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Morte ao jornalismo

Luiz Carlos Pinto | 22 de maio de 2009 10:40

Vez por outra eu me deparo com esse asunto: o fim dos jornais por causa da internet. O assunto é velho, claro, data dos primeiros anos do funcionamento da internet comercial. Acho ótimo que essa discussão sobre o futuro do jornalismo e dos jornais e dos jornalistas volte, porque ela está diretamente vinculada à discussão de disputas políticas muito importantes. Infelizmente, a forma como o assunto é tratado pelos jornalistas em geral se atém ao ‘fim do jornalismo’ (discussão sobre a profissão) sem considerar outras coisas relacionadas, quando para mim o que está em jogo é uma mudança na economia-política da informação.

Digo infelizmente porque muito facilmente encarar os abalos que o jornalismo sofre “por causa” da internet como um problema do jornalismo é muito ruim. Não dá conta do que está acontecendo no regime da circulação de informação, cultura e conhecimento nos dias que correm. Fechar-se numa discussão corporativa é a não-contribuição que a experiência dessa profissão não poderia dar.

Recebi dia desses esse email. Traça o horizonte que nenhum jornalista que trabalha em jornal gostaria de ver: diz que os jornais vão acabar, os jornalistas que dizem o contrário ou sabem e estão mentindo ou estão mal informados; argumenta que os jornais como mídia se tornarão cada vez mais irrelevane para a vida cotidiana, como um processo de continuidade do enfraquecimento de um meio mais antigo por um mais moedrno; afirma que a crise dos jornais nos Estados Unidos já chegou ao Brasil e como indício disso mostra os números da queda da circulação de alguns dos principais periódicos brasileiros; diz que os jornais não conseguiram se adaptar de forma a fazer dinheiro em publicidade online, e por isso os patrocinadores teriam migrado para o ciberespaço; comenta que hoje são os jornais que chupam informações dos blogs e não mais o contrário; cita os blogueiros com sucesso de ‘audiência’ e/ou renda no Brasil e por fim argumenta que o processo de decadência dos jornais é o processo de decedência do jornalismo como profissão. Não por um processo endógeno, mas por uma desnecessidade das instituições jornalísticas como fontes centralizadas de informação.

Tendo a concordar com algumas coisas nesse post. Acho que o blogueiro acerta na mosca quando comenta que a busca de informações tem sido feita pelas pessoas cada vez mais através das redes de interação das quais elas fazem parte. O processo horizontal de fluxo de informações que tantos teóricos do ciberespaço martelam desde mais ou menos a primeira metade da década de 1990. Tendencialmente, segundo o post, as novas gerações não vão mais identificar os jornais como suas principais fontes de informação, colocando em roda viva o processo de desimportância dos jornais.

Fabiana me mostrou texto que a Bolha de São Paulo re-publicou no dia 22 de abril, de Humberto Eco, originalmente publicado no New York Times: “Sobre a transitoriedade dos suportes”, em que ele argumenta: “O monólito egípcio, a tabuleta de argila, o papiro, o pergaminho e, obviamente, o livro impresso, já foram suportes para a informação escrita. Este último, até agora, demonstra que sobrevive bem por quinhentos anos, mas somente quando feito de papel à base de algodão”.

Eco afirma, no geral, que “todos os suportes mecânicos, elétricos e eletrônicos são perecíveis em curto prazo”. E que “Os suportes modernos parecem estar mais direcionados à difusão da informação do que à sua conservação. O livro, no entanto, é o principal instrumento de difusão (pensemos no papel desempenhado pela Bíblia impressa durante a reforma protestante) e, ao mesmo tempo, de conservação”.

Para concluir dizendo que “É possível que daqui a alguns séculos a única forma de ter notícias sobre o passado, depois de todos os suportes eletrônicos terem se desmagnetizado, continue sendo um belo incunábulo. E, entre todos os livros modernos, sobreviverão aqueles muitos feitos com papel de alta qualidade, ou os que agora propõem muitos editores, feitos com papel livre de ácidos”.

Essa visão é simpática a uma idéia da necessidade do jornalismo, seja ele realizado em que suporte for.

Mas a impressão que eu tenho é que claramente existe uma crise no jornalismo como profissão que está vinculada à forma como e para quem o jornalismo faz circular informação, cultura e conhecimento. Credita-se a novas tecnologias da informação o advento das iniciativas de informação não institucionalizada, realizada fora das redações, por pessoas que não se sentem satisfeita com as formas com que os jornais olham, ‘cobrem’ a sociedade. É claro que essas novas tecnologias da informação permitem um pluralização de visões. Mas a insatisfação com os jornais e com o jornalismo de uma forma geral é mais antiga, assim como as iniciativas não institucionalizadas, de jornalistas ou não, que procuram relatar a sociedade. A novas tecnologias colocam isso em evidência.

Isso o que? O que para mim é um cansaço do modelo de jornalismo preponderante, realizado da mesma forma pelos grandes canais de internet, os grandes jornais, as revistas semanais praticamente no mundo todo; ele opera uma desconexão do discurso jornalístico com a multiplicidade da vida social, que encontra agora formas baratas, fáceis, funcionais de se publicizar. Há um pensamento cansado e muitas vezes estéril nas formas de representar a vida social nas páginas dos jornais.Ver o complexo de mídia como também um aparelho ideológico ajuda a ver a causa desse esgotamento e da incapacidade de atender às necessidades dum público.

Os jornais e os jornalistas escrevem para cade vez menos gente não por acaso. As pessoas estão fazendo suas próprias mídias, desgarrando-se de um modelo verticalizado de produção e circulação de informação que perpassou toda a história da indústria cultural.

Como eu falei, o barateamento de equipamentos de mídia que permite o registro de fatos sociais – e aqui falo do laptop à câmera de mão – vem crescendo desde a década de 1960; a insatisfação de amplas parcelas da sociedade com o discurso produzido pelos grandes jornais; as possibilidades de troca horizontal de informação e em muitos casos o despreparo das empresas e dos jornalistas (o que só aumenta a desconfiança com os jornais) deveria ser visto como a expressão do mesmo processo.

Acho ruim quando vejo um diagnóstico como esse aí embaixo:

Porque essa é a forma de ver todo esse problema sem questionar os pressupostos tanto do jornalismo (e do modelo de ensino, que prepara profissionais para um mercado que está em franca transformação) enquanto atividade social, quanto do modelo da produção e circulação de informação que se instaurou com as grandes corporações de mídia nos últimos 200 anos. “A crise que virá“, se vier na forma como diz nesse videocast, é expressão da crise em andamento…

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