sub>afectos

Luiz Carlos Pinto | 27 de dezembro de 2008 12:13

“… país [de] região privilegiada,
onde a natureza armou sua mais portentosa oficina”.
Euclides da Cunha – Os Sertões

Quando primeiro chegou à Serra Branca, sabia o que procurava. Só não sabia o que lhe aconteceria. Recostou suas pesadas malas no canto da estrada, olhou em volta e do bolso de trás de sua calça tirou um cilindro de papel. Abriu-o, retirou-lhe um vermelho-pardo ramo de flores de Canabis sativa e passou a tratá-lo com astúcia na palma de sua mão. Do bolso dianteiro, pegou um bolo amaçado de papéis para cigarro, apertou a erva desmanchada dentro da Colomy, buscou na calça um isqueiro que pôs em chamas no movimento de ascensão do braço e forçou em seu diafragma um forte trago da aveludada fumaça da maconha. Mais alguns tragos, olhou em volta, pegou seu telefone celular e digitou-lhes mensagens binárias. Alguns outros poucos tragos e o aparelho vibra em sua mão. “Já estou a caminho…”. Tinha certeza que não estaria só. Há anos se correspondiam por mensagens eletrônicas. Participaram já de diversas ações coletivas. Trocavam seus escritos. O tipo de relação que mantinham nunca lhe foi parecida. Queriam-se tão bem. E tendiam ao infinito…

Mais dois tragos e pôs-se a pensar sobre o que lhe passara pela mente. Seus escritos, tão pessoais, se coletivizavam. E criavam, assim, suas novas relações. Não que a escrita lhe fosse profissão imposta, muito menos compelia-se a escrever para extravasar sentidos. Mas hoje em dia, todos aqueles e-mails, sms, páginas em wiki… E por vezes agora se encontravam. Por vezes para festejar, por vezes para escrever. Percebeu que suas escritas eram tão diversas como as pessoas com quem as escrevia. Em suas relações mais pragmáticas, a solidez da vida ditada, seus textos percorriam caminhos de luta, traziam a revolta da violência sofrida. Lembrou de Imperatriz, no Maranhão, quando o assassinato de jovens de favelas da periferia suscitou textos tão assíduos e agudos como eram os adjetivos das relações que mantinha por ali. De Águas Claras, o delírio das afecções causadas pelas diversas ocupações de prédios públicos que fizeram na região. Relatos de vivências construídos coletivamente, com celulares, computadores, papeis, canetas. Com olhares, com toques, sorrisos. Com atenção, com carinho, com cuidado. Amor. A plenitude lhe viera à alma. Das insanidades dos desejos incontrolados, por tornarem-se relatos, levaram tantos à clareza dos sentimentos. No horizonte podia ver alguém se aproximando. Não sabia quem era. Mas o sorriso compôs-lhe a face. Sabia que amava aquela pessoa. Em seus olhos, uma tênue camada líquida não permitia que a visse, mesmo se aproximando. Àquela altura, não sabia mais nem quantas se aproximavam. Abraçaram-se, e novamente fizeram-se um.

Conjuntamente, escritos que se dão baseados no afeto, no conhecimento mútuo, nas trocas necessárias, nas intensidades de sentimentos em seus mais diversos meios. Com as mais diversas formas. Sub>escritos. Escritos criam fervorosas relações; sub>escritos, sub>relações. Sub>relações em listas de e-mails, em festividades, em rodas de samba, em casamentos, em agrupamentos, em
encontros, em desencontros entre quatro paredes, em florestas, em movimento. Em nomadismo. Em
quantidade indistinta, nunca podendo ser um, e a partir daí podendo ser todos. Que não depende
mais do outro. Depende do corpo. Do outro. De cuidá-lo e respeitá-lo em seus limites de cartografias sentimentais. Sub>redes, com suas sub>relações, mesmo em número pequeno, são infinitas em seu potencial, como a fissão do núcleo atômico. Resta à essas sub>redes se perguntarem: o que queremos com isso?

Sub>relações de afeto, nessas sub>redes virais, devem, anterior à tudo, existir o exterior. No corpo que não lhe pertence, mas que necessita de seu cuidado. Tendemos ao infinito e o infinito não cabe em um corpo único, é preciso velar pelo outro. Ter-lhe como seu sem lhe pertencer. É preciso clareza em como nos deixamos envolver. Buscas bons encontros? Como evitar que seus antagônicos expludam os corpos e dissolvam sub>redes e suas sub>relações? O carinho para com o próximo, a compreensão de seus limites, de seus desejos, de suas vontades. Desejo liberto em convívio com outros desejos, libertos, sem tirar-lhes as liberdades. Pois a liberdade não pode ser exclusiva, uma vez que só existe quando planetária.

Vícios relacionais devem ser superados. Quais bio-vícios sustentam a família nuclear? A hétero-normatividade? A sexualidade como ultra-desejo imposto? As relações tristes? A falta de sinceridade? A competição, sempre pregada pelos meios de comunicação em massa, não é o essencial na vida humana. A sentimento da vitória não é o mais nobre que carregamos. O trabalho não é a base de análise da vida. As trocas, sim, nos compõe. Troca de carícias e carinhos, troca de abraços, troca de beijos, de olhares, troca de sorrisos, de cheiros, troca de presentes, troca de apertos, troca de fluídos, troca de bits, troca de informação. E a troca envolve os meios: o corpo, o ar, os instrumentos e outras tecnologias responsáveis pela destruição irrecuperável da natureza. Se a natureza não for enxergada como exterior, como outro, em nossas sub>existências, todas as nossas outras sub>relações já são comprometidas. Sub>redes de relações informais. O devir-outro no bairro, sem desubjetivação. A nova geopolítica do capital se encontra nas periferias. Pois a riqueza é outra. O capitalismo sabia disso? O neo-liberalismo não. As sub>hierarquias não devem ser atribuídas. Devir-chefe, devir-escravos. O direito é para ser aconchegado nas próprias mãos.

Sub>redes que reproduzem a falha narrativa do desejo. Bem como as competições e vitórias ditadas, os desejos foram desmontados de nossos relatos. Desejos, contudo, não deixam de existir. Apenas o existem em massa, não no exterior, mas na mais egoísta interioridade, desejos mesquinhos cultivados em tubos de televisores e livros ao longo de séculos e décadas, desejos destruidores quando executados. Falsos relatos que compõe as experiências humanas mais íntimas fruto do catolicismo secular e do neoliberalismo arrebatador. Aleluia! Compor sub>relatos do desejo com clareza é essencial para compreender melhor o eu no outro. Sub>relatos que produzam afetos livres. Livres de preconceitos. Livres de tristeza. Livres de maus encontros. A falta de clareza e amadurecimento sentimental nessas sub>redes a afastam de sua maior potência: a de expandir, com uma velocidade e eficácia viral, diferentes afectos. Como sub>redes pretendem estender sua sub>versão dos relatos contemporâneos? Repetir os mesmos afectos sempre propagados?

Deu mais dois tragos no baseado e jogou a ponta no acostamento. Continuou andando rumo à praça central da cidade. Estava feliz por não mais carregar a angústia entre suas costelas. Era a outra e o outro; era a natureza, o exterior, pois já não mais se deixava ser pilar da moral. Cuidava desse exterior com o mesmo carinho que sempre quis consigo. Para o sistema moral imposto, sua atuação dentro dos terrenos expansórios do capitalismo possuia um nome: esquizofrenia. Mas sabia bem o que acontecia.

Fabiane Borges e Ricardo Ruiz
Salvador, no aniversário de 2008 anos de Cristo.

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