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Eu estava lá

Luiz Carlos Pinto | 21 de abril de 2008 6:27


Ontem foi a nossa vez de ver I’m not there, filme dirigido por Todd Haynes baseado na biografia de Bob Dylan. O filme é um presente para quem gosta de Dylan. Eu e Fabiana concluimos depois que é mais cinema do que o ótimo documentário que Scorcese fez sobre o artista por uma razão simples: há mais a presença dum diretor com uma idéia narrativa (ou melhor, várias idéias narrativas) que costuram o personagem.

A idéia dum personagem costurado não poderia ser mais adequada. A vida de Dylan é narrada por intermédio de seis personagens em histórias independentes, mas interconectadas pela própria matriz que as gerou. Assim, Dylan é William Guthrie, interpretado por um garoto negro que toca viola; é Billy The Kid aposentado (Richard Gere); é Rimbauld; é o cantor de protestos (Bale); é um ator (o que é um achado, pois Dylan muitas e muitas vezes foi chamado de fingido, ao deixar de cantar músicas de protestos e eletrificar o som) e finalmente é astro pop angustiado, o performático da borda, o inconformado e drogado poeta/músico/magic star vestido de preto (Cate Blanchett).


Identificar Dylan ou um pedaço dele em cada um desses personagens é o mais esperado. Mas acho legal também pensar o filme em si e por si. Imagine alguém vendo o filme sem saber da existência de Dylan. O filme assim ganha outros sentidos. Deixa de ser uma cine-biografia de remendos para ser uma narrativa de remendos sobre o não-lugar, sobre o sentimento de não-pertencimento, sobre o sentimento de não ter casa (lar) que lhe caiba. Sobretudo, o sentimento de uma marginalidade, de um estranhamento e de uma não adequação. Se eu não conhecesse Dylan acho que seria essa a idéia principal que teria do filme.

É essa complexidade costurada que faz do filme ter uma riqueza narrativa tão grande e se permitir a muitos usos. Uma das viagens que eu tive foi durante o conto em que Richard Gere (o Billy The Kid aposentado). Ele mora isolado numa comunidade arcaica, num vale paradisíaco por onde passará uma avenida de seis pistas e que ameaça a tranquilidade do local. Apesar de morar no local, o personagem não sabia que isso aconteceria e muito menos do clima de terror que se instala no local por causa disso. Ele então reage a essa ameaça e se levanta contra o governo que a promove. É preso e foge, se torna de novo um fora da lei. Foge pegando carona num trem em movimento, onde acha uma viola que foi usada no início do filme pelo personagem de Marcus Carl Franklin, o garoto que adota o nome de William Guthrie. Nesse final fiquei pensando que era uma forma de fazer encontrar o velho Dylan ao jovem Dylan e o local de encontro é um não-lugar, um local em movimento, o trem.

E finalmente há algo que me deixou contente no filme e me animou a escrever esse textinho, tanto tempo depois do último post: é que inconscientemente ou não DYlan se refere a bens simbólicos comuns que, em seus termos, “não precisam ser protegidos”. Ele se referia, durante o período de maior condenação que sofreu, à chamada cultura popular identificada nos EUA ao folk. É interessante verificar que isso está ligado a uma economia imaterial, a uma economia simbólica e às possibilidade de apropriação de bens comuns dessa natureza. Dylan, a certo momento, preferiu não fazer parte disso, não ser identificado com o guardião desses bens.

Mas isso é somente parte da história, porque Dylan também é, além do incômodo sujeito que fala dessas coisas, o emulador de Guthrie, o ator performático, o fora da lei reabilitado, o trovador político e o poeta sem chances de voltar para casa.

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