(aviso logo aos leitores que sobreviveram que o teclado nao tem acento)
Musica na rua
Escrevo no segundo dia em New Orleans. A cidade e iluminada. Pelo menos nessa fase do ano, o sol brilha desde bem cedo. O azul do ceu e bem escuro, poucas nuvens e o rio Missisipi parece ter recebido muita chuva sozinho, sem que ela tenha molhado a cidade. A grande balburdia fica no French Quarter, onde a cidade nasceu: as boates, os shows de jazz e blues nas ruas e nos bares, as cervejas vendidas nas esquinas, os restaurantes caros, os restaurantes baratos, os restaurantes charmosos caros e os charmosos baratos, as prostitutas da Bourbon Street.
Pedintes quase nao ha. Em muitos casos nao se distingue muito o pedinte “classico” do que e musico e toca na rua para ganhar a vida. Alias, esse e um aspecto meio dolorido de ver na cidade ate agora – e eu sei que vi pouco.
Ha sempre dois ou tres ou mais musicos tocando na entrada do Cafe du MOnde (nao seve cerveja, so cafe e doces). Hoje estavam la um trompetista e um cara tocando banjo. A musica e um jazz com uma levada folk deliciosa, trompetista ainda por cima canta bem, uma voz cansada e ironica.
Ficam ao lado da fila que se forma para entrar no restaurante. Quase ninguem presta atencao realmente. O Cafe du MOnde e frequentado principalmente por brancos – a classe media e alta americana. Esses dias, pela classe media brasileira tambem. Sao 11 horas e estao se empanturrando de doce. POucas pessoas para se interessam em comprar o CD que a dupla vende.
A impressao e que o ajzz virou uma musica ambiente ou uma “expressao tipica”, quase um exotismo. Os americanos parecem encarar o jazz que se toca nas ruas com uma certa simpatica condescendencia – sabendo que nao fazem parte do universo de onde vem aquela musica. Coo se ela fosse algo de um vacuo profundo, afastado e inacessivel, porque cercado de perigos. E o perigo aqui e o desconhecido e o desconhecido aqui e o que esta na borda. E o que esta na borda toma parte, participa do Main Street, da praca, da vitrine que e o centro turistico e New Orleans.
E no entanto a borda ainda e o nucleo excluido. E de certa forma pode ser visto como o bem imaterial apropriado – nao necessariamente por uma marca, pessoa, industria, loja. Apropriado pelo sistema, que o espetaculariza como coisa, que vende como mercadoria e dele desfruta como publico.
A mesma impressao de hoje pela manha tive noutras ocasioes em que vi outros artistas se apresentarem nas ruas – o unico palco verdadeiro, se Chaplin estiver certo.
Latinos
Ha muitos latinos na cidade. No hotel, era de se esperar (?) quase toda a limpeza e feita por pessaos com origem no Mexico, Honduras, El Salvador. Nas ruas, os latinos sao jovens. Muitso sao skatistas ou usam o visual hip-hop. Andam juntos e sao bem menos numerosos que os grupos de jovens negros. Nao os vi trabalhar em nenhum bar – alias, ha negros, espanhois, franceses, irlandeses, brancos americanos trabalhando nos bares, mas nao latinos.
Bourbon Street
Olindizaram a Borbon Street. Eu ja tinha sentido uma proximidade entre algumas levadas do Brass e algumas composicoes de frevo de rua. Na Bourbon essa proximidade chega ao cheiro – de suor, de xixi, de agua e cerveja pelo asfalto.
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Mas os detalhes sórdidos dos aeroportos ficam para outro post, noutro dia. Hoje, às 7 de la matina tinha madame vestindo armani, dolce gabana, gucci, la coste e outras coisas debaixo de um sol que parecia de meio dia. Todos os brasileiros a pedir visto têm uma cara meio lavada, meio de abuso e de incompreensão de ter que estar ali, como se tivessem o direito de mandar um secretário fazer aquele trabalho sujo.
Lá dentro tudo é blindado e frio, metal e vidro e cimento armado e tinta branca. “Nada está fora do lugar” e foi nesse momento que eu percebi que talvez a única coisa realmente fora do lugar era eu e então comecei a sentir um pouco de medo de ter que rezar para sair. Era um circo de horrores, vocês hão de entender.
Por fim, ainda no salão oval e cheiroso da embaixada, fiz mentalmente as contas até aqui: R$ 38 para ter acesso às informações do site, R$ 231 para solicitar o visto, R$ 108 pelo visto (pago na hora feito caldo de cana), R$ 14 do Sedex para entregarem o passaporte (eles ficam com o pasaporte para ver se o documento é legítimo e para ver se você já participou de algum atentado terrorista em algum país, depois de cinco dias fazem o favor de devolver, sendo que você é que paga por isso). Então até agora paguei R$ 391,00 patra chegar ao aeroporto americano.
Vou começar a ensinar, finalmente. Incrivel como a concorrência se espalha em todas áreas e se especializa. Uns anos atrás ter um mestrado era mais do que suficiente para poder dar algumas aulas. Hoje essa mamata acabou. Não basta ter feito uma pós-graduação, é necessário ter experiência de redação, mais de uma formação e, claro, o tal mestrado. É claro que, em muitíssimos casos, mais do que o desejável, o aval é dado pelas boas relações, pelas amizades, pelas referências. E eu, entre as muitas desvantagens que possuo, ainda não aprendi esses códigos. Paciência. O fato é que tô com umas aulinhas marcadas, o que vai ajudar a pagar a conta do aluguel e de umas Brahmas, vez por outra.










