Quando eu era criança em Arcoverde já gostava muito de quadrinhos, mas os quadrinhos não gostavam ou não sabiam muito sobre Arcoverde. As edições demoravam a chegar. Não raro chegavam descasadas, sem continuidade. O formato ainda era aquele entre o livro de bolso e o tamanho agenda – bem longe do formato americano que só passou a ser usado pela Marvel e pela DC nos idos de 1990 até hoje.
Antes disso, os chamados quadrinhos adultos estavam restritos ao Sandman, Monstro do Pântano, John Constatine e as edições especiais de medalhões como o Batman. Mas é claro que não foram os quadrinhos adultos que me seduziram primeiro.
Primeiro eu descobri os mutantes criados por Stan Lee e a era de ouro em que John Byrne desenhou o X-men, Quarteto Fantástico, um pouco do Homem Aranha e acho que o Homem de Ferro. Morávamos numa casa pequena mas boa, meu irmão criava gato, cachorro, uns préas, pombos e a casa por si criava suas víboras no quintal, que afastamos um tempo com umas pás de cal. Eu só pensava em andar entre os telhados, como aqueles heróis dos quadrinhos que eu só via a cada 30 dias. As revistas eu as lia bem devagar. 30 dias era muito tempo.
Um dia peguei um guarda-chuva velho, destrinchei como se fosse um frango ossudo, tirei a napa preta, fiquei com a ossatura que lhe dava forma contra a chuva, adeqüei ao intervalo entre as falanges do braço direito, ajustei no centro da palma de modo que três hastes ficassem projetadas para a frente, como as garras de Wolverine.
Subi no tanque do banheiro, que ficava do lado de fora e era contíguo às casas na vizinhança. Esse tanque servia ainda como mirante estratégico, antena virtual e esconderijo-batcaverna.
Foi então que senti pela primeira vez a forte sensação de poder fazer qualquer coisa, empunhando um punho de garras no vento frio da cidade em que nasci. E então aconteceu. Pulei para o telhado do vizinho, aliás, o do no da casa que alugávamos. Era um telhado de cimento armado, uma laje, onde se deixava água acumular para evitar que a contrução rachasse por causa da ação causticante do sol. O primeiro salto foi bem sucedido e então segui pela linha da laje até sua ponta, até a casa seguinte para onde saltei silencioso como o Pantera negra, dos Vingadores.
Segui por mais dois telhados contíguos, eu fazia a volta nas coberturas e voltava ao ponto de chegada, até que completei a ronda imaginária e voltei, ainda silencioso, pra o ponto de partida inicial, a torre da caixa d’água na minha casa. Desci em silêncio e devagar, guardei a luva de garras e fui tomar banho, porque já estava ficando sem luz.
De vez em quando a idéia de pular de telhado em telhado aparece de novo. O problema é encontrar a luva de hastes de guarda-cuva, que eu não tenho a mínima idéia de onde eu guardei.
PS: resolvi publicar esse post novamente por causa das imagens produzidas pelo pessoal do Project Rooftop. O pessoa desse site ótimas re-criações de super heróis recentes e mais novos.
Categories: Investigações paralelas
2 Comments »










2 Responses to “De telhado em telhado”
Adorei o post. Lembrei de minha infância em Barreiros, onde também vivia ansiosa pela chegada de novas revistinhas em quadrinhos. Comecei com Disney, depois Maurício de Souza… Quando dei por mim estava lendo Spirit, Watchman e O Monstto do Pântano. Resultado: virei fanática por quadrinhos na adolescência, consumindo quase tudo que aparecia. Virei vã de Frank Miller, Alan Moore, sem falar no quadrinho com pitadas de erotismo de Milo Manara e Crepax. Também colecionava MAD, Animal, Udigrudi… Bons tempos!
Também gostei muito do post sobre os 30 anos de walkman. Recentemente passei um final de semana inteiro ouvindo fitas antigas. Uma delícia. E deu saudade de gravar aquelas seleções personalíssimas. Gravar CD com essas seleções é bom, mas não dá o mesmo barato.
Pô Michel
ando com saudade de tu.
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