O sonho de ser aceito em vídeo e alguma coisa mais ;-)
Luiz Carlos Pinto | 15 de junho de 2011 15:52No dia 28/5/2011 Fabiana Moraes publicou um texto entitulado “Luísa Marilac e o sonho de ser aceita” (confira AQUI ), por ocasião da passagem da transexual pelo Recife e que é efeito de sua súbita notoriedade por causa de vídeos como esse. À primeira vista, Luísa não gostou do texto, embora se refira somente ao título da reportagem no vídeo que postou reclamando que não precisava ser aceita. No mesmo vídeo, ela acusa Fabiana de homofobia e em seguida desce um bocado a ladeira. A reação imediata, como Lola bem adjetivou, foi de manada. As pessaos que a seguem no seu canal no Youtube e na sua conta do Twitter replicaram, sem aparentemente ler o texto, as acusações e a série de baixarias a Fabiana, indo às raiais da ameaça. Em seguida, o Jornal do Commercio emitiu uma nota, que pode ser lida aqui.
A matéria foi dedicada a Patrícia Gomes, vice-presidente da Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans), que havia falecido recentemente. Mais que isso, o trabalho se alinha coerentemente com outros que Fabiana já havia feito e que tocam a questão básica a que se dirige à luta pelos direitos da população LGBT: no final das contas, a batalha é pela garantias de direitos humanos. Se você chegou agora sem saber muito bem desses outros trabalhos, vale à pena dar uma olhada no Especial duplo Joaquim Nabuco e no Especial O nascimento de Joicy. E entender, assim, a reação descabida de Luísa e seus seguidores.
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Há uma certa tristeza nessa reação. Minha impressão, mais ou menos como escreveu lá o Flávio Alves, é que ela tá relacionada a uma série de violências sofridas, de restrições, exclusões impostas às pessoas ou a parceiros, parceiras, parentes, próximos e/ou distantes. A falta de atenção com o texto em si, que em sua precisa ternura se coloca contra essas violências, é em parte reflexo do estado de atenção armada gerada pelas violências à condição LGBT – violências no dia a dia, na política policial do cotidiano na escola, na família, no trânsito, no trabalho, etc., etc., etc.
Mas a tristeza maior é perceber que essas violências, que geram indelicadezas como as que se viu contra Fabiana são, na base, violências à condição humana. A reação de Luísa se vincula a uma condição humana, sua condição, e de milhares de outras transexuais que não são aceitas pelo status quo – político, econômico, simbólico, etc. Isso precisa ser dito.
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Por outro lado, toda a onde de fúria e descuido e grosseria que se viu são também expressões de um tempo sem tempo em que vivemos. Do repassar pra frente a opinião de quem você confia ou admira, sem pensar muito, sem criticar, sem ler a entrelinha. O histórico de mágoas e ressentimentos e lembranças pessoais e coletivos não pode ser uma desculpa ou explicação para a burrice. E não por acaso, nos primeiros dias que se seguiram ao tresloucado vídeo de Luísa Marilac, várias pessoas passaram a ler com mais atenção o texto de Fabiana e a se posicionar com mais racionalidade.
Um tempo líquido, uma prática cotidiana líquida, uma atenção líquida, para usar a surrada expressão de Bauman, só pode gera uma coisa: cocô líquido, para usar uma conhecida expressão de Wu Ming.
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Outros aspecto que precisa se observado é que, em face à decadência do jornalismo comercial, do grosso do modus operandi industrial de produzir o que se convencionou a chamar de ‘notícia’, o trabalho de Fabiana mostra a ainda relevância da última das profissões românticas. É por essa razão, é por essa relevância, que quase naturalmente o profissional se expõe mais e foi isso o que também aconteceu.
Nos últimos anos, os especiais e as reportagens individuais de Fabiana não a expuseram somente ao combalido mercado jornalístico nacional, mas também à leitura vesga como a de Luisa Marilac (será que ela leu o texto?); à leitura homofóbica (a reação à defesa dos direitos humanos que se encontra em todos esses textos já poderia ter gerado reações mais preocupantes desses grupos); às interpretações hipócritas das bancadas religiosas (que só têm dado provas de sua tacanhice política e do descompromisso com o bem público).
É por essas últimas razões que os textos de Fabiana se reveste do poder de suscitar o debate público de interesses gerais – coisa que está na origem histórica do jornalismo. E essa poencialidade no Brasil é mais que necessária, pois em nosso país as principais discussões da vida pública historicamente foram e ainda o são decididas de forma não transparente, à guisa das trocas e dos favores e dos previlégios – mas essa é quase outra história que fica para outro dia, noutro post. Também fica pra outro dia algum texto sobre a arte da aceitação.
O vídeo lá em acima é a última das reações de quem se indignou com todo esse processo.
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