
As notícias dos preparativos para a evacuação de cidades no Texas, semana passada, me fez lembrar o primeiro contato com um oficial de imigração nos Estados Unidos. Estava eu chegando, depois de uma viagem razoavelmente confortável, ao aeroporto de Dallas, onde esperaria cerca de duas horas para pegar um outro avião ao meu destino final, New Orleans.
Sabia da possibilidade de voltar do aeroporto pra casa, uma vez que quem decide se você deve continuar a viagem não é a regularidade de seus documentos, a comprovação que pode se manter e tem onde ficar ou a comprovação de que a viagem tem razão de ser. Em última instância, o que define que a viagem vai prosseguir é o feeling do oficial de imigração. Uma coisa que percebi nessa é que as instituições coercitivas nos Estados Unidos têm em volta delas uma áura de difícil definição. Imagino que o belicismo polido possa explicar isso de alguma forma.
Há algo no interrogatório do oficial de imigração que faz você se sentir culpado por ter conseguido chegar ali. É aquela sensação de saber que não importa estar limpo, você é analisado como alguém que está cometendo um ilícito. Talvez seja essa a sensação mais clara da condição de estrangeiro numa sociedade belicista. Ainda mais se você é o estrangeiro latino americano, sem dinheiro no banco e vindo do interior, o que por acaso é o meu caso. Ao mesmo tempo, está ali o cabo da lei e da ordem, o sujeito-entidade-autoridade, o exercício policial em movimento, a prova viva de que o controle estratégico não somente deu certo, frutificará e não permitirá astúcias, enganos, táticas assertivas.
Parece brincadeira, mas há no corpo dos policiais dos Estados Unidos um local em que esse poder se cristaliza, em que se concentra e se expõe: é a cintura. Mais especificamente o cinto de utilidades. É simples e corriqueiro ver isso em filmes, a grande janela pra ser observar o, ainda que editado, american way of life. A cintura dos agentes da coerção não é apenas o centro gravitacional do corpo dos funcionários do governo; é o primeiro ponto ao qual seu instinto se dirige para expressar a formação policial, a força física, a organização institucional, a virilidade pessoal. E no entanto, o cinto de utilidade é tocado como uma expressão de dúvida se isso tudo está mesmo ali – granada de gás, granada sonora, choque elétrico, rádio, algemas, balas, lanterna, GPS, computador portátil, máscara, equipamento médico, etc. O cinto é um falo deslocado.
O “meu oficial de imigração” me perguntou qual o motivo da viagem. Respondi que estava ali a trabalho, pra apresentar um artigo num congresso de sociologia sobre o Brasil. Não deveria ter dito isso. De imediato ele não acreditou. Achou incrível que alguém nos Estados Unidos realizasse uma coisa daquelas. A descrença dele foi tão grande que tive que me controlar na hora pra não duvidar também. Mas não custou pra lhe explicar o que eu apresentaria – aliás, acho que falei melhor de meu artigo pro “meu oficial de imigração” do que para as cinco pessoas que compareceram ao GT.
Aí aconteceu uma coisa curiosa, caí nas graças do oficial. O sujeito passou a me dar dicas de segurança sobre New Orleans (e eu cá pensando comigo, meu amigo, eu tô vindo do Recife…); me informar que durante o furacão Katrina houve muitas “riots” mesmo no centro, que “é seguro”. Que eu evitasse me afastar da downtown (que é virtual e tácitamente um arquipélago de segurança dos brancos na cidade); e que eu me tranquilizasse porque minha apresentação seria um sucesso. Me falou especialmente dos roubos, depredações, das brigas, dos assassinatos cometidos durante o inferno em que se transformaram os longos dias em que o governo americano não enviou ajuda a quem ainda não havia morrido afogado, por doença ou de tiro. Mais ainda: o sujeito perguntou onde eu ficaria hospedado e… ele havia ficado no mesmo lugar anos antes. Imagino Homer passeando de camisa polo listrada, meias pretas, tênis branco e fumando os charutos creoles na parte segura, na downtown..
Fiquei foi ofendido.
Depois de atendido, tive vontade de queimar todos os documentos que comprovavam minha procedência, minhas atividades, razão da viagem, hospedagens reservadas (só não tive vontade de queimar o dinheiro que eu levava). Havia gasto um bom tempo imprimindo essa tralha, e, além dela não ter sido requerida, ainda ganhei a simpatia dum sujeito que me recomendou “cuidado nas ruas de New Orleans” por causa da violência que em grande parte foi resultado da ingerência do governo ao qual ele serve.
Fiquei um tempo pensando naquela história enquanto me dirigia pro meu portão de embarque. O aeroporto de Dallas é enorme, tem três grandes círculos onde se distribuem os portões de embarque e desembarque e o modo de locomoção entre eles é um trenzinho. Passei de meu ponto e me deixei ficar, esperando a volta pro mesmo ponto. Enquanto isso, via e ouvia as pessoas passando pelo mesmo vagão em que eu estava. Aí me dei conta que a única lembrança sobre Dallas, além de George Bush, é o seriado “Dallas”, em que uma família de ricaços que viviam da extração do petróleo, lutavam ferrenhamente pra tomar o poder acionário dos negócios.
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One Response to “My american way of life II”
Grande texto Luiz. Chega me arrepiei.
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