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O escritor uruguaio Eduardo Galeano já afirmou que escreve para os que não podem lê-lo. Os de baixo, os que esperam há séculos na fila da história, os que não sabem ler ou não tem com o quê. Essa intenção está estampada em sua obra mais lida. Veias Abertas da Américas Latina, publicada em mais de 20 países, só no Brasil 48 edições, acabou por incorporar essa cruzada a tal ponto que se confunde com o seu criador – e, embora mais de 30 livros tenham sido escritos desde então, é às Veias que comumente se recorre para julgar, para o bem e para o mal, seu criador.
A mesma intencionalidade parece guiar sua nova obra, sobre a qual se discutirá nessa Fliporto. Espelhos – uma história quase universal materializa uma literatura de testemunho mediado, necessariamente marcada por um caráter documental e pela ficcionalidade – na conceituação de Manuel Galich. “O livro é coerente com aquele primeiro (As Veias Abertas…), de quarenta anos atrás. Mas é formalmente mais denso e mais rico, livro da maturidade de um homem que leu tudo o que pôde, aprendeu com todas as fontes disponíveis e fugiu aos estereótipos, inclusive o da “latinidad”. Eu não saberia localizá-lo; Galeano já ficou grande demais para localizações. Sua importância, para a literatura ibero-americana e mundial é aquela de todo grande escritor: grande”, afirma o escritor Marco Antônio Arantes.
Espelhos – uma história quase universal fornece um panorama da história mundial através de 600 histórias breves, ilustradas com gravuras da exposição “Monstros y seres imaginarios”, da Biblioteca Nacional da Espanha, em 2000. O livro começa na África, cenário da descoberta humana pelo mundo e, por decorrência, terreno do nascimento da injustiça nas relações sociais. Ao longo da obra, Galeano passa por diversas civilizações, em períodos diferentes, mas que estão atadas por fios invisíveis: da Grécia a Roma, do Egito à Mesopotâmia, da Idade Média à Segunda Guerra Mundial e ao Iraque, há uma história oculta das minorias, não escrita, e de certa maneira escondida.
“Trata-se de um livro que cumpre muito bem seu objetivo. E se destina a qualquer leitor, a qualquer um que tenha um mínimo de curiosidade para saber que histórias se escondem atrás da história oficial. Galeano, aliás, é craque nisso. Sabe, como poucos, fazer as perguntas incômodas – e cada vez mais necessárias”, afirma seu tradutor, o escritor Eric Nepomuceno.
Nesse sentido, a obra de Galeano é parteira de uma estética identitária latino-americana totalmente inovadora, pois é toda ela construída em micro-relatos – no formato de contos e crônicas – que procuram dar conta da revitalização da memória coletiva do continente através de testemunhos coletados pelo escritor, bem como os dele próprio, acerca da cultura, política e sociedade latino-americana. “Sua proposta interpretativa da América Latina deseja, sobretudo, instrumentalizar a literatura como solução para a aparente dissolução cultural, através do enfoque de elementos cotidianos, comuns a toda a região”, atesta a socióloga Manuelle de Oliveira. Portanto, seu olhar sobre a cultura latino-americana não possui de forma alguma uma orientação restritiva de cunho nacionalista como se poderia pensar – e se pensou.
Essa literatura de testemunho, aliás, mantém íntimas relações com outras espécies literárias – a narrativa ficcional, a autobiografia e o new jornalism. O que atribui legitimidade a um testemunho? Para Margaret Randall é a utilização de elementos que evidenciam as particularidades de um povo e não as generalizações – construídas pelos grandes gêneros literários como o romance e em particular o romance literário, aos quais foi atribuído um certo valor canonizado e legitimado. Ora, se o principal objetivo da literatura testemunho em geral e de Galeano em particular é dar visibilidade a vozes silenciadas pelos processos históricos-literários de construção e legitimar determinadas representações culturais desautorizadas, ou banidas, está aí um bom mote para se começar a discutir esse seu novo livro.
Mas a obra de Galeano costuma ser mais criticada em relação a sua atualidade ou a ser excessivamente atrelada à Teoria da Dependência. Tais críticas parecem perder força quando contrapostas a um outro argumento, que soa irrefutável: sua obra é necessária e não somente para a geração que conviveu com as ditaduras mais recentes na América Latina: “Ele traçou uma linha muito coerente da qual nunca se afastou. Eu prefiro e preciso que ele continue nessa linha, assim como preciso de certas referências para pensar o mundo”, atesta outro escritor, o olindense Fernando Portela.
Aliás, é curioso como Galeano consegue tanta repercussão publicando em editoras pequenas ou médias – o que parece indicar essa justa necessidade por se conhecer e portanto por se escrever uma história que está ausente da produção dos grandes conglomerados da indústria do livro.
Por essa razão Galeano e sua obra são necessários para novas gerações, que aliás o lêem cada vez mais. Se não são exatamente as mesmas condições sociais de 30 ou 40 anos atrás, as razões atuais para sua literatura ser procurada – e inquerida – estão nas condições atuais em que é produzida. “O texto de Galeno não é datado, nem datável. Ele não se limita a falar da luta de classes, mas, de modo muito mais abrangente, e com sabedoria, humor e estilo, sobre a circunstância do homem. Cruza de filósofo, sociólogo, poeta e vertiginoso prosador. São referenciais que sempre terão acolhida em qualquer “consciência média”, se isto há, de qualquer geração”, afirma Marco Antônio Arantes.
Mais há aí uma generalização em “novas gerações”. Tanto as novas quanto as mais velhas formam um estrato em que há todo tipo de gente, lugar para tudo. De modo que o interesse pela obra de Galeano não se restringe, por certo, ao diagnóstico acima. O próprio Galeano diz “Andá a saber cuántos mundos hay dentro del mundo, y cuántos tiempos dentro del tiempo.”
Comodismos e incômodos – A posição declaradamente política do autor de “De Pernas pro Ar” tem o seu quê de incômodo, num tempo em que a afirmação de uma posição político-ideológico parece um anacronismo. Num tempo em que o politicamente correto parece ser auto-proclamar-se a-político. O que, por seu turno, é a moldura de um certo comodismo que se traveste por vezes de uma certa adaptabilidade e mimetismo.
O escritor e tradutor Eric Nepomuceno, novamente dá o diagnóstico desse debate. Segundo ele, as críticas à posição política de Galeano vêm justamente de setores reacionários da sociedade. “Manter uma posição coerente, em defesa dos mesmos princípios, passou a ser, sim, algo incômodo – mas só para quem é de esquerda. Os da direita se esbaldam. Mas não por isso creio que Galeano seja incômodo. Ele é, e bastante, claro. Mas sempre foi. Nesse mundo de egoísmos e miudezas, ser coerente é sempre um incômodo. Perguntar sempre incomoda”, avisa Nepomuceno, para em seguida completar: “o ser humano é ideológico. Aliás, nada mais ideológico – e reacionário – do que se declarar apolítico…”.
“Espelhos – uma história quase universal” se pretende uma história dos esquecidos pela história universal. Assim, as intenções de seu autor não se filiam somente às que guiam Veias abertas da América Latina. Estão em sintonia também em relação à imagem criada pelo filósofo francês Jacques Ranciére, para quem a comunidade política começa com a afirmação da existência da parcela dos sem-parcela, com a afirmação do litígio, do desentendimento em torno da contagem das partes da comunidade.
Esse tema, como um campo de batalha, parece não ter fim e não envelhecer. Galeano já apontou o elitismo, o racismo, o machismo e o militarismo como os fatores que “impedem que a América reconheça no espelho seu rosto múltiplo e luminoso”. E é certo que outros fatores passaram a obliterar esse reconhecimento – entre eles os próprios latinoamericanos, cuja responsabilidade não pode ser desconsiderada ao longo da história. É certo que a idéia do capitalismo como uma força autoritária, anti-democrática e violenta que perpassa o texto de Galeano deixa passar formas mais amenas, prazerosas e sedutoras de dominação.
Mas mesmo as limitações na identificação das ameaças à vida apontam em Galeano a necessidade da não aceitação, da afirmação do dissenso e do desentendimento, para assim fazer da política algo com o qual contar e sobre a qual agir. A derrocada dos modelos neoliberais de desenvolvimento e as amplas possibilidades de recuperação que a própria ordem mundial demonstrou, nos meses que se seguiram à recente crise financeira com epicentro nos Estados Unidos da América, atestam essa clara mensagem de Galeano: há algo de podre numa ordem mundial que se pretende inevitável e inelutável. Mas que se mostra cada vez mais questionável em todas as suas dobras.
Se Galeano tem fôlego para chegar ao início desse século como um dos mais importantes autores vivos da literatura continental e mundial, isso se deve em grande parte à tradição na qual se inscreve e às fontes da qual ele se serve – que incluem Alejos Carpentier, que nasceu junto com o século XX e, diz-se, deu início ao realismo fantástico; Juan Rulfo, Juan Carlos Onett, à proximidade com Julio Cortázar e outros.
Mas sua posição privilegiada também se deve a sua capacidade de apontar o quinhão político que a literatura pode abraçar e de identificar os modos pelos quais a vida vem sendo colonizada. Nesse sentido é tão bom que o autor de “Espelhos – uma história quase universal” seja mais e mais lido, quanto é interessante que ele também seja contradito e criticado. Pois é dessa crítica que pode se fortalecer e amadurecer e se adaptar os argumentos contra os simulacros com os quais os homens se contentam ou são levados a se contentar. Salve então os anteriores, atuais e os futuros leitores de Eduardo Galeano, pela sorte de, num mundo corroído pelo negativo, poderem ter confiança na potência da vida e assim questionar a morte, o apetite mortífero dos homens, a excomunhão e suas âncoras particulares entre o justo e o injusto, a guerra, a tirania.
Categories: Estética, Investigações paralelas
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