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Marcel Leonardi, na coluna do Nassif

Segue meu comentário sobre o problema do artigo 20 do anteprojeto do Marco Civil da Internet com relação às limitações à liberdade de expressão. Publiquei os mesmos comentários no web site do Marco Civil.

Texto do artigo 20:

“O provedor de serviço de Internet somente poderá ser responsabilizado por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se for notificado pelo ofendido e não tomar as providências para, no âmbito do seu serviço e dentro de prazo razoável, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente”

Minhas considerações:

Creio que a solução apresentada pelo anteprojeto, apesar de ter em mente o direito legítimo de uma vítima de ato ilícito remover rapidamente determinado conteúdo da rede, tem sérias implicações para a liberdade de manifestação do pensamento online. Não creio que se possa prescindir de análise judicial e ordem específica para a retirada de conteúdo, já que decidir sobre a legalidade ou ilegalidade do material – em todas as suas possíveis formas – é algo necessariamente subjetivo, além de ser prerrogativa exclusiva do Judiciário, e não de usuários ou de provedores.

A jurisprudência inclusive caminha nesse sentido, com diversas decisões destacando que decidir a respeito da legalidade ou ilegalidade do conteúdo questionado é papel do Estado, que não pode ser usurpado pelos intermediários ou pelos usuários.

Além disso, é preciso destacar que muitas informações controversas são mantidas online, hoje, porque aqueles interessados na remoção desse conteúdo sabem que o Judiciário não concederia ordens nesse sentido. Adotado o sistema de notificação, há um claro risco de que pessoas e empresas passariam a exigir a remoção de informações claramente lícitas, apenas porque a divulgação desse material não lhes agrada.

Por fim, é preciso destacar que a lei apenas alcançaria provedores brasileiros de serviços. É simples imaginar que muitos usuários que produzem conteúdo controverso, de modo a evitar a retirada desse material mediante simples pedido da suposta vítima, migrariam para serviços estrangeiros, esvaziando os serviços de provedores nacionais que estariam sujeitos a esse sistema.

Sobre o tema, em minhas obras “Responsabilidade Civil dos Provedores de Serviços de Internet”  e “Responsabilidade Civil na Internet e nos demais meios de comunicação”, havia exposto o seguinte:

“(…) Havendo controvérsia sobre a ilicitude do conteúdo, e não tendo ocorrido violação dos termos de uso do web site, não devem os provedores de hospedagem ou de conteúdo remover ou bloquear o acesso às informações disponibilizadas mas, sim, aguardar a resolução do problema pelo Poder Judiciário, a quem caberá decidir se houve ou não excesso no exercício das liberdades de comunicação e de manifestação de pensamento, violação a direitos autorais ou de propriedade intelectual, entre outras práticas passíveis de lesar direitos alheios, e determinando, em caso positivo, as providências necessárias para fazer cessar a prática do ilícito. Recorde-se, ainda, que tal solução é a que melhor atende aos interesses da vítima, tendo como vantagem não sujeitar o provedor a emitir juízo de valor sobre a licitude do conteúdo, o que poderia causar distorções graves ou decisões arbitrárias”. (Marcel Leonardi, Responsabilidade Civil dos Provedores de Serviços de Internet, p. 182)

Ronaldo Lemos também já havia dito o seguinte:

“(…) Em casos em que a liberdade de expressão possa ser de qualquer maneira afetada, uma solução seria a possibilidade de o provedor manter o conteúdo disponível online, mas com a ressalva de que aquele conteúdo está sendo questionado como violador de direitos. O detentor de direitos autorais, neste caso, teria de recorrer ao Judiciário para promover a remoção do conteúdo, que seria feita liminarmente somente no caso de não haver prejuízo à liberdade de expressão, consideradas as peculiaridades do caso. Um efetivo mecanismo de equilíbrio entre os diversos princípios envolvidos, assim, deve constar de um texto legal que lide com este tema. Estes interesses são, entre outros: preservação de direitos autorais, liberdade de expressão, manutenção de conteúdo na internet (pluralidade semiótica), manutenção da neutralidade dos meios de transmissão de informações” (Direito, Tecnologia e Cultura, p. 60-61).

Em outro trecho, Ronaldo Lemos também disse o seguinte (o exemplo se refere a direitos autorais, mas serve para qualquer tipo de conteúdo):

“Com isso, é possível que um efeito de quase “censura branca”, como o que aconteceu nos Estados Unidos, possa acontecer no Brasil. O mecanismo funciona da seguinte forma: o provedor recebe uma notificação, geralmente redigida por um advogado, alertando-o de que determinado conteúdo armazenado em seus sistemas viola o direito autoral de um alegado detentor. Essa notificação desencadeia os dispositivos do art. 36, pelos quais, uma vez que o provedor se encontra ciente de que a informação em seu sistema viola direitos autorais, ele se torna responsável civil e criminalmente por tal violação, a não ser que esta seja removida imediatamente. O espaço para abusos deste modelo é enorme. Temeroso de que sua responsabilidade seja deflagrada, o provedor, geralmente, tende a acatar todo e qualquer tipo de notificação recebida, retirando conteúdo do “ofertante” (usuário dos seus serviços) da rede, sem qualquer escrutínio mais cuidadoso.” (Direito, Tecnologia e Cultura, p. 45).

Sugiro, assim, nova redação para o artigo 20, com o seguinte teor:  “O provedor de serviço de Internet somente poderá ser responsabilizado por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ser intimado para cumprir ordem judicial a respeito, não tomar as providências para, no âmbito do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente”, ficando prejudicados os demais trechos do artigo 20 e os artigos 21, 22, 23 e 24.

Sem tempo nenhum para escrever mais longamente sobre a interseção entre o ambiente digital e os ambientes não-digitais, digamos assim. O fato é que essas utopias tem tomado formas vez por outras trágicas, drmáticas, ás vezes tecnofílias. E, muitas vezes, são encaradas ludicamente como nesse vídeo feito pela One More Production .

Considerando as ações coletivas com mídias livres como instâncias da sociedade civil, e lembrando que esta na teoria gramsciana é a instância de exercício da hegemonia (em que os grupos dirigentes procuram ganhar aliados para suas posições mediante a direção política e o consenso), é necessário ter claro que o programa político que viemos estudando não se alia à conquista/manutenção dessa hegemonia. Há uma inapropriedade, uma desconexão entre a virtuosidade das ações coletivas com mídias livres e seu papel de instrumento de hegemonia que essa instância da sociedade civil poderia assumir se não fossem suas caracterísiticas próprias desenvovidas e analisadas até aqui. Isso quer dizer que as ações coletivas com mídias livres não servem para a conquista da hegemonia pelo bloco histórico no poder atualmente? Significa que os conceitos, metodos, discursos, e instrumentos imateriais desenvolvidos pelas ações coletivas com mídias livres podem ser instrumentalizados. É aqui que se situa o limite da abordagem gramsciana das ações coletivas com mídias livres. A compatibilidade não é completa, 100%. Isso porque a luta hegemônica nos termos de Gramsci visam a conquista da totalidade social; mas as tramas, os hardis, as táticas, as submidialogias se situam no aquém dessa possibilidade e para além de sua concretização. A questão que se impõe é: qual a visada das ações coletivas com mídias livres com relação à ação sobre a totalidade social e a esperada mudança desta?

Por Luciana Palharini, do site Comciência

Há quem pense que não há, na história da música, revolução maior do que o formato digital. Mas do analógico ao digital, muita história se passou. Para isso, é preciso voltar bem atrás no tempo, em meados do século XIX, um tempo em que a música exigia a espera do evento que iria acontecer, quando a única possibilidade de experienciá-la era assistir uma orquestra que estaria na cidade. Exigia também silêncio, atenção, os ouvidos ficavam atentos tanto quanto os olhos, e o que se levava para casa eram apenas a memória e os sentidos.

A primeira invenção capaz de gravar e reproduzir o som e, consequentemente, de possibilitar a audição doméstica da música, foi criada em 1877, por Thomas Alva Edison (1847-1931), em Nova Jersey, nos Estados Unidos. O aparelho foi batizado de phonograph, que poderia ser traduzido por fonógrafo, e consistia num cone em cujo vértice era colocada uma membrana ou diafragma com uma agulha no centro e um cilindro metálico ligado a uma manivela que, acionada manualmente, fazia o cilindro girar com o propósito de gravar ou reproduzir um som. É o período dos cilindros, denominado por pesquisadores, como Eduardo Andrade, professor do curso de música do Instituto de Artes da Unicamp, como “período acústico mecânico”. Ou seja, intervenção elétrica zero.

O disco, na forma circular como conhecemos, hoje apelidado carinhosamente de “bolachão”, foi criado em 1887 por um imigrante alemão, Emile Berliner, e era tocado pelo gramofone, aparelho construído por Eldridge R. Johnson e que tinha um motor helicoidal. No início, era feito de goma-laca, uma secreção vegetal importada da Ásia. Caros, pesados e frágeis, os primeiros discos variavam de 60 a 120 rpm (rotações por minuto). Com o tempo, essa disparidade de velocidades logo caiu para um intervalo entre aproximadamente 76 e 82 rpm. E por volta de 1910, a Victor Talking Machine Company, antecessora da RCA Victor, adotou o 78 rpm como a velocidade padrão, e essa foi adotada por toda a indústria de discos. Os 78 rpm eram fabricados em sete polegadas de diâmetro e comportavam no máximo uma música de cada lado.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão corta o suprimento de goma-laca que ia para os Estados Unidos e a indústria fonográfica se vê obrigada a buscar outros materiais. O vinil, um plástico térmico muito mais leve e resistente que a goma-laca, foi o material escolhido e trazia uma nova vantagem sonora: estava totalmente apropriado à descoberta da gravação por microssulco (microgroove), entalhes de tamanho menor na superfície do disco. Em 1949, a RCA lança o disco de 45 rpm e um toca-discos especialmente desenhado para reproduzi-lo. Tal invenção só não fizera mais sucesso porque coexistiu com a chegada do disco de 33 1/3 rpm, que recebeu o nome de LP, do inglês long play, lançado em 1948 pela Columbia, e que se popularizou nos anos 1950 e 1960.

O LP foi, sem dúvida, a grande revolução musical da primeira metade do século XX. Com o advento do LP, o evento da audição musical passou a acontecer no ambiente doméstico. “O som ficava no meio da sala. Você comprava um disco do Chico Buarque, vinha o vizinho, vinha o amigo, ouvia-se o disco todo, um lado, depois o outro, discutindo o disco, acompanhado por uma bebida, era um evento. Tinha a coisa do fetiche da mercadoria, era um ritual”, conta o DJ Paulão, pesquisador e produtor musical, dono de uma respeitável coleção de discos. A denominação, long play, que abandona a referência técnica das rotações por minuto, diz tudo: o disco permite um maior armazenamento de informações em cada lado, passando a comportar muito mais músicas. De acordo com o jornalista Leonardo De Marchi, no artigo “A angústia do formato: uma história dos formatos fonográficos”, publicado na revista eletrônica e-compos, da Universidade Federal Fluminense, fruto de sua pesquisa sobre a indústria fonográfica independente e novas tecnologias de comunicação, o nome long play sugere uma “nova experiência de consumo sonoro, temporalmente ‘alongada’ em relação aos formatos anteriores”, e é, a partir de então, o preferido pelo grande público e pela indústria fonográfica.

À medida que houve melhora da alta fidelidade da gravação, da durabilidade do material suporte em que o som era gravado (vinil) e da possibilidade de portar esse som, aumenta também o consumo, e é nos anos 1960 e 1970 que se tem um boom comercial na venda de discos. Nesse sentido, o padrão de consumo do LP merece atenção. A capa, com um grande volume de informações sobre o álbum e trabalhada com um requinte gráfico cada vez maior, coloca o disco na mesma categoria de valores do livro. “Com o surgimento da estética do álbum, os discos passam a ser vistos como obras de arte em si. O LP passa a ser consumido como livros, ou seja, um suporte fechado, passível de coleção em discotecas privadas – com status de objeto cultural, afinal julga-se a cultura musical de uma pessoa pela discoteca que possui”, afirma De Marchi.

Mas os anos de glória do LP, que não foram poucos, estavam prestes a ter um fim. Em 1983, surge um novo suporte, o compact disc ou CD, feito de alumínio, menor e mais leve do que um LP e com capacidade para armazenar aproximadamente 70 minutos de música. Está inaugurada a era digital, que tem como características praticidade e portabilidade: fácil de gravar, fácil de reproduzir, fácil de carregar.

A fita magnética já havia trazido as mudanças para o estabelecimento dessa nova fase. Criado bem antes, em 1935, o princípio magnético revolucionou os métodos de gravação em estúdio. “Não apenas as fitas magnéticas eram o suporte adequado às inovações tecnológicas como também eram maleáveis, podendo ser cortadas e editadas, criando novas técnicas de manipulação sonora no estúdio”, conta De Marchi. E trouxe, também, transformações no consumo da música: a possibilidade de se carregar o som no corpo, de ouvi-lo ao andar pelas ruas, com o surgimento da fita cassete e do walkman.

Com o CD, o princípio da portabilidade é o mesmo, o produto é inclusive mais delicado do que as fitas cassetes e exige um cuidado maior para se carregar. Mas a qualidade sonora do CD em relação à fita cassete carimbou a inovação do disc man, que se disseminou rapidamente em poucos anos. Também de forma rápida se deu a adoção da tecnologia no ambiente caseiro: em poucos anos, os aparelhos de som à base de madeira e aço que comportavam toca-discos foram substituídos por aparelhos mais modernos, feitos de plástico, com um CD player. Melhor dizendo, não havia opção: em menos de dez anos, não era mais possível comprar um aparelho de som para uso doméstico que tocasse LPs. Enquanto isso, coleções de discos eram colocadas no lixo por milhares de famílias e as fábricas de vinil foram desaparecendo. Foi a ditadura do CD.

Show me more… »

A condição de práticas associadas classificações, localidades, normatividade não apenas contrariou os princípios daquele programa político que tentamos interpretar. Essa condição passou também a ser entendida como responsável por sua despotencialização. Nesse sentido, pode-se interpretar que o espectro de uma atuação ornamental, artificial, sobredeterminada pela esfera política institucional, passou a assombrar os espaços onde as metodologias, discursos e orientações filosóficas submidiáticas influenciaram políticas públicas de apropriação críticas de tecnologias da informação e comunicação. O intimismo que se reflete a partir daí re-edita a figura do intelectual cooptado, cuja produção anódina e acéptica não ameaça com crítica o governo ou as ordens da sociedade. Pois sabemos que a apologia das criações artísticas e/ou intelectuais criadas à sombra do poder é uma apologia indireta que tem seus limites, ao mesmo tempo, definidos pelo acordo tácito de que os fundamentos do poder estatal, do governo atual, da sociedade capitalista e de seus valores não serão contrariados na base, na essência.

Apoiada no desenvolvimento e barateamento de tecnologias da informação e comunicação, sobretudo nos anos 1990, dos novos processos de licenciamento de obras artísticas e foomentados pela herança acima descrita – em particular, a falta de canias de produção e consumo de bens culturais –, o Estado brasileiro sofreu nova pressão1. Assim como sofreu pressão noutras fases da história brasileira e soube se re-articular para fazer/operacionalizar mudanças demandas socialmente, mas sempre sobre seu controle.

1Com isso, quero fazer entender que a formulação da Ação Cultura Digital do Programa Cultura Viva não acontece apenas por obra e graça da sedução de Cláudio Prado, mas por causa do arranjo histórico que o tornou possível.

Diego Viana

É provável que acabe passando em brancas nuvens, e será uma pena; mas afirmo que MundoBraz: O devir-mundo do Brasil e o devir-Brasil do mundo é um dos livros mais contundentes sobre os tempos que se preparam, para nosso país e nosso planeta, em meio a tanta badalação e tanto chute sobre a Terra Brasilis. De fato, Giuseppe Cocco, o autor, faz um exame anatômico do tema que tem feito a alegria de jornais ao redor do planeta e de políticos dentro do país: o lugar que o Brasil vai ocupar no mundo do futuro próximo. Rico ou pobre, poderoso ou frustrado mais uma vez, Cocco sustenta, com argumentos bastante bem assentados, que essa posição será no mínimo paradigmática.

Por que as brancas nuvens? Porque não é mesmo fácil se guiar no meio de tantas referências evocadas para sustentar a tese. É um corpo teórico que parte da filosofia e chega à antropologia, com paradas na sociologia e no urbanismo, no marxismo e na arte: Foucault e Oswald de Andrade, Simondon e Marx, Viveiros de Castro e Negri. Como a tendência corrente nos comentários de livros é de priorizar a quantidade, no lugar da profundidade, não duvide de que o argumento não seja enxergado e não ocupe o lugar que lhe cabe nos debates.

Asseguro que esse lugar é central. Temos visto, nos últimos tempos, toda sorte de comentários sobre a chegada do tempo projetado a que se destinava o Brasil, esse que sempre foi, pelo menos desde 1943, o país do futuro. Se a projeção era nossa sina, então, dizem os mais empolgados, ela se materializou como nosso destino. Provas? Temos a Copa de 2014, temos as Olimpíadas de 2016, temos um projeto de trem-bala, temos uma taxa de crescimento que pode chegar a 6%, temos uma indústria única de energia renovável (leia-se álcool). Temos uma série de cartas na mão; resta ver se não vamos deitar fora a canastra, como esperam os enfezados.

Falando em enfezados, temos ouvido deles, desde sempre, algo curiosamente próximo. O mundo está se “brasilianizando” – e os europeus têm termos parecidos: africanizando, terceiro-mundificando, toda sorte de neologismos depreciativos. Para esses, o mundo vai ficando parecido com o Brasil, de uma maneira nada apologética. Os países ricos estão virando uma bagunça, como o Brasil, eles dizem, e é por isso que se veem tantos mendigos em Paris, onde, por sinal, o metrô fede (lembrando-se que o metrô no Brasil não fede e a quantidade de moradores de rua, parece, vai pela descendente). Londres está cheia de moradias que parecem favelas… o sul dos EUA fala espanhol, ou “spanglish”, dá no mesmo… E por aí segue a cantilena. Tem também a versão racista, quer ouvir? É que, com a imigração, EUA e Europa estão cheios de árabes, asiáticos, africanos e latino-americanos (esses últimos somos nós). Ou seja, adeus idílio de um primeiromundo branquinho. Não vou começar a repertoriar esses argumentos, o próprio Cocco já faz isso muito melhor do que eu poderia fazer, com crítica e tudo.

Mas, como eu disse, o autor – que é franco-italiano mas vive no Brasil, onde ensina história e política na UFRJ – enxerga nesta nação sul-americana uma situação paradigmática para a configuração social e, por que não dizer, geopolítica do mundo no século XXI. Não é o papel de nova potência, nem de eterna dependência, nem de dominância, nem de subserviência; não é disso que se trata. No paradigma do século anterior, que envolvia Estados-nação fortes e bem delimitados, baseados muitas vezes em noções de raça mal disfarçadas, mas também envolvia uma forma de organização social e econômica que girava em torno de keynesianismo, fordismo, monetarismo e, vez por outra, fascismo, o Brasil era um país que se encaixava muito mal. Nunca tivemos homogeneidade suficiente para isso, mesmo que uma série de tacapadas tão dolorosas quanto ineficazes tenham tentado nos colocar em trilhos mais, digamos, ortodoxos.

Eis, porém, que a roda da história dá mais uma de suas voltas e nós nos encontramos em pleno processo de dissolução desse paradigma (disciplinar, para usar um termo de Foucault, mas isso já é outra história). Vai surgindo um mundo baseado em outras ideias: hibridização, miscigenação, colaboração, contribuição. Pois bem, o patinho feio do hemisfério Sul pode não ter se tornado exatamente um cisne, mas começa a grasnar por toda parte.

Essa metamorfose histórica não acontece por acaso, se é que alguma jamais aconteceu assim. Afinal, sempre esteve implícito nas análises da economia industrial-financeira (também conhecida como capitalismo, o que inclui a União Soviética, queiramos ou não), à direita e à esquerda, desde a teoria das vantagens comparativas de David Ricardo até a ideia de destruição criativa em Schumpeter, passando pelas análises do imperialismo de Rosa Luxemburgo e aos enganos do Tratado de Versalhes, que esse modo de produção avança e se desenvolve expulsando a miséria para o lado de lá de suas fronteiras, enquanto seu núcleo vai acumulando a riqueza e, claro, o capital, que nos fazem tão admirativos do dito primeiromundo. O fenômeno não é propriamente geográfico, porque as fronteiras do modo de produção que denominamos capitalismo podem ser encontradas em qualquer parte, sempre puderam. Mesmo assim, pode-se bem ver que, enquanto as classes inferiores européias e, mais tarde, americanas e japonesas começaram a ter poder de compra e uma opinião muito positiva sobre si próprias (a xenofobia não surgiu à toa, nada surge), o resto do mundo era transformado em campo de exploração, fonte de matérias-primas, depois trabalho, depois produtos que ninguém quer mais fabricar, e assim por diante.

Essa curiosa característica do sistema econômico que dominou o mundo nos últimos dois, quase três séculos (ou até mais, dependendo do ponto-de-vista) foi tornada explícita em obras como Império, de Hardt e Negri, justamente quando ela atingiu seu limite: não existe mais espaço para o lado de fora. Todas as fronteiras, étnicas, nacionais, econômicas, devem ser incorporadas ao sistema. Em outras palavras, a miséria, a alteridade e tudo aquilo que sempre esteve associado à ideia de um terceiromundo, a periferia global, bate à porta e inevitavelmente volta a se imiscuir com a pureza econômico-étnico-social do centro. Ele entra e se instala por capilaridade e não há outro jeito: é o imperativo operacional da economia contemporânea.

Daí o impasse verdadeiramente esquizofrênico das políticas de imigração nos países “centrais”. Ou a miséria entra, na forma de trabalhadores desesperados e estrangeiros, ou a riqueza sai, na forma de transferência de fábricas e tecnologias. O que tem acontecido, e vai continuar acontecendo, é ambos. E não adianta culpar nem os árabes, nem os terroristas, nem ninguém. O estágio atual do desenvolvimento econômico global é esse. Resultado: a geografia econômica e demográfica do mundo inteiro se torna parecida à do Rio de Janeiro, e não estou falando do Pão de Açúcar.

A propósito, menciono Negri e Hardt porque Cocco está associado à linha de análise deles; conceitos como multidão (não sei se é uma boa tradução para multitude, mas, em todo caso, eis o link para um texto imprescindível de Paolo Virno), comum e singularidade vêm e vão em seu vocabulário. Basicamente, MundoBraz confronta os movimentos do mundo e os caminhos do Brasil, para chegar à conclusão de que o que se fermentou no nosso país durante seus tantos anos de colonização, imigração e exploração foi algo como um aperitivo para essa ordem econômica que vai surgindo.

Assim, por exemplo, nossa questão racial, tão premente, se manifesta de maneira diferente do que é no antigo centro do imperialismo colonial (a Europa, leia-se) e também do que se pode observar no centro do imperialismo corporativo (sim, os EUA). Nossa desigualdade está nas esquinas, não nos passaportes. Nossa pujança está numa certa criatividade subterrânea que nossa própria postura subserviente insiste em sufocar. Pois é nisso que está se transformando o mundo, para o bem e para o mal. Antigas clivagens são não exatamente demolidas, mas mais propriamente dissolvidas, num processo de recriação das subjetividades que obrigará a humanidade, resistências à parte, a se encarar de outra maneira, mais nuançada e rica, salvo a intervenção de um desastre de proporções titânicas.

Esse processo sempre foi uma exigência no Brasil, país das clivagens sempre a ponto da dissolução, onde a arte sempre se ofereceu para fundir o morro e o Municipal, onde até o fascismo foi mulato, misturando o sigma de Homero com o anauê dos tupis acompanhando o gesto que os teutões incorporaram dos latinos. Como na realização de uma profecia, cabe ao país roer seus próprios arreios e assumir-se como paradigma do século que se abre. Se somos paradigmáticos, podemos então lançar uma hipótese: nossa capacidade de roer esses arreios, grande doença histórica do país, representará a capacidade do mundo inteiro de combater suas próprias grandes doenças históricas. É algo a observar. É, também, uma utopia pela qual vale lutar. Não para que nosso país se torne o próximo centro do mundo, o que, além de tolice, é impossível: os centros há muito são obsoletos. Mas para que o Brasil possa enfim ser o Brasil.

Nesse espírito, faço acompanhar este texto de um vídeo que resume, de certa forma, essa peculiaridade étnico-histórica do país; composta há trinta anos por um músico mineiro descendente de libaneses e espanhóis, cantada por uma de nossas maiores vozes:

A partir de agora o Soy Loco por Ti stá com uma série de funcionalidades que já de deveria instalar já há tempos. Por falta de tempo, de disponibilidade e de atenção aos  mecanismos de publicição de conteúdos mais recentes, o feed do blog disponibilizava apenas o títulos dos ( raros e recentes) posts . Diante de lastimável situação e diante da instigação de Orlando, resolvi dar um tapa no  blog, com a preciosa ajuda do design certo para as horas incertas, Anízio Silva.

Atualizamos 100% do editor do blog (que já tava dando mostras de que poderia dar problemas como da outra vez, quando uma turminha tinha começado a fazer uso de uma falha na segurança para vender remédios através do site). O Wordpress está funcionando de novo às mil maravilhas agora e o ambiente de edição é muito bom. Anizio ainda ajudou na configuração do FeedBurner. Os feeds, para quem quiser, estão disponíveis na forma integral… é só conferir na listagem à esquerda. Quem tiver interesse também pode solicitar o recebimento dos posts via email ou socializá-los nas redes de que participa através dos links abaixo de cada um dos textos.

Também associei a postagem no blog ao twitter,  de modo que eventuais interessantes, críticas, vontades e e outras coias aqui colocacas possam ser publicizadas de forma mais efetivas.  Vamo que vamo….

Postando para o deserto 2

Luiz Carlos Pinto | 4 de março de 2010 22:24

Do capítulo 5, em 5.3:

Nesse sentido, faz parte dessa mescla de concepções de mundo a idéia de propriedade compartilhada de informação, conhecimentos e culturas, o acervo imaterial e inapropriável de bens simbólicos, historicamente determinados, coletivamente gestados e universalmente disponíveis a todos os homens sobre a terra.

O que isso quer dizer? Que a constituição de uma condição de autonomia possível e de domínio e apropriação da produção social (sua contraparte formada pelo controle de sistemas complexos de informações, símbolos, relações sociais) permite a mobilização da parcela dos sem parcela para a afirmação de sua existência, de seus pertencimentos, de suas reivindicações e subjetividades. A prática da política nesses termos expressa-se como a escrita de um nome no céu, a arquitetura de um lugar numa ordem simbólica de poucos falantes, de poucos que exercitam e tomam parte das decisões políticas. No âmbito da excludente sociedade brasileira, de sua tradição política que prioriza o viés do privilégio, a escrita e a narratividade da realidade vivida tradicionalmente incorporaram aos registros da história o ponto de vista das camadas privilegiadas. Esse paradigma se encontra diante de múltiplas e vivas possibilidades da real democratização da prática política na sociedade.

do capítulo 5, em 5.3:

Como não pensar que a retomada e apropriação crítica de tecnologias é uma subversão (ou uma atualização) do modelo de contagem que Ranciére descreve? (É, eu sei que isso é uma analogia, que por sua vez expressa o pensamento aristotélico e platônico sobre o qual se edifica a forma de conhecimento sedentário. Mas também é preciso se descarregar do peso dessa diferença entre o pensamento nômade e o pensamento sedentário. Essa oposição é frustrantemente imobilizadora).

Os modos de apropriação crítica das tecnologias de informação e comunicação são formas de recontagem, ou pelo menos abrem possibilidades para que uma outra contagem aconteça – concatenadas cacofonias. O alfabeto necessário para isso incui afetos, vivências, implica na invenção de um cotidiano, na descoberta de outros, ações coletivas, paixões coletivas, jardinagens bivolts e alguma alegria.

Luiz Carlos Pinto | 27 de novembro de 2009 20:03
http://www.earth-photography.com/photos/Countries/Norway/Norway_Jostedalsbreen_Glacier.jpg

www.earth-photography.com/Norway/Jostedalsbreen Glacier

Você morre.
Acorde para a realidade e aceite-a.
Melhore o seu jeito de conviver, tenha bom senso.
Sinta o instante. Deixe-o te levar, sem expectativas.
Não tente controlar o fluxo da vida.
Você não é dono de nada (apesar de achar que pode
controlar as coisas do mundo).
Você é só parte da paisagem.
Suas propriedades e títulos nada valem.
É a experiência que atrai o ser humano.
Porque perder a vida acumulando coisas?
Ser bem-sucedido?
Que significa isso se todos já estamos mortos?
Faça o que te agrada.
Apenas o que te desperta felicidade.
Ao invés de comprar uma jaqueta, viaje com um amigo para uma cidade próxima.
Faça o que te instigue a curiosidade.
Repita um passeio de um parente mais velho.
Brinque com a vida.
Mas lembre-se: antes disso existem as outras pessoas.
Eles são o que há de mais interessante.
Imaginativas. Engraçadas. Únicas.
Ame-as. Seja amado.
Mas não espere nisso uma troca obrigatória.
Faça a sua parte e procure apostar nas pessoas.
Confie nelas.
Seja transparente para evitar especulações.
O mundo é feito de matéria e informação.
Os únicos átomos de que você precisa são para a sobrevivência do corpo.
Porque preocupar-se além disso?
Compartilhe técnica, ferramentas, matéria-prima.
Todos podemos criar coisas divertidas com elas.
E, ao contrário do que você pensa, tudo é público.
Se mais de uma pessoa pode ter acesso, então é público.
Não se apegue à matéria. Não queira ser o dono.
Ter as coisas é perder tempo.
Para a sua mente, uma experiência é informação pura.
E essa informação flui através de você, te mudando aos poucos.
Com bom senso, você muda pra melhor.
Com amor, você muda pra melhor.
Sem ansiedade, você evolui espontaneamente.
Como fazer tudo isso?
Sonhe.
Use a sua imaginação.
É para isso que você tem uma.
Não se acovarde.
Não ache que o mundo é grande demais.
Mude você e ajude os que estão próximos a mudar.
Sinta-se à vontade dentro de você mesmo.
Somos todos uma coisa só.
Você não estará sozinho.

Daniel Pádua