Que o jornalismo anda em crise isso é sabido há muito tempo. Recentemente isso tem ficado mais claro porque a crise do modelo das indústrias da intermediação, entre as quais as empresas de comunicação se enquadram, passou a ter números que se evidenciam. Mas a crise do jornalismo é mais antiga, como mostrou Habermas – desde o final do século XIX, com a decedência da esfera pública burguesa européia que o jornalismo não é mais o mesmo. Ou seja, já não se faz mais jornalismo como antigamente há muito tempo. Eu sei, a piada é cretina mas tem lá seu sentido.
Esse nariz de cera é pra falar do especial que o Jornal do Commercio do Recife produziu sobre os 100 anos que Euclydes da Cunha faria no dia 15 de agosto. Foi produzido um caderno com 24 páginas e um hot site (conteúdo aberto, com vídeo, som e mais texto que no impresso). O trabalho é de primeira.
Não falo assim porque a repórter, editora, pauteira e produtora tenha sido justamente a minha mulher. Basta ler o material para saber. Num momento de crise institucional e financeira das empresas que dão suporte ao jornalismo; num momento em que se procura deontologia e ética sem achar; num momento em que o Senado arquiva as denúncias que deveriam fazer Sarney enfiar o rapo entre as pernas por iniciativa própria, todo o material produzido é um alento a todo aquele que sabe da importância do jornalismo, seja ele ancorado a uma instituição empresarial ou não, tem para a sociedade.
Dá um orgulho e uma esperança ver um bom jornalismo sendo feito. Principalmente porque o desânimo e o ceticismo, o cinismo e a falta de alegria que viceja em muitas redações e que contamina desde os primeiros anos os estudantes de jornalismo nas faculdades, precisa ser irrigado pelo tipo de entusiasmo e retidão com a profissão que anima todo esse trabalho.
Esse mesmo ceticismo broxante, aliás, não é um privilégio do jornalismo. Está encrustrado nas mais sociológicas das profissões e nos mais sociológicos dos sociólogos.
Fabiana, minha mulher, repórter especial do JC, passou meses programando os 5 mil quilômetros de viagem, minerou as histórias e personagens entrevistados, planejou a estrutura do hot site e ainda é dona de um texto excelente. A partir de semana que vem esatará alegrando a vista de quem passar pela praia, numas bem merecidas férias. Ô glória.
Abaixo, reproduzo o texto de abertura, que dá o tom da inteligência, coerência e delicadeza que permeia todo o projeto.
Com licença, moço, e desculpe a curiosidade: mas há outra cor no Sertão? Amarelo, azul? Ou ele é todo assim, esse tom de chão rachado? Esse Sertão, que a gente ficou meio cansado de ver em marrom seco-iluminado e monocórdico, dizem que é sempre assim. Sem surpresa nem na cor, nem na gente. Lá estão os fortes, os míticos, os magros, os sedentos, os ingênuos, os brutos, os desconfiados, os puros. Para que serve então escrever sobre Os Mesmos, falar daquele lugar de “nomes bárbaros e estranhos”?
Foi que um dia, passando ali, viram Dona Maria Faria, benzedeira, rezando um dos tios de Sombra, o rapaz que aprende street dance olhando um grupo coreano no DVD. Perto, também passava um homem de batina negra e chapéu, um padre de sotaque engraçado que procura firmar-se santo reconstruindo o Cïcero à sua imagem e semelhança. Em Floresta, Pernambuco, aproximaram-se do vaqueiro brabo e de olhos claros para descobrir que ele é como no livro de Guimarães: mulher. Conta-se dos garotos que se tornam garotas tão frágeis e delicadas – e dos garotos que brigam para gostar, sem ter que esconder, de outros iguais. Há aquela senhora de véu branco que canta para fazer da morte poesia, a sem-terra cuidadosa que guarda seus esmaltes e batons em uma caixinha de plástico. E o rapaz em Canudos que difunde, de R$ 2 a R$ 5, Mel Gibson, Latino e Beyoncé, ajudando a desenhar outro tipo de luta, agora cultural, na terra de Conselheiro.
Todos eles – e tantos outros – esclarecem: antes de tudo, o Sertão é uma idéia. Ela frequentemente vira-se do avesso e nos desarma. Não é o oco do mundo, nem há só um: são vários, como percebeu o carioca Euclides, o homem que ampliou uma região, pulou do singular para o plural, espichou o nome para caber todo mundo. O Sertão é Os Sertões, a terra que inunda, dá flor, faz calor e frio; a terra dos índios, quilombolas, cientistas, ciganos, agricultores, empresários, travestis; onde se bebe cachaça com Coca-Cola e se mistura incelência com Afrika Bambaataa. Lugar que bate de frente consigo mesmo, como acontecia como escritor do Cantagalo: estamos condenados ao progresso, afirmava, ao mesmo tempo em que via, naquela terra de ridículos e adoráveis, uma “raça forte e antiga, de caracteres definidos e imutáveis”.
Mas assim como um dia Euclydes tornou-se Euclides, eles, Os Mesmos, mudaram – e não havia outra maneira. Para os sertanejos, também vale o “ou progredimos ou desaparecemos”. Recusam, com uma delicadeza que lhes é fundamental, a redoma na qual são colocados por aqueles que loucam o “tradicional”, o molde único evocado pelo olhar assombrado do rapaz vindo do Sudeste.
Nas próximas páginas, alguns deles podem ser, ainda que brevemente, conhecidos. Milionários ou miseráveis, vestindo couro ou um top sintético de oncinha, são extremamente autênticos. Outros, como a rezadeira Severina, o locutor cego de Moderna, o mototaxista de Euclides da Cunha e a família do vaqueio Moisés (enfretaram várias secas, mas nunca a fome) se apresentam no projeto irmão desse caderno, dispon;ivel na internet. Não se trata de um mapeamento: partir dessa premissa já acusaria, por si só, uma vontade de engessar pessoas e tipos. E não é possível esgotar uma terra em 24 páginas ou num sítio virtual. A seguir, a lourinha Lohanne, o beato Manue, o B-boy Luiz e o condenado por tráfico André, entre outros falam por si. Nas imagens, frases retiradas de Os Sertões, mostram o choque entre o que se lê e o que se vê, ora a pura simbiose entre Euclides e sertanejos. Eles são de um tempo e um lugar que reclamam visbilidade, não a imposta, e sim aquela determinada por suas próprias experiências. Concordando ou não, o senhor, por favor, tolere. Isso é o Sertão.
Fabiana Moraes
Categories: Comunicação, Woman with a mango
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