It’s all right

Luiz Carlos Pinto | 22 de outubro de 2008 14:33

Agora há pouco aconteceu a banca de qualificação do doutorado. É uma etapa dos procedimentos do curso que consiste em se responder a algumas perguntas no formato de um texto corrido. O objetivo é o programa verificar se a tese está sendo escrita a contento, se o sujeiro está sendo bem orientado, corrigir o caminho se for o caso e enfim colocar a produção em discussão pra assim melhorá-la. Em geral, quando o texto está bem resolvido e amarrado, serve como primeiro capítulo da tese. Além de entregar o texto o sujeito ainda é sabatinado

Acho que respondi bem às questões feitas pela banca. Também gostei do texto que fiz. Mesmo assim não acho que será dessa vez que ficarei livre dessa etapa. Os questionamentos feitos pelos professores, muito bons e que me ajudaram muito, seguem abaixo. Aproveito para indicar aos interessados que o texto está disponível aqui. Também aproveito para dizer que o objetivo de disponibilizar esse texto, que é a produção mais valiosa que eu fiz nos últimos anos por aglutinar todas as leituras, é o de fomentar a discussão e compartilhar conhecimento. Se for usar, indique de onde tirou tais reflexões. Não pense que está com a faca e o queijo na mão porque não está.

Comentários da banca
Eliane Veras – Indicou que o uso da teoria da hegemonia e da teoria política de Gramsci foi feita a partir da leitura de terceiros, o que pra um trabalho de mestrado já seria ruim, o que inteiramente verdade. Retorqui que de fato a leitura de Gramsci até a entrega das respostas tinham sido feitas indiretamente e que atualmente estava lendo Gramsci de Gramsci – em particular “Maquiavel, a política e o Estado moderno”, “Americanismo e Fordismo”, “Cadernos do Cárcere”.

Breno Souto Maior – Questionou o que diabos vem a ser esse tal de ” ’substrato ontológico’ da produção social mobilizada pelos movimentos sociais portadores de políticas radicais de mídias no Brasil”, coisa que é indicada nas páginas quatro e cinco. Respondi que correspondia àquilo que é produzido em cada um dos níveis de conflito indicados a partir da primeira página do trabalho apresentado, Breno contra-argumentou que era necessário evitar uma descrição tão sumária (para todas as formas de ação e de discursos produzidas pelos grupos), o que de fato é verdade. Nesse caso, pequei mais por síntese excessiva do que por sentido.

Perguntou ainda a que correspondia o termo “natureza interna” em Habermas na página 10. Na verdade o professor Breno perguntou isso para indicar que diversos termos do trabalho são baseados em conceitos que eu preciso indicar de onde vêm. No caso da “natureza interna” se refere à idéia de “mundo da vida” usada por Habermas.

Perguntou o que significa dizer que “No que se refere ao âmbito dessa pesquisa, a contribuição fornecida por essa análise habermasiana parece indicada para tratar de movimentos que articulam-se horizontalmente para alterar a legislação que regula a atuação dos grupos empresariais de informação e entretenimento no Brasil”. Expliquei que tentei me referir a instituições como a Fenaj e a Intervozes que atuam “horizontalmente”, em relação à esfera das decisões políticas tentando mudar as leis. Eles me convenceram que o termo “horizontalmente” não é adequado, no que concordo.

Breno finalmente me perguntou como a articulação entre Gramsci e Habermas pode me ajudar a analisar meu objeto. Expliquei que não pretendo usar Habermas, mas que o diálogo era necessário incusive como uma forma de eu acertas as contas com Habermas, uma vez que eu comecei essa pesquisa que os livros dele é que me ajudariam a analisar as políticas radicais de mídias. Expliquei que uma análise inspirada em Gramsci me ajudaria a entender como a política se projeta para além do círculo institucional e das esferas de decisões políticas e que se instala nos afazeres do cotidiano. Breno retorquiu que Habermas (em “Facticidade e Validez”) já faz uma crítica da democracia procedimental, no que eu fiquei com a car ano chão sem saber o que dizer. Vou ter que reler com mais atenção esse livro de Habermas (rápido, rápido, rápido) e re-formular essa parte.

Perry Scott – Perguntou qual o sentido usado por mim para os termos “radical” e “subversão”. E perguntou-me em qual teoria da globalização afinal eu iria me apoiar. Foram questões mais fáceis de responder. Mas de fato preciso me localizar e escolher uma teoria da globalização que seja útil. Acreditei que ao comentar algumas delas no texto seria suficiente, mas vejo que a preferência por uma teoria da globalização me permitirá ser mais específico e claro e construir de forma mais transparente o problema.

Conclusão

Os três professores foram unânimes em afirmar que o texto está carregado, de difícil compreensão, que ele está por demais denso e que e difícil entrar nele. E que ao mesmo tempo é o retrato fiel do momento em que eu me encontro, imerso na pesquisa. Como ainda tenho tempo e posso tentar a qualificação próximo ano, acho que não serei qualificado já (se estivesse pra entregar a tese em março, acho que eles pediriam para fazer correções urgentes).

Todos os pontos de questionamento serão úteis e fazem sentido, e confirmam muito do que minha orientadora vem me dizendo sobre o texto.

Vamos adiante.

One Response to “It’s all right”

Jampa wrote a comment on 22 de outubro de 2008

Valeu Lula. Essa tua descrição é bem útil para muitas coisas. Para pensar no que esta certo ou errado, mas sobretudo para pensar no que esta ou não em conformidade com as expectativas academicas locais. Abração.

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