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Dia da In(ter)dependência

Luiz Carlos Pinto | 8 de setembro de 2009 9:25

Precisamos reinventar o Brasil.
Porque as narrativas que o inventaram têm sido exclusivamente daqueles que se abraçaram à ordem e o progresso da bandeira, daqueles que sempre tiveram em mãos os instrumentos certos para que seu discurso fosse entronizado. É preciso redesenhar o Brasil à imagem e semelhança de sua precária virtuosidade.

É preciso reinventar a fala do Brasil sobre o Brasil.
Francisco Oliveira já afirmou de tantas formas diferentes, em tantos lugares diferentes: a anulação da fala, do dissenso, da política faz parte de nossa história. Mais até: é a forma pela qual se desenhou o mapa mundi do Brasil, nossa história extemporânea. O mesmo Chico nos disse que a procura da política, que seu encontro e manifestação sempre foram demandas da parcela dos sem parcela, daqueles extratos que na matemática oficial não contavam. Ou não convinham.

E no entanto, o silenciamento da fala, a relativa anulação da política, a contagem daquilo e daqueles que contam e que merecem ser contados sempre estiveram ancoradas à conveniência dos que escreviam a História.

É preciso recontar o Brasil, sua cartografia de discordâncias, seu mapa de vozes, de dissensos que passeiam todos os dias nas ruas, encharcadas de suor, poeira, e brilho. E a necessidade da retomada do Brasil passa pela retomada das tecnologias que permitem suas narrativas, seus mapeamentos, suas linhas de fuga:

Ranciére, filósofo francês, viu e descreveu a base dessa interpretação de forma mais clara: desde a antiguidade grega, os que merecem ser contados são aqueles que detém o conhecimento, a faculdade de pensar e de articular a palavra. Coincidentemente (!), estas mesmas pessoas eram os ricos da sociedade grega. Os detentores desse conhecimento, e do conhecimento sobre o conhecimento, do logos, eram os Homens.

Os outros não mereciam a discussão política, não mereciam ser representados nem se representar, não possuiam a palavra pois não tinham o logos, nem podiam ser contados: não eram homens.

Estes mesmos não-homens inventaram seu logos, suas leis e inauguraram a política.

Como não pensar que a retomada e apropriação crítica de tecnologias é uma subversão do modelo de contagem que Ranciére descreve? (É, eu sei que isso é uma analogia, que por sua vez expressa o pensamento aristotélico e platônico sobre o qual se edifica a forma de conhecimento sedentário. Mas também é preciso se descarregar do peso dessa diferença entre o pensamento nômade e o pensamento sedentário. Essa oposição é frustrante e imobilizadora).

Como não pensar que os não-cidadãos gregos anteciparam cooperações, adequações, gambiarras e formas de compartilhamento simbólicos?

Os modos de apropriação crítica das tecnologias de informação e comunicação são formas de recontagem, ou pelo menos abrem possibilidades para que uma outra contagem aconteça – concatenadas cacofonias. O alfabeto necessário para isso incui afetos, vivências, implica na invenção de um cotidiano, na descoberta de outros, ações coletivas, paixões coletivas, jardinagens bivolts e alguma alegria.

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