Archive for the 'Woman with a mango' category

Existe alguma coisa de improvável na escrita de uma tese. Esse nome que a pompa da academia resolveu dar em algum momento ao resultado de uma investigação, que é feita com certos pressupostos e dentro de algumas regras – como aliás, toda investigação é feita. A improbabilidade é mais real, palpável e cheirosa entre a metade e o término do tempo que lhe deram: uma costura de impossibilidades que o sujeito tem que chamar de ‘meu trabalho’ é um fio tênue com o qual se agarra o doutorando e, de fora, nada parece que vai se arrumar.

É claro que isso ão é geral. Assim como esse blog não se pretende geral, nem eu sou geral. No geral, ninguém é geral para ninguém. E o geral em geral é ‘em  geral’… Mas tergiverso.

O fato é que aquela arquitetura que ao final parece tão fechadinha, tão bem resolvida, como os sociólogos que parecem ter nascido sociólogos, esconde uma cadeia de gambiarras, de maquinações, de solvências, de mapas, arranjos, planos, rampas, estiligues, cordas de nylon, baldes, tintas, relógios, alçapões, pianos e violinos, bigodes e escaramuças, vontades e dormências, um jogo de dominó que não acaba durante quatro anos, botinas, macacões de trabalho, óculos de proteção, martelos, pregos, serrotes, machados, alicates, fios, pêndulos, roldanas, pontes, aritmética e álgebra e um pouco trigonometria.

Quando do meio pro fim você percebe que é possível tirar alguma melodia desse entulho de possibilidades, quando finalmente você vê ali no fundo uma possibilidade de que a peça se estique até o arco e dispare um solfejo colorido; quando você finalmente vê que poderá logo logo tomar uma cerva no sábado à tarde sem culpa, você enche o peito de novo e diz:

Ok, go.

Esse blog entra agora de férias por tempo determinado.

Do ótimo http://rafaelcamposrocha.blogspot.com

Essa gostosa…

Luiz Carlos Pinto | 11 de março de 2010 16:45

Sem tempo para comentar sobre presentes e futuras leituras. Digo somente que o Google Reader tem sido uma mão na roda para acompanhar a leitura que algumas pessoas fazem de outros blogs, revistas, jornais e sites variados. Também tem me servido para sistematizar a leitura de minhas próprias preferências em termos de blogs interessantes, jornais e revistas fora do eixo comercial, além de muitos artistas plásticos, ilustradores e desenhistas dos quais tenho apredido a gostar. Uma dessas pessoas é Rafael Campos Rocha, autor da genial série ´Deus, essa gostosa´. Queria ter desenhado isso antes…

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Certos Sertões

Luiz Carlos Pinto | 11 de agosto de 2009 12:00
Lohane, uma das personagens da reportagem

Lohane, uma das personagens da reportagem

Que o jornalismo anda em crise isso é sabido há muito tempo. Recentemente isso tem ficado mais claro porque a crise do modelo das indústrias da intermediação, entre as quais as empresas de comunicação se enquadram, passou a ter números que se evidenciam. Mas a crise do jornalismo é mais antiga, como mostrou Habermas – desde o final do século XIX, com a decedência da esfera pública burguesa européia que o jornalismo não é mais o mesmo. Ou seja, já não se faz mais jornalismo como antigamente há muito tempo. Eu sei, a piada é cretina mas tem lá seu sentido.

Esse nariz de cera é pra falar do especial que o Jornal do Commercio do Recife produziu sobre os 100 anos que Euclydes da Cunha faria no dia 15 de agosto. Foi produzido um caderno com 24 páginas e um hot site (conteúdo aberto, com vídeo, som e mais texto que no impresso). O trabalho é de primeira.

Não falo assim porque a repórter, editora, pauteira e produtora tenha sido justamente a minha mulher. Basta ler o material para saber. Num momento de crise institucional e financeira das empresas que dão suporte ao jornalismo; num momento em que se procura deontologia e ética sem achar; num momento em que o Senado arquiva as denúncias que deveriam fazer Sarney enfiar o rapo entre as pernas por iniciativa própria, todo o material produzido é um alento a todo aquele que sabe da importância do jornalismo, seja ele ancorado a uma instituição empresarial ou não, tem para a sociedade.

Padre Cizo, dono do santuário Santa Terezinha, em Mata Grande, Alagoas

Dá um orgulho e uma esperança ver um bom jornalismo sendo feito. Principalmente porque o desânimo e o ceticismo, o cinismo e a falta de alegria que viceja em muitas redações e que contamina desde os primeiros anos os estudantes de jornalismo nas faculdades, precisa ser irrigado pelo tipo de entusiasmo e retidão com a profissão que anima todo esse trabalho.

Esse mesmo ceticismo broxante, aliás, não é um privilégio do jornalismo. Está encrustrado nas mais sociológicas das profissões e nos mais sociológicos dos sociólogos.

Fabiana, minha mulher, repórter especial do JC, passou meses programando os 5 mil quilômetros de viagem, minerou as histórias e personagens entrevistados, planejou a estrutura do hot site e ainda é dona de um texto excelente. A partir de semana que vem esatará alegrando a vista de quem passar pela praia, numas bem merecidas férias. Ô glória.

Abaixo, reproduzo o texto de abertura, que dá o tom da inteligência, coerência e delicadeza que permeia todo o projeto.

Com licença, moço, e desculpe a curiosidade: mas há outra cor no Sertão? Amarelo, azul? Ou ele é todo assim, esse tom de chão rachado? Esse Sertão, que a gente ficou meio cansado de ver em marrom seco-iluminado e monocórdico, dizem que é sempre assim. Sem surpresa nem na cor, nem na gente. Lá estão os fortes, os míticos, os magros, os sedentos, os ingênuos, os brutos, os desconfiados, os puros. Para que serve então escrever sobre Os Mesmos, falar daquele lugar de “nomes bárbaros e estranhos”?

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Thanks God, It’s Friday

Luiz Carlos Pinto | 7 de março de 2008 14:24
Um sorriso

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas
quando
com minha acesa antorcha e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

José Ribamar Ferreira Gullar

Produto da modernidade

Luiz Carlos Pinto | 30 de janeiro de 2008 17:03

Fabiana Moraes
Jornal do Commercio

O crescente interesse da mídia pelo caboclo de lança, figura que tornou-se em um dos principais cartões-postais do Estado, é uma das responsáveis pela enorme rivalidade entre os guerreiros de hoje. Esta é uma das conclusões do jornalista João Marcelo Silva, da pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que, ao lado da também antropóloga Sumaia Vieira, coordenadora do programa Culturas Tradicionais do Instituto Nômades, estudou os maracatus da Zona da Mata Norte. “Desde que passaram a chamar mais atenção das câmeras, os caboclos têm investido em golas mais complexas”, diz o pesquisador, que escreveu um trabalho dedicado especificamente à etnografia desta peça repleta de “significações estéticas, mágico-religiosas, sociais, culturais e políticas.”

Segundo João Marcelo, não é possível, para aqueles que estão de fora, apreender o sentido total que a peça representa para o caboclo. Em seu trabalho, ele destaca que a gola representa o poder pessoal, a individualidade do lanceiro – assim como legitima seus status na comunidade de maracatuzeiros. “Eles medem o tempo, a própria vida, pelo ciclo do Carnaval”, pontua o pesquisador. Assim, avaliar de maneira negativa os altos investimentos feitos por uma comunidade pobre em uma roupa que é usada apenas uma vez no ano pode soar, no mínimo, moralista.

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Woman with a mango

Luiz Carlos Pinto | 4 de dezembro de 2007 17:58

Dá licença que hoje quem anuncia com exclusividade sou eu.

A Grande vencedora do Prêmio Esso, na categoria Regiona 1, com a matéria “A Vida Mambembe”, é Fabiana Moraes, mulher desse escrevinhador. No momento em que escrevo acontece a solenidade. Fabiana foi indicada com outro trabalho, na categoria Informação Econômica, com a reportagem “Profissões que ninguém quer”. Essa categoria ainda não foi anunciada. Enchendo de alegria os corações de seu marido e de seu filho, Fabiana é esperada em casa urgentemente e com ardor.

Posso dizer que tô quase tão feliz quanto se fosse eu a ganhar o prêmio. Minha nega teve um ano de batalha incessante e se desdobrou para pagar as disciplinas do primeiro ano do doutorado em sociologia, mudou de cargo no jornal (agora é repórter especial), adaptou-se às novas tarefas, deu aulas, já foi convidada para dar outras e agora esse merecido prêmio, que é um prêmio por tudo.

Nos vemos novamente em uma semana quase e vai ser difícil não dar um abraço nela no aeroporto.