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Archive for the 'Política' category

Já começou o penúltimo ciclo de oficinas do Projeto Coque Livre. Dessa vez as oficinas estão sendo dadas por Ricardo Brazileiro e por Ricardo Ruiz, que pretendem re-editar o Imersom, série de oficinas que mexeu com a criatividade da meninada a partir de experiências com hardware, programação básica, fotografia e web para construir um dispositivo móvel que tivesse uma funcionalidade pra comunidade.

A idéia daquele ciclo era criar as condições para que a apropriação dos recursos tecnológicos e dos conhecimentos andassem de mãos dadas com afinidades e subjetividades dos alunos e que pudessem servir para a construção desse dispositivos, que teria (como teve) a capacidade de documentar imagens e sons.

O atual ciclo tem, no final das contas, o mesmo objetivo final, que é a construção de uma Mimosa, uma máquina afetiva para a documentação das vivências, experiências e histórias que os meninos acham interessante. Como tem sido feito até agora, o jeito de fazer com que a criação não seja somente de Ruiz e de Brazileiro, mas de todos eles, é a procura por abrir a caixa preta, por desconstruir o objeto técnico, ou a idéia de que ele é um estranho sobre o qual não se pode atuar.

Para isso, BraziZ montaram o quarto ciclo em três fases: na primeira procuraram apresentar pra meninada o HTML, como forma de introdução de uma linguagem de programação. O passo é necessário para que se possa depois jogar os conteúdos na web de uma forma que n]ao seja operacional, mas que se possa compreender a linguagemd e marcação que em parte torna isso possível.

A segunda etapa é uma introdução a linguagem de funções e isso ta sendo feito por meio da criação jogos, que funcionam por meio de comandos que orientam efeitos (funções) de movimentos, de reações, de sons, de quadros, e cenários.

E finalmente a terceira fase vai ser uma introdução à linguagem de códigos como forma de permitir que os meninos possam programar minimamente com pure data.

Já foram criados alguns sites, que por enquanto, estão rodando no servidor do laboratório do Coque Livre. Segundo relato de Ruiz, essa turma atual tá se apropriando de forma surpreendente o que ele e Brazileiro trazem para a sala de aula. Acredito que em grande parte a forma de divulgação (tanto diretamente no Neimfa quanto nas escolas da comunidade) ajudou a encontrar e sensibilizar uma meninada aberta e disposta às atividades.

Como já disse, a idéia geral é por um lado dar prosseguimento à documentação de vivências,d e vontades,de afetos, de relações,de histórias vivenciadas pela meninada ou por pessoas que eles achem que devem ser documentados a partir de um dispositivo técnico coletivamente gestado. Por outro lado, esse ciclo também tem sido uma continuidade do trabalho de integração de todas essas coisas com o projeto Cotidiano Sensitivo (http://cotidianosensitivo.info/blog/oprojeto/).

O que mostra para todos nós as possibilidades de reflexão e de resultados, processos, “produtos” que podem emergir das interações nos ciclos do Coque Livre. Estamos pensando em fazer, para o próximo e último ciclo de oficinas. uma mescla das atividades desenvolvidas até aqui, mas ainda não começamos a pensar nisso de forma mais precisa.

David Harvey 

“Adolescentes niilistas e bestiais”. Foi como o Daily Mail os apresentou: os jovens enlouquecidos, vindos de todas as vias da vida, que correram pelas ruas sem pensar, atirando desesperadamente tijolos, pedras e garrafas contra os polícias, saqueando aqui, incendiando ali, levando as autoridades a uma também enlouquecida caçada de salve-se quem puder/agarre o que conseguir, enquanto os jovens iam alterando os seus alvos estratégicos, saltando de um para outro.

A palavra “bestial” saltou-me à vista. Lembrou-me que os communards em Paris em 1871 foram mostrados como animais selvagens, como hienas, que mereciam ser (como foram, em vários casos) sumariamente executados, em nome da santidade da propriedade privada, da moralidade, da religião e da família. Mas em seguida a palavra trouxe-me outra associação: Tony Blair atacando os “média bestiais”, depois de ter vivido durante tanto tempo confortavelmente alojado no bolso esquerdo de Rupert Murdoch, até que Murdoch meteu a mão no bolso direito e de lá tirou David Cameron.

Evidentemente haverá o debate histérico de sempre entre os sempre prontos a ver a agitação das ruas como questão de pura, simples e imperdoável criminalidade, e os ansiosos por contextualizar eventos em termos de polícia incompetente; de eterno racismo e injustificada perseguição aos jovens e às minorias; de desemprego em massa entre os jovens; de pauperização incontrolável da sociedade; de uma política autista de austeridade que nada tem a ver com a economia e tudo tem a ver com a perpetuação e a consolidação da riqueza e do poder individuais. Haverá até quem condene o sem sentido e a alienação de tantos trabalhos e empregos e tal desperdício da vida de todos os dias, de tão imenso, mas desigualmente distribuído, potencial para o florescimento humano.

Se tivermos sorte, haverá comissões e relatórios que dirão tudo, outra vez, que já foi dito sobre Brixton e Toxteth nos anos Thatcher. Digo “sorte”, porque os instintos bestiais do atual primeiro-ministro parecem tender mais a mandar usar canhões de água, a convocar a brigada do gás lacrimogêneo e a usar balas revestidas de borracha, ao mesmo tempo em que ele untuosamente pontifica sobre a perda da bússola moral, o declínio da civilidade e a triste deterioração dos valores da família e da disciplina entre os jovens sem lar.
Mas o problema é que vivemos em sociedade na qual o próprio capitalismo se tornou desenfreadamente fera. Políticos-feras mentem nos gastos, banqueiros-feras assaltam a bolsa pública até ao último vintém, altos executivos, operadores de hedge fundse génios do lucro privado saqueiam o mundo dos ricos, empresas de telemóveis e cartões de crédito cobram misteriosas tarifas nas contas de todos, empresas de retalho aumentam os preços, por baixo do chapéu artistas vigaristas e golpistas aplicam os seus golpes até entre os mais altos escalões do mundo corporativo e político.

Uma economia política de saqueio das massas, de práticas predatórias que chegam ao assalto à luz do dia, sempre contra os mais pobres e vulneráveis, os simples e desprotegidos pela lei – isso é hoje a ordem do dia. Alguém ainda crê que seja possível encontrar um capitalista honesto, um banqueiro honesto, um político honesto, um comerciante honesto ou um delegado de polícia honesto? Sim, existem. Mas só como minoria, que todos os demais consideram idiotas. Seja esperto. Passe a mão no lucro fácil. Fraude, roube! A probabilidade de ser apanhado é baixa. E em qualquer caso, há muitos meios para proteger a fortuna pessoal e impedir que seja tocada pelos golpes das corporações.

Tudo isso, dito assim, talvez choque. Muitos de nós não vemos, porque não queremos ver. Claro que nenhum político se atreve a dizer estas coisas e a imprensa só publicaria, se algum dia publicasse, para escarnecer de quem dissesse. Mas acho que todos os que correm pelas ruas agitando a cidade sabem exatamente a que me refiro. Estão fazendo o que todos fazem, embora de modo diferente – mais flagrante, mais visível, nas ruas. O thatcherismo despertou os instintos bestiais do capitalismo (o “espírito animal” do empreendedor, como o chamam timidamente) e, desde então, nada surgiu que os domasse. Destruir e queimar é hoje a palavra de ordem das classes dominantes, de fato, em todo o mundo.

Essa é a nova normalidade sob a qual vivemos. Isso deveria preocupar o presidente do inquérito que rapidamente será nomeado. Todos, não só os jovens agitadores, devem ser responsabilizados. O capitalismo bestial deve ser levado a julgamento por crimes contra a humanidade, tanto quanto por crimes contra a natureza.

Infelizmente, isso é o que os agitadores nem vêem nem exigem. Tudo conspira para nos impedir de ver ou exigir exactamente isso. Por isso o poder político tão facilmente se traveste na roupagem da moralidade e de uma razão repugnante, de modo que ninguém veja a corrupção nua e a irracional estupidez.

Mas há réstias de esperança e luz em todo o mundo. O movimento dos indignados na Espanha e na Grécia, os impulsos revolucionários na América Latina, os movimentos camponeses na Ásia, todos esses começam a ver através da imundície que o capitalismo global, predatório, bestial lançou sobre o mundo. O que ainda falta para que todos vejamos e comecemos a agir? Como se poderá começar tudo outra vez? Que rumo tomar? As respostas não são fáceis. Mas uma coisa já se sabe: só chegaremos às respostas certas, se fizermos as perguntas certas.

(*) Geógrafo, professor emérito do Graduate Center da City University of New York.

(**) Artigo publicado em Counterpunch e disponível também em davidharvey.org, traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu.

 in Carta maior

Por Izaías Almada

O que responder, em sã consciência, a uma das reflexões de Rosa de Luxemburgo diante da brutalidade da direita alemã logo depois de terminada a Primeira Grande Guerra em 1918?  Socialismo ou Barbárie?

Os anos e as décadas passam. De um lado os déspotas, e do outro os defensores das causas socialistas e humanistas também passam e a mesma dúvida permanece teimosa para aqueles que também, teimosamente, insistem em lutar por um mundo melhor.

A propósito dessa sensível questão, para muitos de nós não será difícil identificar a razão pela qual boa parte da imprensa internacional, e mesmo a nacional, tenta caracterizar as várias das atuais manifestações anticrise pelo mundo não mais como sendo insufladas pela esquerda, mas por manifestantes que são tratados como bandidos, terroristas, selvagens, vagabundos e outras bobagens do gênero.

Essa tentativa manipuladora é para despolitizar o conteúdo das manifestações, pois, em consonância com a idiotia dominante e seus porta-vozes na mídia, não existem alternativas ao sistema capitalista. Para muitos, o mundo deixa de existir se o capitalismo entrar em fase terminal.

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Boaventura de Souza Santos

Não ponho em causa que haja um futuro para as esquerdas mas o seu futuro não vai ser uma continuação linear do seu passado. Definir o que têm em comum equivale a responder à pergunta: o que é a esquerda? A esquerda é um conjunto de posições políticas que partilham o ideal de que os humanos têm todos o mesmo valor, e são o valor mais alto. Esse ideal é posto em causa sempre que há relações sociais de poder desigual, isto é, de dominação. Neste caso, alguns indivíduos ou grupos satisfazem algumas das suas necessidades, transformando outros indivíduos ou grupos em meios para os seus fins. O capitalismo não é a única fonte de dominação mas é uma fonte importante.

Os diferentes entendimentos deste ideal levaram a diferentes clivagens. As principais resultaram de respostas opostas às seguintes perguntas. Poderá o capitalismo ser reformado de modo a melhorar a sorte dos dominados, ou tal só é possível para além do capitalismo? A luta social deve ser conduzida por uma classe (a classe operária) ou por diferentes classes ou grupos sociais? Deve ser conduzida dentro das instituições democráticas ou fora delas? O Estado é, ele próprio, uma relação de dominação, ou pode ser mobilizado para combater as relações de dominação?

As respostas opostas as estas perguntas estiveram na origem de violentas clivagens. Em nome da esquerda cometeram-se atrocidades contra a esquerda; mas, no seu conjunto, as esquerdas dominaram o século XX (apesar do nazismo, do fascismo e do colonialismo) e o mundo tornou-se mais livre e mais igual graças a elas. Este curto século de todas as esquerdas terminou com a queda do Muro de Berlim. Os últimos trinta anos foram, por um lado, uma gestão de ruínas e de inércias e, por outro, a emergência de novas lutas contra a dominação, com outros atores e linguagens que as esquerdas não puderam entender.

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Luiz Carlos Pinto | 23 de agosto de 2011 17:00

Anatomia, de Rembrandt

Anatomia, de Rembrandt

Moyses Pinto neto, no O Ingovernável

Tenho acompanhado sem interesse algum as notícias sobre corrupção e o enfrentamento da Presidenta Dilma no tema. As notícias trafegam no noticiário e os mesmos clichês são repetidos a todos instantes. A imprensa mantém o tom ambíguo costumeiro, isto é, censura o governo simultaneamente por romper e não romper com aliados. Se rompe, é tratado como derrotado por “perder a base”. Se não rompe, compactua com a corrupção. Nos dois casos a imprensa nunca perde e o governo nunca ganha. Estratégia poderosa que subsiste como último reduto da oposição brasileira, o udenismo. Infelizmente, como não temos oposição capaz de se assumir conservadora ou liberal, preferindo se esconder sob os rótulos de “social-democrata” (!) e “democrata”, resta aos opositores do governo o moralismo rasteiro e casuísta, morada habitual da hipocrisia política fortemente enraizada na história brasileira. Apesar de tudo, Dilma continua com altíssimos índices de aprovação, pois a estratégia só funciona ocasionalmente e não é suficiente para enfrentar as importantes reformas sociais que vêm sendo efetivadas, além da auto-estima do brasileiro alimentada desde Lula.

O que, no entanto, está em jogo? Tenho insistido há muito tempo que a moralização da política é um escamoteamento casuísta que omite por meio do sacrifício de bodes expiatórios a principal fonte de corrupção: o domínio de oligarquias sobre a esfera pública. É um debate bem vivo na blogosfera, citando entre tantos ótimos blogueiros que postaram sobre o tema o Idelber Avelar e o Alexandre Nodari. Na minha visão há um deslocamento para o nível individual e de caráter de uma patologia que extravaza para o nível político, consubstanciado nessa violência que impera mediante chantagens, artimanhas, ameaças e violência cujos limites nem sequer podemos imaginar, chegando a um nível de estado de exceção.

Dilma nesse momento é vítima de uma máfia que se apoderou do poder, como em geral acontece nas democracias contemporâneas espalhadas pelo mundo. A pureza de um Parlamento capaz de representar os cidadãos dá lugar a poderosos grupos de interesses que, no caso do Brasil, oscilam entre oligarquias arcaicas e yuppies e se mantêm com base na mais frontal indiferença a tudo aquilo que não significa sua manutenção no poder. A mídia não representa esperança aqui, pois muitas vezes compactua com tais grupos, não deseja os enfrentar ou inclusive pertence a eles. Além disso, prefere individualizar e sacrificar, não tocando na estrutura de fundo que viabiliza no Brasil a manutenção sincrética de uma ideia liberal-democrática e uma realidade arcaico-feudal-oligárquica. Ninguém melhor que o PMDB sintetiza esse espaço.

Que fazer? As soluções parecem quase todas ruins, pois na realidade o que se observa é o declínio da representação parlamentar como um todo. Como diz Thom Yorke numa canção, “they don’t speak for us”. A defesa da democracia representativa contra a democracia direta – e tudo que dela se aproxima – revela um elitismo que no fundo nada mais faz do que consolidar a situação real em que vivemos no mundo: uma plutocracia generalizada, variando suas colorações de acordo com país e cultura. Pensar a política, aparentemente, parece exigir capaz vez mais pensar em alternativas à democracia representativa e parlamentar, sem cair em autoritarismos e demagogia, pois o mal parece estar na raiz. Isso significa talvez a necessidade de se repensar a própria questão do Estado.

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Foto de Conceição Oliveira

Foto de Conceição Oliveira

Por: Victor Farinelli, de Santiago do Chile,
especial para o Maria Frô

Quem me dera se minhas palavras fossem melhores, para poder dissertar sobre os últimos desatinos do governo de Piñera com a precisão que requer o leitor, e como longe estou de ser um Saramago, me limito a reproduzir uma citação clássica de sua obra: “somos todos cegos, cegos que podem ver, mas não querem” – frase que, aliás, cairia como uma luva em muitos dos conflitos sociais que vivemos no mundo, atualmente.

Na tarde de quarta-feira (17/08), o ministro de educação Felipe Bulnes anunciava a terceira proposta de reforma elaborada pelo governo chileno, tentando colocar fim ao conflito estudantil no país e ao anseio por um plebiscito que vem ganhando força nos últimos dias. As novidades eram as mesmas da proposta anterior, com novos números: se ofereceu juros ainda menores nos créditos educativos entregues pelo governo (de 5,6% para 2%), e com taxas retroativas, para ajudar os estudantes já formados a quitarem suas dívidas, além de maior cobertura dos créditos aos setores mais pobres da população e um processo mais acelerado de desmunicipalização das escolas de ensino básico e fundamental.

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Nesta quarta-feira (24) vai acontecer em São Paulo o debate Criatividade, Tecnologia e Políticas Públicas discutindo o setor da música. Transmitido pela web, o evento que acontece no Auditório do Ibirapuera será praticamente a primeira ocasião em que o ex-ministro Gilberto Gil se pronunciará publicamente sobre assuntos relacionados a sua atuação à frente do Mnistério da CUltura, no governo Lula. (Assim que ou link para transmissão estiver disponível eu atualizo o post.)

Ronaldo Lemos

Ronaldo Lemos by Ars Electronica via Flickr

Além desse fator, os outros debatedores prometem uma troca de ideias que está para além da possibilidade de render fofoca, intriga e/ou brechas para uma nova crise e mais um ministério da Presidenta Dilma. (Aliás, o Ministério da Cultura está em crise, mas parece que o PIG não entendeu…)

É que participam do bate papo Lawrence Lessig, Danilo Miranda, Sérgio Amadeu, Ivana Bentes, Ronaldo Lemos, a deputada Manuela D´Ávila, como mediação provocativa de Cláudio Prado, que não é o Di Melo, mas é imorrível.

Alguns dos temas que deverá ser tratados são as políticas digitais no mundo; a cultura peer to peer, mundo árabe, as revoltas na Espanha, Inglaterra, no mundo árabe, as recentes legislações francessas, o papel dos direitos autorais no século 21, e a relevância do Creative Commons na economia politica da informação atual.

3:4 Portrait crop featuring Lawrence Lessig

Mr. Lawrence Lessig

Vai ser uma boa oportunidade para ver o que essas pessoas falam em conjunto e trocando ideias sobre as políticas digitais no governo Dilma – ou a falta ou a fragilidade delas. E, nesse caso, certamente estará no script se debater o AI 5 Digital (o Projeto de Lei Azeredo), o Marco Cicil da Internet, em tramitação; o (pífio) Plano Nacional de Banda Larga; o Comitê Gestor da Internet (CGI.br); o retrocesso no MinC; a aproximação de Mercadante com o universo hacker brasileiro (é de verdade ou é retórica?).

Acho sensasional a iniciativa do Overmundo, FGV e da Casa de Cultura Digital. E fico na torcida para que o debate possa ser capitalizado da melhor forma possível. E qual seria essa melhor forma possível? No meu entendimento era permitir que o que tiver sido debatido possa chegar à Esplanada dos Ministérios, em especial à presidentada Dilma – uma vez que parece que não dá mais mesmo para contar com qualquer posição menos autista do Ministério da Cultura.

Minha expexctativa em relação a esse debate é que ele possa transcender o círculo de políticos (bem poucos, aliás), ativistas, acadêmicos e militantes do PT que já consomem e estão sinonizados com essa ordem de temas. Acho que o debate será tanto mais produtivo e frutífero quanto mais se espraiar em direção ao Partido dos Trabalhadores, aos núcleos do MinC que não se submeteram, ao núcleo duro da presidência.

Isso, claro, se se quiser alterar a marcha para trás do MinC e de outras iniciativas, como o do PNBL – e que até agora só vem comprovando uma das características do governo Dilma, a de representar uma monumental perda de oportunidade de rompimento em vários níveis.

É portanto uma boa oportunidade para se fazer barulho nas redes sociais. Mas mas que isso é uma oportunidade para se debater em alto nível o próprio governo e, mais exatamente, suas opções políticas no que se refere aos assuntos acima.

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Immanuel Wallerstein

Tradução: Daniela Frabasile


Barack Obama - Caricature

Image by DonkeyHotey via Flickr

Há uma década, quando eu e alguns outros falamos do declínio dos Estados Unidos no sistema-mundo, fomos recebidos no máximo com sorrisos de pena por nossa ingenuidade. Os EUA não eram o superpoder, envolvidos em cada canto remoto do planeta, capazes de obter o que queriam em quase todas as ocasiões? Essa era uma visão difundida em todo o cenário político.

Hoje, a visão de que os Estados Unidos declinaram, e declinaram seriamente, é uma banalidade. Todos dizem isso, com exceção de alguns políticos norte-americanos que temem ser culpados pela decadência, se a debaterem. O fato é que hoje quase todos acreditam na realidade desse declínio.

O que, entretanto, é muito menos discutido é quais foram, e quais serão as consequências mundiais desse fato. O declínio tem raízes econômicas, é claro. Mas a perda do quase-monopólio de poder geopolítico, que os Estados Unidos já exerceram, tem conseqüências políticas importantes em todo o mundo.

Vamos começar com uma história contada na seção de negócios do The New York Times em 7 de agosto. Um administrador de fortunas em Atlanta “apertou o botão de pânico” em nome de dois clientes ricos que o encarregaram de vender todas as ações e investir o dinheiro em algum fundo mútuo de alguma maneira isolado da crise. O administrador contou que, em 22 anos de trabalho, nunca tinha ouvido um pedido desses. “Isso não tem precedentes”. Os jornais chamaram a decisão de o equivalente de Wall Street ao “botão nuclear”. Foi algo inteiramente contra o conselho tradicional santificado, de “evitar o pânico” diante das turbulências do mercado.

A Standard & Poor`s reduziu o rating de crédito dos Estados Unidos de AAA para AA+, outro fato “inédito”. Mas isso é uma ação relativamente leve. A agência equivalente na China, Dagong, já reduziu a credibilidade dos Estados Unidos para A+ em novembro, e agora para A-. O economista peruano Oscar Ugarteche declarou que os Estados Unidos tornaram-se uma “república de bananas”. Ele diz que o país “escolheu a política da avestruz, como modo de não perder as esperanças [de melhora]”. Em Lima, nessa última semana, o encontro dos ministros de Finanças dos países sul-americanos discutiu medidas urgentes para isolar a região dos efeitos do declínio econômico dos Estados Unidos.

Selo postal, Estados Unidos, 1847

Image via Wikipedia

O problema que todos enfrentam é que é muito difícil isolar-se dos efeitos do declínio dos Estados Unidos. Apesar da severidade de seu declínio político e econômico, os Estados Unidos continuam um gigante no cenário mundial, e qualquer coisa que acontecer lá ainda provoca grandes ondas no resto do mundo.

É claro que o maior impacto do declínio é, e vai continuar sendo sentido, nos próprios Estados Unidos. Políticos e jornalistas estão falando abertamente da “disfuncionalidade” da situação política no país. Mas o que mais essa situação pode ser, além de disfuncional? O fato mais elementar é que os cidadãos dos Estados Unidos estão chocados pelo simples fato do declínio. Não é apenas que os estejam sofrendo materialmente com esse declínio, temam sofrer ainda mais, com o tempo. Eles acreditaram que os EUA eram a “nação escolhida”, designada por Deus ou pela história para ser um modelo para o mundo. E ainda ouvem o presidente Obama assegurar que seu país será sempre um “triplo A”.

O problema para Obama e para todos os políticos é que muito poucas pessoas ainda acreditam nisso. O choque para o orgulho e a auto-imagem nacional é formidável e além de tudo repentino. O país está lidando muito mal com ele. A população busca bodes espiatórios e esbraveja, de modo selvagem e pouco inteligente, contra os suspeitos de sempre. A última esperança parece ser a de descobrir que alguém é culpado e ver, como remédio, mudanças no comando.

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Por Bárbara Mengardo, da Caros Amigos

Santiago está em ebulição. Em todos os cantos da capital chilena, a qualquer hora é possível encontrar pixações, eventos culturais e atividades de apoio às manifestações que se estendem há três meses por todo o país, e não se limitam mais às demandas dos estudantes.

O movimento cresceu tanto, e tem tanto apoio popular (o jornal La Tercera, que há meses tenta esconder e desqualificar as movimentações, publicou matéria no último sábado afirmando que 76% da população chilena apóia os protestos), que é impossível saber com exatidão quais atividades vão ocorrer pela cidade.

A praça Ñuñoa, localizada a mais ou menos meia hora do centro de Santiago, em um bairro de classe média, é palco todas as noites de manifestações e confrontos com os carabineiros. Cerca de 3.000 pessoas se deslocam diariamente ao local para participar de panelaços e, geralmente, são recebidos pela polícia que se utiliza de gás lacrimogênio e jatos fortes de água para tentar interromper as atividades.

Esses carros que descarregam água na multidão foram apelidados pela população de Guanacos, que são animais parecidos com Lhamas que vivem nos Andes, e costumam a cuspir nas pessoas. Catalina Gamboa, estudante secundarista que acompanhava uma das manifestações na praça Ñuñoa, explica que o líquido expelido pelos Guanacos da polícia não é apenas água “Quando isso cai no rosto arde. Fizeram algumas análises e viram que tinham fezes nessa água”.

Nos sites das Federações de estudantes brotam relatos de casos de extrema violência policial aplicada pelos Carabineiros. O portal da Federação de Estudantes da Universidade de Valparaiso postou a história de um estudante de História que foi pego por policiais enquanto observava um confronto e levado para um ônibus, onde foi violentamente golpeado.

As agressões resultaram em uma grave fratura nasal, e o estudante necessitou de uma cirurgia. Quando viu a gravidade do machucado, um dos policiais, conta o site, perguntou: “O que se passou filho, porque está sangrando?” o garoto respondeu que eles o haviam agredido, e ouviu a resposta “Nós não batemos em ninguém, você sozinho bateu em uma porta”.

As manifestações, entretanto, não estão presentes apenas nos bairros mais ricos da cidade. Ocupações em universidades e colégios de ensino médio e fundamental se estendem também pela periferia. Estudantes estimam que cerca de 700 colégios estejam ocupados, 200 deles só na capital.

Já no ensino superior ninguém soube dizer quantas ocupações estão em andamento no Chile. Sabe-se que todas as universidade chamadas tradicionais, que foram criadas até a década de 1960 e eram gratuitas até o regime ditatorial de Augusto Pinochet (1973-1990), estão ocupadas ou paralizadas. Andando pelas ruas de Santiago, entretanto, é possível se deparar com dezenas de universidades públicas ou privadas cujos portões estão bloqueados por cadeiras ou os muros estão cobertos com cartazes com dizeres como “fim ao lucro”.

Isso porque, na educação superior chilena, o lucro foi proibido durante a ditadura, com uma lei que instituía que todas as universidades, públicas ou privadas, seriam pagas, mas não poderiam obter lucro.

Atualmente, todas as universidades chilenas são pagas, e a maioria recebe ajuda financeira do governo. Neste cenário, muitos donos de universidades acharam brechas na lei, e obtém muito lucro com as instituições de ensino. É comum que os integrantes dos diretórios acadêmicos, que estão acima dos reitores, possuam também imobiliárias, e repassem dinheiro a partir de obras superfaturadas.

O fim do lucro se tornou uma das principais reivindicações dos estudantes que começaram a realizar marchas e manifestações desde junho. A esse ponto somaram-se muitos outros, sendo um dos principais a educação gratuita e de qualidade que, para todos os atores do movimento que já é conhecido como “inverno chileno”, deve acompanhar uma reforma integral da educação no país.

Sobre o assunto, a Federação dos Estudantes da Universidade do Chile, que tem sido muito ativa durante as manifestações, afirmou em um documento onde reúne todas as pautas do movimeno estudantil: “Nos une a firme convicção de que a educação é um componente essencial para alcançar um novo projeto histórico de desenvolvimento democrático que tanto anseia o país para superar as escandalosas brechas de desigualdade que presenciamos hoje. Desta forma, foi exposta a necessidade urgente de recuperar a educação como um direito social e humano universal que deve ser garantido pela Constituição Chilena.”

Outras demandas importantes são a criação de um novo sistema de financiamento, pois o atual faz com que cerca de 40% dos estudantes deixem as universidades endividados e a desmunicipalização da educação, já que Pinochet desmantelou o Ministério da Educacao, passando a responsabilidade administrativa e financeira para as comunas, que, grosso modo, podem ser comparadas a subprefeituras. Esse sistema faz com que a distribuição de verbas seja desigual entre as comunas.

Atualmente, entretanto, não são só os estudantes que pautam suas reivindicações. No dia 8 deste mês, os trabalhadores do Banco de Santiago começaram uma greve por reajustes salariais, e nos últimos meses ocorreram também paralisações de mineiros e taxistas.

Um hospital público de Santiago, Posta Central, interrompe suas atividades toda vez que ocorrem marchas, e são convocadas também panelaços nos quais muitos adultos e idosos batem panelas para manifestar seu apoio aos estudantes.

Até agora, o governo ainda não apresentou nenhuma proposta satisfatória para os manifestantes. A última tentativa, de estabelcer uma mesa de diálogo com o Congresso, foi rechaçada pelos estudantes universitários, mas bem vista pelos secundaristas. Muitos setores que compõem a ala universitária do movimento acreditam que a melhor solução para o impasse colocado é a realização de um plebiscito, e não veem essa mesa de diálogo como capaz de realizar a mudanca estrutural que desejam.

chile1Desta forma, seguem as mobilizações no Chile, e já está fechado um calendário nacional de mobilizações para as próximas semanas. No dia 16 está marcada uma “velaton”, e todos que apóiam o movimento devem colocar velas em suas janelas. Na quinta, dia 18, acontecerá uma jornada de protesto nacional, e estão marcadas marchas e panelaços. Nos dias 24 e 25 haverá uma greve geral, puxada pela CUT (Central Unitária dos Trabalhadores do Chile).

Em Santiago, está marcado um bem humorado protesto na Praça das Armas, no qual todos deverão se reunir para fazer um grande “iiiiiiiii” pela educação, fazendo referência ao prefeito da comuna de Santiago, Pablo Zalaquett, que, devido a um tique, utiliza essas vogais no meio de suas frases.

O governo também se diz preocupado com a possibilidade dos estudantes perderem o ano. Quanto a isso, Patricio Perez, 16 anos, estudante de um colégio ocupado, responde com uma frase que muito está se ouvindo: “Perder o ano, mas ganhar o futuro”.

por Rodrigo Vianna

Tive o prazer de entrevistar esta semana, na Record News, Plinio de Arruda Sampaio e o jornalista e cientista político Igor Fuser. O assunto: a crise do capitalismo e as insurreições de rua que chegaram ao Chile e à Inglaterra.

Igor lembrou um dado irônico: Inglaterra, com Thatcher, e Chile, com Pinochet, foram os pioneiros do neoliberalismo no fim dos anos 70 e início dos 80. Comandaram a onda de privatizações, desregulamentação e ataques aos sindicatos que depois se espalhou pelo mundo. Claro que a queda do “socialismo real”, no início dos 90, deu o empurrão final: os capitalistas perderam o medo! Sem a alternativa do socialismo, tornavam-se desnecessárias as concessões que ao longo do século XX o Capital fora obrigado a fazer ao Trabalho.

Os anos 80 e 90 foram o auge do ultracapitalismo.

Agora, é a volta do cipó de aroeira! A crise viceja no Chile e na Inglaterra. Estudantes chilenos querem Educação pública! Ingleses querem um Estado que não seja só “mãe dos banqueiros”.

Plinio lamentou que a onda de protestos ainda não tenha chegado ao Brasil. “Aqui, domina a cultura do favor”, disse o ex-presidenciável pelo PSOL. E lembrou que parte do povão tem o sentimento de “gratidão” em relação a Lula, pelas políticas sociais que tiraram milhões da miséria.

Não concordo com Plinio nesse ponto. Lula fez algo importante. Criou a base de um mercado consumidor gigantesco e independente. Mas, como já foi lembrado por tanta gente, Lula não ajudou a politizar a sociedade. A tal classe C que ascende cultiva em boa parte os valores do individualismo e do consumo.

Quem sou eu pra ”condenar” aqueles que sonham com (e conseguem) uma TV nova ou um carro comprados no crediário? É fácil torcer o nariz quando já se tem isso tudo. Na verdade, o problema não é o consumo. Mas a falta de debate, que deixou a agenda dominada por valores conservadores (como vimos na campanha eleitoral em que aborto virou tema central).

Mas Lula ainda travava algum debate com a direita: nas comunicações, na economia, na questão das relações internacionais, na Cultura. Dilma parece ter caminahdo ainda mais ao centro. Dilma parece disposta a cumprir a promesa de reduzir a miséria ainda mais. E só. O que atrapalhar esse plano (modesto) ela vê como acessório. E abre mão.

O Plinio e outros por aí cumprem o digno papel dos combatentes que não abaixaram suas bandeiras. Acho que é um papel importante, diante do abandono das bandeiras de esquerda por tantos petistas.

Mas acho que a esquerda (seja ela petista, psolista, comunista, socialista ou outros “istas” por aí) faria melhor se, em vez de seguir reclamando da “despolitização” legada pelo PT, tentasse construir uma nova agenda.

Essa nova agenda não precisa “negar” o lulismo. Ao contrário. Deveria partir das conquistas e dos avanços do lulismo, para estabelecer um novo programa.

Enquanto a economia cresce, isso tudo pode parecer bobagem. Dilma e o PT “oficial” (que faz acordos com as teles e veta aumento pra aposentado) seguirão nadando de braçada – fora uma ou outra crise fabricada pela oposição midiática.

Mas a crise mundial vai bater aqui no Brasil, mais forte do que em 2008. E aí os setores organizados, os petistas que não abdicaram de reformar a sociedade (e são muitos, talvez a maioria), os sindicalistas, os movimentos sociais, enfim a base tradicional da esquerda terá que se perguntar: vamos  tentar salvar o capitalismo à brasileira – de juros nas alturas e concesões sociais? Ou vamos apostar num programa alternativo?

Na sociedade já começam a pipocar iniciativas para reagir a essa agenda “burocrática” e centrista que parece dominar o governo Dilma. A reação dos movimentos sociais ao “acordão” com as teles no Plano de Banda Larga, e as reações de sindicatos à decisão de “congelar” ganhos de aposentados apontam nessa direção.

Sobre isso tudo, especialmente sobre a necessidade de construir uma nova agenda, vale a pena ler a ótima entrevista de Vladimir Safatle à repórter Tatiana Merlino, na edição da “Caros Amigos” que acaba de chegar às bancas.

Entre outras pérolas, ele diz que Dilma corre o risco de ser a “Bejnev no lulismo”. Tatiana Merlino resumiu bem a tese de Safatle na abertura da entrevista:

A oportunidade da esquerda brasileira está em usar a vontade de ascensão da nova classe média para recolocar em circulação o discurso do conflito de classe, “assim como a exposição dos malefícios da desigualdade”. A opinião é do filósofo Vladimir Safatle, professor do departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

Abaixo, trechos da entrevista:

“O modelo lulista pode durar mais um pouco, ou seja, enquanto houver crescimento econômico para a nova classe média e enquanto não houver oposição ideologicamente configurada (seja à esquerda, seja à direita). Dentro de tal modelo, a questão para Dilma será como se colocar no papel deste mediador universal que Lula encarnou tão bem. No entanto, ela tem mais margem de manobra porque o modelo já foi montado.

Nestes primeiros meses, ela demonstrou duas coisas: que está disposta a aproveitar sua força inicial para enquadrar aliados (o que é uma coisa boa, sua atuação ao dizer que vetaria os absurdos do novo Código Ambiental é um exemplo interessante neste sentido) e que seu governo tem um profundo déficit de elaboração de políticas de médio e longo prazo (o que é ruim). Seu ministério, em larga medida e salvo honrosas exceções, é caracterizado por não ter formuladores de política.”

Não deixe de ler a entrevista de Safatle na íntegra, na “Caros Amigos” que está nas bancas.

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