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Redação da Bolha de São Paulo
SÃO PAULO
– O governo Luiz Inácio Lula da Silva gastou, com todos os seus programas sociais, em 2006, algo em torno de R$ 21 bilhões, calcula João Sicsú, diretor de Estudos Macroeconômicos do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas.
Gastou, não. Investiu. Trata-se de um caso raro de investimento público cuja necessidade ninguém discute.
Discute-se apenas o fato de programas como o Bolsa-Família, o principal na área social, não levarem a mudanças estruturais em um país em que parcelas consideráveis da população são pobres ou miseráveis. Frei Betto, por exemplo, assessor especial de Lula nos dois primeiros anos de mandato, diz que esse tipo de assistencialismo não muda a essência das coisas.

É verdade, mas é igualmente verdade que, enquanto não ocorre a mudança de estruturas (que, de resto, não está à vista), é melhor o assistencialismo que nada.

Viremos o foco agora para outros números do pobre país tropical: em 2007, os lucros somados das quatro entidades financeiras que já divulgaram seus balanços foram de portentosos R$ 21,777 bilhões (Itaú, R$ 8,474 bi; Bradesco, R$ 8,010 bi; Unibanco, R$ 3,448 bi; e Santander, R$ 1,845 bi).

Recapitulando, pois: para os 11 milhões de famílias beneficiárias da Bolsa-Família, R$ 21 bilhões; para quatro “famílias” financeiras, um pouco mais (R$ 21,777 bilhões). Na verdade, são mais famílias as que ratearam os R$ 21 bi de doações oficiais, já que muitas delas estão em outros programas sociais que não o Bolsa-Família.

Deve ser essa a redistribuição de renda que a propaganda oficial diz estar havendo. Ou a “moral socialista”, a que pandegamente aludiu o ex-ministro José Dirceu, em seu artigo para a Folha de quarta-feira.
Nunca neste planeta (ou qualquer outro) banqueiros se divertiram tanto com o “socialismo”
.

O texto acima (cujo título é socialismo Jabuticaba) é de Clóvis Rossi um dos integrantes do conselho editorial da Folha de São Paulo. O texto é deste domingo, 17 de fevereiro. O mote é excelente: uma comparação entre a apropriação feita pelas quatro famílias que controlam as principais bancos no Brasil e o investimento feito pelo governo federal com programas sociais. Os montantes são equivalentes, quase iguais. Lamentavelmente, a falta de precisão jornalística, de sinceridade intelectual e a má fé – talvez um pouco de ignorância – acabaram levando o jornalista a publicar um texto que se guia pelo preconceito e por uma visão de mundo específica. Visão esta que se esconde atrás de uma objetividade em tudo aparente apenas, mas inexistente.

O artigo é uma oportunidade perdida para comentar que o Brasil é um dos países em que a desigualdade social está para além da caricatura. A realidade parece ser mais surreal que qualquer peça do realismo fantástico. A informação que Clóvis Rossi tinha em mãos apontava para isso. Qua artigo lindo deixou de se escrito! Tudo porque Clóviss Rossi preferiu ler os dados por uma ótica diferente, que interpretou esses dados não só de forma imprecisa, mas cortada por uma consciência de classe que a muito custo se esconde.

A questão da objetividade: o texto se pauta pela clareza e pela profissão de fé da objetividade. Esse auto-engano coletivo que alguns levam a sério demais e outros utilizam como fachada para a veiculação de uma crítica pessoal ou crítica mais ideologizada. Este, o caso do texto em questão. O objetivo de Clóvis Rossi não é denunciar a desigualdade social que se flagra na composição do lucro dos bancos e do gasto com programa sociais. O objetivo é condenar o gasto com a área social, e em decorrência disso o tamanho do Estado no governo atual, as prioridades e o discurso oficial nesse sentido. A forma pela qual essa crítica é feita se ancora na objetividade, como se esse fosse um terreno que se pudesse chegar de forma impune, como se o jornalista fosse um ser de elevada constituição moral e dotado das capacidade de julgamento para isso.

A questão da imprecisão:  a comparação entre o lucro dos bancos e os investimentos do governo só se prestam a uma análise de ordem sociológica e não financeira e que remete à diferenciação, apartamento, desigualdade de toda ordem que existe nesse país desde a colonização. Com isso quero dizer que a afirmação “Deve ser essa a redistribuição de renda que a propaganda oficial diz estar havendo” é o típico artifício para se arrematar a idéia que o articulista tinha desde o começo: criticar os gastos sociais do governo. É óbvio que essa não é uma redistribuição de renda, Clóviss Rossi sabe disso – ainda que o governo o afirme, isso por si só poderia render uma artigo fantástico, mas a escolha do articulista foi mais medíocre. Essa foi sua chave para associar a um bom gancho (o lucro dos bancos, comparável aos investimentos do governo) sua crítica a esses investimentos.

A questão da ignorância: supondo que Clóvis Rossi sabe de tudo isso e que pretendia publicar um bom texto, com base num bom gancho, a questão da ignorância está em não perceber que sua estratégia poderia passar em branco.

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