Pequena reflexão por causa de mais uma entrevista de Marco Maciel
Luiz Carlos Pinto | 24 de agosto de 2010 20:35No final de semana, tomando uma cerveja em pé no Bar de Dona Maria – o único que abre fielmente de domingo a domingo no nobre bairro das Graças – ouvi de um senhor de cabelo e bigode brancos que “O Senador Marco Maciel é um diplomata. Aquele sim é um político”.
Lembrei da breve conversa com aquele senhor, 70, 75 anos, numa cadeira de balanço do chuvoso domingo passado, quando vi essa entrevista do senador da República Marco Maciel, publicada nesse 24 de agosto.
Acho essa entrevista particularmente feliz por permitir que o senador exponha a forma pela qual exercita sua forma particular de anulação e a desnecessidade da Política. Explico. A Política a que me refiro é o debate de idéias; é a atividade humana que nasce do desentendimento, do conflito, da cisania provocada por um demos que questiona a gestão dos corpos, dos lugares e da riqueza na vida social. O debate político nasce desse desentendimento em torno da distribuição dessas coisas.
Não me interessa se o Senador Marco Maciel tem interesse ou condições de discutir a emergência da Política nesses termos. O que interessa particularmente aqui é a ordem de seu discurso.
E o discurso do Senador Marco Maciel procura excluir qualquer possibilidade de encontro de idéias, de desentendimento: o desentendimento faz surgir não somente a política, mas as ordens ideológicas da ação social. E nesse processo o sujeito político se compromete, diz sim ou não claramente, se destempera, briga, esquece, cresce, diminui, aparece, negocia, entra em contradição necessariamente, é incoerente, efetiva sua condição de sujeito pensante.
Não é por outra razão que o Senador Marco Maciel se preocupa tanto em afastar a possibilidade de discordância ideológica com qualquer outro Senador que venha a ser eleito. É por essa razão que o Senador Marco Maciel afirma com tanta clareza que não é o senador por um partido, da oposição ou da situação, mas senador representante de Pernambuco e dos pernambucanos.
É precisamente a generalidade das afirmações uma das estratégias discursivas do apagamento da Política e consequentemente, da ação política ao longo da vida pública do senador. Das respostas dessa entrevista pode-se tirar algumas das frases mais anódinas e ao mesmo tempo exemplares dessa maneira de apagar o embate político e as posições assumidas nesse percurso:
- “sempre conservei minhas convicções políticas, sempre tive muito cuidado com a ética no exercício das funções públicas”;
- “Quem faz vida pública é sacerdócio e, consequentemente, tem que se dedicar inteiramente à tarefa que lhe foi confiada”;
- “O político, o homem público, tem que ter uma visão plena do país e, de modo especial, do seu estado”;
- “eu sempre tenho presente que a alternância e a rotatividade são pressupostos de uma sociedade democrática” – essa é uma das poucas afirmações anódinas do senador Marco Maciel que se presta à contestação, uma vez que o sentido da democracia não é a mudança no poder e sim a possibilidade de escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Nesse caso, como se sabe Marco Maciel foi um político sempre aliado dos governos e grupos políticos que se prestaram a servir ás condições de desigualdade, dependência externa e exploração sistêmica.
- “elogio de boca própria é vitupério”;
- “Eu me sinto realizado só de verificar que estou sendo útil a Pernambuco e ao seu povo”;
- “Um dos predicados do político é a coerência”;
- “é possível ser coerente se a pessoa se comportar de acordo com as exigências que a atividade pública requer”;
- “A reforma política tem que ser feita em vários estágios para que nós possamos ter essas instituições a que Joaquim Nabuco se referia: instituições fortes, bem cravejadas, que venham assegurar a todos e a cada um a certeza de que vivemos em uma sociedade aberta, democrática e na qual todos se sintam devidamente representados”;
- “Quando sou eleito, sou eleito senador. Não um senador de oposição ou de governo. Recebo um mandato popular e zelo muito pelo mandato popular”;
- “O senador que for eleito terá que bem cumprir a sua função. Procurar servir da melhor forma ao seu país e às suas instituições”;
- “Acho que a política exige muitas renúncias, muito trabalho, dedicação e, às vezes, correção de rumo ao verificar que o caminho que adotamos não é o melhor agora”;
Essas e outras frases poderiam compor um manual do político politicamente correto. Não é por acaso. É difícil discordar delas no geral. Elas dizem e calam no coração de muita gente – o senhor de cabeça branca, bigode branco e óculos embaçado do domingo, em sua admiração pelo porte de estadista do Senador se referia na verdade a ela por causa da dimensão inquestionável da fala.
Mas a fala é mais do que o dito e é preciso avaliar também o local de onde se fala. E nesse sentido a história de seus mais de 40 de vida pública confirmam vírgula a vírgula que o Senador Marco Maciel representa
“uma burguesia dependente, que luta por sua sobevivência e pela sobrevivência do capitalismo dependente, confundindo as duas coisas com a sobrevivência da ‘civilização ocidental cristã’. Em suas mãos, o individualismo egoístico, o particularismo agressivo e a violência ‘racional’só se voltam para um fim: a continuidade do tempo econômico da Revolução Burguesa, ou seja, em outras palavras, a intensificação da exporação capitalista e da opressão de classe, sem a qual ela é possível”, (Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa no Brasil).
Sabemos entretanto, que o Senador Marco Maciel sempre se comprometeu com a ordem do poder institucionalizado vigente, seja ela qual for – e sabemos que apesar de nossa Constituição afirmar que todo poder emana do povo, sabemos também que no Brasil o poder dos extratos dirigentes
“se impõe sem rebuços de cima para baixo, recorrendo a quaisquer meios para prevalecer, erigindo-se a si mesmo em fonte de sua própria legitimidade e convertendo, por fim, o Estado nacional e democrático em instrumento puro e simples de uma ditadura de classe preventiva”, (Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa no Brasil).
Há, por certo, quem considere essa uma postura defensável, embora eu não tenha competência para explicá-la ou defendê-la, felizmente. Ainda mais quando essa ordem do poder historicamente foi o agente da desigualdade social, da injustiça, do privilégio e da pobreza. Chico de Oliveira:
“A formação da sociedade brasileira, se a reconstituirmos pela interpretação de seus intelectuais demiúrgicos … é um processo complexo de violência, proibição da fala, mais modernamente privatização do público, interpretado por alguns com a categoria de patrimonialismo, revolução pelo alto, e incompatibilidade radical entre dominação burguesa e democracia; em resumo, de anulação da política, do dissenso, do desentendimento”, (Privatização do público, destituição da fala e anulação da política).
Um dos pontos mais batidos dessa ladainha é a correção de caráter, a postura de estadista, nunca ter se envolvido em corrupção, em desmando, roubalheira. na verdade essa não poderia ser adorada como bandeira ou elemento de diferenciação, é o mínimo a se esperar dos homens públicos num regime político representativo. Mas, também aqui, serve como estratégia de anulação da política, do choque de idéias, seja ele nos ambientes lesgislativos ou na sala de um apartamento onde houve essa entrevista.
Uma outra estratégia tradicionalmente usada pelo Senador Marco Maciel no sentido do apagamentoao final falar o que bem lhe aprover quando a coisa apertar. Isso todos os políticos e mesmo técnicos de governo fazem. De modo que não se pode considerar essa uma contribuição autêntica ou inédita ou inovadora à política brasileira. O futuro não vem de longe. Essa é uma afirmação anti-histórica.
Acho que as duas pessoas que entrevistaram o Senador Marco Maciel têm o mérito de procurar e insistir nas respostas, mesmo sabendo que elas não viriam – e nesse sentido sairam preparadas para o que iriam encontrar. Ma ssinto falta de que se entreviste o senador Marco Maciel com base em questões mais espionhsas. A ver…
Categories: Comunicação, Política, Políticos brasileiros
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One Response to “Pequena reflexão por causa de mais uma entrevista de Marco Maciel”
Bela reflexão. Maciel representa a manutenção de tudo o que a gente quer transformar.
by the way, vc tem que me apresentar esse bar de dona Maria
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