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Produto da modernidade

Luiz Carlos Pinto | 30 de janeiro de 2008 17:03

Fabiana Moraes
Jornal do Commercio

O crescente interesse da mídia pelo caboclo de lança, figura que tornou-se em um dos principais cartões-postais do Estado, é uma das responsáveis pela enorme rivalidade entre os guerreiros de hoje. Esta é uma das conclusões do jornalista João Marcelo Silva, da pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que, ao lado da também antropóloga Sumaia Vieira, coordenadora do programa Culturas Tradicionais do Instituto Nômades, estudou os maracatus da Zona da Mata Norte. “Desde que passaram a chamar mais atenção das câmeras, os caboclos têm investido em golas mais complexas”, diz o pesquisador, que escreveu um trabalho dedicado especificamente à etnografia desta peça repleta de “significações estéticas, mágico-religiosas, sociais, culturais e políticas.”

Segundo João Marcelo, não é possível, para aqueles que estão de fora, apreender o sentido total que a peça representa para o caboclo. Em seu trabalho, ele destaca que a gola representa o poder pessoal, a individualidade do lanceiro – assim como legitima seus status na comunidade de maracatuzeiros. “Eles medem o tempo, a própria vida, pelo ciclo do Carnaval”, pontua o pesquisador. Assim, avaliar de maneira negativa os altos investimentos feitos por uma comunidade pobre em uma roupa que é usada apenas uma vez no ano pode soar, no mínimo, moralista.

A relação vertical entre homens e mulheres na confecção das golas é outro terreno onde os julgamentos são perigosos – questões essencialmente culturais explicam práticas classificadas como politicamente incorretas no mundo “corrigido” de hoje. Historicamente, o maracatu, tanto o de baque solto quanto o de baque virado, é um lugar de homens. “A participação das mulheres se limitava às atividades domésticas e, em alguns casos, ao preparo espiritual do maracatu”, diz Sumaia Vieira. Segundo ela, mulheres menstruadas não podiam tocar na roupa dos brincantes, para estes, fêmeas nesta condição tinham o “corpo aberto”. “Isso significava atrapalho espiritual para o folgazão ou para o maracatu. Em menor proporção, as mulheres participavam da feitura das fantasias quando não estavam menstruadas”, continua a antropóloga. Atualmente, para brincar no maracatu, as mulheres de alguns grupos tomam chás à base de ervas para antecipar o ciclo menstrual.

O ingresso feminino no mundo masculino dos caboclos de lança e de pena, no entanto, não significou exatamente uma emancipação para elas. A maior valorização das golas feitas pelos homens, apesar do grande número de mulheres artesãs, é apenas um dos exemplos. “A predominância dos homens na feitura das golas também está associada a interesses pessoais, no aprendizado do ofício que também é uma fonte de renda para o artesão”, diz Sumaia.

VOGUE E AXÉ

Uma breve análise da fotografia realizada nos anos 40 por Lula Cardoso Ayres na Zona da Mata Norte (abaixo) mostra como a gola passou por enormes modificações em um curto espaço de tempo: curta, com pouco brilho, ela era aparato secundário. Areia prateada e espelhos eram os elementos mais comuns para enfeitar o traje. Mais tarde, o vidrilho e o ajofre (enfeite de forma oval) passaram a ser usados por caboclos com mais dinheiro. Aqui, as golas não podiam ser muito longas, já que o peso do vidrilho é várias vezes superior ao da lantejoula. “Brinquei com uma gola que pesava onze quilos”, lembra Luiz Caboclo, do Estrela Brilhante de Aliança.

A chegada da lantejoula, bem mais leve e barata, por volta dos anos 60, pode ser considerada como divisor de águas na “moda da gola”, proporcionando uma maior liberdade estilística aos seus criadores. A artesã Maria da Conceição, que faz as golas do Leão Formoso, é um exemplo. Também costureira, ela se inspira muitas vezes nas revistas de moda que compra ou recebe das clientes que levam os tecidos para ela cortar. “As golas passaram a ser cada vez mais autorais”, diz João Marcelo Silva.

As mudanças de estilos e desenhos acontecem principalmente através das mãos dos artesãos mais jovens, a exemplo do ajudante de Mestre Biá, Edson Rodrigues, 26 anos. Com o cabelo tingido de louro abertíssimo, à moda funk carioca, ele trabalha como fazedor de golas desde 2003, quando largou o emprego de serigrafista. Vem criando um estilo próprio, que reflete alguns “ícones” de seu tempo, entre eles a tatuagem. “Faço uns desenhos tribais, estou modernizando as peças”, comenta. Ao lado de Edson, Emerson, de apenas 12 anos, mostra orgulhoso a primeira gola que confeccionou. Vai usá-la no Carnaval, quando integrará o exército de mais de 140 caboclos de lança do Leão Vencedor de Carpina. “Tem que ensinar, ou não fica ninguém para fazer a roupa depois que eu morrer”, comenta Biá, que já pensa em incluir o neto de oito meses no maracatu. “O pano dele já tá guardado.”

Ex-aluno de Biá, Roberto de Lima, 29, conhecido como Toni, já começa a criar fama com suas peças onde borda santos e outras figuras pouco comuns no universo de desenhos abstratos das golas de maracatu. O rapaz, que integra o Estrela Brilhante de Nazaré da Mata, é extremamente detalhista com suas peças: a gola que vai vestir traz um enorme São Jorge. Nela, foram gastos 3,5 metros de veludo, além de lantejoulas número 6 e 10. Os motivos religiosos são uma constante no trabalho de Toni, que já fez gola com uma Nossa Senhora Aparecida e outra com o Coração de Jesus. Curiosamente, o rapaz não é religioso: sua mãe, evangélica, não permite nenhum santo em casa. “É que eu gosto das imagens mesmo. No próximo ano, vou bordar uma Santa Ceia.”

Enquanto Edson, Emerson e Toni vão dando continuidade, ao seu modo, aos antigos simbolismos do maracatu rural, outros jovens nascidos na Zona da Mata Norte preferem práticas ligadas ao que é considerado verdadeiramente “atual”. Filha de dois artesãos, Edjane da Costa, 27, só saiu duas vezes em um maracatu, quando tinha por volta de 15 e 16 anos. “Eu devia tá fora de meu juízo”, diz a moça, que passa longe de caboclos e baianas nos dias de folia em sua cidade. Já programou seu Carnaval: vai aos shows das bandas Cavaleiro Elétrico, Excesso de Bagagem e Marreta, que se apresentam nos trios que percorrerão as ruas de Nazaré. Em vez de gola, Edjane escolhe o abadá como símbolo que eleva Nazaré a uma ainda precária condição de modernidade.

Essa aí é segunda matéria publicada pelo JC sobre os maracatus de baque virado feito pela premiadíssima reporter e mulher desse escriba, Fabiana Moraes. O conteúdo é fechado. Mas consegui os PDFs das matérias que podem ser baixadas aqui e aqui, para deleite de vocês, cinco ou seis leitores do Locoporti.

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