
Alguém lembra daquele filme clássico semi-B chamado “Pague para entrar, reze para sair”? Lembrei muito dele hoje pela manhã, quando fui ao Consulado Americano para solicitar visto de permanência temporária nos Estados Unidos. Vou pra essa terra em março, apresentar um artigo na Brasa. A lembrança veio não porque o trâmite de solicitação aconteça num parque de diversões, ou porque aconteceu uma chacina no momento (como é o caso no filme). Lembrei do filme porque o processo todo não deixa de ser um circo de horrores em que você paga caro para entrar – na verdade ainda não fiz as contas de quanto paguei até agora para poder chegar ao aeroporto de Dallas.
Efetivamente, paga-se pelo direito de ir até o aeroporto de chegada e não sua entrada nos Estados Unidos. Na chegada, um oficial do serviço de emigração pode achar que você tem cara de árabe (meu caso, com orgulho) e não acreditar na tua história. Aí, babau. É mandado de volta para casa sem dor ne piedade.
Mas os detalhes sórdidos dos aeroportos ficam para outro post, noutro dia. Hoje, às 7 de la matina tinha madame vestindo armani, dolce gabana, gucci, la coste e outras coisas debaixo de um sol que parecia de meio dia. Todos os brasileiros a pedir visto têm uma cara meio lavada, meio de abuso e de incompreensão de ter que estar ali, como se tivessem o direito de mandar um secretário fazer aquele trabalho sujo.
O desfile de marcas é um espetáculo à parte. Deve ser mesmo verdade. Vestir-se melhorzinho mostra poder de compra e poder para se manter nos Estados Unidos, o que eles entendem como uma forma de evitar que as pessoas procurem trabalho ilegal por lá. O detalhe é que o arrebite de tantas marcas às sete da manhã me acordou com mais susto do que o relógio despertador daqui de casa. Acho que só acordei hoje pela manhã na fila de entrada do circo.
Lá dentro da embaixada é aquele clima. Gente bem vestida e cheirosa, os guradas armados se comportando, todos brasileiros, como se fosse policiais americanos, aquele jeito tosco, grandalhão com um cinto de utilidades igual ao que os policiais de Nova Iorque usam. Fiquei me perguntando se tem curso pra o segurança se comportar como se fosse segurança americano. Vez por outra entra um carro de pessoas que trabalham na embaixada. O carro para num local que é especialmente longe de todo mundo. Passam um detetor de metais e de bombas (isso mesmo!) pra ver se o carro não vai fazer bum e levar um monte de gente junto.
Lá dentro tudo é blindado e frio, metal e vidro e cimento armado e tinta branca. “Nada está fora do lugar” e foi nesse momento que eu percebi que talvez a única coisa realmente fora do lugar era eu e então comecei a sentir um pouco de medo de ter que rezar para sair. Era um circo de horrores, vocês hão de entender.
Lá pelas 8h30 todas as cerca de 50 pessoas que esperavam um visto entraram. Sob o clima condicionado e longe da brisa e do sol, os perfume tomaram conta do ambiente. Nunca me ocorreu que tanta gente pudesse usar tanto perfume tão cedo. Mais: que pudessem se encontrar e se manter no mesmo ambiente durante tanto tempo. Foi aí que eu percebi que a única pessoa que provavelmente não tinha colocado perfume tinha sido eu, o que me deixou com uma sensação de desvantagem. Nessa hora, verifiquei meus documentos outra vez porque achei que não conseguiria o visto por falta de cheiro.
Felizmente a entrevista transcorreu sem problemas. Não me perguntaram minha profissão, o que eu faço pra ganhar a vida, não me pediram a declaração do Imposto de Renda, nem comprovante que faço doutorado ou que sou bolsista do CNPQ. Não me perguntaram se sou casado nem como vou pagar os custos da viagem. Espero que não me perguntem em inglês isso tudo quando eu chegar lá.
Por fim, ainda no salão oval e cheiroso da embaixada, fiz mentalmente as contas até aqui: R$ 38 para ter acesso às informações do site, R$ 231 para solicitar o visto, R$ 108 pelo visto (pago na hora feito caldo de cana), R$ 14 do Sedex para entregarem o passaporte (eles ficam com o pasaporte para ver se o documento é legítimo e para ver se você já participou de algum atentado terrorista em algum país, depois de cinco dias fazem o favor de devolver, sendo que você é que paga por isso). Então até agora paguei R$ 391,00 patra chegar ao aeroporto americano.
Essa história continiua em outro post, noutro dia.
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