Notícia de um vôo particular

Luiz Carlos Pinto | 27 de março de 2009 9:44
 Euzivaldo Queiroz/A Crítica

Euzivaldo Queiroz/"A Crítica"

KÁTIA BRASIL
DA AGÊNCIA FOLHA, EM MANAUS

Com cerca de 300 quilos e 1,5 metro de diâmetro, parte de uma das turbinas de um avião cargueiro DC-10 caiu na madrugada de ontem sobre uma casa do bairro Terra Nova 2, em Manaus. A peça, que pegava fogo, arrebentou o telhado de uma casa, onde dormiam cinco pessoas, e rolou por 80 metros pela rua. Só parou após bater em um carro estacionado, que ficou parcialmente destruído.
Outras 20 casas também foram danificadas por estilhaços soltos pela peça. Ninguém se feriu. A Aeronáutica classificou o caso como “incidente grave”.


O avião, que pertence à empresa americana Arrow Cargo, prosseguiu o voo. Ele decolou à 1h46 (2h46 em Brasília) do aeroporto de Manaus com destino a Bogotá (Colômbia). Cinco minutos depois, moradores dos bairros Terra Nova 2 e Manoa, na zona norte, viram no céu uma bola de fogo: era o difusor do escapamento de um dos três motores do DC-10. Cada motor tem mais de três toneladas.
Pilotos ouvidos pela Folha dizem que um DC-10 viaja normalmente com dois motores.
A Aeronáutica afirmou ontem, em nota, que os bombeiros do aeroporto informaram aos operadores da torre de controle terem ouvido um estrondo durante a decolagem.

Segundo o órgão, a torre questionou o piloto, que negou qualquer anormalidade. Ao saber da queda de peças do avião, o Cindacta-4 (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo) contatou o piloto, que então informou um problema em uma turbina.

O piloto do DC-10 decidiu continuar com o voo, mas não prosseguiu até Bogotá, como era previsto no plano de voo, segundo a Aeronáutica.

Ele pousou às 5h46 no aeroporto Jose Maria Cordova, na região metropolitana de Medellín. Havia quatro tripulantes a bordo. Segundo a nota, a aeronave estava com autorização para fazer um voo sem carga e sem fins comerciais.

A sede da Arrow Cargo fica em Miami. A gerente da filial de Manaus, Rai Marinho, disse que o DC-10 faz voos regulares para Manaus. Ela afirmou que a decolagem rumo a Colômbia, com o avião carregado de mercadorias, ocorreu sem problemas. Ela não quis comentar sobre a manutenção da aeronave.
Sobre a peça do motor que caiu, ela disse que ligou para o comandante do DC-10 e avisou sobre o incidente. “Informei o que tinha ocorrido em Manaus. Só que eu não posso falar sobre isso [se o piloto observou ou não a queda de parte do motor]. A empresa vai esperar o resultado da perícia para comentar o caso e não vai se eximir da responsabilidade pelo ocorrido [com os moradores].”

Após a divulgação da nota da Aeronáutica, ontem à tarde, Marinho não foi encontrada para falar sobre a falta de autorização para viajar com carga nem sobre o fato de o piloto ter pousado em Medellin, mais distante ainda do que Bogotá.

One Response to “Notícia de um vôo particular”

Luiz Carlos Pinto wrote a comment on 27 de março de 2009

Não vou falar mal da Bolha de São Paulo nem do jornalista que fez a matéria, prometo.

Mas há perguntas que não querem calar. Veja bem:
Como é possível que o piloto de um avião que tem três turbinas não perceba que uma delas caiu?
Como é possível que ele tenha sido autorizado a continuar a viagem, sobre uma extensa faixa de território brasileiro, nessas condições?
Por que um avião de carga faria uma viagem sem carga e sem fins comerciais entre São Paulo e a cidade de Bogotá?
Por qual razão uma empresa (a Arrow Cargo) que não transporta passageiros, e sim apenas cargas industriais permitiria uma viagem tão longa sem fins comerciais?
Por que era tão importante fazer o transporte dessas quatro pessoas mesmo com apenas duas turbinas?
Por que, ao invés de descer em Bogotá o avião foi parar quase 300 quilômetros mais distante, na cidade pólo de uma das regiões de maior produção de cocaína do mundo?
Qual será agora o destino do avião?
Qual carga ele transportará até seu destino final?
Quem fará a fiscalização?
Quem receberá a carga?
Quantas vezes essa história particular aconteceu sem que a turbina houvesse caído?

Se a Arrow Cargo não tivesse dado o azar de ter perdido uma de suas turbinas em pleno vôo sobre a cidade de São Paulo, quem mais saberia desse vôo que foi para Bogotá, mas que na verdade desceria em Medellin?

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