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Dia de luz

Luiz Carlos Pinto | 21 de dezembro de 2008 21:41

Desde que me lembro, o domingo é um bom dia para Deus. Para mim, sempre me pareceu um não dia, uma negação da semana, um portador de uma expectativa que nunca se concretiza. Ainda que a segunda-feira seja sua seqüência, o que pode confundir os mais desavisados em achar que a segunda-feira e a semana toda é a decorrência natural dessa expectativa. Não. O domingo é algo mais complicdado: é um acidente no próprio tecido do tempo, de modo que chuvoso ou ensolarado, o domingo sempre me pareceu esse dia fora do dia, enfim.

Hoje, circulando pelo bairro, com o meu compatriota Feijoada ao lado, me dei conta de uma remota possibilidade: estaria a barraca de dona Maria aberta? Remota por ser um domingo, por ser dona Maria uma senhora de idade avançada que deve se recursar a trabalhar no dia de descanso do Senhor; remota por que aprendi a não esperar muito dos domingos, e a possibilidade da barraca estar aberta salvaria ao menos minha manhã.

Ainda na metade da rua Aníbal Falcão resolvi apostar. Acelerei o passo até o final da rua, desci a Rua das Graças cheio de esperanças, passei por sua matriz verde claro, desci pela rua do Jayme da Fonte, cheguei à rua das Pernambucanas e me enchi de orgulho de dona Maria, a quem tive uma enorme vontade de dar um beijo estalado na boca: a barraca estava aberta, havia algum movimento por lá e uma alma iluminada havia colocado uma mesa pequena e baixa se banhando no sol de dezembro, na rua. Para completar minha felicidade, uns trocados tilintavam no bolso esquerdo de meu short e podiam pagar duas cervas.

Apressei meu passo sobre a esquina clara, paguei uma cerveja gelada, me deram um copo e sentei debaixo de um lume iluminado de vontade e pensei que pequenos milagres como esse podem acontecer na esquina mais improvável, no dia mais improvável, com a mais improvável das gentes. Percebi logo que era o dia da confraternização dos fregueses de dona Maria: um grupo simpático de aposentados meio boêmios, meio burgueses, meio clube restrito de mocassins e shorts brancos de algodão e camisas polo. Cada um deles chegava portando um sonoro bom dia e um pratinho de alguma coisa: um caldo, um purê, um carangueijo cozido.

E fiquei ali um tempo bom sentindo calor e a nítida sensação de que o Domingo afinal não precisa ser um dia bom apenas para Deus.

Gracias a la vida.

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