Walkman – 30 anos depois
Luiz Carlos Pinto | 21 de julho de 2009 0:07Fazer o que? 2009 é um ano de muitas efemérides. E não é que o Sony Walkman está fazendo 30 aninhos?
O equipamento não foi o primeiro a permitir se escutar música em movimento. Desde a década de 1950 já haviam receptores de rádio suficientemente pequenos para permitir isso. O que o Sony Walkman permitiu foi bem além da mera experiência de música descolada de um ambiente estável, o que já teria impacto muito grande – até o advento das tecnologias que permitiam o usufruto da música de forma totalmente individualizada, a experiência musical era necessariamente coletiva, a não ser é claro que se desse em uma situação de isolamento total.
O que o Walkman permitiu foi uma das primeiras experiências de edição de listas de música. Pela primeira vez era possível juntar pedaços de álbuns diferentes em um mesmo cassete ao gosto do usuário. Essa mudança parece muito evidente e sem maiores consequencias, mas ela implicava no fato de que com um aparelho “3 em 1″ qualquer sujeito podia se descolar também do padrão de experiência musical ditada pela indústria.
Na prática, a forma mais comum de fazer isso era gravar no cassete as faixas dos long player de acordo com o gosto e a intenção de quem pretendiam ouvir ou dar de presente aquele cassete. Quantos casais se deram de presentes cassetes novos com listas de músicas como declaração de amor? Quantos enamorados elaboraram listas carinhosas? Quantas listas de cassete passaram anos para serem encontradas e ouvidas na longa distância que separa o fundo daquela estante e o acaso do encontro? Quantos cassetes arquitetados não serviram como cartão de visitas: oi, eu sou este sujeito, que ouve essas coisas e tem um três em um…
Na verdade, o cassete e essa forma descolada e deslocada de apreciar música que veio com o Walk Man, não foram pevistos pela indústria, que teve que se adaptar – a indústria da música também chegou a vender álbuns no formato de cassete; lembro que o único cassete nesse formato que comprei foi o álbum “Tudo ao mesmo tempo agora”, dos Titãs.
E por causa desse uso imprevisto, também o Walk Man foi considerado uma tecnologia que permitia desrespeitar os inalienáveis e eternos direitos autorais – o mesmo velho argumento, os administradores dos bens autorais repetem há muito tempo. E, da mesma forma, um argumento que impede ou que pretende impedir virtuosas criações e usos como os que eu citei acima…
Mas o fato é que a experiência da música depois do walkman nunca mais foi a mesma por causa desses dois deslocamentos que eu citei. Bom algumas pessoas escreveram posts muito bons com dados mais precisos em termos de datas do que eu tenho.
Para citar alguns, vale a pena a leitura do post de Miguel Caetano sobre o assunto. O Mondo Pop também traz um bom post com bons comentários dos leitores.
Agora, interessante mesmo é o que fez a BBC sobre o assunto: entregou um Walk Man a Scott Campbell, um garoto de 13 anos, e pediu para que ele usasse durante alguns dias e o avaliasse. Esse é o resmo do que Campbell escreveu para a BBC:
* Quando o utilizava e andava na rua ou entrava em lojas, havia sempre olhares estranhos, uma mistura de surpresa e curiosidade que me deixavam um pouco embaraçado
* Demorei três dias a perceber que as cassetes tinham outra face. Mas não foi o único erro ingénuo que cometi: pensei erradamente que o interruptor Metal/Normal era uma espécie de equalizador especial mas mais tarde descobri que era apenas um interruptor para escolher o tipo de banda da cassete
* Consegui criar um modo aleatório simplesmente carregando no botão de rebobinar e libertando-o aleatoriamente – eficaz, apesar de um pouco trabalhoso
* Em reprodução, é claramente evidente que o som reproduzido é bem diferente de um leitor MP3, principalmente devido ao ruído de fundo e ao barulho de funcionamento do próprio Walkman.
Categories: Tecnologia & Sociedade
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