Um encontro em Recife para discutir ações coletivas com mídias livres?
Luiz Carlos Pinto | 28 de janeiro de 2011 14:08Bom, para quem não sabe, se é que alguém da rede Metarec não sabe, está em curso um esforço para fazer acontecer na cidade do Recife um encontro sobre Metareciclagem nesse primeiro semestre de 2011 – as datas iniciais com a qual se trabalha são 13 e 14 de maio. Um encontro sobre Metareciclagem é uma forma restritiva de dizer o que podemos fazer por aqui. Sou do pensamento que um encontro permeado pelas experiências da curta história da rede que leva esse nome não permite que se discuta apenasmente uma metodologia de apropriação tecnológica, os esporos da rede, o nome que se dá a essa atividade (ou não). Os anos do governo Lula confirmaram e aprofundaram a complexidade dos vários temas relativos aos novos movimentos sociais no Brasil. No que se refere às ações coletivas com mídias livres, a coisa se complica ainda mais porque aprofunda a já problemática relação Estado-sociedade civil organizada. Os desafios estão aí para quem quiser ver, FF não me deixa mentir.
Além disso, a sinalização dada pelo Ministério da Cultura da sua nova política em relação às regulações dos direitos sobre bens simbólicos necessariamente está na ordem do dia não somente dos coletivos e movimentos diretamente relacionados à economia política dos bens simbólicos. O Metarec é uma rede/metodologia/ação coletiva a qual esse debate ocasionado pela nova direção do MinC está vinculado, pois trata-se do debate sobe o comum (#commons). E o Metarec é uma ação coletiva com mídias livres que se filia ao front no qual se pode procurar produzir, veicular, traduzir, transferir o bem comum na forma de informação, cultura e conhecimento. Ou tem potencial para isso.
Passados os oito anos do governo Lula, os seis anos da gestão Gil à frente do Ministério da Cultura, difundida uma certa perspectiva/interpretação sobre a forma brasileira de apropriação de tecnologias livres e desenvolvidas as redes e discursos baseadas na ação Cultura Digital, o cenário desse início de década é bem diferente do anterior.
Em 08 de abril de 2008 Thiago Novaes escreveu o seguinte:
As novas práticas de compartilhamento e reflexão sobre a passagem do analógico
pro digital se encontram muito mais desenvolvidas e aprofundadas entre os
chamados ativistas que qualquer organização do terceiro setor ou da academia (sem
falar nos precários pensadores de gov). e isso se deve particularmente à nova
estrutura descentralizada de acesso e produção de informação, que permite um
verdadeiro diálogo, comunicação, entre os emissores.
Em que medida a oposição e distância entre o conhecimento produzido dentro e fora da academia presumida nas entrelinhas dessa afirmação aidna está valendo?
Somente alguns dos princípios da ação cultura digital aplicado aos Pontos de Cultura (descentralização integrada, autonomia, identificação de catalisadores locais para a replicação das redes, incentivo a uma ecologia de publicação de conteúdos livres, educação sobre ferramentas livres de produção multimídia), que são relembrados por FF já teria por si só um impacto considerável na gestão pública institucional. E, correspondentemente, seria e é fonte de variadas interpretações, análises, informação, conhecimento…
Quem anda escrevendo sobre esses impactos na administração além de Orlando? Com que pegada?
Seria de se estranhar que essa enxurrada de coisas não tivesse se refletido em pesquisas realizadas nas universidades e institutos de pesquisa. Além disso, pelo próprio caráter reflexivo das ações coletivas com mídias livres e de seus artífices também foi gerado um considerável e interessante leque de pesquisas fora da academia.
Aliás, a quem interessa manter a noção de uma dicotomia entre as pessoas e os conhecimentos e as experiências obtidas entre gente dita acadêmica e quem não é dita acadêmica?
A que discursos e forças interessa a desqualificação da produção de conhecimento gerada numa instância e noutra?
A quem interessa a demarcação de instâncias consagradas de legitimação de discursos dicotômicos sobre ações coletivas com mídias livres? O que legitima essa dicotomia?
Até aqui, pode parecer que minha ideia pro Encontro do Recife esteja centrado somente na produção de conhecimento e de análises e experiências feitas em pesquisas – financiadas com dinheiro público ou não, realizadas na academia ou não. Mas minha vontade não é apenas discutir os limites da perspectiva dicotomica entre acadêmicos e não acadêmicos, embora o encontro pudesse passar por esse ‘problema’ também.
O Encontro do Recife poderia ser uma oportunidade para superar essas posturas, que são a bem dizer, bem cômodas e interessantes para quem ganha com elas. As dicotomias são moinhos. E eu adoro ver moinhos caindo e junto seus artífices e gerentes.
Delírio, liberdade, desejo e commons
Também tenho a maior vontade de pensar junto sobre os discursos que tornaram possível a emergência do Metarec como ação coletiva e sua conversão (apropriação?) em política pública. Discutir e pôr na mesa os discursos que tornam a metareciclagem possível, desejável, erótica e uma ação coletiva libertadora, delirante, criativa – ou não.
Meu entendimento é que uma reflexao coletiva sobre isso pode inclusive levar a se questionar as postura e opiniões meio que dogmatizadas de que ‘fulano é acadêmico’, portanto a sua opinião é aceitável somente até certo ponto. Ou que ’sicrano não tem estofo intelectual’ e portanto tem suas limitações.
Limitações temos todas, variadas.
Não acho que essa seja uma tarefa fácil. Um encontro para discutir discursos pode parecer difícil de aturar e desinteressante. Sobretudo quando esses discursos materializam o exercício de poder de controle e de autoridade; de legitimação e de caixas (fechadas).
Ao lado dessa vontade (que não sei se é só minha) várias teses e dissertações foram finalizadas nos últimos meses e outras estão aí no forno para serem apresentadas. Acho uma oportunidade arretada de colocar esse conhecimento, coletivamente fomentado, de forma mais pública.
Acho que o Encontro do dia 25 de novembro no Recife, que pegou carona na ExpoIdea reforçou uma certa vontade de se dialogar sobre alguns dos pontos acima e também a ideia de pensar a Metareciclagem como um MOVIMENTO SOCIAL. E esse é outro assunto legal de se discutir. No micro encontro do Recife foi a primeira vez que vi alguém colocar a necessidade de encarar o Metarec como um movimento social – e quem fez isso fora Meyre e Andrea Saraiva. Pode parecer bobagem o uso do termo, mas ele é carregado de um simbolismo muito forte, com consequencias extensas.
Quais são elas?
No que implicaria por exemplo identificar o Metarec – considerando a experiência acumulada de relacionamento com governos e a política institucional, considerando suas metodologias, seus agentes e seus discursos – com outros fenômenos coletivos emergentes que colocam em prática a disputa pelo controle sobre a produção social?
Faz sentido pensar o Metarec como resultante de disputas (anatagonismo?) relativas à produção, apropriação e destinação de recursos sociais? Como essa noção de commons poderia ser associada a essa interpretação?
Claro, essa é uma provocação e uma interpretação minha. Quais as outras possíveis? Como elas estão hoje, passados os anos Lula?
No meu entendimento a questão aqui é mais interessante do que aparece. Nãos e trata mais de nomear ou não o que seja o Metarec, trata-se talvez da disposição da necessidade (até de sobrevivência) de pensar uma articulação com outras formas de atuação coletiva de maneira que se aprofunde uma certa identidade.
E digo uma certa identidade porque há várias em trânsito, não é mesmo? Elas são excludentes? Elas se cooperam? No que a afirmação e consolidação de uma identidade ‘movimento social’ contribui com as articulações necessárias com o ‘novo’ governo federal? E com os governos estaduais?
São muitas perguntas? São. As pessoas se encontram justamente para responder dúvidas…
São muitas afirmações? São, são meu ponto de vista de como o encontro pode ser guiado, mas que precisa ser melhorado e certamente limitado. Alguém?
Começando…
Ontem (27 de janeiro de 2011) houve uma reunião no IRC do qual participaram para discutir algumas questões práticas (o log, aqui). Para resumir, foram fechados os 8 pontos seguintes, sistematizados pelo Mbrazz e comentados sugeridos pelos demais:
1- definir datas, locais;
2- quais recursos, para traçar plano de orcamento para passagens e hospedagens (inclusive hospedagens solidarias)
3- ocupação do ensol eh uma proposta forte
4- temos 23 pesssoas cadastradas para sugerir palestras, oficinas, etc
5- edor antes ou depois do ensol-jpamidias livres?
6- mandar este papo para a lista metarec
7- ter uma proposta geral definindo quem participa em uma semana
8- levar isso para organizacao do ensol
A próxima reunião está marcada para 02.02.2011 às 19 horas (Brasília). Para batermos o martelo da Proposta Geral a partir das definições de hoje.
A organização e as primeiras ideias do encontro estão sendo colocadas aqui ou aqui.
Tags: Brazil,Pernambuco,Recife,South America
Categories: Política
2 Comments »





