pertinente. Pela experiência de algumas das professoras do grupo (um dos três grupos em que dividimos a sala de 30 alunos-educadores do projeto) há preconceito de cor na seleção dos detentos para os serviços de administração.</p>
<p>Esse é um fato empiricamente observado na Penitenciária Feminina Bom Pastor qual três das professoras ensinam. A visita ao Presídio de Igarassu mostrou outra coisa. A escolha dos detentos para os serviços de administração – pelos quais eles recebem salário e abatimento na pena – não passa de forma determinante pela questão racial. Outros elementos parecem definir a seleção de quem trabalha nas dependência do lugar.<br />
Isso nos forçará a rever a hipótese original e re-orientar as coisas. E a necessidade de debater a questão étnico-racial impõe um desafio interessante.</p>
<p>Visitamos a escola que existe dentro do presídio, o rancho, as dependências onde dormem os detentos que trabalham na cozinha, a fábrida de portões eletrônicos, a marcenaria. Não nos permitiram visitar as celas e não é difícil saber a razão. Passamos pelas áreas mais agradáveis da unidade prisional – limpa, onde as pessoas trabalham, onde há atividade saudável, onde se vêem as iniciativas mais evidentes de ressocialização.</p>
<p>Essas atividades são realizadas por apenas 200 homens. Há, no presídio 2.400 almas – a unidade foi projetada para apenas 400. Ou seja, há uma superpopulação de negros, pobres, que em sua maioria não faz nada de produtivo e que esperam o tempo passar. A prostituição e a droga são muito presentes. E, embora o discurso hegemônico o proria, não é o sexo (homossexual e heterosexual) e o acesso às drogas que impede o bairro de explodir. Aliás, esse discurso tem seu quê de preconceito.</p>
<p><strong>Política de prender</strong><br />
O que atribui uma relativa calma à realidade prisional que estamos começando a acompanhar é de outra ordem, pois nem todos os detentos tem grana ou saúde para os exo e as drogas. Penso que, na conversa com o diretor da unidade, ele deu a senha para se comprender que a relativa pacividade está relacionada a dois fatores: a grande maioria dos presos viveu na infância e na adolescência em pequenos espaços, com grandes privações, sem instalações sanitárias nas casas, pouco conforto. A superlotação não é, assim, uma realidade muito diferente e afastada da que eles vivenciavam quando livres. A superlotação não é, assim, um elemento de revolta. O outro fator é a alimentação. A comida no presídio é muito boa e constante. Há as três refeições, com oferta abundante de frutas, sendo acompanhada por nutricionista e muito bem executada – comemos por lá e posso falar por mim próprio.</p>
<p>Ainda segundo a fala do diretor, o principal desafio (ele reiterou que o único desafio) é a morosidade da Justição no julgamento dos apenados. Há diversos casos de detentos que já pagaram suas penas e ainda não foram julgados!</p>
<p>Embora o diretor não tenha afirmado, um outro obstáculo para a melhoria da qualidade de vida na unidade é a própria política de segurança do Estado. Palavras do diretor:<br />
- Não existe uam política de segurança no Estado de Pernambuco. Há uma política de prisão. Prende-se o criminoso e amontoa-se essas pessoas em lugares como esse. Isso baixa os índices de violềncia do lado de lá (nas ruas), mas cria um outro problema social, que é fazer com que essas pessoas vivam amontoadas.</p>
<p><strong>Pobres &amp; Pretos</strong><br />
Ficamos sabendo, ainda durante a visita, que está sendo finalizado no próximo sábado, 29 de setembro, o trabalho de censo carcerário. Esses dados, que são públicos e que poderemos usar no doc, será de muita valia. Sobretudo porque fornece uma base da dasos confiável e atual da população carcerária – inclusive com a porcentagem de cor.</p>
<p>O que tenho pensado agora é que aos condicionantes históricos que marginalizam a população negra se soma uma política de Estado que amontoa os indivíduos. A superpopulação tem uma relação direta com a questão racial no Brasil – ao mesmo tempo em que também está relacionada à não observação do direito dos aprisionados.</p>
<p>Na verdade, nada nesse raciocínio é novo – mas é um caminho possível para a construção do documentário. Ou seja, a crítica do <a href="www.pactopelavida.pe.gov.br" target="_blank">Pacto pela Vida</a> (que o diretor chama Pacto pela Prisão) como política de Estado insuficiente que tem a perversa característica de prejudicar mais a população carcerária negra.</p>
<p>No próximo sábado temos novamente reunião para juntar as informações coletada e repensar caminhos. A ver&#8230;</p>
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		<title>Curso de documentários para professores das redes estadual e municipal</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Aug 2012 19:08:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Domingo]]></category>
		<category><![CDATA[Metareciclagem]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia & Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Vai iniciar mais um projetinho de extensão em que eu colaboro. Minha expectativa é que as atividades me permitam refletir de forma mais apurada questões relacionadas a educação. Mais especificamente  pretendo me aproximar de um entendimento segundo o qual o método é um  elemento didático. Tenho lido e ouvido sobre como o &#8216;processo&#8217; é o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Vai iniciar mais um projetinho de extensão em que eu colaboro. Minha expectativa é que as atividades me permitam refletir de forma mais apurada questões relacionadas a educação. Mais especificamente  pretendo me aproximar de um entendimento segundo o qual o método é um  elemento didático. Tenho lido e ouvido sobre como o &#8216;processo&#8217; é o tempo mais rico das relações de letramento digital, das experiências de apropriação crítica de tecnologias da informação e comunicação nas quais a subversão de objetos técnicos é o resultado da modulação dos produtos da indústria às necessidades pontuais, efêmeras e/ou contingentes dos indivíduos.</em></p>
<p><em>Escrevi algo sobre isso tempos atrás. A origem desse entendimento parce ser Simondon e também Husserl. O trabalho deles aponta para uma compreensão do objeto técnico que não somente supera a âncora de sujeito-objeto, mas que também abandona a visão algo conformista segundo a qual os objetos estão finalizados, acabados. Isso significa dizer que os aparelhos técnicos podem ser vistos em seu processo de individuação, no que são libertos do modelo matérica-forma, o que implica sua separação do modelo de trabalho a eles atribuido pela indústria. A individuação dos objetos técnicos se abre a operações de deformação, a modulações e adaptações em função das necessidades de seus usuários numa zona obscura que se localiza entre a forma e a matéria, entre as essências e as coisas formadas. São zonas intermédias onde habita o objetoi técnico e sua individuação é resultado de um fluxo, de uma itinerância, de uma deambulação nas mãos de quem precisa. Isso é também um método de aprendizado. De alguma forma, está presente na Metareciclagem e nas experiências de ensino-aprendizagem a ela associados. </em></p>
<p><em>Pois bem. O projeto de extensão (cujo texto de divulgação está aí embaixo) parece estar de alguma forma relacionado e próximo a esse entendimento dos objetos técnicos e da maneira como podemos nos relacionar com eles pois tem também um entendimento do métodoco como recurso didático que acontece no caminhar, no processo, nas adaptações às necessidades, afetos, singularidades e inspirações de quem tá envolvido. Em didática há um método que vem sendo aplicado que se chama &#8217;sequencias didáticas&#8217;, que me parece bem próximo desse &#8216;processo&#8217; a que me referi acima. Então uma tarefa para os próximos meses é pesquisar essa aproximação e quem sabe fortalecer conceitualmente essa associação</em><em>.</em></p>
<p><strong>Curso de documentários para professores das redes estadual e municipal</strong></p>
<p>Estão abertas até o dia 09 de agosto (próxima quinta-feira) as inscrições para a formação do corpo discente do Projeto Didático para a Construção de Documentários, que acontecerá aos sábados pela manhã (08h às 13h), no período entre 11 de agosto e 09 de dezembro, no Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. O curso terá uma carga horária total de 120 horas (88 horas presenciais e 32 horas à distância) e emitirá certificado pela Pró-reitoria de Extensão da UFPE. Serão oferecidas 45 vagas.</p>
<p>O curso tem como eixo o entendimento de que o gênero ‘documentário&#8217; pode ser um virtuoso facilitador de processos de formação, uma metodologia em si de ensino-aprendizagem, de compreensão e de intervenção na realidade. O objetivo principal, assim, é o desenvolvimento de projetos didáticos voltados à construção de três documentários-pesquisa, cujo intuito é investigar, tendo como pano de fundo o tema das relações étnico-raciais, problemáticas relevantes e de interesse das comunidades em que se localizam as escolas envolvidas no projeto.</p>
<p>Para se inscrever os interessados precisam ser professores da rede pública de ensino (estadual ou municipal) da educação básica. Além disso, devem enviar um e-mail para o endereço cursodocumentario.ufpe@gmail.com contendo as seguintes informações:<br />
<strong><br />
NOME COMPLETO:<br />
CPF:<br />
NOME DA ESCOLA E REDE EM QUE ESTA LOTADO(A):<br />
COMPONENTE CURRICULAR EM QUE ATUA:<br />
TELEFONES PARA CONTATO:<br />
E-MAIL:</strong></p>
<p>Além desses dados, o candidato deverá enviar, em anexo no e-mail, uma CARTA DE INTENÇÃO com a seguinte formatação: tamanho máximo de 1 página, escrita em fonte Arial (tamanho 12), com espaçamento entre linhas de 1,5 e formato doc. ou PDF. Nessa carta de intenção o candidato deverá explicitar sua disponibilidade para frequentar o curso e os motivos de interesse que o levou a se candidatar à vaga.</p>
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		<title>A 3stação de Marx em vídeo</title>
		<link>http://www.locoporti.blog.br/a-3stacao-de-marx-em-video/</link>
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		<pubDate>Tue, 10 Jul 2012 14:00:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda disponibilizando os textos publicados no Suplemento Pernambuco sobre Karl Marx e as releituras de sua obra:
[There is a video that cannot be displayed in this feed. Visit the blog entry to see the video.]
Uma das expressões mais interessantes dessa “volta a Marx” é o documentário Marx Reloaded. Escrito e dirigido pelo filósofo Jason Barker, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Ainda disponibilizando os textos publicados no <a href="http://www.suplementopernambuco.com.br/" target="_blank">Suplemento Pernambuco</a> sobre <a class="zem_slink" title="Karl Marx" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx" target="_blank">Karl Marx</a> e as releituras de sua obra:</em></p>
<p style="text-align: center;">[There is a video that cannot be displayed in this feed. <a href="http://www.locoporti.blog.br/a-3stacao-de-marx-em-video/">Visit the blog entry to see the video.]</a></p>
<p>Uma das expressões mais interessantes dessa “volta a Marx” é o documentário <a href="www.marxreloaded.com/ " target="_blank">Marx Reloaded</a>. Escrito e dirigido pelo filósofo <a class="zem_slink" title="Jason Barker" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jason_Barker" target="_blank">Jason Barker</a>, o trabalho é descrito pela produção como um documentário cultural que examina a relevância do socialista e filósofo alemão para entender a crise financeira e econômica global de 2008/2009. O filme tem ótimas entrevistas com gente do quilate de <a class="zem_slink" title="Norbert Bolz" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Norbert_Bolz" target="_blank">Norbert Bolz</a>, <a class="zem_slink" title="Micha Brumlik" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Micha_Brumlik" target="_blank">Micha Brumlik</a>, John Gray, Michael Hardt, Antonio Negri, <a class="zem_slink" title="Nina Power" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Nina_Power" target="_blank">Nina Power</a>, <a class="zem_slink" title="Jacques Rancière" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Ranci%C3%A8re" target="_blank">Jacques Rancière</a>, Peter Sloterdijk, <a class="zem_slink" title="Alberto Toscano" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Alberto_Toscano" target="_blank">Alberto Toscano</a> e Slavoj Zizek.</p>
<p>O filme tem menos de uma hora. Nas entrevistas, alguns dos conceitos mais importantes da obra de Marx são retomados e atualizados. O sentido do trabalho, a centralidade da produção imaterial, as formas do fetichismo da mercadoria, a exploração, as reordenações das lutas sociais e a necessidade de re-enquadrar, atualizando, as disputas de classe são alguns dos temas presentes no documentário.</p>
<p>Há uma metáfora que acompanha o filme do começo ao fim, na qual Marx é associado ao personagem Neo, de Matrix (trilogia dos irmãos Andrew e Laurnce Wachowski) o que funciona bem na tarefa a que Marx é “designado”: investigar os segredos do sistema capitalista. O documentário segue a linha de mostrar que a recente crise tem sido utilizada para a implementação de medidas que concentram as riquezas, num processo de fortalecimento de estruturas e ferramentas do sistema capitalista.</p>
<p>O interessante é que o filme, mescla de animações e entrevistas, hoje agrega debates e mesas-redondas em escolas, universidades, festivais, ocupações, manifestações na rua, em prédios públicos, praças por onde passar. De modo que o Marx Reloaded está deixando de ser um filme, mas um processo de descoberta e de redescoberta a partir de uma não ficção ficcionalizada.  A agenda do filme pode ser conferida em <a href="http://www.marxreloaded-film.blogspot.com.br/" target="_blank">http://www.marxreloaded-film.blogspot.com.br/</a>.</p>
<p>Um outro filme cuja temática central é o próprio Marx é “Karl Marx”, do haitiano Raoul Peck. O filme cobre o período de 1830 a 1848, documentando assim os anos em que o pensador alemão esteve em Paris, sua expulsão para Bruxelas até a publicação do Manifesto do Partido Comunista. O período cobre a publicação de &#8216;O que é a propriedade&#8217;, em 1840, de Proudhon; &#8216;A essência do Cristianismo&#8217;, em 1841, por Feuerbach e de &#8216;Esboço de uma crítica da Economia Política, em 1844, por Engels. É também o período do primeiro contato com este filho de industriais e, claro, da morte de Hegel. Entre 1846 e 1847 Marx escreve A Miséria da Filosofia.</p>
<p>O filme dedica algum tempo ao relacionamento com <a class="zem_slink" title="Jenny von Westphalen" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jenny_von_Westphalen" target="_blank">Jenny von Westphalen</a>, com quem ele se casou em 1913. Embora eles tenham noivado em 1836, só puderam se casar oito anos depois, sobretudo por causa das dificuldades impostas pelas famílias de ambos. Jenny gozava de alta posição social e depois de casar não teve uma vida fácil, passando por várias privações e a morte de três dos seis filhos que teve. Essa produção é mais quadrada no sentido formal, com uma procura constante por &#8216;educar&#8217; o seu espectador, procurando localiza-lo historicamente em relação ao tempo em que Marx viveu.</p>
<p>O que ambos os filmes tem em comum, a despeito da enorme diferença de linguagem entre eles e além de serem respostas ao mesmo momento, é o entendimento forte de que Marx não é um ideólogo do passado. O pensador alemão é tratado como um politólogo e cientista atual que soube identificar com razoável precisão a natureza de crise do capitalismo.</p>
<div class="zemanta-pixie" style="margin-top: 10px; height: 15px;"><a class="zemanta-pixie-a" title="Enhanced by Zemanta" href="http://www.zemanta.com/?px"><img class="zemanta-pixie-img" style="border: none; float: right;" src="http://img.zemanta.com/zemified_e.png?x-id=7d358412-f528-4451-8691-b9f0d4c5b826" alt="Enhanced by Zemanta" /></a></div>
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		<title>A 3stação de Marx &#8211; ensaio pro Suplemento Pernambuco sobre o velho:</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Jul 2012 23:25:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Metareciclagem]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tecnologia & Sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Vou colocar por aqui nos próximos dias três textinhos que escrevi para o Suplemento Pernambuco. A edição é diferente da que foi publicada. Fiz, em parte, como um exercício de estudo prum concurso e motivado pela proximidade do aniversário de Marx. A caixa de comentários está aberta para correções, cobranças, sugestões, etc.
A 3stação de Marx

A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou colocar por aqui nos próximos dias três textinhos que escrevi para o <a href="http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php" target="_blank">Suplemento Pernambuco</a>. A<em> edição é diferente<a href="http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/teste/6-ensaio/650-as-profecias-de-marx-bem-diante-de-nos.html" target="_blank"> da que foi publicada</a>. Fiz, em parte, como um exercício de estudo prum concurso e motivado pela proximidade do aniversário de Marx. A caixa de comentários está aberta para correções, cobranças, sugestões, etc.</em></p>
<h1><strong>A 3stação de Marx</strong></h1>
<p><a href="http://4.bp.blogspot.com/-FHVyTj1PTOc/TnpIskERKPI/AAAAAAAAB_E/X9MlzW8x970/s1600/karl-marx-hip.jpg"><img class="alignright" src="http://4.bp.blogspot.com/-FHVyTj1PTOc/TnpIskERKPI/AAAAAAAAB_E/X9MlzW8x970/s1600/karl-marx-hip.jpg" alt="" width="448" height="314" /></a><br />
A história do marxismo, desde que nasceu há pouco mais de cem anos, está ainda por escrever. Parece que as palavras escolhidas por Terry Eagleton, em 1974, para começar o livro &#8216;Socialismo ocidental&#8217; ganharam renovada força no início desse século. A retomada das lições deixadas por Karl Marx e por Friedrich Engels se explica, por um lado, porque em seu trabalho puderam analisar de tal forma a natureza do Capital que lhes foi possível prever a atual crise desse sistema de produção – aliás, o que esses dois alemães desvendaram foi a condição inerente de crise do capitalismo. É essa potência que explica a busca  por Marx e Engels (busca que nunca se esgotou), empreendida por vários autores contemporâneos (veja texto ao lado). E que no final das contas confirmam a previsão de Eagleton.</p>
<p>Talvez a contribuição de maior fôlego nesse sentido seja o projeto <a href="http://www.bbaw.de/telota/ressourcen/copy_of_gesamtregister-zur-marx-engels-gesamtausgabe/?searchterm=mega" target="_blank">MEGA</a>, abreviação em alemão para  Marx-Engels GesamtAusgabe (algo como Marx-Engels produção total). Realizado pela  <a href="www.bbaw.de/" target="_blank">Berlin-Brandenburgische Akademie der Wissenschaften</a> (Academia de Ciências Berlin-Brandenburgo),  o projeto pretende colocar na forma de 114 volumes todos os trabalhos publicados, e também os manuscritos e a correspondência de Karl Marx e de Friedrich Engels.<span id="more-2778"></span></p>
<p>Será uma edição crítica comprometida em ser filologicamente fiel aos textos originais. Muito do material a ser publicado será inédito. A expectativa é que o conjunto da publicação forneça uma documentação organizada de maneira que permita a compreensão do desenvolvimento de cada texto em manuscritos e edições impressas, combinado com comentários detalhados.</p>
<p>O gigantesco desafio que pesquisadores envolvidos (da Alemanha, Russia, França, Dinamarca, Finlândia, Itália, Estados Unidos e Japão) têm diante de si deverá produzir um conjunto dividido em quatro seções: na seção I, livros, artigos e rascunhos. Na seção II, O Capital e seus estudos preliminares, nas quais todas as versões do principal texto de Marx são apresentados e pela primeira vez o extensivo, mas incompleto manuscrito terá sido decifrado e reconstruído (!); na seção III, correspondência e na seção IV, exertos, notas e comentários feitos em margens de livros (!!).</p>
<p>O esforço reunido coloca o MEGA como um dos mais excepcionais esforços de pesquisa de seu tipo. Quando o trabalho for finalizado, em 2025, terão sido necessários mais de 100 anos para fazer com que as palavras de Marx e Engels cheguem ao público leitor em sua forma original, ou seja, livre de censura. 2025&#8230; Que rosto o capitalismo teŕa então? Quantas faces e promessas fornecerá até lá?</p>
<p>x.x.x.x.x.x.x.x.x</p>
<p><a href="http://2.bp.blogspot.com/-zNkb0saD4Aw/TlarsFCFnlI/AAAAAAAAAPU/F0D4H_vOBEE/s1600/Crise+europeia.png"><img class="alignright" src="http://2.bp.blogspot.com/-zNkb0saD4Aw/TlarsFCFnlI/AAAAAAAAAPU/F0D4H_vOBEE/s1600/Crise+europeia.png" alt="" width="459" height="264" /></a>Há alguma ironia no fato de a Comunidade Européia ser uma das financiadoras do MEGA. Com milhares de desempregados e economias de pelo menos cinco de seus países em frangalhos, a Europa é um dos pólos da mais recente crise do capital que tem forçado uma volta ao Marx economista e político. O caráter e as soluções dadas para a confusão que se instalou de forma mais evidente no coração do sistema desde 2008 explicam um pouco esse movimento. Há quem acredite que o panorama atual de desigualdades sociais e de classe a que se chegou, por cusa dos elementos que deflagraram a crise, esteja muito próxima daquela que Marx descreveu.</p>
<p>De uma forma geral, a atualidade das interpretações de Marx está na capacidade de compreender o rosto do capitalismo agora – há muito tempo –, ao incorporar a denúncia das desigualdades de poder e riqueza, guerras imperiais, a intensificação da exploração, a alienação, a ubiquidade da forma mercadoria, a instrumentalização das relações sociais, o imperialismo inerentes ao processo de modernização e a atuação cada vez mais repressiva dos Estados a partir de interesses de classe. É atual também por clamar pela necessidade de repensar o espaço do processo (desigual) de acumulação de riqueza. Marx e Engels já sabiam que esse espaço era global, mas hoje esse espaço é mais aberto, descentralizado, denso.</p>
<p><a href="http://www.galizacig.com/avantar/files/images/20120305_europa.crise.debeda.jpg"><img class="alignright" src="http://www.galizacig.com/avantar/files/images/20120305_europa.crise.debeda.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a><a href="http://it.wikipedia.org/wiki/Massimo_Cacciari" target="_blank">Massimo Cacciari</a> recentemente numa entrevista afirmou que o Marx “ainda capaz de falar a nós não é nem o profeta político, nem o intelectual ideológico. É, pelo contrário, o analista do destino do capitalismo, entendido como um formidável sistema social e cultural que produz um impulso desmedido para a criação de novas necessidades”. A frase perde um pouco de força se lembrarmos da história recente das crises mundiais, que nos mostram que a análise do capitalismo não pode prescindir da perspectiva ideológica. Uma chave virtuosa para entender a atual crise é justamente desse naipe.</p>
<p>Podemos nos perguntar se essa crise sinaliza por exemplo com o fim do neoliberalismo – o modelo elaborado pelos luminares da economia de mercado para dar conta da crise que se instalou como um vizinho indesejável na sala de estar dos anos 1970. Na verdade, o que se pode ver é que, da mesma forma que o próprio neoliberalismo foi um projeto de classe destinado a restaurar e centralizar a riqueza e o poder da classe capitalista, garantindo que os capitais fluissem de um canto a outro, da mesma forma, as políticas atuais em curso propõem a saída da crise com ainda mais centralização do poder da … classe capitalista.</p>
<p>Ou se não vejamos. Desde 1973 houve centenas de crises financeiras no mundo todo – e muito poucas entre 1945 e 1973 (várias destas foram baseadas em questões de propriedade ou desenvolvimento urbano). Assim, o colapso atual não é original, a não ser no seu tamanho e alcance, assim como é totalmente compreensível o seu vínculo forte no desenvolvimento urbano e no mercado imobiliário (o sistema americano foi o que sentiu os primeiros estalos na fundação – para um relato ótimo da nova crise do capital, há o livro de David Harvey, listado abaixo). A retórica argumentativa do neoliberalismo envolvia liberdade individual, autonomia, responsabilidade pessoal e os benefícios da privatização dos bens do Estado, livre-mercado  e livre-comércio, com a queda de barreiras burocráticas, de mercado e de regulação. E ao mesmo tempo políticas draconianas de auxílio a economias menos desenvolvidas. O projeto foi muito bem sucedido, obrigado, a julgar pela concentração da riqueza em todos as economias nacionais que adotaram esse caminho.</p>
<p><a href="http://efeitoecausa.files.wordpress.com/2011/06/crise-europeia.jpg"><img class="alignleft" src="http://efeitoecausa.files.wordpress.com/2011/06/crise-europeia.jpg" alt="" width="360" height="253" /></a>A crise fiscal da cidade de Nova York na metade da década de 1970 inaugurou o princípio, logo expandido para o mundo inteiro a partir de 1982 com  a crise da dívida do México, de que o poder do Estado deve estar a serviço da proteção das instituições financeiras. É claro que essa prática contrariava outro princípio caro ao neoliberalismo, o da não-intervenção. Mas logo ficou claro entre os homens e mulheres que pilotavam os governos e os mercados, que socializar os riscos e privatizar os lucros, salvar os bancos e o sistema e endereçar a conta às pessoas era não somente fácil, era uma estratégia mais que racional: era a única coisa a fazer. As crises financeiras servem para racionalizar as irracionalidades do capitalismo.</p>
<p>O socorro atual (desde 2008) às instituições financeiras dado pelos cofres dos Estados, como resposta à crtise financeira, é essa mesma história. No momento em que escrevo, a Espanha confirma a solicitação, ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, de ajuda ao seu sistema financeiro no montante de 100 bilhões de euros. É o quarto país europeu a receber auxílio  internacional – além da Irlanda, Portugal e Grécia. É o FMI quem vai acompanhar a operação.</p>
<p>x.x.x.x.x.x.x.x.x</p>
<p>O capitalismo tem revelado uma forte capacidade de se readequar às contingências negativas e de melhorar constantemente seu desempenho nos últimos duzentos anos. Parte desse êxito se deve à forma como o Capital se relaciona com os constrangimentos, dificuldades e limites da natureza e de como ele se relaciona com o trabalho (a atividade das pessoas). Como Marx mostra, as soluções para as dificuldades são sempre por meio de novas tecnologias ou de formas de organização. Mais tecnologias e formas de organização superiores resultam em taxas de lucro maiores.  É da observação desses fatores que Marx concluiu pela fetichização da tecnologia por parte dos capitalistas e que o levou a escrever que a “indústria moderna nunca vê ou trata a forma existente de um processo de produção como definitiva. Sua base técnica é, portanto, revolucionária, enquanto todos os modos de produção anteriores eram essencialmente conservadores”.</p>
<p>O que tal êxito sugere é que esse sistema produtivo tem fluidez e flexibilidade suficientes para superar todos os limites, ainda que aqui e ali com violentas correções e altos preços a pagar, como agora. É Marx quem oferece uma forma virtuosa de entender essa tendência “criativo-destrutiva”: o velho lembra que, por um lado, há uma capacidade ilimitada de acumulação monetária. Do outro, há todos os constrangimentos limitadores da atividade material (produção, troca e consumo de mercadorias, além dos humores do clima, a fertilidade da terra, a oferta de água e outros recursos).  Ao contrastar essas duas dimensões, Marx indica que cada limite aparece como uma barreira a ser superada, é esse o embate constante e perpétuo dentro da geografia histórica que o pensador de Dresden conseguiu vislumbrar como nenhuma outra pessoa antes – Joseph Schumpeter também se dedicou às tendências criativo-destrutivas do capitalismo, mas ele e seus seguidores tratavam a destrutividade como o efeito colateral (inevitável dos negócios&#8230;).</p>
<p>Mas o aumento da frequencia e da profundidade das crises do capital desde a década de 1970 se explicam justamente pela necessidade de se encontrar formas novas e inovadoras de reunir e distribuir capital na forma de dinheiro, além de formas para se explorar oportunidades lucrativas. Ou seja, desde mais ou menos 1973 se tornou um problema absorver montantes de capital excedente na produção de bens e serviços cada vez maiores para manter o capitalismo crescendo. O consumismo tem um papel fundamental nisso, através da geração contínua de novas necessidades. A imagem abaixo é reveladora da teia do nosso consumo na área de alimentos. Pense o quanto disso é, na verdade, necessidade criada pela necessidade de manter o sistema crescendo e trerá uma noção da catástrofe que aprendemos a ignorar&#8230;</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_2779" class="wp-caption aligncenter" style="width: 624px"><a rel="attachment wp-att-2779" href="http://www.locoporti.blog.br/a-3stacao-de-marx-ensaio-pro-suplemento-pernambuco-sobre-o-velho/aniversario-de-marx/"><img class="size-large wp-image-2779 " title="aniversario de marx" src="http://www.locoporti.blog.br/wp-content/uploads/2012/07/aniversario-de-marx-1024x642.jpg" alt="" width="614" height="385" /></a><p class="wp-caption-text">O mapa do consumo alimentício</p></div>
<p>As inovações financeiras que estavam no olho do furacão de 2008, mais compreensíveis na forma das equações matemáticas que lhes dão consistência, foram desenvolvidas para superar as barreiras que o capitalismo encontra em sua própria natureza. É Marx também que mostra que os movimentos desse tipo invariavelmente criam uma probabilidade séria de o financiamento tornar-se selvagem e desenfreado, gerando uma crise.</p>
<p>Da mesma forma, é Marx quem elabora um relato de como, por um lado, mudanças tecnológicas e organizacionais alimentam a tendêndia de queda na taxa de juro. Ainda que simplista, esse relato acerta ao mostrar como tais mudanças são essenciais na desestabilização de tudo e produzem crises de um tipo ou de outro. A pulsão por crescimento e sobretudo a fetichização das tecnologias, máquinas em particular e novas formas organizacionais, têm se revelado facas de dois gumes. Tal como no curso do amor verdadeiro, o efeito das carências e excedentes no fluxo do Capital nunca é suave.</p>
<p>No início da déca de 1980, no centro financeiro do capitalismo moderno, Wall Street, contavam-se nos dedos de um homem só o número de computadores. Em vinte anos, a inovação mobilizada para fazer a carruagem crescer de tamanho e prosperar e alocar os excessos de produção continuadamente tornou possível modelos matemáticos complexos, um mercado de opções e derivativos e outras inovações que chegaram a movimentar uma montanha de negócios da ordem de 600 trilhões. Boa parte disso pode ser considerada, nos termos do velho, &#8216;capital fictício&#8217;, conceito  sem o qual é impossível se compreender a atual crise do capital. Pois o total de bens e de serviços realmente existentes no mundo não chegavam a 60 trilhões. A análise puramente econômica e histórica, que não observa o caráter ideológico do conhecimento e das tecnologias exigidas para apoiar o crescimento obrigatório do sistema, não dá conta desse tipo de coisa e essa é outra das razões da volta sem volta a Marx.</p>
<p style="text-align: center;">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Na segunda-feira publico outro texto, preparado para o Suplemento Pernambuco também em que trato dos livros escritos nos últimos anos por alguns importantes pensadores atuais, que procuram dialogar hoje com a produção de Marx e Engels.</strong></p>
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		<title>O desafio do vigilantismo em rede na #expoidea</title>
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		<pubDate>Sun, 13 May 2012 00:40:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
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		<description><![CDATA[Nos últimos anos, uma série de leis que restringem as liberdades na  Internet estão sendo decretadas de forma autoritária por governos em  todo o mundo, desde o Hadopi na França, até as tentativas de aprovar o  SOPA, PIPA e o ACTA nos EUA, e chegando na Lei Azeredo (conhecida como AI5-Digital) aqui [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Nos últimos anos, uma série de leis que restringem as liberdades na  Internet estão sendo decretadas de forma autoritária por governos em  todo o mundo, desde o Hadopi na França, até as tentativas de aprovar o  SOPA, PIPA e o ACTA nos EUA, e chegando na Lei Azeredo (conhecida como <a href="http://meganao.wordpress.com/" target="_blank">AI5-Digital</a>) aqui no Brasil – que está em debate no nosso parlamento.</em></p>
<p><em>Buscando aprofundar as discussões sobre este contexto, a Expoidea vai promover um instigante debate chamado <strong>“Os Limites da liberdade e o vigilantismo na Rede: Marco Civil da Internet e Ciberativismo”</strong>.</em></p>
<p><em>Estarão na mesa os ciberativistas<a href="http://entropia.blog.br/" target="_blank"> João Carlos Caribé</a> e<a href="http://www.tsavkko.com.br/" target="_blank"> Raphael  Tsavkko Garcia</a>. O mediador deste debate serei eu.</em></p>
<p><em> <img src='http://www.locoporti.blog.br/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':-)' class='wp-smiley' /><br />
</em></p>
<p><em><strong>DATA E HORA:</strong> 13 de maio – domingo, às 16h.<br />
<strong>LOCAL:</strong></em> <em> Espaço Ideário – Shopping Paço Alfândega.<br />
ENTRADA GRATUITA.</em></p>
<p><em><strong>O Debate será transmitido AO VIVO via streaming, a partir das 16h. </strong></em></p>
<p><strong><em>Link: <a href="http://expoidea.com.br/2012/debates-ao-vivo/">http://expoidea.com.br/2012/debates-ao-vivo/</a> </em><br />
</strong></p>
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		<title>Uma boa semana para lembrar de Marx</title>
		<link>http://www.locoporti.blog.br/uma-boa-semana-para-lembrar-de-marx/</link>
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		<pubDate>Sat, 05 May 2012 20:04:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sangue, suor e lágrimas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
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		<description><![CDATA[Se Marx errou sobre a capacidade de realização libertária do comunismo – a bem da verdade, mais por obra da burocracia estalinista do que por um caráter inerente da revolução russa e de seus pressupostos teóricos –, acertou em cheio sobre a capacidade destrutiva do capitalismo. Destruição da sua própria base social &#8211; o meio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption alignright" style="width: 373px"><a href="http://commons.wikipedia.org/wiki/File:No_Karl_Marx.jpg" target="_blank"><img class="zemanta-img-inserted zemanta-img-configured" title="No Karl Marx" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/18/No_Karl_Marx.jpg/300px-No_Karl_Marx.jpg" alt="No Karl Marx" width="363" height="362" /><br />
</a></dt>
<dd class="wp-caption-dd zemanta-img-attribution" style="font-size: 0.8em;">
<div class="mceTemp"><a href="http://commons.wikipedia.org/wiki/File:No_Karl_Marx.jpg" target="_blank"><br />
</a></div>
<p>No Karl Marx (Photo credit: Wikipedia)</p>
</dd>
</dl>
</div>
<p>Usar a semana do dia do trabalho como mote para se pensar nas crises mais recentes pelas quais o capitalismo vem passando ganhou um sentido renovado nos últimos  anos. É difícil deixar de lembrar de Karl Marx, quando é justamente sua obra, construída com F. Engels, que vem dando contribuições para se entender de forma mais sofisticada o sistema produtivo hegemônico em particular e a sociedde moderna em geral. Não é casual a retomada dos estudos produzidos pelos alemães ou as novas abordagens e interpretações do materialismo histórico. Lembrei de fazer um registro aqui no blog amarelo porque hoje é a data do nascimento de KM.</p>
<p>O livro mais recente de Frederic Jameson (<a href="http://www.amazon.com/Representing-Capital-Reading-Volume-One/dp/1844674541/ref=sr_1_1?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1336247022&amp;sr=1-1" target="_blank">Representing `Capital` &#8211; A Reading of / Volume One</a>) trata justamente do emprego e do Capital. Ou, mais especificamente, a obra afirma que O Capital é um livro sobre o desemprego. Sobre como o desemprego está vinculado de forma orgânica à dinâmica de acumulação e expensão que constitui a própria natureza do capitalismo. Ou seja, em detrimento da categoria política de dominação, é a exploração econômica que ganha destaque e a classe trabalhadora global de hoje emularia o proletariado do início da revolução industrial, por causa de sua precariedade e vulnerabilidade: seriam os &#8220;portadores de um novo tipo de miséria histórica e global&#8221;.</p>
<p>Essa leitura de Jameson tem um problema. Ela deixa passar os caminhos que a política, que as políticas, tomaram depois de 1945 incluindo-se aí a instauração do Estado de bem-estar social e a emergência de forças políticas e articulatórias para além das reivindicações de classe. Entre estes, os movimentos feministas, de igualdeade de direitos civis, LGBT, movimento verde, étnicos, etc. Também não considera o legado dos governos de esquerda na América Latina. Estes são fronts, processos e resultados de reação política aos ciclos de dominação econômica e exploração e, em certo sentido, não passam pela lupa de Jameson.</p>
<p>Houve tempo em que não faltavam vozes a afirmar que as pesquisas sobre o trabalho, a evolução do capital, as transformações das formas de produção; ou que os investimentos de ordem mais eminentemente filosóficos e metodológicos de Marx e de Engels haviam perdido o sentido. Não. Hoje, nós nos encontramos no mundo que ele previu, onde cada um vive de forma experimental e provisória, ainda que não deseje ou saiba, e onde a perspectiva da ruína pode ocorrer a qualquer momento. O sociólogo Anthony Guiddens tratou desse aspecto de ‘insegurança’ sob a categoria de ‘risco’ – embora de forma ainda mais ampla.</p>
<div class="mceTemp">
<dl class="wp-caption zemanta-img alignleft" style="width: 310px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://commons.wikipedia.org/wiki/File:Marx6.jpg" target="_blank"><img class="zemanta-img-inserted zemanta-img-configured" title="In his theory of labor value Marx also suppose..." src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/57/Marx6.jpg/300px-Marx6.jpg" alt="In his theory of labor value Marx also suppose..." width="300" height="438" /></a><p class="wp-caption-text">In his theory of labor value Marx also supposes an identical labor-capital ratio in all sectors. (Photo credit: Wikipedia)</p></div>
<p>Se Marx errou sobre a capacidade de realização libertária do comunismo – a bem da verdade, mais por obra da burocracia estalinista do que por um caráter inerente da revolução russa e de seus pressupostos teóricos –, acertou em cheio sobre a capacidade destrutiva do capitalismo. Destruição da sua própria base social &#8211; o meio de vida da classe média – <a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/09/110918_marx_capitalismo_jf.shtml" target="_blank">como mostrou</a> o filósofo John Gray.</p>
<p>Como Gray comenta, Marx conseguiu prever a instabilidade que arrastaria as classes médias à condição de “existência precária dos sobrecarregados trabalhadores de sua época”. Marx e Engels foram suficientemente sensíveis para perceber, ainda no Manifesto Comunista, que com o capitalismo emergia uma nova relação da humanidade com a natureza, novas tecnologias, muitas mudanças na vida cotidiana, novos arranjos políticos institucionais e novas relações sociais. A certo momento, o capitalismo parecia expressar a própria condição da modernidade, de contínua atualização, de continua auto-destruição e re-criação.</p>
<p>Recentemente, entretanto, vem se fortalecendo a perspectiva de que o capitalismo fracassou &#8211; no sentido de que essa instabilidade abalou os próprios fundamentos do sistema. Algumas vozes vem articulado idéias nesse sentido, entre elas a o sociólogo David Harvey. Nesse sentido, o capitalismo teria entrado numa fase de cada vez mais destruição e cada vez menos criação. E é preciso salientar o forte componente de irracionalidade desse processo. No último livro do sociólogo inglês lançado no Brasil, <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=29154349&amp;sid=19617820514320484631927725" target="_blank">O enigma do capital</a>, Harvey lembra como em 2009, um terço dos bens de capital nos Estados Unidos permaneceu inativo ao mesmo tempo em que cerca de 17% da força de trabalho estava desempregada ou, involuntariamente, trabalhando em regimes de meio período.</p>
<p>Em certo sentido uma das expressões mais bem acabadas dessa irracionalidade é trio <strong>produzir, consumir, enriquecer</strong>. A lógica liberal mercadológica elevou a um patamar tal a relação com essas atividades que as relações entre os indivíduos passam a um segundo plano de importância. Somos acionados por coisas – objetos, serviços, um fantasma e a esse respeito me lembrei do show abaixo, no qual o rapper Tupac Shakur é ressucitado –, e convencidos da necessidade inelutável da busca exacerbada, contínua, aviltante por produzir, consumir e enriquecer. O sempre ter mais (<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Pleonexia" target="_blank">pleonexía</a>) era limitado no mundo grego e virou um trem descarrilhado com o liberalismo. Para um filósofo como Dany-Robert Dufour, a perda dos relatos fundadores e a liberação da pleonexía são marcos da irracionalidade atual. Em um livro chamado <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=29428492&amp;sid=77411214114224379882590518" target="_blank">“L’individu qui vient&#8230;après le libéralisme” </a>(O indivíduo que vem&#8230;depois do liberalismo), o filósofo <a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19334" target="_blank">advoga</a> a necessidade de retomarmos o Marx filósofo, cujos trabalhos tratam das formas pelas quais os homens podem se realizar fora do circuito do mercado e de suas ilusões: no amor, no outro, do afeto, na arte, etc.</p>
<p style="text-align: center;">[There is a video that cannot be displayed in this feed. <a href="http://www.locoporti.blog.br/uma-boa-semana-para-lembrar-de-marx/">Visit the blog entry to see the video.]</a></p>
<p>Fico pensando que o trabalho também poderia ser uma plataforma de lançamento ao encontro do outro. E me parece que necessariamente precisa haver, para isso acontecer, um reordenamento da ação produtiva pra que ela não se restrinja ao fim puramente comercial. Ou seja, não se restrinja à tarefa de fazer viver, de sobreviver&#8230;</p>
<div class="zemanta-pixie" style="margin-top: 10px; height: 15px;"><a class="zemanta-pixie-a" title="Enhanced by Zemanta" href="http://www.zemanta.com/"><img class="zemanta-pixie-img" style="border: medium none; float: right;" src="http://img.zemanta.com/zemified_e.png?x-id=93efe9c3-ed4d-422a-89b7-1e37b4577d32" alt="Enhanced by Zemanta" /></a></div>
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		<title>Em torno da polêmica política cultural, por Gabriel Cohn</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Apr 2012 15:19:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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Por Gabriel Cohn, no Valor
Que algo não vai bem nas políticas da cultura é fora de dúvida. Nunca, desde o período Collor, a política oficial na área foi tão contestada, e por tantos lados. Surpreendentes lados, além do mais. Históricos e respeitáveis militantes petistas fazem críticas contundentes, enquanto figuras conhecidas no campo cultural se alinham [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><a href="http://farm6.static.flickr.com/5061/5635032628_10056a9c67_z.jpg"><img class="aligncenter" src="http://farm6.static.flickr.com/5061/5635032628_10056a9c67_z.jpg" alt="" width="597" height="640" /></a><br />
<span style="color: #800000;"><strong>Por Gabriel Cohn, no Valor</strong></span></p>
<p><em>Que algo não vai bem nas políticas da cultura é fora de dúvida. Nunca, desde o período Collor, a política oficial na área foi tão contestada, e por tantos lados. Surpreendentes lados, além do mais. Históricos e respeitáveis militantes petistas fazem críticas contundentes, enquanto figuras conhecidas no campo cultural se alinham a encarniçados conservadores na defesa de uma ministra do PT. Tentemos propor o problema de fundo numa perspectiva ampla, ainda que à custa de rodeios necessários.</em></p>
<p><em><span id="more-2726"></span><br />
</em></p>
<p><em>Fazer política cultural nunca foi fácil. Quando não se tem uma concepção clara das relações entre sociedade, Estado e cultura fica ainda mais difícil. A questão desagradável é: como juntar esses três termos sem fazer violência a nenhum deles? Pior: sem fazer violência à cultura, o elo frágil nessa cadeia? Mas qual intervenção na cultura não lhe faz violência? Eis o grande desafio de qualquer proposta séria de política cultural: mexer com essa coisa imponderável com a leveza sem a qual ela sufoca, junto com a firmeza suficiente para lhe dar força.</em></p>
<p><em>Cultura ou é tudo, uma espécie de atmosfera que respiramos nos menores gestos, ou é nada, porque cada vez que tentamos prendê-la numa das formas que assume ela nos escapa sob outra forma. Ou então, aprisionada nas redes administrativas, ela se converte em terreno bem demarcado no interior da produção e circulação simbólica. Essa última condição é que faz brilhar os olhos dos gestores mais apressados. Até porque desse modo ela pode ser definida, classificada e avaliada, mediante o uso de qualificativos: é popular, é nacional e assim por diante, tudo dependendo de quem tenha o poder de “ocupar o espaço” e de impor a sua definição.</em></p>
<p><em>Entre a cultura na sua acepção mais genérica possível (segundo a qual é nela que se dá a tradução no registro simbólico da vida humana, convertendo-a em experiências organizadas e peculiares a épocas e lugares) e suas expressões singulares bem mapeadas (a dança x na cidade y) há um enorme espaço, que se oferece às políticas.</em></p>
<p><em>A questão da formulação e implementação de políticas na área ganhou importância no Brasil com a criação do Ministério da Cultura em 1985 e assumiu forma constitucional a partir de 1988. Ao reservar-se todo um ministério a essa questão seguia-se um pouco o caso exemplar da França, que, no governo De Gaulle, consoante a vertente napoleônica da orientação republicana, criou em 1959 aquele órgão de difusão mundial da “grandeur” gaulesa. E fez questão de legitimá-lo na figura de um ministro grande intelectual, André Malraux. É verdade que isso se fez sem esquecer a frente interna, na qual viriam a se elaborar políticas inovadoras como a da “animação cultural”, cujas repercussões no Brasil merecem atenção.</em></p>
<p><em>Entre nós quem fez o papel de Malraux foi Celso Furtado, a quem se deve a concepção básica das leis de incentivo (batizadas na origem com o nome do então presidente Sarney, para depois se converter em Lei Rouanet) e, sobretudo, uma concepção abrangente da cultura como foco de políticas, centrada na ideia de criatividade. Depois disso, a rotina gerencial, mesmo quando competente, passou a se impor, como que dando razão àqueles que viam com reserva a própria criação do ministério.</em></p>
<p><em>Em 1984, quando se discutia essa criação, eu argumentava contra (“Cultura é cultura”, “Folha de S. Paulo”, outubro/1984), em termos que retomo agora. “A política cultural não segue a lógica da cultura – qual seria? -, mas a lógica da influência, do prestígio e do poder. Para isso ela cria suas instituições, seus gestores, seus funcionários, como condição para poder exercer-se. No limite, cria um ministério. A ideia da criação de um Ministério da Cultura não é, portanto, aberrante. Tem sua lógica, mas é uma lógica perversa. Ela repousa numa confusão que tem importância decisiva para entender como essas coisas se dão: aquela que no lugar do que é público coloca aquilo que é oficial. Enfim, aquela pela qual a clássica oposição liberal entre esfera pública e esfera privada fica sufocada nas malhas da esfera oficial, que acaba se identificando com a do aparato estatal”.</em></p>
<p><em>E concluía: “A cultura, essa entidade fugidia, tende a escapar por entre as malhas grossas das redes coletoras de recursos. Enquanto isso as redes mais finas podem ficar ociosas, dispersas pela sociedade, ou então continuar colhendo, à margem dos organismos e processos oficiais, sua sempre renovada carga simbólica. O risco é que elas fiquem restritas, confinadas em universos privados, talvez à espera dos possantes aspiradores da indústria cultural. O desafio continua o mesmo: articular o processo cultural com outros processos sociais e políticos, não para definir seu campo e suas prioridades oficiais, mas para o converter de fato em coisa pública, pois essa é no fundo a sua vocação. A cultura é entidade multiforme e intrometida e, tendo liberdade, nada lhe escapa. Porém, como ela não existe de maneira fixa e palpável, sua liberdade só se realiza juntamente com todas as outras liberdades. E isso passa, é claro, pelas condições materiais para exerce-las. Portanto, sua plena realização só se dá juntamente com todas as outras, num aprendizado social e político que certamente não passa por nenhum ministério”.</em></p>
<p><em>De passagem, interrogava se caberia àquele orgão “a regulamentação da concessão de canais de rádio e televisão, que atualmente está na área na qual se cruzam considerações tecnológicas com as de segurança nacional, sob o nome de ‘comunicações’ (área, de resto, cuja sombra incide fortemente sobre o processo cultural)”. Nesse aspecto, convém lembrar que a antes citada França tem atualmente um Ministère de la Culture et de la Communication.</em></p>
<p><em>O dado importante, aqui, é que no período recente ocorreram mudanças que permitem pelo menos matizar aquelas reservas. A principal delas, claro, consiste no fortalecimento da sociedade nas suas relações com o Estado, que inclui o uso das novas tecnologias da comunicação. Avanço que se anunciou com força em certo momento e no entanto se revela vulnerável, como demonstra a situação presente na área cultural.</em></p>
<p><em>É fácil detectar o momento em que isso ganhou corpo. Foi na gestão Gilberto Gil-Juca Ferreira nos mandatos Lula, quando se adotaram políticas baseadas numa concepção ampla e generosa de cultura, de cunho antropológico, como então se proclamava (em contraste com concepções gerenciais-mercadológicas). Chamou-se a sociedade, criaram-se condições de participação mediante a associação em múltiplas redes, apostou-se no prazo mais longo para o aprendizado cultural, multiplicaram-se as formas de produção e distribuição.</em></p>
<p><em>Foi o brusco freio quando não reversão dessa tendência na atual gestão Ana de Hollanda que gerou o mal-estar manifestado em várias frentes, desde os participantes e produtores culturais atingidos por cancelamentos de projetos em andamento até amplos setores simpáticos a políticas nas quais reconheciam a marca das melhores vertentes democráticas. É por aí que se traça a linha divisória entre críticos e defensores da atual ministra. O que a vertente crítica não tem como aceitar é o retrocesso envolvido numa política tipo “o ministério dos artistas”, pois isso equivale em converter o MinC em agência de reconsagração daqueles já consagrados pelo mercado. Ou então a conversão do ministério em agência de policiamento da circulação cultural, em nome da defesa de direitos autorais (com tudo o que isso representa em termos de envolvimento com entidades privadas de organização e conduta nebulosa).</em></p>
<p><em>O Ministério da Cultura está aí para ficar, para o bem ou para o mal. (Perguntem a qualquer presidente se é fácil fechar um ministério, salvo pelo seu desdobramento em outros dois.) Houve momentos, recentes, em que ele veio para o bem. Caso persista a orientação que se vem imprimindo a ele na atual gestão, só restará sua face sombria, e os danos serão irreparáveis.</em></p>
<p><em>Gabriel Cohn é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP</em></p>
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		<title>Alguma coisa não cheira bem no Recife (e não é a maré) #OcupeEstelita</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Apr 2012 22:14:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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Há algo de melancólico numa cidade que não reage, como uma torcida que perdeu a fé. A articulação de forças, discursos, afetos e pessoas chamada Direitos Urbanos vem demonstrando, por um lado, que a forma como será desenhado o traçado na cidade do Recife não é e não pode ser um domínio privado do mercado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } 		A:link { so-language: zxx } --><a href="http://4.bp.blogspot.com/_8M1AOlRglSI/S3UaNjm2nsI/AAAAAAAAVV4/QArUrbH4d5c/s1600/b174972138.jpg"><img class="aligncenter" src="http://4.bp.blogspot.com/_8M1AOlRglSI/S3UaNjm2nsI/AAAAAAAAVV4/QArUrbH4d5c/s1600/b174972138.jpg" alt="" width="524" height="524" /></a></p>
<p>Há algo de melancólico numa cidade que não reage, como uma torcida que perdeu a fé. A articulação de forças, discursos, afetos e pessoas chamada <a href="http://direitosurbanos.wordpress.com/" target="_blank">Direitos Urbanos</a> vem demonstrando, por um lado, que a forma como será desenhado o traçado na cidade do Recife não é e não pode ser um domínio privado do mercado &#8211; <a href="http://acertodecontas.blog.br/atualidades/recife-a-nova-bagdami-mistura-de-bagd-com-miami/" target="_blank">esse texto</a> pontua bem esse aspecto, entre outros; por outro lado, e ainda que indiretamente, as reações a essa mobilização revelam o potencial reacionário latente de parte considerável da classe média branca, machista e <span style="text-decoration: line-through;">bem (?) informada</span> formadora de opinião. Essa última impressão ficou clara por ocasião do<a href="http://direitosurbanos.wordpress.com/ocupeestelita/" target="_blank"> Ocupe Estelita</a>, no último dia 12. As reações de oposição procuraram desqualificar o debate, expondo comodismos, intolerâncias, elitismos, incompreensão, irresponsabilidade no geral. No particular, onde o Diabo costuma aquecer o travesseiro, o que mais me chamou a atenção foi a reação dos jornais e dos jornalistas. Eu chego lá.</p>
<p>Essa desqualificação foi bem expressa nesse <a href="http://www.batidasalvetodos.com.br/2012/04/naoocupesemsaber/" target="_blank">site</a> e junto, o despreparo da autora do texto que (surpresa!) é colunista do blog do Noblat. Não vou perder tempo analisando e desconstruindo o texto, <a href="http://www.popup.mus.br/" target="_blank">Bruno Nogueira</a> já o<a href="http://www.facebook.com/bruno.nogueira" target="_blank"> fez bem</a> – ademais a fraqueza da argumentação deveria nos fazer apontar noutra direção: procurar entender que o nível de aceitação que ele conseguiu auferir é um termômetro das dificuldades de análise da própria autora – claro –, mas sobretudo de como comodismos, intolerâncias, elitismos, incompreensão, irresponsabilidade no geral encontram terreno fértil para deitar raízes, crescer, florescer e dar frutos, apesar da lama e do cheiro da maré na Cidade Maurícia.</p>
<p>Parece-me que as preocupações do <a href="http://direitosurbanos.wordpress.com/about/" target="_blank">Grupo Direitos Urbanos</a> se vincula a gestão de bens comuns; à busca de formas de gestão de recursos citadinos que se apóiem em modelos alternativos à lógica privatista; às contingências da política representativa; à organização e ação com relação unicamente a fins – não poderia ser outra, portanto, a composição do grupo e de suas “discussões, que rompem com as compartimentalizações nas quais o planejamento da cidade é forçado pela estrutura burocrática dos governos e nos dá a esperança de que dessa troca de idéias surjam boas soluções para os problemas da cidade”. Daí ser mais que esperado que o grupo seja <a href="http://direitosurbanos.wordpress.com/about/" target="_blank">“um lugar de intensa interdisciplinaridade, um lugar onde arquitetos e engenheiros conversam com sociólogos e filósofos e operadores do Direito interagem com artistas plásticos e cineastas”</a>.</p>
<p>Um dos fronts da desqualificação do debate (um texto esclarecedor, <a href="http://jampapernambuco.wordpress.com/2012/03/14/algumas-consideracoes-sobre-o-projeto-novo-recife-por-leonardo-cisneiros/" target="_blank">aqui</a>) colocado em pauta pelo grupo, debate econômico-político, se assenta justamente no caráter intelectual e burguês de seus artífices. O que (inicialmente) mais me surpreendeu é que essa &#8216;acusação&#8217; (que veio à tona ao longo do dia 12, por ocasião do <a href="http://direitosurbanos.wordpress.com/ocupeestelita" target="_blank">Ocupe Estelita</a><a href="http://direitosurbanos.wordpress.com/ocupeestelita/" target="_blank"></a>) foi realizada da forma mais virulenta por jornalistas. Fiquei com um misto de surpresa e de vergonha alheia das pessoas que poderiam ser meus colegas exporem opiniões como as que você pode conferir no Facebook.</p>
<p>Em algum lugar perdido do passado, a imprensa se estabelece propriamente como órgão crítico de um público que pensa a política. Comentários e críticas das medidas da Coroa e das deliberações do Parlamento nos jornais, modificavam a natureza do poder público, que era chamado ao fórum do público. A imprensa e sua crítica profissional mediavam o controle, exercido por indivíduos conscientizados, sobre a esfera pública. As pessoas haviam tomado de volta da autoridade a esfera pública e a tinham transformado numa esfera em que a crítica se exercia contra o poder do Estado. Eram os tão gloriosos quanto distantes últimos anos do século XVIII. E, embora pareça remota, essa realidade semeou a ideia, ainda buscada hoje, de que a opinião públia disputa a regulamentação do social com o poder público instituído.</p>
<p>O diálogo a que me refiro parece a própria expressão da mudança estrutural da esfera pública narrada por Habermas e o esvaziamento do heróico papel que o jornalismo comercial tinha obtido.</p>
<p>Ok, constatamos isso. Mas e daí? É somente isso? Devemos sepultar o jornalismo <em>in totum</em> e declarar a falência de seus pressupostos modernos? Acho que seria um desperdício grande demais jogar fora a lama com o bebê junto. Me parece mais proveitoso pensar também o jornalismo – e não somente a cidade e seu futuro próximo e distante – como terrenos em disputa. Afinal de contas, seria muito cômodo e irresponsável ficar na conclusão a que se chega pelo raciocínio de Habermas e declarar a falência do jornalismo. Assim como é cômodo e irresponsável que o jornalismo e seus profissionais não repensem suas práticas (discursivas) públicas; sua agenda para a cidade e suas conviccções de como o desenvolvimento pode e deve se dar nos centros urbanos – e nos centros rurais também. Essa não é somente uma estratégia interessante para honrar o legado do passado, mas também uma forma de lidar com o presente, no qual não cabem mais essas posturas.</p>
<p>Algo não cheira bem quando a defesa de um projeto como o Novo Recife vem da forma que veio; algo está errado quando um jornal publica o ‘outro lado’ antes da reportagem principal e mais ainda quando todos os jornais em uníssono minimizam o assunto &#8211; curioso que, nass horas do rush, boa parte das reclamações sobre os engarrafamentos na cidade venham justo de tantos comunicadores, como se fosse possível desassociar o incômodo causado pelo trânsito ao debate na mesa!</p>
<p>Algo não está bem quando vem de formadores de opinião a demonização da reflexão crítica sobre o presente e o futuro da cidade; algo está errado, profundamente errado, quando as mesmas pessoas que ridicularizam o intelectualismo de um movimento recorrem a sociólogos, filósofos, psicólogos, urbanistas e arquitetos para legitimar, noutro momento, seus próprios discursos.</p>
<p>É bastante preocupante, aliás, que a crítica venha sendo tão resumida na nossa cidade, ou tenha se tornado uma prática feita em reserva, como se um agudo Olho de Sauron que a tudo vê vigiasse as falas e as atitudes fora do eixo.</p>
<p>Algo não cheira bem na cidade do Recife e o odor não vem da maré.</p>
<p>Para acabar esse longuíssimo post, queria mencionar que um dos aspectos da tentativa de deslegitimação se apóia no fato de que só agora alguma movimentação foi feita sobre o Cais José Estelita. De fato, essa mobilização demorou, mas ainda bem que veio. A legitimidade da discussão continua&#8230; Houve alguma reação, e outras são necessárias – no âmbito da discussão sobre a cidade e seus problemas, da política (das políticas para além da representativa); da cultura, etc.</p>
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		<title>O capitalismo esclerosado, via @cartamaior</title>
		<link>http://www.locoporti.blog.br/o-capitalismo-esclerosado-via-cartamaior/</link>
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		<pubDate>Sat, 14 Apr 2012 21:58:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sangue, suor e lágrimas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Durante recente visita ao Brasil, David Harvey afirmou que os fluxos que mantém o capitalismo em funcionamento estão sendo bloqueados e isso pode levar o sistema para uma situação doentia. A questão da esclerose pode ser visualizada em vários aspectos da vida econômica do planeta. E também dos seus habitantes. Começando pela discussão recente de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong><em>Durante recente visita ao Brasil, David Harvey afirmou que os fluxos que mantém o capitalismo em funcionamento estão sendo bloqueados e isso pode levar o sistema para uma situação doentia. A questão da esclerose pode ser visualizada em vários aspectos da vida econômica do planeta. E também dos seus habitantes. Começando pela discussão recente de “tsunami de dólares” que os países ricos estão fazendo pelo mundo afora. O artigo é de Najar Tubino.</em></strong></p>
<p><span id="more-2715"></span></p>
<p style="text-align: right;"><a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19929" target="_blank">Najar Tubino (*)</a></p>
<p><em>A ideia é do professor da Universidade de N.York David Harvey, em visita recente ao Brasil. Os fluxos que mantém o capitalismo em funcionamento estão sendo bloqueados e isso pode levar o sistema para uma situação doentia.</em></p>
<p><em> &#8211; Comparo o capitalismo a um corpo que pode ficar doente se houver restrições ao fluxo sanguíneo. É importante perceber como o capitalismo depende da continuidade do fluxo de capital, e como qualquer interrupção, por qualquer motivo, pode ter custos muito altos. A questão é: o capitalismo é um sistema que está ficando esclerosado.”</em></p>
<p><em> Harvey, que pode ser um descendente do cientista inglês Willian Harvey, que descobriu o funcionamento do sistema circulatório no ser humano, considera que na atualidade existem muitos pontos de bloqueios com potencial para oferecer riscos à saúde, sem considerar o fato de que o corpo continua em crescimento e há uma expansão infinita das artérias do fluxo de capital e do fluxo de mercadorias.</em></p>
<p><em> UMA MONTANHA DE DINHEIRO</em></p>
<p><em>A questão da esclerose pode ser visualizada em vários aspectos da vida econômica do planeta. E também dos seus habitantes. Começando pela discussão recente de “tsunami de dólares” que os países ricos estão fazendo pelo mundo afora. Um estudo do Instituto Internacional de Finanças (IIF) constatou que a enxurrada de dólares tem um valor bem definido: trata-se de US$ 6,3 trilhões, somando as compras de bônus e ativos podres dos bancos centrais dos Estados Unidos, União Europeia, Japão e Inglaterra (que não está integrada na zona do euro). Este último caso refere-se à compra dos “gilts” bônus da Grã-Bretanha que o Banco Central da Inglaterra tem comprado no total de US$ 511 bilhões, quando fechar a operação este ano.</em></p>
<p><em> É preciso esclarecer as taxas de juros nestas regiões: 1% na Europa, 0,25% nos EUA e 0,5% na Inglaterra. Ao ano, logicamente. A dúvida do IIF, representante dos bancos no sistema financeiro, é se os associados terão condições no futuro de promover empréstimos com dinheiro arrecado do suado trabalho da atividade econômica.</em></p>
<p><em> &#8211; Os bancos se tornariam incapazes de obter ‘funding’ em bases comerciais, tornando-se nacionalizado pela porta dos fundos. &#8220;Persiste a interdependência entre bancos e títulos soberanos, fator que as agências de classificação de risco têm usado para rebaixar os ratings das instituições financeiras”.</em></p>
<p><em> EMPURRANDO COM A BARRIGA</em></p>
<p><em>Só para citar um exemplo, no caso francês, os três maiores bancos, BNP Paribas, Société Genérale e Credit Agrícole detêm em seus balanços 620 bilhões de euros em títulos soberanos de países como Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. O levantamento do IIF também apontou que a exposição total dos bancos europeus aos títulos públicos é de 1,45 trilhões de euros em seus balanços, o que corresponderia a 64% do capital das instituições. Nos Estados Unidos a exposição dos bancos é de US$ 158 bilhões de títulos do Tesouro, ou 10% de seu capital.</em></p>
<p><em> Desde o início de 2011, o Federal Reserve (Banco Central) aumentou seus ativos em 20%, o Banco da Inglaterra em 27% e o Banco Central Europeu em 54%, contando a última liberação de financiamento de um trilhão de euros.</em></p>
<p><em> ATÉ AS MONTADORAS PEGARAM UMA GRANA</em></p>
<p><em>Por sinal, os bancos italianos pegaram 139 bilhões de euros do BCE, para pagar em três anos. Os espanhóis ficaram com entre 110 e 120 bilhões e os alemães, pelo menos, com 100 bilhões. Até mesmo as montadoras, como Mercedes Bens, do grupo Daimler e Volkswagen pegaram uma graninha, mas não divulgaram quanto. Ninguém precisa ser um especialista em matemática financeira, para deduzir que este dinheiro vai rodar pelo mundo nos próximos três anos, ganhando juros nos países emergentes, ou comprando empresas de barbada, que estarão à venda, ou prontas, para fusão.</em></p>
<p><em> Tivemos um caso no Brasil, público, da aplicação realizada pela Coca-Cola de US$ 3 bilhões, no sistema financeiro brasileiro. Parte dos mais de US$ 8 bilhões do lucro da corporação no mundo, que obteve um faturamento em 2011 de mais de 46 bilhões de dólares. Refrigerantes e sanduíches são dois ingredientes fundamentais do capitalismo esclerosado. O Mac Donald faturou no mundo mais de US$ 30 bilhões, com lucro de US$ 5,5 bilhões. Os brasileiros contribuíram com US$ 950 milhões em sanduíches, do tipo “amo muito isso”, embora tenham mais de 20% de gordura.</em></p>
<p><em> ENTRA POR UM LADO E SAI PELO OUTRO</em></p>
<p><em>Continuando o raciocínio do professor Harvey. A Europa em recessão, crise da dívida pública, demissões, aumento da idade de aposentadoria e coisas do tipo. Aí a bancada socialista do parlamento europeu encomendou um estudo para a consultoria britânica Tax Research sobre a evasão fiscal no continente. Ou seja, quanto sai de dinheiro, sem o pagamento de impostos. É o outro fluxo sanguíneo, responsável por manter a infraestrutura dos países.</em></p>
<p><em>Qual a conclusão do levantamento&#8230; cerca de 1 trilhão de euros são desviados para paraísos fiscais, sem o pagamento de impostos, pior, sem registro na economia formal. Aponta o relatório que de cada 5,43 euros um euro fica no setor informal e não paga nada ao fisco.</em></p>
<p><em> &#8211; Não se pode negar que o tamanho da evasão fiscal ajude a minar a viabilidade da economia na Europa, assim como contribuiu para criar a atual crise da dívida”, registrou o estudo.</em></p>
<p><em> Um detalhe: dinheiro do tráfico de drogas, contrabando, prostituição não entrou nas estimativas. A Itália é o país que mais sofre com a evasão fiscal – 180 bilhões de euros anualmente. Seguida pela Alemanha com 158 bilhões, a França com 122 bilhões e o Reino Unido com 74 bilhões. Na Grécia são 19 bilhões de euros e em Portugal 12,3 bilhões.</em></p>
<p><em> Em 2011, o governo italiano “descobriu” um milhão de bens imobiliários fantasmas que jamais tinham sido declarados, o que poderia ter rendido 472 bilhões em impostos. Mesmo assim dizem as autoridades que conseguiram recuperar 12 bilhões de euros, em 2011. Agora uma piada, se não fosse verdade. De repente muitos, mas muitos mesmo, casais italianos começaram a tirar férias na Suíça, engarrafando as estradas de fronteira. As autoridades resolveram averiguar o fato. Descobriram malas de dinheiro que iriam para os bancos suíços. Também lingotes de ouro, da poupança de profissionais liberais e outros profissionais. A apreensão de dinheiro na fronteira da Itália com a Suíça cresceu 50% no segundo semestre do ano passado. A exportação de lingotes de ouro para a Suíça cresceu 40%.</em></p>
<p><em> <strong>A BOLSA E O COMETA</strong></em></p>
<p><em>Seguindo na trilha da esclerose. Uma das vantagens, diríamos, do sistema capitalista é a compra de bens e mercadorias. Hoje em dia, traduzido pelo acesso às grifes e marcas internacionais. Antes que eu me esqueça vou citar o caso de uma emergente da Indonésia, Fitria Yusuf, de Jacarta, que segundo o relato da agência Reuters é “louca por bolsas da Hermès”.</em></p>
<p><em>Diz ela: “nos idos de 2006 ver uma bolsa Hermès era como ver o cometa Halley”. Ela é coautora do livro “Hermès Temptation”. A Indonésia é um país de 200 milhões de habitantes, na realidade um imenso arquipélago, onde 100 milhões vivem com dois dólares por dia, e o salário médio é de YS$ 113, um terço do chinês. Porém, o número de milionários vem surgindo a razão de 16 por dia, segundo a consultoria Capgemini, especializado em ricos ascendentes. O número de milionários chegará a 99 mil em 2015. Alguns relacionados ao crescimento do agronegócio, no caso, óleo de palma, ou por exploração de minérios, como o ouro, a Indonésia é grande produtora.</em></p>
<p><em> Mas a questão não são as compras. Mas a compulsão por elas, que já virou uma doença chamada ONIOMANIA. No Brasil, onde já existem centros de “devedores anônimos” (dois na capital paulista, nos bairros de Jardins e Pacaembu) e tratamento em clínica especializada. Trata-se de um refluxo do sistema. Um estudo feito por um grupo de psiquiatras, publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, e citado pela Revista Valor Investe, o prazer da compra atinge o sistema límbico do ser humano. Esse prazer instantâneo leva o consumidor, na verdade, diz que 80% dos casos de oniomania são de mulheres, a gastar fora dos padrões aceitáveis. Enfim, chutar o pau da barraca e se afundar nos cartões de crédito de bancos e lojas.</em></p>
<p><em> ONIOMANÍACOS DAS CLASSES RICAS</em></p>
<p><em>O problema foi registrado pela Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC). A dívida dos brasileiros tem aumentado, e o nível de inadimplência é maior entre as classes A e B. Como todos devem saber houve um aumento da classe C para 102 milhões no Brasil, mas eles mantêm um nível de pendura menor, que os ricos. Na comparação de janeiro de 2011 para 2012, caiu de 61,3% para 59,5%, dados de consumidores com até 10 salários mínimos de renda. Naqueles acima de 10 salários mínimos, a inadimplência aumentou de 48,9% para 53,4% no mesmo período, sendo que em maio passado, o nível alcançou 57%.</em></p>
<p><em> As classes A e B no Brasil abrigam 42 milhões de pessoas. A maior parte das dívidas dos mais abastados está no financiamento de veículos, enquanto os menos abastados, nos cartões de crédito e de lojas. Levando em conta as contas de luz, telefone, água a inadimplência cresceu 21% em 2011, conforme levantamento da Serasa Experian. É interessante anotar que os juros cobrados no Brasil nos cartões de crédito e financiamento direto são estratosféricos: 238,3%, no cartão de crédito e 170,9%, segundo a CNC.</em></p>
<p><em> NADA PARECIDO COM OS AMERICANOS</em></p>
<p><em>No Brasil os consumidores ainda têm muito a aprender ou a enlouquecer. O crédito no sistema financeiro corresponde a 48% do Pib, se comparado aos Estados Unidos, onde são quase 100%, as dívidas somente com hipoteca e crédito ao consumidor somam US$ 13,25 trilhões. Os analistas financeiros têm uma conversa sobre educação financeira, as redes de televisão vivem divulgando receitas para controlar despesas. Quem aguenta a pressão do braço maior do sistema circulatório, que dia e noite martela pela necessidade quase que existencial de comprar o último carro, a última calça jeans, a bolsa, o sapato, a cerveja. São R$ 30 bilhões gastos em publicidade no Brasil. A receita é a mesma mundo afora. Daí o risco da esclerose, quando se aborda os limites de tal expansão.</em></p>
<p><em> Ou como escreveu recentemente o principal analista do Financial Times, Martin Wolf:</em></p>
<p><em> &#8211; A política monetária do QE (emissão dos bancos centrais e a compra de títulos) não ajuda as pequenas e médias empresas. Outro argumento mais plausível é que a políticas de taxas baixíssimas de juros – de 0,5% a menor em 318 anos na Inglaterra- ameaça criar empresas insolventes que continuam a operar, as ‘empresas zumbis’, portanto uma economia zumbi”.</em></p>
<p><em> O artigo dele tratava da dúvida se a política do “tsunami de dólares” funcionará ou não. Eles não sabem.</em></p>
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		<title>Coriolano e a agonia da política representativa</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Apr 2012 14:07:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Políticos brasileiros]]></category>
		<category><![CDATA[Sangue, suor e lágrimas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>

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A imagem acima é uma das ilustrações referentes à peça Koriolanus, escrita por Shakespeare em 1608, que usou como base um capítulo das Vidas            Paralelas, do historiador Plutarco. A imagem foi feita pelo pintor veneziano Giulio Carpioni (não sei em que ano). A história, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://shakespeareobra.files.wordpress.com/2008/08/coriolanus.jpg"><img class="aligncenter" src="http://shakespeareobra.files.wordpress.com/2008/08/coriolanus.jpg" alt="" width="800" height="466" /></a></p>
<p>A imagem acima é uma das ilustrações referentes à peça Koriolanus, escrita por <span style="color: #000000;"><span style="color: #000099;">Shakespeare </span></span>em 1608, que usou como base <span style="color: #000000;">um capítulo das<span style="text-decoration: underline;"> Vidas            Paralelas</span>, do historiador Plutarco. A imagem foi feita pelo pintor veneziano </span><a href="http://www.museodarcomantova.it/sito/pittori-xvii-secolo/giulio-carpioni.html" target="_blank">Giulio Carpioni</a> (não sei em que ano). A história, que trata de eventos que se passam no século V A.C. , foi filmada em 2011 por Ralph Fiennes, numa produção ambientada nos dias atuais, na Grécia e é falado em grego. O filme atualiza de forma muito legal o conteúdo político que o dramaturgo inglês deu ao relato de Plutarco:  o que é colocado em discussão por  Shakespeare é uma mudança radical na matriz política do mundo helênico, que precisava acontecer para que aquela sociedade pudesse construir as bases institucionais do pacto republicano. O autor de Romeu e Julieta tinha razões para resgatar o texto de Plutarco. Também não é à toa que o filme foi feito, como se verá abaixo.</p>
<p>Como afirma o professor <a href="http://revistabrasil.org/revista/ingles/roberto.htm#ro" target="_blank">Roberto Ferreira da Rocha</a>,</p>
<blockquote><p><a href="http://revistabrasil.org/revista/ingles/roberto.htm" target="_blank">Coriolano, o herói, pertence a uma antiga ordem de poder na qual os valores guerreiros predominam dentro de um quadro fundamentalmente hierárquico, mas o cidadão Coriolano vive num universo em que esta hierarquia é contestada e as vozes populares, como diz Annabel Patterson, começam a ser ouvidas.</a></p></blockquote>
<p>Já o que o filme permite discutir é a possibilidade do dramático cansaço  pelo qual passa o modelo da democracia representativa atual; os sacrifícios (desta vez coletivos) para a instauração de um outro modelo político; a violência acionada contra o povo, que tanto no relato de Shakespeare quanto no de Plutarco  é o ente indesejado e sujo a quebrar a harmonia do status quo político de então. Mas o filme permite discurtir sobretudo a atualização do entendimento de que a libertação é um ato histórico, realizado através de relações históricas &#8211; Eparrê, Karl Marx.</p>
<p><strong>Mas quem é Coriolano?</strong></p>
<p>É o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Agnome" target="_blank"><em>agnome</em></a> que o general Caio Marcius recebe depois de conquistar sozinho a cidade de <a class="zem_slink" title="Corioli" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Corioli" target="_blank">Corioli</a>, na luta que os romanos mantinham contra os vólcios. Esse momento marca o auge da carreira do militar, que apesar da popularidade entre os meganhas é desprezado e odiado pelo povo &#8211; a quem por sua vez,  Caio Marcius também despreza. Para o general, o povo é a antítese dos ideais heróicos que ele cultiva: honorabilidade pessoal, força e destreza guerreira e o heroísmo ligado à força moral. Coriolano vive para a conquista da honra guerreira como um fim em si mesmo e o percurso para essa merda é a violência e quase sempre a guerra. Ele foi educado para se tornar uma verdadeira máquina de guerra. Ele encarna a virtude romana e o entendimento de como as coisas deveriam ser na sociedade &#8211; aliás, essa arquitetura é explicada por <a class="zem_slink" title="Sócrates" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/S%C3%B3crates" target="_blank">Sócrates</a> em suas conversações e organizada por Platão na forma d&#8217;<a href="http://pt.scribd.com/doc/6077389/Platao-A-Republica" target="_blank">A República</a>).</p>
<p>Mas, naqueles dias, as coisas estavam mudando, pois estes valores eram os mais valorizados pela aristocracia em seus tempos dourados e vinham sendo contestados, através da política, pelo povo. Este, percebia que essa &#8216;virtude&#8217; de Coriolano não estava a serviço do bem comum. Quando Caio Marcius, agora Coriolano, volta da guerra, os Senadores da República oferem-lhe um cargo de Cônsul. Só que, pela tradição, o general pŕecisaria pedir na Ágora, o voto do povo.</p>
<blockquote><p><a href="http://revistabrasil.org/revista/ingles/roberto.htm" target="_blank">O papel que Coriolano é obrigado a encarnar para conseguir o posto de cônsul vai de encontro a suas convicções. O papel de bajulador lhe é intolerável. Mas esta intolerância está montada sobre a convicção, por parte de Coriolano, de que qualquer tipo de acordo ou decisão política que dependa do apoio do povo só pode levar ao caos social e a desordem.</a></p></blockquote>
<p><strong>O filme</strong></p>
<p>Foi justamente essa perspectiva elitista que Shakespeare quis explorar. Quando ele escreveu a peça, o Estado monárquico inglês sofria de uma crise de identidade e de legitimidade &#8211; mais ou menos como os nobres de pés sujos que emporcalham o Senado e a Câmera dos Deputados no Brasil, nos dias que correm. A Revolução Gloriosa de 1642 foi o resultado da ladeira abaixo que a coroa rolou desde o final do reinado de Elizabeth, passando pelo rei James I.</p>
<p>O filme claramente procura situar e associar a crise política que narra à (<a href="http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/credores-aceitam-negociacao-da-divida-grega" target="_blank">quase</a>)  falência do Estado Grego recente, à crise financeira que assolou o  país. Mas é possível também associa-lo à derrocada do sistema  representativo ilustrado no cu de boi em que se tornou a chancela  popular do Cônsul Coriolano à  <a href="http://roarmag.org/2011/10/o-ano-de-2011-marca-o-fim-do-fim-da-historia/?utm_source=feedburner&amp;utm_medium=feed&amp;utm_campaign=Feed%3A+roarmag+%28Reflections+on+a+Revolution%29&amp;utm_content=Google+Reader" target="_blank">segunda onda da crise financeira global</a>, como resultado desta. Ou seja, um primeiro e imediato entendimento do filme é o questionamento da necessidade dos políticos que, como Coriolano, desprezam o povo, a democracia popular e o bem comum. Mais além, a necessidade de mudança de todo um sistema produtivo que é amparado e tem na política representativa sua contraparte superestrutural. É nesse sentido que o filme <span style="text-decoration: underline;">pode</span> ser compreendido. Ressalto o &#8216;pode&#8217; porque essa é uma interpretação particular. E, ainda que não seja tão difícil desenvolvê-la ao se assitir o filme, este não é uma interpretação marxiana da peça de Shakespeare a partir de Plutarco (blarghhh).</p>
<p><a href="http://images.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2012/02/charge-hercules.jpg"><img class="aligncenter" src="http://images.rodrigovianna.com.br/wp-content/uploads/2012/02/charge-hercules.jpg" alt="" width="470" height="443" /></a></p>
<p><strong>As ironias e os diferentes Coriolanos de cada época<br />
</strong></p>
<p>Voltando à política: tanto no relato de Plutarco, quanto na recriação de Shakeaspeare quanto no filme de Ralph Finnes a mudança política é função das mudanças na base da produção, ou das contradições que a forçam a isso. Não é à toa, por outro lado, que tantos Coriolanos vivem entre nós, capinando flores num jardim irrigado de corrupção, interesses privados e megalomania: de Demóstenes, Bornhausen, e os sete anões do orçamento, aos artífices da financeirização da vida em Wall Street todos atualizam pateticamente a arrogância do general Caio Marcius Coriolano frente às forças produtivas e o desprezo pelo povo. E nessa medida também reeditam o pensamento de fundo aristocrático que procurou, no mundo helênico, manter a política e o desentendimento (ou o entendimento da distribuição das riquezas) como uma prerrogativa de parte dos cidadãos &#8211; justamente a elite. E por essa mesma razão, atestam um momento de ruptura e de passagem, que coroa a sua obsoletização.</p>
<p>O autismo intencionado de um Coriolano como Bornhausen, só apra tomar um destes como exemplo, atesta o mesmo tipo de arrogância e de desprezo aos bens comuns e ao povo que o expresso  pelo general Caio Marcius Coriolano &#8211; com a desvantagem de que ao este último justificava sua forma de proceder pela busca da honra e da defesa da cidade (a Nação Romana). Em um país como o Brasil, cujo elemento básico da política é a não-política, é a anulação das diferenças via consertação pelo alto, via acordo entre os grupos de interesse; em países como o Brasil na qual a desnecessidade forçada da política se associa a nossa cruel desigualdade e exclusão, o resultado é a desnecessidade do povo e do trabalho pelo bem comum. Modelo aliás, muito bem sucedido.</p>
<p>Aliás, há uma ironia nas diferenças que precisam ser observadas entre o Coriolano herói de guerras e amante de Roma e gente como DEM-óstenes. Ambos estão obosoletos, não se encaixam nem atendem mais ao que seus respectivos povos exigem e precisam como homens públicos. Entretanto, Caio Marcius, o Coriolano original, é obsoleto porque estava em andamento um processo de amadurecimento de &#8216;democratização da democracia representatriva&#8217; romana, que se apresentava pela participação popular na discussão política por m eio dos tribunos, os representantes do povo. Os Coriolanos genéricos atuais confirmam os limites desse modelo e os vícios que se sobrepuseram com o tempo. Nesse sentido, pretam um enorme desserviço à herança política do modelo democrático e da utopia da Res-publica.</p>
<p><strong>Contradições</strong></p>
<p>Como escreve o professor Roberto Ferreira da Rocha, Shakespeare  aponta, via Plutarco, para a rafaméia inglesa, as contradições básicas  daquela sociedade. Por outro lado, e não tão outro lado assim, novamente  evocando o <a href="http://media.pfeiffer.edu/lridener/DSS/#marx" target="_blank">Santo Graaal</a>,</p>
<blockquote><p>Assim como não se julga o que um indivíduo é a partir do  julgamento que ele faz de si mesmo, da mesma maneira não se pode julgar  uma época de transformação a partir de sua porópria consciência; ao  contrário, é preciso explicar esta consciência a partir da contradições  da vida material, a partir do conflito existente entre as forças  produtivas socioais e as relações de produção. Uma formação social nunca  perece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas para  as quais ela é suficientemente desenvolvida, e novas relações de  produção mais adiantadas jamais tomarao o lugar, antes que suas  condições materiais de existência tenham sido geradas no seio mesmo da  velha sociedade. É por isso que a humanidade só se propõe as tarefas que  pode resolver, pois, se se considera mais atentamente, se chegará à  conclusão de que a própria tarefa só aparece onde as condições materiais  de sua solução já existem, ou, pelo menos são captadas no processo de  seu devir.</p></blockquote>
<p>Talvez esse seja o questionamento mais interessante que o filme aponta: até que ponto podemos ir além dos diagnósticos político-econômicos no sentido do exercício da construção de um política (melhor seria dizer de Políticas) que nos retirem do Inferno? Como explorar as contradições atuais do (s) sistema (s) produtivo (s) atuais em termos de transformação social? Como acionar, nas relações sociais de produção em construção atualmente, as demandas reais, de homens reais, pelo bem comum? E, pensando nessa última pergunta, como transformar utopia libertária num programa de trabalho? E além: como realizar tais utopias superando a era dos heróis e salvadores?</p>
<p>Abaixo, o trailer. E <a href="http://kat.ph/usearch/coriolanu/" target="_blank">aqui</a>, o link para quem quiser fazer o download do filme.</p>
<p style="text-align: left;">
<p style="text-align: center;">[There is a video that cannot be displayed in this feed. <a href="http://www.locoporti.blog.br/coriolano-e-a-agonia-da-politica-representativa/">Visit the blog entry to see the video.]</a></p>
<div class="zemanta-pixie" style="margin-top: 10px; height: 15px;"><a class="zemanta-pixie-a" title="Enhanced by Zemanta" href="http://www.zemanta.com/"><img class="zemanta-pixie-img" style="border: medium none; float: right;" src="http://img.zemanta.com/zemified_e.png?x-id=1028447c-9859-4892-9dfb-87139f1d936a" alt="Enhanced by Zemanta" /></a></div>
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		<title>Manifesto – A tortura continua&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2012 15:11:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[﻿por Carlos Beltrão do Valle, em 31 de março de 2012
Venho, através deste manifesto, apresentar minha visão sobre os protestos contra o debate “1964 – A Verdade” no Clube Militar, na Av. Rio Branco, centro do Rio de Janeiro, onde, militares da reserva comemoravam a ditadura de 1964, que denominadas por eles “revolução”. Outra mentira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>﻿<span style="font-family: Arial,serif;"><span style="font-size: x-small;">por <a href="http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2012/03/505805.shtml" target="_blank">Carlos Beltrão do Valle, em 31 de março de 2012</a></span></span></em></p>
<p><em><a href="http://26.media.tumblr.com/tumblr_lbj1d5CLlK1qz6f9yo1_500.jpg"><img class="alignright" src="http://26.media.tumblr.com/tumblr_lbj1d5CLlK1qz6f9yo1_500.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a><span style="font-family: Arial,serif;"></span></em>Venho, através deste manifesto, apresentar minha visão sobre os protestos contra o debate “1964 – A Verdade” no Clube Militar, na Av. Rio Branco, centro do Rio de Janeiro, onde, militares da reserva comemoravam a ditadura de 1964, que denominadas por eles “revolução”. Outra mentira deles é dizer que o golp foi dado no dia dia 31 de março, e não no dia 1º de abril – dia da mentira, por razões propagandísticas óbvias.</p>
<p>Diante desse cenário absurdo, ao sair o meu expediente, compareci ao protesto, que ocorria, em frente ao meu local de trabalho. Fui cumprir com meus direitos de cidadão, pedindo justiça pelos crimes contra a humanidade cometidos por esses senhores, que mataram e desapareceram com centenas de pessoas, torturaram milhares. O Brasil foi condenado pela OEA e já deveria estar cumprindo a sentença (link). Ao invés de estarem presos, estes ilustres senhores celebram anualmente o golpe de Estado e seus crimes. Isso é uma afronta, ainda mais para mim, que tive um tio que foi desaparecido (Ramires Maranhão do Valle, presente!) e pais que foram barbaramente torturados na ditadura.</p>
<p>Como muitos, cerca de 500 presentes ao longo do dia, coloquei o dedo na cara de um desses senhores e gritei: “Golpista, torturador e assassino!”. Ele me deu um tapa na cara e reagi com um chute. Depois dessa humilhação: tomar um tapa de um torturador, os policiais militares se voltaram exclusivamente contra mim, que tentei fugir. Após correr 500 metros, vendo que seria alcançado, me entreguei. Botei as mãos na cabeça e virei de costas, conforme gritavam. No entanto, mesmo obedecendo, já rendido, comecei a ser agredido com cassetes na cabeça e, mesmo caído no chão, fui chutado e pisoteado na cabeça. Levado à delegacia, constatei que somente eu tinha sido levado para a averiguação, o senhor torturador não. Então me liberaram. Como poderiam me prender se a “vítima” simplesmente não existia?</p>
<p>Porque somente eu fui preso? Porque fui espancado, se já rendido (mesmo em plena luz do dia e no centro financeiro do Rio)? Estaria vivo se fosse na Baixada, à noite, sem testemunhas? Por que a polícia continua torturando e matando pobres, mesmo após a ditadura? Porque o Brasil não cumpre não sentença da OEA, prendendo os torturadores e resolve logo o seu passado? Por essas e outras questões não podemos nos iludir achando que vivemos em uma democracia, pois nossa sociedade só aumentou os problemas da ditadura: tortura, assassinato e desaparecimento pelas forças policiais. O que mudou foi o alvo.</p>
<p>Eu exponho a minha visão, não tenho medo. Sou funcionário da Caixa e estudante da UNIRIO. Gostaria que esse torturador fosse à delegacia e prestasse queixa contra mim. Que saísse das sombras e apresentasse sua versão. Poderíamos inclusive aproveitar a oportunidade para esclarecer sobre seu passado, sobre as pessoas que torturou e assassinou. Talvez meu tio? Quando minha família saberá?</p>
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		<title>Dilma: na capa de Veja e nua na tribo</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2012 14:51:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Carlos Pinto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Commons]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação]]></category>
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Por Ricardo Targino*
Desde a vitoriosa campanha eleitoral de Dilma Rousseff, o panorama  das lutas políticas pelo mundo alterou-se substancialmente.  Nos últimos  meses, movimentos de enorme lastro em todo planeta articularam-se ao  redor das redes. A partir da Praça Tahir, da Porta do Sol e do  OccupyWallStreet, essa nova articulação global [...]]]></description>
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<p style="text-align: right;"><em><a href="http://www.trezentos.blog.br/?p=6869" target="_blank">Por Ricardo Targino*</a></em></p>
<p><em>Desde a vitoriosa campanha eleitoral de Dilma Rousseff, o panorama  das lutas políticas pelo mundo alterou-se substancialmente.  Nos últimos  meses, movimentos de enorme lastro em todo planeta articularam-se ao  redor das redes. A partir da Praça Tahir, da Porta do Sol e do  OccupyWallStreet, essa nova articulação global teve seu auge no dia 15  de outubro, com grandes manifestações que derivaram em vários  acampamentos em importantes cidades do mundo, naquela que foi a maior  manifestação conjunta da história da humanidade: mais de 870 cidades ao  redor do globo aderiram ao protesto.</p>
<p><a href="http://25.media.tumblr.com/tumblr_lmxdzoiCdW1qeypn2o1_500.jpg"><img class="alignleft" src="http://25.media.tumblr.com/tumblr_lmxdzoiCdW1qeypn2o1_500.jpg" alt="" width="500" height="691" /></a>Neste momento, um novo chamado varre as redes sociais: um nova  mobilização global no dia 12 de maio. Nos EUA, a primavera promete ser  de novas e grandes manifestações situando a disputa política no coração  do capitalismo financeiro internacional. O OccupyWallStreet já vem  fazendo o que chamam de ‘spring training’ e as eleições presidenciais  tendem a tornar mais significativos os protestos. Por lá, é grande o  esgotamento do modelo bipartidarista. Aos olhos nus, a cena política  institucional americana está dominada pelo lobby das grandes corporações  e a distância entre a política oficial e o cidadão comum é imensa.  Diante da crise, o discurso dos ativistas do OcuppyWallStreet tem enorme  impacto e as ações crescem. É por isso que vem recaindo sobre estes  protestos uma violência policial cada vez mais desproporcional, a tal  ponto que em NY diversos conselheiros do governo local passaram  publicamente a fazer críticas ao Departamento de Polícia e a exigir as  garantias constitucionais do livre exercício do direito de assembleia e  reunião. Na Espanha, a primavera recomeçou com greve geral e mais de um  milhão nas ruas. Em Portugal a dura repressão só fez crescer a  organização do movimento. E o calor dos protestos ganha o planeta  inteiro.</p>
<p>Aqui no Brasil, um setor importante do ativismo que vinha se articulando  desde os governos Lula passou a atuar de modo mais organizado  justamente na dura campanha travada nas redes pela eleição de Dilma  Rousseff. Blogueiros, artistas, produtores de cultura, líderes  comunitários, gente da comunicação e do direito, do movimento de saúde  pública, ONGeiros de todo tipo, ambientalistas, LGBT’s, galera da bike e  do skate, tribos diversas com um ponto de encontro comum: a internet.  As redes tornaram-se uma das mais ativas arenas do debate e da ação  política também no Brasil. Aqui elas ainda possibilitaram duas coisas  realmente novidosas na idiossincrasia nacional: tanto uma afirmação da  diferença (e o respeito ao Outro que ela obriga), como o surgimento de  novas condições para o exercício cada vez mais prático da cidadania (em  sua acepção mais republicana, no sentido da participação nos rumos da  vida imediata). Convém lembrar que toda articulação política que venha  no sentido de combater privilégios e preconceitos, provocando a  ampliação do espaço do exercício do poder, constitui um avanço de nossa  sociedade rumo à plena democracia. São inúmeros os movimentos  organizados que já atuam de modo diferenciado, funcionam como redes,  espalham informação, compartilham posições, preparam-se para agir.  Diante da decadência dos partidos e do descrédito na via institucional  da política, estes movimentos têm-se apresentado como uma alternativa  concreta de ação. Isso prova que a cultura digital é também uma nova  cultura política. Uma cultura política erguida horizontalmente.</em><em><span id="more-2669"></span><br />
<strong> Pós-Lula</strong></em> <em><br />
O Brasil pós-Lula é um país conectado na novidade e nutrido do desejo  permanente de ser outro. Aqui, ser outro sempre significou sermos cada  vez mais parecidos com quem nós realmente somos. Outro Brasil. O lulismo  bebeu justamente na fonte desse imaginário. Sua força, super pop,  reside na dimensão da possibilidade real de mudança. Do país condenado  ao atraso, do balneário das corruptas e servis elites nacionais,  passamos a viver no Brasil do imaginário lulista que é muito mais  parecido com o que ele realmente é: uma fábrica de esperanças.</p>
<p>Durantes estes 15 meses de governo Dilma Rousseff, entretanto, os ‘trend  topics’ da cena política tem causado constrangimentos e mostrado a  enorme distância entre Brasília e o Brasil das redes e do ativismo. No  campo dos direitos civis, avanços substanciais vindouros do STF, como o  reconhecimento da união gay e do direito de manifestação no caso da  Marcha da Maconha certamente ampliam as garantias democráticas. O gesto  do STF, porém, viu-se acompanhado pela articulação de lobby’s do tipo  evangélico e o homofóbico que tem atuado para impedir que mais políticas  democráticas possam ser implementadas. Diante da agenda dos direitos  LGBT’s, o governo Dilma tem cedido ao lobby conservador ao ponto do  movimento ter recentemente declarada inimiga da causa gay a Presidenta  da República. O mesmo vem ocorrendo em relação à agenda ambiental. Na  queda de braço entre a sustentabilidade e o modelo predatório do  crescimento que pretendem as grandes corporações, empreiteiras,  ruralistas e agro-especuladores, os setores conservadores também têm  obtido vitórias. O constrangimento nas redes em relação ao código  florestal e à construção de Belo Monte ainda não provocou nenhuma  sinalização clara do governo apesar da enorme discussão que tem  levantado. Dentre os demais ‘trend topics’ da política, há ainda temas  como o marco regulatório da mídia e o plano de banda larga, ambos  marcados pela lentidão ou pela hegemonia do poder econômico das  corporações que têm tentado frear o estabelecimento de políticas  públicas mais que necessárias. No caso do marco regulatório da  comunicação, os passos dados para o início de uma consulta pública só  aconteceram pela determinação da sociedade civil organizada, com o  governo a reboque. No caso do Plano Nacional de Banda Larga, o projeto  tornou-se uma dupla carroça: pelo serviço que oferece e pela lentidão na  implantação do programa. Ao não entender que internet e banda larga são  infraestrutura necessária ao desenvolvimento, o governo vacila até  mesmo no projeto de aceleração do crescimento econômico.</p>
<p>É cada vez mais amplo o setor do lulismo e do petismo que já reconhece  uma distância enorme entre a gestão de Dilma e os anos de governo Lula.  Surgem temores de que o medo ou a força do dinheiro tenham vencido a  esperança e deixem deserta a defesa do legado de Dilma diante de um novo  embate eleitoral.</em></p>
<p><em><strong>Quem sustenta Ana de Hollanda?</strong></em> <em><br />
Há um elemento chave para pensarmos o governo Dilma afim de melhor  compreendê-lo: a crise sistemática e estrutural do Ministério da  Cultura. A cultura tornou-se elemento central de valor no capitalismo  contemporâneo. Muitos pretendem isentar Dilma das responsabilidades pela  mudança de rumo do MinC, alegando o tradicional descaso dos políticos  em relação à cultura. Não parece ser o caso de Dilma. Nos dois governos  Lula, o MinC tornou-se vanguarda mundial no que toca ao desenvolvimento  de arrojadas políticas para resituar a questão do direito autoral frente  ao modelo proprietário e fordista que representava um entrave à lógica  do compartilhamento e da universalização do acesso ao conhecimento que  nortearam o MinC de Gil e Juca. Daí vem a questão: o recuo do MinC para  políticas proprietárias que operam com um conceito de cultura do século  XIX não seria política de governo endossada por Dilma? Os mais diversos  governos do mundo, sob o argumento de garantir os direitos de autor,  dentro da lógica anacrônica (ana-lógica) das corporações, tem feito  esforço no sentido de impor restrições à internet e ao compartilhamento.  O Brasil vinha se destacando no cenário internacional justamente por  apresentar uma política muito mais condizente com as condições atuais do  intercâmbio da produção simbólica e, principalmente, por tentar  responder ao seu enorme déficit interno de distribuição dos bens  culturais e universalização do acesso ao conhecimento.</p>
<p>Para entender a crise do MinC é importante relembrar algo: Gil e Juca,  durante os dois governos Lula, modificaram a lógica desse ministério.  Onde antes havia um balcão, criou-se uma ferramenta de mudança. Onde  antes os recursos se concentravam em poucas mãos passou-se a  compartilhá-los entre o maior número possível de agentes. E a injeção  não foi apenas de dinheiro. Seu caldo de cultivo é super fértil:  surgiram novos sujeitos do processo político brasileiro. São eles que  vêm chegando ao centro da cena e impondo o embate com a Ministra. Gente  exercendo cada vez mais plena participação cidadã. Senhores de seu poder  político local e global, um enxame enorme que vai dos mestres de  cultura popular aos hackers.</p>
<p>Dilma elegeu-se no discurso da continuidade. Gravou vídeos  comprometendo-se, por exemplo, com a continuidade e ampliação dos Pontos  de Cultura de Lula. Enquanto o MinC, por política do Planalto, vem  destinando milhões para as Praças do PAC, endereçando dinheiro às  empreiteiras (como se o Brasil precisasse mais desse tipo de  infraestrutura que de equipamento humano) o Programa Cultura Viva vem  sendo liquidado na asfixia orçamentária. Enquanto se implanta pela  América Latina afora, aqui os Pontos de Cultura são uma das maiores  vítimas da gestão da filha de Sérgio Buarque de Hollanda, quem  certamente lhe teria já feito um duro puxão de orelha. Dilma,  entretanto, sustenta Ana e a mudança de rumo do MinC. Porque,  Presidenta?</p>
<p>Para mostrar-se pouco sensível com os milhares que aderiram aos diversos  manifestos pedindo correção de rumos no MinC? Para ser inflexível com  os intelectuais, gente como Marilena Chauí? Ou para dar-nos o recado de  que este NÃO É nosso governo?</p>
<p>O que se passa no Ministério da Cultura não é fofoca ou má-fé, como quer  fazer entender a ministra. Ali há um estelionato eleitoral! Apesar do  compromisso eleitoral de Dilma, pratica-se uma política de ruptura com o  MinC de Lula. O constrangimento para um homem como Juca Ferreira ter  que vir a público advertir do retrocesso é muito grande para o próprio  ex-ministro, para o seu governo e para seu partido! Mas Dilma parece  determinada a não ceder a esta pressão! A mesma Dilma que tem cedido aos  evangélicos, aos ruralistas, às pressões de acomodação política da base  do governo no Congresso. Mas ceder à sociedade, por quê?</p>
<p>Há ainda as suspeitas relações entre o ECAD e MinC de Ana de Hollanda. É  gravíssimo que se confirme que o ECAD opera no Ministério e muito mais  grave seria descobrir que o ECAD tem entrada na Casa Civil ou no Palácio  do Planalto.<br />
Aos agentes da cultura e suas redes lhes resta o recurso dos manifestos e  cartas abertas. Vimos muito disso nestes 15 meses sem qualquer  sinalização do Planalto. Os setores mais poderosos desta disputa, o  ECAD, as majors da indústria cultural e os coronéis da velha pirâmide da  produção artística também exercem sua pressão pela manutenção da  ministra e de sua política. Alguns deles inclusive têm vindo à público  manifestar seu apoio. José Neumane Pinto, por exemplo, recentemente  publicou no Estadão uma defesa de Ana de Hollanda. O mesmo Neumane que  afirmou: “Lula conseguiu colocar no lugar dele quem ele quis, um poste  (Dilma), que ele pode manipular da maneira dele.”<br />
<strong><br />
Não é por acaso que ao redor da defesa do MinC atual se reúnam  setores da sociedade que se opunham a Lula e ao projeto encabeçado por  ele</strong></em> <em>. Foram estes setores que ganharam espaço no Governo Dilma.  Setores dos quais o projeto estratégico do PT torna-se cada vez mais  dependente. Setores que se utilizam do lobby para a pressão política.  Convém lembrar que como denunciam os movimentos globais o lobby é espaço  propício para os cartéis e quadrilhas que se servindo do tráfico de  influência garantem a hegemonia de suas posições, seus privilégios e seu  lucro. Boa parte destes setores há bem pouco tempo atrás eram vistos  pelo próprio PT como representantes do ‘atraso’ e do ‘complexo de  vira-latas’.<br />
Entre as redes, os pontos de cultura, os intelectuais, artistas, ONGs,  ambientalistas, os gays e umas quantas outras tribos a escolha da  presidenta Dilma tem sido Ana de Hollanda, o ECAD, os ruralistas, as  empreiteiras e o sistema financeiro. Até o movimento sindical, berço do  PT, aumenta as críticas ao governo. Na sistemática crise do MinC, Dilma  ratificou sua escolha seguidas vezes e agora contra setores históricos  do PT, medalhões da talha de Marilena Chauí. Mas o Brasil votou pela  continuidade de um projeto. Elegemos o projeto de reforma democrática.  Elegemos ser cada vez mais parecidos com quem nós realmente somos. E  isso ninguém poderá modificar facilmente sem que o Brasil reaja.</em></p>
<p><em><strong> Os 99%</strong><br />
Os vídeos que circulam pela internet convocando os protestos globais do  dia 12 de maio trazem a imagem de Dilma que aparece na edição junto a  outros chefes de governo de importantes economias do planeta. O ativismo  global bota o dedo na ferida: o governo federal tem assumido cada vez  mais a cara que vimos estampada na capa da Veja. No governo Dilma, para  as redes sociais e para os setores da cultura, o projeto popular vem  perdendo o espaço conquistado com Lula. Sem o toque de Midas do  ex-presidente, e sem seu grande carisma, os gestos de Dilma frente às  tantas agendas da rede vão distanciando setores que fizeram uma corajosa  campanha por sua eleição… A decepção ganha força e corre o risco de  transformar-se em antipatia rapidamente.</p>
<p>Oito anos de governo popular e uma eleição vitoriosa nos permitiram o  acúmulo de forças. Lula gosta de agradar as maiorias. Dilma, entretanto,  parece determinada a atender os “petit comité”. Quanto a nós? Nós somos  os 99%. A pergunta deste momento histórico em todo o planeta é  justamente essa: até quando o 1% seguirá dando as cartas? <strong>No  Brasil podemos nos perguntar: estaria o governo Dilma se tornando uma  virada de mesa do 1% que pretende retomar o terreno perdido nos avanços  democráticos da Era Lula?</strong></p>
<p>O motor da luta política no Brasil, seus inúmeros ativistas e  militantes, cibernéticos ou old style, construíram seu imaginário no  afeto com Lula. Lula-Macunaíma! Nos Estados Unidos, o novo ativismo  também tem ainda laços afetivos com Obama. Obama o primeiro negro, Lula o  primeiro operário e Dilma a primeira mulher. No discurso de todos:  mudança. Mas até a noção de mudança se altera quando realidade se impõe.  As praças e acampamentos da aldeia global vêm dando o recado: <strong>não basta falar, é preciso SER a mudança.</strong></em></p>
<p><em><strong> </strong>É por isso que aqui no Brasil, onde a metamorfose é vocação natural, o  cenário político também pode ser alterado rapidamente. Somos o  imponderável, como as redes e seus fenômenos. Essa imponderabilidade  enorme, essa deriva, o estar entre a “delícia e a desgraça”, pode nos  fazer esperar as eleições para impor questionamentos, apontar as  rupturas de confiança e articular as alternativas, mas pode também  adiantar nas ruas o embate político, reconfigurar o campo da disputa  democrática à velocidade dos megabytes. Vem sendo assim em diversas  primaveras pela aldeia global. Foi assim inclusive frente a governos de  cores mais avermelhadas, como os socialistas espanhóis com sua posterior  derrota nas urnas, ou com o próprio governo Obama obrigado a responder  às ruas de Manhattan e seus ecos por todo o país.</p>
<p>Para nossa alegria a decisão mais importante expressa pelo Brasil na  eleição de Dilma é que nós estamos decididos a ser ‘Outro Brasil’. Seja  lá que opção Dilma faça, quer corrija rumo e marche junto com os setores  mais progressistas ou quer opte pelas cartas dadas pelo 1%, a opção do  Brasil já foi feita: nós seremos cada vez mais parecidos com aquilo que  somos. Seremos o país que já decidimos ser. Avançaremos com as reformas  democráticas e com a ampliação da democracia com ou sem o clima  favorável no governo, com ou sem o PT, tendo um Ministério da Cultura  articulado nas políticas inovadoras ou paralisado no despreparo e na  retaguarda política.</p>
<p>Avançaremos porque somos os 99%. Porque somos legião. Já não esperamos  pela mudança. Fazemos a mudança. Somos a mudança. E não esquecemos.</em></p>
<h3><em>Somos um enxame que para erguer sua doce colmeia de sonhos faz um barulho enorme. E este barulho se agiganta!</em></h3>
<p><em>*Ricardo Targino é cineasta e ativista dos movimentos de cultura e  comunicação. Foi coordenador-geral da ENECOS (Executiva Nacional dos  Estudantes de Comunicação Social). Dirigiu o premiado curta Ensolarado e  prepara para o próximo mês as filmagens de Quase Samba, sua estreia na  ficção de longa-metragem. Esteve nos últimos meses em NY acompanhando as  atividades do OccupyWallStreet.</em></p>
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