Da arte de perder tudo II

Luiz Carlos Pinto | 11 de junho de 2009 9:31

Levei o notebook à Up grade, empresa que vende periféricos, computadores e fornece assistência técnica. De início a avaliação foi a pior possível: impossibilidade de recuperar os dados contidos no HD avariado e impossibilidade de se voltar a usar o mesmo HD. Prejuízo mínimo: R$ 200 por um novo HD, mais mão de obra e uma enorme dor de cabeça. Mas a Up Grade parecia mais interessada em me vender um novo HD, de modo que desconfiei e levei a máquina noutro lugar, a Notebook City, a primeira loja a oferecer os mesmos serviços para computadores portáteis no Recife.

Enquanto esperava um laudo mais sério (a Up Grade não informou nem os procedimentos que usou para avaliar o HD) fiquei sabendo que a coisa mais equivocada num caso desses é levar o notebook para uma dessas lojas. O mais correto é levar a uma empresa especializada em recuperação de HDs, pois o equipamento e toda a estrutura usada é mais precisa e limpa: a sensibilidade da superfície dos HDs hoje é tal que somente o ar de um ambiente pode aumentar os danos, inviabilizando qualquer recuperação mais bem sucedida. Quanto mais uma dessas empresas não-especializadas mexe, pior. O problema dessas especializadas é o preço. Fácil fácil você paga o valor de um novo computador.

Fui na Notebook city retomar a máquina, não sem antes solicitar para parar o processo, pedi para que não abrissem o velho guerreiro prateado. Felizmente há uma dessas especializadas no Recife, a BCL Tech. Deixei lá. Cinco dias para nova avaliação, confiança renovada, depois do laudo pessimista da Up Grade. Enquanto isso, retomo as mudanças que Maria Eduarda pediu no texto do primeiro capítulo.

Ontem não foi um dia fácil. Dia de jogo da seleção na cidade, véspera de feriado, todo mundo querendo largar cedo, o trânsito um inferno e todas as partes por onde andei no Recife, e fui da região norte à região sul. Depois de muita luta para chegar ao shopping onde deixei o computador, me dirigi a outro extremo, no Pina, região que, embora seja do mesmo bairro, é distante – além disso, um trânsito insuportável separa os dois lugares, quase sempre.

Foi ai que coisas interessantes aconteceram: na BCL Tech você não pode deixar a máquina. Tem que deixar o HD somente. Eu não tinha uma chave apropriada para abrir o compartimento e retirar a peça – outra lição não aprendida, andar com uma chave de fenda pode impedir muitos desagrados e contratempos.

Mas pode revelar lições também. Foi o que aconteceu: depois de circular pelo Pina com o computador nas costas, com medo de ser assaltado, encontrei uma biboca onde se consertava computadores. Eu só precisava pedir a chave. Mas disse que queria saber se eles trabalhavam com notebooks pois precisava retirar o HD do meu para levar ao conserto ali perto. Um senhor de seus 55 anos, camisa aberta, crucifixo pendurado, cabelo escovado, me atendeu. Era o dono da biboca, minutos antes o vi resolvendo uma bronca no telefone, um verdadeiro cu de boi, estava estressado demais com alguém que o enganou. E eu também estava uma pilha. Pois esse sujeito, no meio do inferno dele, parou para procurar no mapa da lista telefônica o endereço de uma empresa ali perto que poderia fazer o serviço de abrir o laptop. Encontrou o lugar, anotou endereço e telefone e, antes de me entregar o papel, ligou pro lugar para confirmar os dados.

Quando cheguei ao lugar, cerca de um quilômetro distante, outro sujeito no telefone resolvia um outro problema. Depois de me ouvir me disse que me empresatava a chave por R$ 30 para abrir o fundo do notebook e retirar o HD – operação que não dura mais de 20 segundos. Devo ter olhado pra ele de um jeito que me denunciou: o estresse e o medo de um dia inteiro. Ou então ele percebeu o exagero da cobrança, ou então foi que ele precisava fazer uma boa ação para que eu soubesse dela, não sei… Me pediu o notebook dizendo que ia quebrar meu galho. Tirou o HD cuidadosamente e me entregou. Agradeci a ele também, segui para a BCL Tech com o HD separado pensando que às vezes solidariedade e gentileza se aprende na marra, vendo o exemplo de quem tinha justificativas para não exercê-la.

Atualização: o computador que andava aqui em casa encostado tem peças da placa-mãe queimadas, fonte também queimada. Outra placa-mãe com compatibilidade com a memória é difícil de achar. Salva-se cok certeza a memória e o hd. pensava em reabilitar essa máquina com uma distribuição linux enxuta e ir tocando, mas não vai ser dessa vez.

One Response to “Da arte de perder tudo II”

Micheline wrote a comment on 17 de junho de 2009

Não dianta, meu velho. Mesmo os backups não são 100% seguros. Imagina que você faz o backup em um outro HD e se esse também dá pau? Ou num pendrive – pendrives tb dão pau… Num DVD? Vai que perde ou arranha a ponto de não poder mais ser lido… Ando desconfiada de todos esses modos. Mas acho que tem um que funciona: webmail. Em qualquer máquina, em qualquer lugar do mundo, sem precisar de gadgets, você abre! Tenho utilizado meu GMail para algumas coisas. Bom, espero que você consiga recuperar pelo menos algumas coisas.

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