Como eu vinha dizendo, corria o ano de 1986. As chances do glorioso selecionado de 1982 e do alquebrado grupo de 1986; o harém de beldades que eu havia descoberto ali ao lado na estante do vizinho; as possibilidades de sair de Arcoverde, lugar do qual nunca gostei muito, e ganhar o mundo; as chances de que meus pais se separassem logo, trazendo a paz pra quatro adolescentes famintos dela;
todas essas coisas traziam uma vontade de potência que não senti mais desde então. Tudo poderia acontecer nos primeiros meses de 1986 – de uma vitória consagradora num México ainda entorpecido pelo futebol brasileiro da década anterior à primeira noite de um homem.
Ao mesmo tempo “inverossímel” talvez fosse a palavra necessária e suficiente para descrever aquele ano grávido de tantos caminhos possíveis. Só para ficar no terreno dramático do futebol, lembro do xabu que foi a desistência de Leandro em embarcar com a canarinha. “Porque???”, eu me perguntava sufocado de agonia com a possibilidade de o melhor lateral direito que minha geração viu jogar não defender a canarinha: Leandro estava sendo solidário a Renato Gaúcho, seu companheiro, que havia sido cortado da seleção por ter saído da concentração sem consentimento de Telê Santana. Era a gota d´água. Eu não podia acreditar que aquela frutica pudesse atrapalhar o plano sério e grandioso de vencer a Copa do Mundo.
Todos à minha volta se atinham ao relacionamento dos dois. Eu pensava no relacionamento de Leandro com a bola, da bola com a seleção, da seleção e sua cozinha, e finalmente em quem viria a substituir Leandro – nem me detive em pensar quem substituiria Gaúcho, que era à sua maneira insubstituível, diria Leandro. Aquilo era inconcebível, inverossímel.
O fato é que pro lugar de Leandro foi convocado Édson, que logo foi substituído por Josimar, que se transformou numa das gratas surpresas da Copa e do ano todo e que graças a Deus jogava com a camisa 13, companheiro:
Mas Josimar é de fato outra longa conversa e meu débito no mercado de posts futuros está ficando cada vez maior. A desistência de Leandro, o elemento Gaúcho e o brilho de Josimar deveriam ter me feito perceber o quanto de inverossímel aquele ano ainda teria. Da mesma forma, era inverossímel que a separação daquele couple of kooks pudesse resolver tudo, como se veria muito tempo depois. O que comprova uma das coisas que afirmei no post anterior: a lucidez é para os pequenos e eu já havia deixado de ser um.
Enquanto isso, no harém, que era inesperado por si mesmo, as coisas fluiam, literalmente. Eu alimentava os passarinhos e surrupiava revistas e passava longas horas no quarto, construindo casas de campo para pedaços de papel. Dentro desse harém, havia ainda outras coisas inverossímeis – Cláudia Ohana e todo aquele matagal era como um nó de imposibilidades no centro do meu jardim privado de prazeres juvenis.
Se Cláudia Ohana representa esse inverossímel que batia com os quatro cantos do vento seco de Arcoverde, muitos outros foram os casos naquele ano. Ainda no futebol, lembro de que quando a seleção finalmente foi despachada (acho que pela Argentina, o que já teria sido um progresso em relação ano de 1982) todos os sofredores sairam da sala. As pessoas debandaram diante de mais uma derrota inacreditável – visto que as esperanças muitas vezes aviltam a realidade concreta. Eu já conhecia aquela dor. Tinha 10 anos em 1982. Fiquei sozinho e fui à janela. Dei falta na hora de uma bandeira que pendurávamos, verde e amarela, de plástico. Imaginei que havia caído do primeiro andar em que morávamos por alguma razão – talvez inverossímel.
A alguns metros dali, o novo dono da bandeira de 1986 corria em disparada, na certa esperança que teríamos mais sorte no próximo campeonato. Ou não. Cruzou a esquina tremulando igual à bandeira e compreendi que a vitória, numa Copa, é algo muito relativo. Nunca mais eu assisti ao campeonato mundial de futebol da mesma maneira. Era junho ou julho, mas pra mim o ano estava apenas começando.
Categories: Investigações paralelas
No Comments »






No Responses to “Ohana nas alturas – parte III – final”
Care to comment?