“- Diga,me, o que o levou a ler Spinosa? O fato de ele ser judeu?
- Não, Vossa Excelência, eu nem tinha idéia disso quando me deparei com seu livro. Aliás, se o Senhor leu a história de sua vida, pôde ver que ele não era amado na sinagoga. Encontrei o volume em um antiquário na cidade vizinha; paguei por ele um copeque, lamentando naquele momento gastar um dinheiro tão difícil de ganhar. Mais tarde, li algumas páginas, em seguida, continuei como se um vento forte me impulsionasse pelas costas. Não compreendi tudo, como lhe falei, mas quando tocamos em tais idéias é como se segurássemos uma vassoura de feiticeira. Eu não era mais o mesmo homem…
- Gostaria que me explicasse qual o significado que tem para você a obra de Spinosa. Noutros termos, se se trata de uma filosofia, em que consiste ela?…
- Não é fácil dizê-lo… Conforme o tema abordado nos diversos capítulos, e embora tudo pareça sorrateiramente coeso, o livro significa diferentes coisas. Todavia, creio que o significado dele é, sobretudo, que Espinoza queria fazer de si mesmo um homem livre – tão livre quanto possível, tendo em vista sua filosofia, se o senhor me entende – e isso indo até o limite de seus pensamentos, e interligando todos os elementos uns aos outros, se Vossa Excelência puder desculpar o mal jeito da expressão.
- Não considero que este seja um modo errôneo de abordar o problema: por meio do homem mais que mediante sua obra. Contudo…”
Malamud, The Fixer (O homem de Kiev. Paris: Seuil, p. 75-76)
Categories: Coisas imateriais
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