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Archive for the 'Política' category

Relato das ações no Coque Livre

Luiz Carlos Pinto | 3 de fevereiro de 2012 15:05

Vou postar aqui nos próximos dias algumas reflexões sobre os ciclos de atividades do Projeto Coque Livre, que implementamos em 2011 na comunidade do Coque, centro do Recife. Os textos têm uma pegada um tanto acadêmica – sobretudo a parte inicial, em que segue uma introdução a alguns conceitos que permearam as oficinas dos ciclos. Isso porque precisaremos apresentar esses relatos ao CNPq, que financiou as atividades. Nos próximos dias coloco as descrições das atividades mesmas.

1. Análise crítica das bases teórico-metodologias das oficinas de mídias livres

As oficinas com tecnologias livres baseiam-se teórica e metodologicamente no  que podem ser chamadas ‘ações coletivas com mídias livres’. Tais ações expressam um conflito e uma oposição ao modo com que os bens informacionais são comercialmente produzidos e controlados, bem como os objetivos dessa produção. Considerar como eixo característico a disposição antagonista implica em reconhecer a existência de questionamentos coletivos quanto à legitimidade do poder  e ao modelo estabelecido para o uso dos recursos sociais – esses princípios conduzem a base metodológica e filosófica das oficinas.

O sentido das oficinas com tecnologias livres está associado à criação de condições estruturais e conceituais para a produção, circulação, apropriação e usufruto de conhecimento, informação e cultura fora das hostes comerciais. Em termos filosóficos,  essa orientação, que prevalece sobre as outras linhas de atuação, expressa a atualização da análise de Ranciére (1996) para a emergência do exercício da política, com uma correspondente instituição de uma outra ordem do sensível. Ou seja a criação de tais condições estruturais e conceituais se vincula a um virtuoso processo de atualização da reivindicação da parcela dos que não têm parcela, da reivindicação da fala, do dissenso, da possibilidade e das condições para a expressão do desentendimento em relação a como se reparte o todo, entre os que têm parcela ou partes do todo e os que não têm nada.

Por outro lado, é possível considerar o modelo predominante de ‘inclusão digital’ ancorado à lógica da Justiça Distributiva . Nesse sentido, tal modelo também precisa ser compreendido sob os eflúvios das mudanças pelas quais passa o capitalismo pós-industrial – sobretudo naquilo que se refere à crise da noção de valor, que acompanha tais alterações sistêmicas. Se é verdade que no capitalismo pós-industrial não é mais no produto, na matéria, que se concentra o centro do valor, mas no conhecimento, na forma de se organizar e modelar a inteligência coletiva, então à Justiça Distributiva deve-se interpor um outro front de crítica – inclusive como forma de enquadrar e compreender  a perspectiva, os discursos e a programática de ações coletivas que lançam mão de tecnologias livres.

É necessário, antes de continuar, deixar claro a que se refere esse termo. As ‘tecnologias livres’ a que nos referimos são constituídas por softwares e hardwares que permitem que sejam usados, copiados, estudados e redistribuídos sem restrições, o que implica que as modificações feitas tanto em programas quanto nos equipamentos físicos podem se realizados e compartilhados também sem restrições. O conceito de ‘livre’ se opõe ao de restritivo e à noção de software proprietário, cujas alterações no seu código de funcionamento são vedadas. Tanto softwares livres quanto hardwares livres são vinculados a licenças de uso que visam garantir as liberdades de execução, distribuição, modificação e repasse sem que para isso seja necessário a permissão do(s) autor(es) (Torvalds & Diamond, 2001). Portanto, para tecnologias livres estão associados licenças de uso que procuram garantir
•    A liberdade de executar o programa ou de uso do hardware, para qualquer propósito;
•    A liberdade de estudar como o programa ou hardware funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades. Acesso ao código-fonte, no caso dos softwares, é um pré-requisito para esta liberdade;
•    A liberdade de redistribuir cópias de modo que se possa beneficiar o próximo;
•    A liberdade de aperfeiçoar o programa e/ou hardware, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie. Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade.
Portanto, o uso do termo tecnologia livre nesse texto considera será considerado livre se todos os seus usuários tiverem essas quatro liberdades.

Show me more… »

Talvez haja algo a se tirar de proveitoso da greve dos gráficos e do indicativo à deflagração do Estado de Greve pelos jornalistas em Pernambuco. Até agora, o que me tem parecido mais evidente é a profunda fragilização da categoria, associada à incompreensão geral dos processos que geraram isso. A desobrigação do diploma para o registro profissional definida pelo STF em 2009 é um efeito e não a causa de problemas pela qual vem passando essa atividade profissional. É a ponta de um iceberg que mostra aqui e ali seu tamanho. Na entrelinha está a política, ou a falta dela.

Mercados & mercados
Os gráficos pararam porque, ao contrário de sua categoria meio-irmã, continuam com um mercado amarrado a quem detém as estruturas de trabalho: o gráfico não vai para casa e faz um frila à noite. Seu trabalho é nas dependências da empresa porque é lá que está o maquinário e que torna possível sua atividade.

O mercado dos jornalistas não. O crescimento da economia nos últimos anos gerou mais trabalho – não necessariamente mais emprego – e isso é, por incrível que pareça, um elemento de desmobilização política por onde a reivindicação de melhores condições salariais e de trabalho no modelo sindical.

Com um piso de R$ 944 (gráficos em jornais) e R$ 718 (em empresas gráficas) e sem alternativas reais de complementação de renda, é muito mais provável que a categoria dos gráficos se mobilizassem para a greve antes dos jornalistas (e sem eles).

Hegemonia & comunicação
Outro aspecto da fragilização da categoria de jornalistas tem a ver com a hegemonia política no Estado – na verdade, no meu entender essa fragilização é não somente da categoria, mas de toda a economia-política da comunicação, ou seja envolve as empresas e o Jornalismo realizado por elas também. Porque uma sociedade é mais plural e reflete isso no jornalismo (e também nas artes, na economia, etc) quando sua política é mais socializada e isso implica naquilo que a gente chama de condições de possibilidade da crítica.

Mas esse aspecto político é ainda mais amplo. A queda da obrigatoriedade do diploma pro registro em 2009 pelo nosso querido STF é o fim de um percurso (talvez não seja um fim, enfim) no qual se cruzam a queda de credibilidade do fazer jornalístico comercial, que se plasmou num modelo ou em certos modelos que não atendem mais a necessidades da sociedade, e um certo descentramento do sujeito que usa da ferramenta jornalística. Em outras palavras, mais gente passou a produzir informação, cultura e conhecimento, a fazê-la circular, a mixá-la também e isso muitas vezes acontece usando-se jornalismo como modo de construção de discursos. Mais gente, mais recursos, mais informação circulando e isso é ótimo.

E isso tá  convivendo por um lado com um excepcional retrocesso do grosso das empresas de comunicação (sobretudo as grandes) no quesito democracia, pluralidade e ética e por outro lado com um modelo plasmado ensinado nas universidades também, onde o nível de classe dos estudantes mudou.

Economias & comunicação
Porque no mercado de ensino do jornalismo a novidade dos últimos 20 anos não é somente o maior número de escolas e faculdades. É que também aumentou o poder aquisitivo dos estudantes que resolvem ser jornalistas – e isso é patente em qualquer redação de região metropolitana brasileira hoje.

Maior poder aquisitivo significa não somente mais conforto, mas também uma inflexão no tipo de egressos de classe que passou a compor a categoria dos jornalistas (atenção, classe é diferente de categoria). E isso tem implicações para a maior ou menor mobilização política. A classe ou as classes em que se enquadram a categoria dos gráficos tem passado por dificuldades por ter se mantido mais ou menos a mesma. E, assim sendo, passar por mais ou menos os mesmos perrengues financeiros que a empurram para mais reivindicação e confronto com os patrões.

Categoria & classe
A desmobilização da categoria jornalistas, que não é um privilégio negativo da pernambucanidade, mas que está relacionada a um universo maior de problemas, me faz pensar que talvez essa seja uma categoria que pode acabar em mais alguns anos. Será?

Eu não conheço nenhuma pauta de reivindicação sindical que inclua, por exemplo, o debate sobre a flexibilização/proteção de direitos autorais de obras produzidas no circuito comercial do jornalismo; ou o debate sobre navegação anônima na internet; ou o debate sobre a manutenção do princípio de neutralidade na internet; ou o das possibilidades de aprendizado do jornalismo comercial com a comunicação pública, por onde aquele poderia voltar a garantir sua relevância na dinâmica de nossas cidades, de nossa vida social, de nossas políticas  – é o envolvimento com essas coisas que garantirá a continuidade do jornalismo como categoria e como categoria relevante para a democracia, porque é a democracia que está em jogo sempre.

É também o envolvimento com essas discussões que poderá dar um perfil de categoria ao jornalismo, mais do que a garantia do diploma.

Meus dois vinténs.

Fabiana Moraes

Formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, João Carlos Ferreira Filho é o criador do @JornalismoWando, perfil com 1.355 seguidores na primeira semana de outubro e apenas 1.153 postagens (o que, no mundo Twitter, indica ou que o dono do perfil posta pouco ou é relativamente novo naquele ambiente). O sucesso que acompanha o avatar no qual vemos o rosto do famoso cantor popular (fofíssimo, não acham?) faz sentido: usando expressões como “beijo no coração!”, o perfil alfineta jornalistas e jornais famosos, chamando atenção para a candura não apropriada para suas práticas. Conversamos com João Carlos sobre seu alter ego. “O Wando ficou com ciúmes”, avisou.


Na sua opinião, por que o jornalismo do coração parece buscar sempre o consenso, tem esse caráter quase apaziguador?
Acredito que as faculdades de jornalismo (como todas as outras faculdades) estão mais preocupadas em preparar profissionais que se adequem aos interesses do mercado do que cumprir sua verdadeira função, que é de formar jornalistas que contribuam de alguma forma para a sociedade. A opinião, o espírito crítico e a reflexão não são incentivadas como deveriam, porque não ajudam o jovem que sai da faculdade a conseguir um bom emprego. Pelo contrário, quanto mais dócil e alinhado aos interesses do mercado o jornalista for, mais chances ele terá de ser bem sucedido profissionalmente.


Outra característica do Jornalismo Wando é a tentativa de estabelecer linguagem íntima tanto com o entrevistado quanto com a audiência. Você acha que essa é uma maneira/técnica de angariar mais espectadores/leitores?
Não. Acho que essa é uma técnica usada por jornalista mal preparado. Até porque não é da alçada do jornalista se preocupar com audiência. Conquistar a simpatia do entrevistado não é objetivo da profissão. Isso quem faz é a Ana Maria Braga, o Gugu e o Faustão. Jornalismo tem que ser, necessariamente, formal, sério e objetivo. Afinal de contas, sua função principal é relatar a realidade de forma nua e crua. Infelizmente, uma doçura quase infantil ocupou o espaço da opinião e da reflexão crítica dentro do jornalismo. Esse processo de “anamariabraguização” do jornalismo tupiniquim caminha a passos largos.


Houve um momento no qual jornalistas eram mitificados: a eles estavam ligadas as ideias de coragem, esforço, isenção, verdade, heroísmo. Hoje, a imagem é diferente: jornalistas têm um poder menor de influência e são duramente criticados no espaço da sociedade civil (os denominados blogueiros progressistas são um exemplo). A prática do Jornalismo Wando, a fofura como técnica de trabalho, não seria resultado desse lugar menos legítimo que a profissão hoje enfrenta?
O tal
Jornalismo Wando é atemporal. Sempre existiu e sempre vai existir. Mas, é evidente que isso está se acentuando. Acho que existe, sim, esse componente que você citou. Acho que os grandes monopólios de comunicação são os maiores indutores e incentivadores do Jornalismo Wando. Nenhuma empresa vai contratar jornalista que faça críticas que atrapalhem seus interesses. Nenhum empresário de comunicação, por exemplo, aceitaria um jornalista seu criticando uma empresa anunciante ou um ator/músico contratado dessa empresa. Vejamos os últimos ombudsman da Folha de S. Paulo. Passaram jornalistas bastante críticos do jornal pelo cargo. Cansada, a direção da Folha resolveu colocar um profissional alinhado aos seus interesses.


Você acha que esse jornalismo que preconiza o consenso enfraquece a prática jornalística que tem como fim informar, divulgar, provocar o debate?
Sem dúvidas. A natureza da profissão de jornalista está sendo totalmente desvirtuada. Não é à toa que vemos muitos jornalistas migrando para programas de entretenimento, como o Pedro Bial e o Britto Jr. Jornalismo e entretenimento estão cada vez mais próximos. Como diz o
@JornalismoWando: “Nasceu com o espírito crítico e investigativo? Então jornalismo não é sua praia, querido. Vá criticar restaurante e cinema ou ser investigador de Polícia. Jornalismo sem sentimento, não faz sentido.”


Há um sentido político do jornalismo fofo – falo dele em si, seu espraiamento, sua força, sua reprodução?
Claro que sim. Não é à toa que jornalista que faz crítica que fere o interesse do patrão é colocado no olho da rua. Isso inibe a sobrevivência de bons profissionais que querem exercer jornalismo de fato. É muito mais cômodo ser fofo e manter seu emprego, do que ser jornalista de verdade e correr riscos. Os poucos profissionais que não se submetem ao esquemão são obrigados a escrever em blogs e na imprensa independente, o que obviamente dá muito menos dinheiro. As poucas famílias que comandam as empresas de comunicação no país têm rabo preso com setores políticos e com grandes empresas. Acaba não sobrando quase nada pra criticar. Aí então, o profissional que já vem “adestrado” da faculdade, chega à conclusão de que é melhor sorrir, ser fofo e garantir o leitinho das crianças.

Leia mais:
Um beijinho em quem ler esta página, pro Fabiana Moraes

Muiras vezes se questionou se o início do Tratado da Emenda do intelecto é uma narrativa autobiográfica. Já que escreveu em primeira pessoa, Espinosa teria exposto nesse tratado seu próprio itinerário? Uma questão como essa nos faz pensar na observação de Flaubert sobre Bouvard e Pécucher ao ler romances de Walter Scott: “sem conhecer os modelos, encontravam as pinturas assemelhadas” . Nada permite atribuir o “ eu” ao comerciante de Amstredã conhecido pelo nome de Baruch de Espinosa. Além disso, colocando uma tal questão e respondendo-a afirmativa ou negativamente perde-se de vista um movimento essencial do texto e, portanto, do pensamento: um movimento que já apontamos antes, a saber, aquele que toca o sujeito dos enunciados.

O texto é escrito em primeira pessoa enquanto expõe a decisão, a hesitação e o fracasso. É escrito em terceira pessoa ao expor as causas do fracasso da conciliação entre perseguição de bens comuns e a busca do verdadeiro bem. Ora os sujeitos são esses bens, ora é a mente, ora os homens, ura um “nós”. Mas, mesmo quando o texto é escrito em primeira pessoa, o “eu” não é idêntico a si mesmo. A narrativa não remete somente a acontecimentos situados fora do eixo. Alguns acontecimentos ocorrem  dentro dele. Por exemplo, em duas retomadas, o estilo se torna indireto: “Digo que ‘me decidi’ enfim”, ou, mais adiante, “ Entretanto, não é sem razão que usei destes termos”. Espinosa volta ao que escreveu, reflete sobre o que escreveu; há porém, ainda mais: a narrativa ou a exposição da decisão, da hesitação e do fracasso está no passado, enquanto a narrativa das causas ou razões da hesitação e do fracasso está no presente. Do ponto de  vista da narrativa, os efeitos (hesitação, fracasso) são anteriores ás causas (busca dos bens comuns). Espinosa superou por sua própria conta os obstáculos cujas causas são ainda presentes. Ele se eleva dos efeitos às causas e vem do passado para o presente. O presente é, nesse momento do texto, aquele espírito dilacerado, distraído, extraviado na perseguição de prazeres, riquezas e honras. Portanto o “eu” da narrativa não pode ser identificado à mente.

Portrait of René Descartes, dubbed the "F...

Image via Wikipedia

De certa maneira, Espinosa se distingue, sem mostrá-lo explicitamente de Descartes. Com efeito, Descartes escreve o início das Meditações metafísicas em primeira pessoa, e o “eu” que duvida se transforma sem deixar de ser o mesmo “eu” do “eu penso”, que é o “eu” do “eu existo”. O “eu” cartesiano é, por asism dizer a mente que fala e que se torna o átomo da certeza, simples e indivisível. Para Espinosa, ao contrário, o “eu” não pode ser digno de identidade simples e indivisível, porque é a marca de uma mente decomposta. Logo, a hesitação da mente que não sabe para onde se voltar é a reflexão ou o retorno sobre si da mente distraída em sua própria distração. Espinosa se abisma na greta da mente, ele não escapa. E nada é antecipado. Pelo contrário.

O prazer gera tristeza, as honras nos acorrentam aos outros, a riqueza nos causas preocupações. Todos esses bens ocasionam efeitos que são seus contrários, eles são enganosos e inconstantes. São bens, mas incertos. Se não incertos é porque estão privados do que os tornaria certos como bens ou do que faria deles males certos. Todo mundo conhece sua inconstância, como explicar então que não deixe de persegui-los? É que, se os homens se deixam levar por todo tipo de ilusão, é-lhes difícil persistir na mesma. O conteúdo desses bens varia, mas não sua forma. Mas isso todo mundo Sab, é o fundamento mesmo de toda superstição e de toda servidão.E a decepção não basta para fazer filosofia, esta não começa por uma renúncia, nem pelo remorso ou pela consciência pesada.

A riqueza, por exemplo, causa grandes preocupações e, no entanto, sua aquisição deveria nos livrar delas. Basta renunciar à riqueza para se liberar das preocupações que ela causa? Não. Essa renúncia é uma ilusão. E, antes de tudo, uma ilusão sobe o dinheiro. O dinheiro é um meio, a renúncia a ele participa inteiramente da mesma ilusão que acumulá-lo, a ilusão de tomá-lo como um fim. Mas tomar o dinheiro como meio não é tão evidente, sobretudo quando o dinheiro toma a si mesmo como um fim. E a busca da riqueza aumenta necessariamente a dificuldade, inclusive para aquele que não a busca, porque essa busca não significa somente possuir mais dinheiros, mas também fazer que o dinheiro produza a riqueza, que se auto-reproduza. E a riqueza se torna um problema. Há, pois, uma modalidade, uma forma na qual o prazer, as honras e a riqueza se oferecem como bens a serem perseguidos. A conseqüência é que essa modalidade impõe a representação desses bens. Se a busca desses bens opõe e divide os homens entre si – todo mundo os persegue e eles não se dividem -, ela não o destrói, no entanto, suas relações; ela engendra, por conseguinte, relações de força e dominação.

Logo, não é a renúncia que vai atribuir certeza ao que é incerto, mas, ao contrário, é a certeza que vai produzir como efeito a renúncia, e essa certeza vai abraçar de uma só vez os bens incertos e o bem procurado. Os bens incertos são males certos, o bem procurado é um bem certo, é incerto apenas que se o obtenha. Assim, a certeza de males não basta para obter o bem. O perigo é extremo, porque só esse bem procurado poderia curar males certos, mas ao mesmo tempo os males certos impedem que se alcance esse bem procurado. Logo, a única certeza é a do desejo, o desejo de um bem estável e certo, como “um doente que sofre de uma enfermidade letal, prevendo a morte certa se não empregar um remédio, é coagido a buscá-lo, ainda que incerto, com máxima força…”. Mas como se pode estar certo do que não se está certo de obter?

“Espinosa” – Ed. Liberdade.
André Scala, Cap 1 (Tratado da Correção do intelecto), pgs. 30-33

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Hoje (17 de outubro) tivemos mais uma reunião de planejamento do projeto de intervenção Coque Livre – na verdade, a última este ano, visto que esse será o último ciclo de oficinas esse ano. Tiramos as datas de divulgação nas escolas da comunidade (essa semana, quarta, quinta e sexta), da aula demonstração (dia 20, quinta-feira) e do início das oficinas propriamente ditas (a partir do dia 25, na próxima semana). Ricardo Ruiz e Ricardo Brazileiro serão os oficineiros mais uma vez e dessa vez vão trabalhar com programação básica e com uma tentativa de hackeamento do Facebook. Nas últimas semanas estivemos pensando em como trazer a rede social de Mark Zuckeberg para as ações de intervenção que temos pensado/realizado no Coque Livre. Ao lado, ou ao largo, do debate sobre o caráter fechado do Facebook – sua tendência (ou objetivo) de cercar as possibilidades de acesso aos bens comuns -  e de seu caráter vigilantista; resolvemos planejar esse último ciclo de modo a de alguma forma agenciar debates.

Não é, claro, nada novo. O núcleo duro formado pelas pessoas que estão há uns seis anos intervindo no Coque já procurou esse tipo de coisa em relação aos jornais locais, que até hoje reproduzem uma construção discursiva na qual o bairro e a comunidade são identificados como local de crime e de criminosos. Como se pode inferir, esse tipo de demarcação discursiva se agarra às pessoas que lá vivem e elas sofrem por causa disso com o preconceito na hora de buscar um emprego, por exemplo.

A ideia agora, enfim, é procurar criar condições para que os meninos que passarem pela oficina dos Ricardos possam ir além do mural de recados do Facebook e que se construa coletivamente uma potência de mobilização. E que mobilização? Com que finalidade? Com qual artífice?

Foi aí que na reunião pensamos na figura do Galeguinho do Coque e de acionar esse personagem na rede como um avatar – nos mesmos moldes de Wanderlyne Selva, de Luther Blisset, de Wu Ming, Vitória Mário. Não do mesmo jeito exatamente, entenda-se: esses sujeitos vão nos servir de inspiração, digamos, para acionar um sujeito de construção e de desconstrução da carga discursiva sobre a comunidade do Coque e sua gente.

Isso porque José Everaldo Belo da Silva, mais conhecido como Galeguinho do Coque (não adianta procurar ainda, não existe verbete na Wikipedia) foi um criminoso que viveu no bairro e que alimentou um dos vetores de preconceito que cercam o lugar. Foi um assaltante com atividade regular na cidade durante a década de 196 e foi preso em 1971. Na cadeia converteu-se à religião evangélica, depois de solto abriu um comércio no Alto do Jordão e foi encontrado morto anos depois na cidade de Moreno, com uma bíblia falsa nos braços e um revólver .38 dentro. O Galeguinho do Coque não deu início à onda de violência no lugar e sua regeneração e morte não colocaram fim a ela também. Mas sua figura contribuiu muito para a identificação entre Coque e violência feita pelos rádios e jornais locais.

Pois bem. Nossa ideia então foi usar o Galeguinho do Coque como um gancho para várias coisas. Uma delas é um resgate da história recente da comunidade e de sua formação. Isso pode ajudar na compreensão histórica de determinações que já estavam aí quando os adolescentes que participam das oficinas nasceram. Penso (acho que pensamos) que um olhar para o passado recente ajuda a entender esse presente e a perceber que esse presente não é eterno – embora o olhar da necessidade diário possa convencer do contrário.

O Galeguinho do Coque poderá ser gancho para outra coisa. Talvez a compreensão última da noção de subversão. Porque no (arriscado) intento de mobilizar o avatar com o mesmo nome (signo) do ‘original’, estamos procurando fazê-lo com outro significante. Estamos tentando emplacar uma subversão do personagem histórico, no sentido de fazer com que o Galeguinho Reload, o Galeguinho 2.0, o nosso Galeguinho possa ser um agente que atue no sentido de inverter o processo de construção da imagem do Coque. Nossa intenção é que, como outros daqueles personagens, o Galeguinho do Coque agora seja um artista, um multi artista, que materialize as expressões da turma que fará a oficina inicialmente.

A idéia é contribuir com outro vetor, contrário, ao que o Galeguinho original acabou contribuindo para cristalizar. Um Galeguinho reinventado para se redimir? É uma ideia arriscada, sim, porque o sentido de apropriação que temos trabalhado em todo o Coque Livre pode ser usado aqui também num sentido que não desejável. Mas aí entra uma pergunta: desejável por quem? A imagem de um sujeito violento, inacessível, fugitivo, justiceiro e muito sedutora, sobretudo para crianças e adolescentes na faixa de risco em que se encontram muitos dos meninos que passam pelo Neimfa.

É por essa razão também que há um terceito elemento de gancho para o qual o personagem do Galeguindo do Coque pode ser útil: é o vínculo com o debate sobre agenciamento midiático, concentração de meios de comunicação, regulação dos media, direito de resposta, comunicação popular e comunicação pública. É um viés que pensamos que precisa ser trabalhado logo no início do ciclo.

A ideia de Brazuca é utilizar o Process (um ambiente de programação intuitivo) onde será construido o aplicativo para Facebook que permitirá postagens usando a identidade do Galeguinho 2.0. Essa será a trilha das oficinas no que se refere a programação para redes sociais. A ideia é que como Wanderlyne, Vitória Mário, Luther, o Galeguinho 2.0 possa agenciar múltiplas vontades, ações, presenças, criações, manifestos e que multiplique o tempo.

Bom, esse post tá em construção e vai ser melhorado à medida que as ideias forem circulando.

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Recebi o texto abaixo numa das listas de discussão que assino. Na caixa de comentários eu comento o que acho dele…

O que mais quer a igreja católica?

Dioclécio Luz, no Observatório de Imprensa

A igreja católica não quer abrir mão do espaço que conseguiu na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). No início de 2011, depois de prorrogar por um ano seu posicionamento, o Conselho da EBC decidiu que os programas religiosos – cultos e missas – deveriam sair da grade de programação da TV Brasil. Para chegar a isso, a EBC colocou o tema em consulta pública. Por fim, decidiu que os programas das igrejas tinham um prazo para sair do ar – setembro de 2011 – e seriam substituídos por programas educativos que tratassem do fenômeno religioso. É o lógico, é o correto, é o decente.

Mas, quando estava prestes a cair o prazo para a igreja abandonar o lugar que não lhe pertence, ela apelou para o “tapetão”, a Justiça. E achou um juiz que manteve os privilégios.

Não me espanta que a igreja católica tenha feito isso. Acharia estranho se ela – democraticamente – acatasse a decisão. Por quê? Porque estamos tratando de uma religião acostumada a mandar, dar ordens, determinar como o mundo girar e, naturalmente, ter poder acima de todos os outros poderes. A igreja se acha o deus que ela inventou. E para deixar bem claro quem manda, coloca o crucifixo (seu símbolo) no plenário da Câmara dos Deputados, no Senado, no Supremo Tribunal Federal, nas várias Assembleias Legislativas. Inaugurada em 2010, a Câmara Distrital do Distrito Federal ostenta no plenário um grande crucifixo. Sobre a mesa, aberta, a Bíblia alerta sobre quem manda ali. O cristianismo – católico ou evangélico – não abre mão do poder.

A igreja católica entrou na justiça contra a EBC porque ela sempre mandou neste país – em todos os poderes – e não admite deixar esse poder. É claro que, do ponto de vista da moral, não há sustentação para ela permanecer ocupando esse espaço público. Mas desde quando a igreja tem pudores com relação à usurpação de espaços públicos?

A Constituição proíbe, mas…

Vide o que ocorre em todas as cidades do Brasil. A igreja sempre pegou os melhores terrenos para construir seus templos, suas catedrais, suas casas paroquiais etc. Isso não é coisa do passado. O caso de Brasília é emblemático. Ao buscar um terreno para instalar a Universidade de Brasília, Darcy Riberio descobriu que a melhor área já tinha dono: a igreja católica. Em seu livro Confissões, ele relata como teve que ir ao Vaticano para negociar com o papa o terreno.

Como a igreja conseguiu um terreno numa cidade que mal tinha sido inaugurada? Ela comprou esse terreno? Claro que não. Do mesmo modo, não veio um centavo do Banco do Vaticano para comprar o terreno e construir a catedral de Brasília, na Esplanada dos Ministérios. É a única religião instalada na Esplanada dos Ministérios. Como ela conseguiu pegar esse terreno público em área nobre, destinada somente aos ministérios? Ora, porque sempre foi poder.

Hoje, quando a catedral precisa de reforma ou de ampliação de suas instalações, são empregados recursos públicos. Para construção do batistério, por exemplo, ela recebeu R$ 1 milhão. Na verdade, essa coisa de receber dinheiro público para reconstrução de igrejas “seria” ilegal, mas como elas (essas igrejas velhas) recebem a tipificação de “patrimônio histórico”, sempre têm dinheiro público para sua reconstrução. Isso está em lei. Ou melhor, no acordo assinado pelo governo brasileiro com a Santa Sé – a gente reconstrói as igrejas deles. A Constituição proíbe, mas como se trata da igreja católica… Ou a sociedade aceitaria o investimento de recursos públicos num templo da Igreja Universal?

Revelações do passado

Esse tipo de coisa acontece em todo Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas acham normal ter uma imensa imagem católica (o Cristo) num espaço público, construído com recursos públicos, mas sob o comando da igreja. Ela fatura para “administrar” essa imagem. Em determinadas regiões, como no Nordeste, a força da igreja é tal que metade dos terrenos de alguns municípios lhe pertence. Sem contar o seu esforço de continuar dominando o povo pobre com milagres e mistificações. O melhor exemplo, no caso, é Juazeiro do Norte (CE), onde se estimula o sofrimento como forma de moeda de troca do deus criado pela igreja católica e se reconstrói a imagem de Padre Cícero, como santo, e agora – acredite-se – até como “ecologista”.

Acontece que, ao entrar com a ação na Justiça contra a EBC, a igreja católica não percebeu que o mundo mudou. Acostumada a mandar e a não receber críticas, agora ela está recebendo um monte delas. Pior, seu passado está sendo revelado. Pior ainda, revelou novamente sua ambição por mais poder e riqueza.

Consta que a ação pela manutenção dos programas foi apresentada pela arquidiocese do Rio de Janeiro na 15ª Vara de Brasília. Na ação, a igreja diz que houve “discriminação religiosa”. Se fosse sincera deveria dizer: “Olha, estamos acostumados a mandar no Brasil, por que vocês não obedecem?” Ou então: “Queremos manter esse espaço porque sempre ocupamos espaços públicos e ninguém nunca reclamou”.

Ações como essa da igreja têm a ver com a sua decadência. O número de católicos caiu quase 20% nos últimos 10 anos; falta quem queira ser padre. Tudo isso tem a ver com a sua imagem (manchada com as acusações de pedofilia acobertadas pelo papa); a falibilidade da retórica cristã sustentada por dogmas e imposições (que não convencem ninguém); revelações do seu passado de (muita) lama e sangue, incluindo matança de não-cristãos, de mulheres (somente por serem mulheres) e até relações com Hitler e Mussolini.

Não é preciso ser ateu

A doutrina ou moral católica é uma questão central nesse debate. Porque, afinal, o que a igreja quer é o direito de usar um espaço público – rádio e TV – para difundir que a mulher não vale nada; que homossexualidade é doença; que a camisinha não deve ser usada “porque não garante sexo seguro”; que o homem veio da mulher; que o sofrimento é bom; que somos todos pecadores; que o casamento deve ser eterno. O mais espetacular é que quem prega tudo isso são pessoas a quem foi proibido namorar, transar, casar, ter filhos, formar família. Bem, caiu a ficha: muita gente descobriu o óbvio: essa pessoa não tem condições de dar conselhos sobre família, filhos, sexo, moral.

Vejamos a questão política. Inventou-se na América Latina a tal Teologia da Libertação. A doutrina não mudou uma linha, apenas incorporou o pobre em seus discursos. Entenda-se o processo: ela não abandonou sua relação com o poder, com os ricos; somente acrescentou os pobres. Fez-se uma releitura dos ensinamentos bíblicos e se descobriu que Jesus era esquerdista e revolucionário. Surge a igreja progressista. Como se por acaso essa doutrina e essa hierarquia tivessem algo de socialista ou democrático.

No bojo disso tudo, para suprir a carência de religião do revolucionário de esquerda, dá-se um nó no marxismo e inventa-se o marxista cristão, o marxista transgênico. Desse modo todos ficam felizes: não é preciso ser ateu para ser marxista; o cristianismo aceita. No túmulo, Marx se revolve com esta invenção moderna da igreja. Patologia tupiniquim. Freud já explicou essa carência que faz com que o militante não consiga viver sem pedir a benção aos padres.

Morte anunciada

A igreja tem poder sobre os espaços públicos, mas também atua na educação (é dona das escolas mais ricas) e, principalmente, na comunicação. Embora se apresente como aliada do movimento pelo direito à comunicação (tem gente que acredita nisso), a igreja católica (progressista? direitista?) é “dona” de 46 emissoras de televisão, tem 863 retransmissoras e nove grupos filiados. Essa igreja católica dos padres de direita e dos “progressistas” possui 133 emissoras de rádio. Alguns programas ela consegue retransmitir por mais de mil emissoras. (Fonte: www.donosdamidia.com.br).

Por que essa igreja não se satisfaz com o que tem? Rica em finanças, dona de escolas, terras, emissoras de rádio e TV, ela ainda quer mais. Qual o limite para a ambição da igreja católica? A resposta é: a igreja tem um projeto de poder eterno e para conseguir isso ela precisa sempre e sempre juntar mais e mais poder. Este seu projeto não aceitaria jamais abrir mão de um espaço na TV e no rádio, mesmo que seja moralmente indefensável. Mesmo sabendo que se encontra em processo de extinção – ou talvez por isso mesmo. É o seu jeito de evitar a morte anunciada.

***

[Dioclécio Luz é jornalista, mestre em Comunicação pela UnB, autor de A arte de pensar e fazer rádios comunitárias]

Thiago Novaes, na Lista Submidialogia

Nesta segunda – 03.10.11 o coletivo CMI-DF recebeu prêmio de R$ 35 mil no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com o filme Sagrada Terra Especulada.

Narrado pelo rapper GOG, é um grito contra a especulação imobiliária e pelo respeito à diversidade. Trata da luta entre a permanência do Santuário Sagrado dos Pajés que é uma comunidade indígena Fulni-ô, localizada no plano-piloto de Brasília, e a construção do bairro Noroeste, destinado à classe alta do Distrito Federal.

Único filme copyleft do Festival, o documentário não recebeu qualquer tipo de patrocínio e foi realizado de maneira voluntária e coletiva.

Baixe, Assista, exiba, distribua livremente – http://vimeo.com/28597529

Neste momento o Santuário e matas nativa de cerrado são atacados ilegalmente por tratores da construtora EMPLAVI. O filme serve como arma a favor da população indígena e de rua contra os novos e constantes ataques.

Em tempo, este prêmio é uma resposta a cada bola de borracha, bomba de gás, pra cada transmissor de rádio livre roubado pelo Rei,pra cada noite na delegacia.Esse prêmio vai pra cada indígena, moradora de rua, sem-terra
assassinad@s ontem, hoje e amanhã. Ao cerrado sua fauna e flora, a quem dá vida aos movimentos sociais,todas as heroínas e heróis anônim@s, a quem se apropria da tecnologia como forma de libertação e…especialmente, do
fundo do coração pra cada voluntári@ que dedicou seu tempo e sonhos à REDE IndYmedia ! Som@s tod@s ! Venceremos ! ((( I )))

wiki do santuário: http://radius.tachanka.org/santuariodospajes/

Uma manifestação global está sendo convocada para o dia 15 de outubro para “reclamar direitos e reivindicar uma democracia de verdade”. A ideia é formar uma mobilização global não-violenta. Como afirma o texto de convocação, disponível aqui, “os poderes constituídos trabalham para o benefício de poucos, ignorando o futuro da vasta maioria da humanidade e o preço ambiental que todos devemos pagar. Essa situação deve parar”.

O texto continua afirmando que “unidos em uma única voz, nós vamos fazer os políticos e as elites financeiras que eles servem, saberem que depende de nós, o povo, decidir o futuro”.

O texto avisa ainda que políticos e banqueiros não representam o povo e que é tempo de nos unirmos (o povo) e é tempo deles ouvirem.

A articulação está sendo feita em todos os continentes. No Brasil há os endereços abaixo do Facebook para onde devem convergir as organizações localizadas.

BRAZIL
http://www.facebook.com/event.php?eid=117904894971979
http://www.facebook.com/event.php?eid=258688750828711
http://www.facebook.com/event.php?eid=146385872122731

E também páginas por estado e algumas cidades.

Salvador:
http://www.facebook.com/event.php?eid=275867459106289

Curitiba:
http://www.facebook.com/event.php?eid=258777194153031

Bauru:
http://www.facebook.com/event.php?eid=162471733830405

São Paulo:
http://www.facebook.com/event.php?eid=219577354763943
http://www.facebook.com/event.php?eid=265869633423819
https://www.facebook.com/event.php?eid=173815709361127

Natal:
http://www.facebook.com/event.php?eid=282614531753257

Porto Alegre:
http://www.facebook.com/event.php?eid=158484344236080
http://www.facebook.com/event.php?eid=247070485334275

Passo Fundo:
http://www.facebook.com/event.php?eid=123428414425569

Florianópolis:
http://www.facebook.com/event.php?eid=270312849659994

Tubarão:
http://www.facebook.com/event.php?eid=149415055149282

Londrina
https://www.facebook.com/event.php?eid=102851526490798

Novo Friburgo
https://www.facebook.com/event.php?eid=238261839553540

Pelotas
https://www.facebook.com/event.php?eid=197233963679960

Grande ABC
http://www.facebook.com/event.php?eid=195095650560793

Sorocaba
http://www.facebook.com/event.php?eid=100351233407836

Belo Horizonte
https://www.facebook.com/event.php?eid=193303720739631

Brasilia
https://www.facebook.com/event.php?eid=288392251174437

Goiânia
https://www.facebook.com/event.php?eid=173002856113832

A convocatório foi feita pelo grupo ROAR, que está entre outros organizando as ocupações em Wall Street, desde o dia 17. Mas os parceiros do Roar, que vem organizando as manifestações em alguns países da Europa, também estão envolvidos.

Entre eles: http://www.euroalter.com/network/, http://www.usdayofrage.org/, http://takethesquare.net/, http://spanishrevolution.es/, http://amesi-dimokratia.org/, http://www.adbusters.org/, e outras (comentei aí embaixo que eu coloco aqui sua contribuição).

Sobre o momento digital

Luiz Carlos Pinto | 26 de setembro de 2011 14:30

Rodrigo Savazoni, na Revista Zona Digital

O teórico do ciberespaço Howard Rheingold afirma em seu livro Smart Mobs (Multidões inteligentes), ainda não traduzido para o português, que, do ponto de vista tecnológico, nosso mundo vem se transformando não pela ação dos líderes industriais estabelecidos (como já ocorrera com o surgimento da internet e dos computadores pessoais), mas pela força de “pequenos grupos de jovens empreendedores e de associações de aficcionados”. Aliás, Rheingold, nessa passagem, reforça: “sobretudo por meio de associações de aficcionados”.

Também não é por meio dos líderes estabelecidos e das forças tradicionais que a política se reinventa e se reforça, mas sim pela ação de grupo de “jovens realizadores”, cujo objetivo é a construção de novos territórios para as causas comuns. No Brasil, são justamente esses “jovens realizadores”, ativistas conectados à internet, os arquitetos dos movimentos sociais do século 21. Por meio de projetos democráticos e métodos provocativos, esses agrupamentos contemporâneos estão confrontando forças estabelecidas de nossa sociedade e já fazem algum barulho.

Uma característica (1) desse movimento é que ele provém de articulações cuja origem não está nas estruturas partidárias, sindicais ou mesmo nos movimentos sociais surgidos nas três décadas anteriores (como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST – ou mesmo as grandes associações de lutas por direitos humanos e sociais – como Ibase ou Ação Educativa, para ficar em apenas dois exemplos). São, acima de tudo, forças articuladas em rede, com forte influência do uso das novas tecnologias de informação e comunicação, que nem sequer podem ser chamadas de “organizações”.

Outro aspecto importante (2) é que são grupos que não se prendem a filiações ideológicas rígidas. Sua marca é a ação. São ideólogos da prática. Pode-se tentar compreendê-los buscando referências na esquerda libertária, de onde provém muitos dos princípios dessas articulações, mas boa parte de seus participantes não se furta a saquear métodos e símbolos extraídos da cultura corporativa. Há uma forte conexão com o altermundismo, o movimento por uma outra globalização que se espraiou no final dos anos 1990 e no início da primeira década do século 21, tendo nos Dias de Ação Global e no Fórum Social Mundial seus grandes momentos de reunião e expressão, mas somente essa filiação não explica o que está ocorrendo.

Se aproximarmos nossa lupa, cresce a imagem da cultura digital, que, conforme nos explica o professor André Lemos, da Universidade Federal da Bahia, se forja a partir do surgimento da internet e da popularização da microinformática, processos iniciados no final dos anos de 1970. Essa cultura ganha impulso adicional e assume sua forma mais visível com a aparição da web, nos anos 1990. Trata-se de uma cultura baseada na recombinação e na colaboração que se alastrou pelo planeta e produziu um curto-circuito no comportamento, na economia, nas artes, na mídia e, evidentemente, na política.

A percepção dessas transformações, com a massificação das tecnologias, só faz crescer. Com suas ferramentas digitais, esses “jovens realizadores” não só descrevem a realidade, mas acima de tudo transformam-na. Técnica e política, neste debate, jamais podem ser observadas em separado.

Por fim (3), outra característica da articulação desses “jovens realizadores” tecnológicos é a busca pela radicalização da política e da democracia, que vêm sendo paulatinamente aprisionadas pelos interesses econômicos e pela vacilações do representantes políticos tradicionais. Portanto, não se trata de um movimento de negação da política, mas de confrontação das estruturas e dos representantes desse mundo caduco.

Expoentes da transformação em curso

Destaco três redes como aquelas que são os expoentes do que descrevi acima. A rede Transparência Hacker, a rede Metareciclagem e a rede Fora do Eixo. Na sequencia, faço uma rápida descrição das três, para que posteriormente possamos avançar no debate.

A Transparência Hacker (1) é uma comunidade formada por ativistas, jornalistas, programadores e gestores públicos que conta com cerca de 800 membros em sua lista de discussão[1]. Essa rede conta com apoio do escritório brasileiro do W3C, a instituição criada por Tim Berners Lee para manter a world wide web (www) aberta e livre.

De acordo com Daniela Silva, da Esfera e da Casa da Cultura Digital, uma das principais articuladoras da rede, não existem regras prévias para participar da #THacker, mas sugere que a “colaboração, liberdade, autonomia, ética hacker, abertura para formas novas de agir e de pensar sobre o mundo, valores políticos emergentes e mutáveis (ou mutantes) e um certo gostinho pela provocação” são as principais características do movimento. Como está escrito na página do coletivo na internet, interessam “ideias e projetos que utilizem a tecnologia para fins de interesse da sociedade” e sua vocação específica é exigir a abertura dos dados governamentais. Ou seja, os ativistas querem que o estado, na era da informação, compartilhe com os cidadãos suas informações, o que por si só se constitui em uma forma de compartilhar poder.

A rede Metareciclagem (2) é pioneira desse movimento, tendo surgido no contexto do Fórum Social Mundial. Sua lista, que pode ser acessada por meio do site http://www.metareciclagem.org está ativa há oito anos. De acordo com Felipe Fonseca, um dos articuladores desse coletivo, “a metareciclagem é mais um foco de potência de ação política – porque as pessoas trocam entre si – do que uma instância política autônoma, que tenha uma coerência”. No início da política pública dos Pontos de Cultura, muitos dos ativistas desse coletivo trabalharam na elaboração do que viria a constituir os Kits Multimídia e a ação cultura digital, cujo objetivo é promover a criação tecnológica utilizando ferramentas livres. Fonseca é autor do livro Laboratórios do Pós-Digital, disponível para download no endereço http://efeefe.no-ip.org/livro/laboratorios-pos-digital, no qual apresenta muitas das questões centrais da reflexão da Metareciclagem.

O (3) Fora do Eixo (www.foradoeixo.org.br), por sua vez, é uma rede de coletivos de produção cultural que está presente em todos os estados do Brasil. Iniciada em 2005, por meio de uma parceria entre produtores das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR), a rede foi crescendo e hoje é tida como a principal força político-cultural surgida no país nos últimos anos. Somente no ano passado, mais de 5 mil bandas circularam por meio das ações dos coletivos que integram essa rede. A partir das articulações por eles lideradas, foram promovidas ações como a criação da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin)[2], e a criação do Partido da Cultura[3], que vem buscando interlocução com a classe política tradicional sobre questões de interesse das novas gerações, e as Marchas da Liberdade[4], movimento que este ano levou às ruas de várias cidades militantes em defesa das liberdades. Entre as inúmeras inovações introduzidas por esse coletivo de coletivos, está a de utilizar a economia solidária para construir relações sociais diferenciadas entre sua rede de produtores e ativistas.

Política Tropicalista

Descritos os exemplos que nos interessam, podemos prosseguir.

Durante os oito anos de governo Lula, esses “jovens realizadores”, adeptos de novas formas de fazer política, foram co-gestores de políticas públicas. Isso ocorreu especialmente no Ministério da Cultura, instituição que se apresentou como importante indutor do crescimento dos coletivos, dando a eles o reconhecimento institucional que, em geral, articulações de perfil libertário não recebem.

Essa configuração, porém, não foi especificidade da Cultura, posto que o diálogo entre os ativistas e o governo federal daqueles tempos propiciou: 1. as ações em defesa do software livre (que é a matriz ideológica de boa parte dos movimentos políticos e sociais em rede); 2. as políticas públicas em favor do compartilhamento do conhecimento, como o programa Cultura Viva (dos Pontos de Cultura), a defesa da reforma da Lei de Direitos Autorais (LDA), além de um conjunto de iniciativas mais pontuais, como o diálogo com a blogosfera, os Pontos de Mídia Livre e a rede CulturaDigital.Br; 3. a proposição de um Marco Civil de direitos dos cidadãos digitais pelo Ministério da Justiça, legislação elaborada de forma aberta e compartilhada (veja o site www.culturadigital.br/marcocivil).

Conforme afirma Hermano Vianna, em Políticas da Tropicália:

“Talvez os softwares livres do ministro Gilberto Gil criem um ciberespaço onde o espírito tropicalista se reproduza em inteligências artificiais e virtuais, na periferia de um novo império americano que o rock amado com tanto custo por determinados jovens baianos dos anos 60 nem sequer podia imaginar”.

Hermano utiliza neste texto, escrito há alguns anos, a expressão “talvez”, porque sabia que a reação de setores privilegiados pelas políticas de estado não tardaria a ocorrer. Atualmente, essa delicada relação entre os “novos agentes” e o governo popular” está escorrendo pelos dedos. O portal rumo ao desconhecido que se abriu durante o governo Lula, a nova gestão do Ministério da Cultura de Dilma Rousseff – e sua mudança de orientação – fechou. Com Luiz Inácio Lula da Silva e Gilberto Gil havia-se aberto um trilha de transformações profundas, no plano da existência e dos símbolos, que abalou estruturas. Aqueles que sempre foram privilegiados e entre 2003 e 2010 foram confrontados reagiram, organizando um movimento de reconquista que conta com a aderência de parte da esquerda tradicional.

O recorte tropicalista das políticas culturais, com sua opção de fomento das dissidências e estímulo às bordas do sistema (ou mesmo por aqueles que só se divisa a partir de dobras) – que é, conforme a citação de Rheingold no início deste texto, onde a inovação reside, o caldo da transformação entorna e a vida parece poder superar o capital – tornou-se contraditoriamente foco da ira dessa estranha aliança entre setores da esquerda e do empresariado da comunicação e da cultura. Esse movimento – é bom lembrar – não é privilégio do Brasil, mas sim uma reação global[5] à cultura digital.

Em busca de uma democracia biopolítica

É preciso mais uma vez reforçar: a essência dos movimentos da cultura digital provém do software livre. No início dos anos 1980, um grupo de engenheiros liderados por Richard Stallman criou a Free Software Foundation (FSF), organização com o objetivo de defender a colaboração e o compartilhamento quando os softwares começavam a se tornar instrumentos de enorme ganho financeiro. Para maximizar seus vencimentos, as empresas de tecnologia começaram a adotar patentes e mecanismos de proteção de propriedade intelectual, contrariando assim a essência do desenvolvimento científico, que é baseado na evolução a partir do conhecimento acumulado.

Para “amarrar” a liberdade de compartilhar ao modelo de licenciamento, a FSF criou um modelo alternativo (a licença GPL), que passou a ser utilizada pelos desenvolvedores no mundo todo. Essa ação, aparentemente técnica, embutia um confronto político que cresceria desde então: o da luta contra a propriedade na era do conhecimento.

É justamente essa visão de superação da propriedade privada que constitui o diferencial do movimento de cultura digital[6]. Era essa visão que estava a nortear as políticas públicas desenvolvidas durante o governo Lula. Uma construção que poderia apontar para uma democracia biopolítica, nos termos que propõe Peter Pál Pelbart, com base nos escritos de Deleuze, Foucault, Negri, Lazzaratto, Agamben, entre tantos outros pensadores contemporâneos que atualizam nossa compreensão do mundo.

Peço licença para uma citação do livro Vida Capital, de Peter Pál Pelbart:

“Podemos retomar nosso leitmotiv: todos e qualquer um, e não apenas os trabalhadores inseridos em uma relação assalariada, detêm a força-invenção, cada cérebro-corpo é fonte de valor, cada parte da rede pode se tornar vetor de valorização e de autovalorização. Assim, o que vem à tona, com cada vez maior clareza é a biopotência do coletivo, a riqueza biopolítica da multidão. É esse corpo vital coletivo reconfigurado pela economia imaterial das últimas décadas que, nos seus poderes de afetar e ser afetado e de constituir para si uma comunialidade expansiva, desenha as possibilidade de uma democracia biopolítica”.

Essa capacidade de reinventar o viver, que está na essência do confronto biopolítico, vejo explícita em dissidentes como o Transparência Hacker, o Metareciclagem e o Fora do Eixo. Como são projetos distintos, de formação distinta, ainda que com muitos pontos de conexão, evidentemente que não caberia analisá-los por igual, mas se há algo que é comum a todos eles é o permitir novas “formas de viver”, constituindo-se como agentes fundamentais no processo de construção dessa “democracia biopolítica”. Daí que, se estamos falando de políticas de esquerda, estimulá-los é uma obrigação.

Fato é, portanto, que algumas questões só poderão ser respondidas se compreendermos que a inovação cultural passa por esses “jovens realizadores”. Mais que de uma investigação aprofundada sobre o papel desses coletivos – algo extremamente necessário[7] – temos necessidade de políticas que os fomente e fortaleça. Era isso que vinha ocorrendo no governo Lula e que com Dilma parece ter perdido o passo[8]. A presidente parece não ter percebido que o investimento nos “jovens realizadores” pode ser o diferencial do Brasil.

Para discutir essas questões, as redes e coletivos estarão presencialmente em contato na terceira edição do Festival CulturaDigital.Br (que no início foi chamado de Fórum da Cultura Digital Brasileira). O evento será realizado entre os dias 2 e 4 de dezembro, no Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna e no Odeon, com patrocínio da Petrobras e apoio da Secretaria Estadual de Cultura. Quando ainda se chamava Fórum, esse evento, que acima de tudo é um processo de construção política, por meio do diálogo em rede, foi realizado a partir de uma articulação da sociedade civil organizada e o Ministério da Cultura. Seu objetivo inicial era ser um espaço de elaboração colaborativa de políticas culturais para o Século 21, o século das redes, da informação, da produção pós-industrial.

Atualmente, o Festival CulturaDigital.Br almeja ser um espaço de encontro dos novos realizadores, produtores e ativistas que operam na intersecção entre cultura, política e tecnologia, promovendo inovações. A edição passada foi uma grande arena de contatos e encontros que vêm reverberando desde então. Este é o momento digital.

[1] https://groups.google.com/group/thackday?hl=pt

[2] http://www.abrafin.com.br/

[3] http://partidodacultura.blogspot.com/

[4] http://www.marchadaliberdade.org/

[5] Na Espanha, a lei Sinde-Zapatero permite desconectar internautas que “violem” direitos autorais; na França, a lei Hadopi abriu caminho para criminalizar quem compartilha músicas, na Inglaterra, diante dos protestos dos jovens, que se articulam em redes, o premiê propõe a desconexão, no Egito, na Tunísia, na Líbia, em todo o norte da África, computadores (re)agem…

[6] Para não ser acusado de tecnoutópico, registro que o capital se propaga com força por meio das redes, e que a colonização da vida por meio das tecnologias ocorre. No entanto, o fito desta nota é justamente demonstrar que não existe resistência e superação ao capital fora desse combate no plano das subjetividades.

[7] Vale destacar a tese de doutoramento de Hernani Dimantas, na Universidade de São Paulo, sobre o Metareciclagem, trabalho executado por um pesquisador que é também um dos mais importantes articuladores dessa rede.

[8] O recente artigo do Ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, “As Razões do Diálogo com os Hackers” parece apontar para uma nova abertura governamental para políticas de fomento às dissidências: http://www.trezentos.blog.br/?p=6224

Um vídeo para o fim de semana

Luiz Carlos Pinto | 16 de setembro de 2011 17:03

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