Archive for the 'Viagens e afins' category

Existe alguma coisa de improvável na escrita de uma tese. Esse nome que a pompa da academia resolveu dar em algum momento ao resultado de uma investigação, que é feita com certos pressupostos e dentro de algumas regras – como aliás, toda investigação é feita. A improbabilidade é mais real, palpável e cheirosa entre a metade e o término do tempo que lhe deram: uma costura de impossibilidades que o sujeito tem que chamar de ‘meu trabalho’ é um fio tênue com o qual se agarra o doutorando e, de fora, nada parece que vai se arrumar.

É claro que isso ão é geral. Assim como esse blog não se pretende geral, nem eu sou geral. No geral, ninguém é geral para ninguém. E o geral em geral é ‘em  geral’… Mas tergiverso.

O fato é que aquela arquitetura que ao final parece tão fechadinha, tão bem resolvida, como os sociólogos que parecem ter nascido sociólogos, esconde uma cadeia de gambiarras, de maquinações, de solvências, de mapas, arranjos, planos, rampas, estiligues, cordas de nylon, baldes, tintas, relógios, alçapões, pianos e violinos, bigodes e escaramuças, vontades e dormências, um jogo de dominó que não acaba durante quatro anos, botinas, macacões de trabalho, óculos de proteção, martelos, pregos, serrotes, machados, alicates, fios, pêndulos, roldanas, pontes, aritmética e álgebra e um pouco trigonometria.

Quando do meio pro fim você percebe que é possível tirar alguma melodia desse entulho de possibilidades, quando finalmente você vê ali no fundo uma possibilidade de que a peça se estique até o arco e dispare um solfejo colorido; quando você finalmente vê que poderá logo logo tomar uma cerva no sábado à tarde sem culpa, você enche o peito de novo e diz:

Ok, go.

Esse blog entra agora de férias por tempo determinado.

O filminho acima está inscrito no terceiro festival de cinema organizado pela Culture Unplugged. Não sei se entendi muito bem o que exatamente é essa organização (?). Ela assume possuir uma missão de integra diferentes partes do self humano usando como alavanca para isso “o poder de novas mídias e extendendo o esforço a eventos e ações offline”. Acima de tudo, e é isso o que me intriga, o objetivo da Culture Unplugged é ser “caçador da verdade em sim mesma”.

Como afirma no texto de apresentação do site da empresa (?) atualmente o esforço está concentrado em “esabelecer redes de consciência social e espiritual e seus criadores”. A agência humanitária (?) afirma estar presente nos Estados Unidos, Reino Unido, Indonesia e Nova Zelância e se dedica a trazer para audiências globais “autênticas/independentes vozes de diversas culturas”. Estando, para isso “compromietida em contemplar e contribuir para nossas necessidades pessoais ecoletivas de tempo”.

Tem lá: “Nosso foco é a inner+inter-cultural expression (desculpem, não consegui traduzir). Nosso objetivo é trabalhar através da uniade e harmonia através de todos os tipos de divisões feitas pelo homem”.

O texto de apresentação da Culture Unplugged me deixou tão impressionado e intrigado quanto a qualidade dos filmes que eles conseguiram reunir e disponibilizar com uma excelente qualidade. A entidade (?) organiza desde 2008 um festival, que atualmente já está em sua terceira edição.

Abaixo, reproduzo a filosofia da ONG (?), traduzida daqui.

O que nós fazemos importa, mas porque nós fazemos importa mais. Individualidade importa, mas universalidade importa mais. Idealimso importa, mas humanidade importa mais. Passado e pós importa, mas o presente importa mais. Produto importa mas a visão importa mais. O processo importa, mas a criaticidade importa mais. Palavras e imagens importam, mas toda a experiência importa mais.

A colunista e comentarista para assuntos aleatórios, Maria Leopoldina, está cada vez mais apta a fala sobre qualquer assunto.

Malas prontas pro Campus Party

Luiz Carlos Pinto | 19 de janeiro de 2009 21:13

Logo mais começa o Campus Party, o auto-referenciado ‘maior encontro mundial da internet’. Vou perder a abertura, que acontece à meia-noite, mas chego cedinho, às 5h05 de la matina em Guarulhos. Grande expectativa pro evento, sobretudo entre o pessoal da Metarreciclagem que acompanho como um dos movimentos sociais que estudo em minha pesquisa para a tese. De meu lado a expectativa é por variadas razões. A mais óbvia é que será lá que praticamente vou encerrar as entrevistas que ando fazendo há dois anos. Nesse sentido a esperança é obter bons áudios.

A expectativa está também em participar, em doar, discutir, discordar, interagir e integrar os conhecimentos e processos gerados com esse pessoal. Se fosse por alguma razão superior necessário parar tudo isso eu já teria aprendido: numa pesquisa que pretende se debruçar sobre nexo entre relações sociais e tecnologias da informação, a construção colaborativa é necessária como um item do processo de investigação. Do contrário, a investigação é virtualmente infrutífera.

A programação do CP é gigantesca. Desisti de digitar ou de copiar o que me interessa e que eu vou tentar ver. mas gostaria de citar pelo menos duas, além de todo o frevo que será o espaço destinado à MetaReciclagem: a palestra de Tim Berners Lee (O Futuro da Web), nesta terça-feira, 19 horas. A outra grande atração me parece ser o debate em que participam o professor Sérgio Amadeu e o senador Eduardo Azeredo, sobre o projeto de lei deste que pretende criar uma série de procedimentos para o uso da internet no Brasil (e que acabam restringindo a liberdade dos usuários). Não tô achando esse evento na programação, mas vai rolar.

A expectativa está ainda na própria cidade de São Paulo, que sempre me recebeu tão bem… Como será dessa vez? De certo modo é a prova dos nove dessa crença que eu carrego comigo e que eu apregoou por aí.

Expectativa por conhecer pessoas da Metarreciclagem com quem converso há algum tempo por email, com quem já troquei idéias e aprendi muito…

Na media do possível e sempre que puder vou postar as impressões do evento por aqui. Tô levando lepitopi, câmera digital, gravador digital (sem funcionar direito), muita fiação, alicate, chave de fenda, fiação e diposição, que vai numa mala à parte, que vou despachar por causa do peso.

Expectativa de encontrar a morena aqui de casa, que foi cobrir o SPFW e que está lá, entre plumas e paetês, em lounges semi-dançantes, trabalhando pra danar e a me esperar.

Chegando.

Poucas porém boas

Luiz Carlos Pinto | 11 de dezembro de 2008 7:56

Na estrada de novo
E olha eu aqui de novo diante dela. Desde a sexta passada estou viajando por 17 cidades do agreste pernambucano, num trabalho interessante e que me ajudará as contas de final de ano. Teclo agora de Bonito, seguindo daqui a pouco para Agrestina e em seguida São Caetano. Amanhã à tarde vou rever depois de três anos minha cidade natal, Arcoverde. A razão da viagem fica pra outro post, talve à noite. Tô colecionando um bom conjunto de histórias e de falas por aqui, assim que puder coloco no blog.

Gracias a la vida

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio dos luceros que, cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco,
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el oído que, en todo su ancho,
graba noche y día grillos y canarios;
martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el sonido y el abecedario,
con él las palabras que pienso y declaro:
madre, amigo, hermano, y luz alumbrando
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la marcha de mis pies cansados;
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos, montañas y llanos,
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano;
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto,
los dos materiales que forman mi canto,
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos, que es mi propio canto.

Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Violeta Parra

Domingo passado dei graças a la vida de 35 aninhos sem festa mas na tranquilidade. O bom disso é que você adia o aniversário, de modo que 35 anos agora só no ano que vem. hehehehe

Campus Party
Voltando pro Recife é hora de comprar passagem pra Sampa pra participar do Campus party. É capaz de eu conseguir não precisar pagar inscrição. Vamos ver… Se não rolar tudo bem também. O bom da notícia é que depois de Sampa devo fechar as entrevistas necessárias para escrever a tese.

SubmidialogiaS

Luiz Carlos Pinto | 16 de novembro de 2008 23:32

São Salvador

Luiz Carlos Pinto | 23 de outubro de 2008 6:32

Sexta. Mais tarde eu conto. Agora tô de saída.

My american way of life II

Luiz Carlos Pinto | 14 de setembro de 2008 17:08


As notícias dos preparativos para a evacuação de cidades no Texas, semana passada, me fez lembrar o primeiro contato com um oficial de imigração nos Estados Unidos. Estava eu chegando, depois de uma viagem razoavelmente confortável, ao aeroporto de Dallas, onde esperaria cerca de duas horas para pegar um outro avião ao meu destino final, New Orleans.

Sabia da possibilidade de voltar do aeroporto pra casa, uma vez que quem decide se você deve continuar a viagem não é a regularidade de seus documentos, a comprovação que pode se manter e tem onde ficar ou a comprovação de que a viagem tem razão de ser. Em última instância, o que define que a viagem vai prosseguir é o feeling do oficial de imigração. Uma coisa que percebi nessa é que as instituições coercitivas nos Estados Unidos têm em volta delas uma áura de difícil definição. Imagino que o belicismo polido possa explicar isso de alguma forma.

Há algo no interrogatório do oficial de imigração que faz você se sentir culpado por ter conseguido chegar ali. É aquela sensação de saber que não importa estar limpo, você é analisado como alguém que está cometendo um ilícito. Talvez seja essa a sensação mais clara da condição de estrangeiro numa sociedade belicista. Ainda mais se você é o estrangeiro latino americano, sem dinheiro no banco e vindo do interior, o que por acaso é o meu caso. Ao mesmo tempo, está ali o cabo da lei e da ordem, o sujeito-entidade-autoridade, o exercício policial em movimento, a prova viva de que o controle estratégico não somente deu certo, frutificará e não permitirá astúcias, enganos, táticas assertivas.

Show me more… »

E eu aqui trabalhando

Luiz Carlos Pinto | 18 de junho de 2008 14:08

Spencer Tunick

Esse pessoal assim e eu aqui trabalhando.

(aviso logo aos leitores que sobreviveram que o teclado nao tem acento)

Musica na rua
Escrevo no segundo dia em New Orleans. A cidade e iluminada. Pelo menos nessa fase do ano, o sol brilha desde bem cedo. O azul do ceu e bem escuro, poucas nuvens e o rio Missisipi parece ter recebido muita chuva sozinho, sem que ela tenha molhado a cidade. A grande balburdia fica no French Quarter, onde a cidade nasceu: as boates, os shows de jazz e blues nas ruas e nos bares, as cervejas vendidas nas esquinas, os restaurantes caros, os restaurantes baratos, os restaurantes charmosos caros e os charmosos baratos, as prostitutas da Bourbon Street.

 

Pedintes quase nao ha. Em muitos casos nao se distingue muito o pedinte “classico” do que e musico e toca na rua para ganhar a vida. Alias, esse e um aspecto meio dolorido de ver na cidade ate agora – e eu sei que vi pouco.

Ha sempre dois ou tres ou mais musicos tocando na entrada do Cafe du MOnde (nao seve cerveja, so cafe e doces). Hoje estavam la um trompetista e um cara tocando banjo. A musica e um jazz com uma levada folk deliciosa, trompetista ainda por cima canta bem, uma voz cansada e ironica.

Ficam ao lado da fila que se forma para entrar no restaurante. Quase ninguem presta atencao realmente. O Cafe du MOnde e frequentado principalmente por brancos – a classe media e alta americana. Esses dias, pela classe media brasileira tambem. Sao 11 horas e estao se empanturrando de doce. POucas pessoas para se interessam em comprar o CD que a dupla vende.

A impressao e que o ajzz virou uma musica ambiente ou uma “expressao tipica”, quase um exotismo. Os americanos parecem encarar o jazz que se toca nas ruas com uma certa simpatica condescendencia – sabendo que nao fazem parte do universo de onde vem aquela musica. Coo se ela fosse algo de um vacuo profundo, afastado e inacessivel, porque cercado de perigos. E o perigo aqui e o desconhecido e o desconhecido aqui e o que esta na borda. E o que esta na borda toma parte, participa do Main Street, da praca, da vitrine que e o centro turistico e New Orleans.

E no entanto a borda ainda e o nucleo excluido. E de certa forma pode ser visto como o bem imaterial apropriado – nao necessariamente por uma marca, pessoa, industria, loja. Apropriado pelo sistema, que o espetaculariza como coisa, que vende como mercadoria e dele desfruta como publico.

A mesma impressao de hoje pela manha tive noutras ocasioes em que vi outros artistas se apresentarem nas ruas – o unico palco verdadeiro, se Chaplin estiver certo.

Latinos
Ha muitos latinos na cidade. No hotel, era de se esperar (?) quase toda a limpeza e feita por pessaos com origem no Mexico, Honduras, El Salvador. Nas ruas, os latinos sao jovens. Muitso sao skatistas ou usam o visual hip-hop. Andam juntos e sao bem menos numerosos que os grupos de jovens negros. Nao os vi trabalhar em nenhum bar – alias, ha negros, espanhois, franceses, irlandeses, brancos americanos trabalhando nos bares, mas nao latinos.

Bourbon Street
Olindizaram a Borbon Street. Eu ja tinha sentido uma proximidade entre algumas levadas do Brass e algumas composicoes de frevo de rua. Na Bourbon essa proximidade chega ao cheiro – de suor, de xixi, de agua e cerveja pelo asfalto.