
A assinatura acima é a de Fidel Castro, que anunciou hoje sua saída da presidência de Cuba por meio do Granma, o órgão oficial de comunicação do regime. Fidel já havia deixado a presidência do Conselho de Estado em julho de 2006 para tratar da saúde. Agora, na carta que escreveu ao povo cubano, Fidel reafirma não ter interesse na presidência desses Conselho, além de seu afastamento da Presidência da República.
De imediato, nada deverá mudar muito em Cuba – pelo menos é no que aceditam a maior parte dos analistas que tenho visto até agora. O raciocínio é que Fidel não é uma fortaleza de pedra a cal armada com canhões de 50 milímetros que impeça a invasão norte-americana. E além disso, o regime conta com uma polícia secreta que coibe de forma eficiente porque sanguinária as tentativas de afrouxamento da ditadura que lá se instalou.
A questão principal para mim não é essa. Arrisco dizer que a saída de Fidel tem uma carga simbólica para o povo cubano que até agora ainda não foi considerada – e provavelmente não estará na pauta da cobertura dos jornais, amanhã. De que vale essa carga simbólica? Vale muito, como os eventos que estão para se desenvolver na ilha mostrarão nos próximos dias e meses.
Na carta de despedida, Fidel acena justamente com uma certa continuidade do regime, ao afirmar:
Afortunadamente nuestro proceso cuenta todavía con cuadros de la vieja guardia, junto a otros que eran muy jóvenes cuando se inició la primera etapa de la Revolución. Algunos casi niños se incorporaron a los combatientes de las montañas y después, con su heroísmo y sus misiones internacionalistas, llenaron de gloria al país. Cuentan con la autoridad y la experiencia para garantizar el reemplazo. Dispone igualmente nuestro proceso de la generación intermedia que aprendió junto a nosotros los elementos del complejo y casi inaccesible arte de organizar y dirigir una revolución.
O afastamendo de Fidel, por motivos vários, de certa maneira é um recolhimeno mais do que do poder, mas esse é um clima que até hoje foi Gabriel Garcia Marquez quem melhor expressou (em O Outono do Patriarca):
Não apenas havíamos acabado de acreditar que de fato ele fora concebido para sobreviver ao terceiro cometa, mas essa convicção nos infudira uma uma segurança e um sossego que pensávamos disfarçar com todo tipo de piadas sobre a velhice, atribuíamos a ele as virtudes senis das tartarugas e os hábitos dos elefantes, contávamos nas cantinas que alguém havia anunciado ao conselho de governo que ele tinha morrido e que todos os ministros se olharam assustados e se perguntaram assustados e agora quem vai dizer isto a ele, ah! ah! ah!, quando a verdade era que ele não teria importado saber nem teria estado muito seguro ele mesmo se aquela piada de rua era verdadeira ou falsa, pois então ninguém sabia senão ele que só lhe restavam nas torneiras da memória umas quantas migalhas soltas dos vestígios do passado, estava só no mundo, surdo como um espelho, arrastando suas densas patas decrépitas por sombrios gabinetes onde alguém de levita e colarinho engomado lhe havia feito um sinal enigmático com um lenço branco, adeus meu general, adeus, mas ele não ouvia nada desde os lutos crepusculares de Letícia Nazareno quando pensava que a voz dos pássaros de suas gaiolas estava se gastando de tanto cantar e lhes dava de comer do seu próprio mel de abelhas para que cantassem mais alto, pingava-lhes gotas de cantorina no bico com um cnta-gotas, cantava-lhes canções de outros tempos, fúlgida lua do mês de janeiro, cantava pois não percebia que não eram os pássaros que estavam perdendo a força da voz mas que era ele que ouvia cada vez menos, e uma noite o zumbido dos tímpanos rompeu-se em pedaçs, acabou-se, transformou-se em um ar de argamassa por onde passavam apenas os lamentos de adeuses dos navios ilusórios das trevas do poder, passavam ventos imaginários, barulhadas de pássaros interiores que acabaram por consolá-lo do abismo de silêncio dos pássaros da realidade. As poucas pessoas que então tinham acesso à casa civil viam-no na cadeira de balanço de vime suportando o bochorno das duas da tarde sob o caramanchão de amores-perfeitos, dasabotoara a túnica, tirara o sabre com o cinturão das cores da pátri, tirava as botas mas deixava vestidas as meias de púrpura das doze dúzias que lhe mandou o Sumo Pontífice de seus privados,…
Categories: América do Sul, Política
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